sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Prozac


Cheio de dor e de decepção, começou a sentir-se mal. Suando frio enquanto que deitado na cama cheia de lençóis. A vontade de gritar tornou-se enorme, como se tivesse a alma fermentada de agonia. Não se deixava imóvel, não achava posição que lhe satisfizesse. Em posição fetal, de costas, de bruço. Sentia as famosas borboletas no estômago, mas era um pouco diferente, havia um zumbido que vinha de dentro, subia e descia como um enxame de insetos. Movimentava-se dentro dele. Respirou o ar gelado e o exalou como fumaça, cada vez mais ofegante. Tinha consciência do mundo lá fora, embora tudo tivesse a textura de plástico. Na boca, o gosto de alumínio circundava feito cobra em pedra quente. A porta do quarto se abriu; sentiu raiva, odiava que adentrassem o seu quarto, batendo ou não, pois se batessem, não atenderia, mas entraram sem bater. Olhou esperando, quase podendo ver sua mãe, seria ela, mãe, mãe, mãe... Amor de mãe... O que viu, no entanto, era maravilhoso, talvez assustador, mas tinha sua maravilha como tudo o que é fantástico e desconhecido. Viu-se, ao menos achou que sim, pois o ser não tinha rosto, era como um manequim, de plástico como o mundo que ele vivia nos momentos de depressão. Ficou ali parado de frente a cama, fitando-o com os olhos que lhe faltavam. Movia-se como fotografia, movia a cabeça, frente num instante, esquerda no outro, não tinha orelhas, cima, direita, como fotografia. Observou cada canto do quarto e o fitou novamente. Agora ele tinha certeza, não eram borboletas no estômago, eram mosquitos, começou a suar mosquitos. O primeiro saiu pela fronte, brotou, brotou e escorreu pelo rosto. Escorreu como se estivesse preso em seiva e depois se livrou e voou. O ser se moveu como fotos novamente e se aproximou arqueando-se e mantendo as pernas eretas. Mais moscas começaram a sair de seus poros e a cabeça começou a doer desgraçadamente. O zumbido alternava-se fulminante entre alto e baixo, alto e baixo. As moscas começavam a encher o quarto circundando o ser de plástico que se movia como que curioso e sempre como uma sequência fotográfica. Olhou suas mãos ao senti-las coçar e viu sua carne secando e tornando-se pó, os ossos expostos. O ser esboçava tentar falar, o plástico se desprendendo, querendo abrir uma espécie de boca. Das mãos a secura se espalhava e subia por todo o braço, a carne se tornando pó e as moscas deixando todo o quarto negro. Uma boca escura se abriu no ser de plástico e as moscas foram como que atraídas para dentro dele, como se houvesse um banquete de carniça as chamando. Tudo aquilo o deixou zonzo e sua vista se turvou, seus olhos caíram quando toda carne se foi, rolaram pelo chão do quarto, porém, continuava a ver. Dois pontos de vista diferentes. Em um via o ser criando forma, pêlos, carne de verdade e no outro, o outro globo ocular rolou para debaixo da cama e ele só via escuridão e baratas. O ser, agora vivo, semelhante a um ser humano, se abaixou e pegou os olhos que viam, no lugar de seus olhos haviam grandes buracos negros, lambeu o olho, o espremeu e dividiu em dois, colocou-os nos buracos vazios, tornaram-se um só. O outro olho foi pisoteado e aquele lado morreu. Sentiu-se firme e viu os ossos por de sobre a cama, contraiu o estômago e vomitou escuro as moscas que havia dentro de si, junto com toda a carniça. Embrulhou tudo naqueles lençóis molhados e pôs fogo. Matou aquela agonia.

autor: Marcus Gonzalles

Um comentário:

Me Morte disse...

Caramba Marcus!
Nem nos meus piores porres tive essa sensação louca do teu conto. Caralho!
Muito bom!