domingo, 6 de abril de 2008

Atestado de óbito



"Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro.

Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você".


(Friedrich Nietzche)




E disseram-me que um dia
numa nuvem de luz
viria a calmaria,

Assentar-se nos morros
de onde o mel em ondas,
como se mar fosse, brotaria.

Me disseram também
perante juízo
que o universo era todo
intrínseco desejo
de amor reunido

E que sonhos
são lentes de aumento
do destino.

Ah, que disseram inverdades
e eu, louca, acreditei:

Que a vida é bela,
que dezembros são flores
e que dores não ficam
como marcas do açoite
e da insensatez.

E que amanhã será melhor
Pois que na tempestade
singram mares,
os pássaros com suas dores,
para alcançarem a paz no sul

Mas a árvore
do meu caminho
já perdeu as folhas
e rogou a morte às suas raízes.

A partir de hoje,
ganhaste, sina
rendo aos teus caprichos
o meu antigo olhar azul

Não me terás mais como palhaça
no espetáculo que assistes

Fartem-se os urubus!




(Jessiely Soares)

3 comentários:

Me Morte disse...

Uma estréia com peso de ouro! Lindo! Mil vezes lindo! Esse tema morte é tão rico.
Jessiely, seja bem vinda, vou adorar ler tuas coisas.Beijos

Poeta Vagabundo disse...

esse texto é de uma beleza incrível!

Ana Kaya disse...

Meu deus do céu Je, que coisa linda. Não sei qual dos dois textos recentes teus que eu vi que mais gostei. Aquele do over ou deste que está demais da conta.
Mil vezes lindo mesmo, milhões de vezes lindo.
Je, vc é inacreditável.
Bem vinda mesmo, isso sim é que é coisa boa. Todos vão adorar ler seus textos.
Beijos coisa mais linda e cheiros mil