domingo, 29 de junho de 2008

O INVERNO


O profundo cinza do céu invernal cobria a cidade naquela tarde fria. O vento fazia redemoinhos com as folhas caídas das árvores que pareciam encolher-se diante do vento gelado.
A rua estava quase deserta. Todos estavam aproveitando o feriado prolongado para ficarem debaixo dos cobertores e descansar da semana de trabalho.
Já era quase noite, mas a escuridão havia chegado mais cedo devido ao céu fechado e carregado.
Ela caminhava sozinha pela calçada vazia. Havia acordado antes, devido á escuridão do céu. Estava protegida dos mortais raios solares. Seus longos cabelos negros voavam soltos e brilhantes, os belos olhos azuis suavemente toldados pelo vermelho vivo e brilhante. Fome.
Caminhava decidida a encontrar comida logo e poder voltar para seu esconderijo, seu covil, no porão de uma casa abandonada, que diziam ser mal assombrada. Providencial para que não fosse descoberta nos períodos de sono profundo durante o dia. Ninguém tinha coragem de entrar na casa abandonada. Aliás, as pessoas tinham medo até de passar naquela pequena viela antiga de casas quase destruídas, cobertas de hera e pela poeira do tempo.

Henrique havia brigado com a esposa, por uma bobagem qualquer, e havia saído para dar uma volta pelos arredores com o cachorro, ao menos o cão não falava e ele podia pensar a respeito de tudo com calma. Não sabia o que fazer. Há tempos seu relacionamento com a mulher estava ruim e piorava cada vez mais. Ele se entristecia com isso. O amor dos dois havia sido imenso desde a primeira vez que se encontraram. Mas agora a esposa achara um novo emprego e viajava demais, deixando-o sozinho por longos períodos. E, quando voltava, reclamava de tudo que ele fizera durante sua ausência. Que a casa estava uma bagunça, que o cachorro havia quebrado suas plantas preferidas, que isso, que aquilo. Nunca um carinho ou uma palavra de amor, nunca dizia que havia ficado com saudades e estas coisas que quem ama fala e espera ouvir do ser amado. Seu coração estava quebrado pela dor e pela certeza de que o fim de seu casamento estava mais próximo do que ele havia imaginado. Lágrimas escorreram de seus olhos, gelando a pele do rosto de barba por fazer. Desde que perdera o emprego sua esposa o tratava como a um fardo pesado de se carregar. Ele bem que tentou ajudar cozinhando, limpando a casa, lavando as roupas e cuidando do cachorro, mas nada para ela estava bom, nada era suficiente. Com certeza, o amor havia acabado.

Angélica cruzou o parque deserto.
_Diabos, acho que não vou achar nada por aqui, com este frio ninguém vai sair á rua, pensou ela.
Um latido chamou-lhe a atenção. Ao menos um cachorro. Claro, preferia sangue de humanos mas, com a fome que estava, era melhor que ir embora sem nada.
Esgueirou-se para trás de uma árvore para esperar por sua vítima. Uma suave luz avermelhada espalhou-se pelo gramado.

Henrique soltou o cachorro para que pudesse correr livremente pelo parque vazio e sentou-se no primeiro banco á sua frente. Seus pensamentos voaram para os problemas que estava enfrentando, seu coração amargurado doía no peito.
Zeus pulava e corria pelo gramado latindo de pura alegria, como se chamando seu dono a correr com ele e esperando que Henrique jogasse a bolinha para ir buscar.
Henrique procurou a bola em seu bolso e jogou-a longe. Zeus saiu correndo atrás no mesmo instante latindo e espalhando grama e terra para todos os lados.
Angélica aguardava atrás da árvore, sentia o calor e o cheiro do sangue do cachorro chegando perto de onde estava escondida, aguçando seus sentidos. Suas presas brilhavam na noite escura, que agora caíra de vez sobre a cidade.

Mergulhado em seus pensamentos, Henrique ouviu o ganido de Zeus vindo do outro lado da praça. Um lamento agudo e longo, que logo silenciou.
Assustado, levantou-se e correu na direção do som. Nunca havia estado daquele lado do parque. Era bem mais arborizado e escuro.
A escuridão era tão grande que ele não viu o corpo sem vida, tropeçando e caindo com tudo no chão duro e batendo a cabeça em uma pedra. A dor e a tontura não o deixaram ver bem em que havia tropeçado. Quando seus olhos acostumaram-se á escuridão, de sua garganta saiu um grito lamentoso:
_ Zeus, quem fez isso com você garoto?
O cachorro jazia na grama coberta de sangue, mas sua garganta dilacerada mostrava que todo o resto do sangue havia sido drenado, completamente drenado. Os pequenos olhinhos estavam abertos mas já sem o brilho da vida.
O que teria acontecido?
Henrique sentou-se no chão e abraçou o cachorro, companheiro tão querido de todas as horas. Chorou copiosamente. Quem poderia ter feito isso com uma criatura tão gentil e dócil? E como ele não havia notado nada? Agora sim, tinha outro grande problema nas mãos. Apesar de não gostar muito de cachorros, sua esposa estava acostumada com o lindo labrador cor de mel. O que iria dizer a ela? Como iria viver sem ele, seu único amigo?
_ Oh Deus, agora estou sozinho de verdade. Como vou voltar para casa e dizer isso a Helena? Como vou viver sem você Zeus?
As grossas lágrimas caiam de seus olhos enquanto continuava sentado com o cão no colo.
Nem percebeu que alguém o observava de cima da árvore. Angélica ainda limpava o rosto do sangue do cachorro quando viu Henrique aproximar-se e resolveu esconder-se. Isso sim era uma grata surpresa, o cão havia sido apenas o aperitivo. O jantar acabava de chegar. Os olhos azuis brilharam outra vez, intensamente vermelhos.

Henrique quase morreu de susto quando a vampira pulou da árvore e pousou placidamente á seu lado.
_Quem é você? Você viu quem fiz isso ao meu cachorro?
_ Eu sou Angélica. Sou uma vampira. Eu matei seu cachorro e agora vou matar você também.
Com as presas de marfim despontando dos lábios rubros, Angélica pegou Henrique pelo pescoço e levantou-o do chão num piscar de olhos. Ele não teve como reagir á tamanha e tão brutal força. Zeus caiu de seus braços enquanto tentava lutar por sua vida.
Mas as mãos que o seguravam pareciam garras de aço que lhe tiravam o fôlego deixando-o fraco, um boneco nas mãos daquele monstro.
Angélica virou-o de frente para ela e quando seus olhos olharam dentro dos olhos dele, Henrique finalmente rendeu-se, hipnotizado e apavorado demais para esboçar qualquer reação.
As presas de marfim afundaram-se na pele branca, despedaçando e sugando o líquido vital.
Ao cair no solo úmido e gelado, Henrique ainda conseguiu arrastar-se até onde estava o corpo rígido de Zeus e, segurando a patinha gelada, morreu em seguida junto ao único amigo que jamais tivera.



By Ana Kaya, the vampire
19, Maio,2006

3 comentários:

Ana Kaya disse...

Obrigada Me por ter postado e colocado a foto, vc é dez.
Não sei se gostou do texto, mas ao menos não furei meu dia, odeio furar as coisas, sou doida mas sou responsável.
Super beijos

Emerson Sarmento disse...

-

Que conto gostoso de ler hein??
gostei por demaiss!
um xero arretado.

Me Morte disse...

se gostei? demais linda, vc é uma das que nem me abalo, sei que o texto vai superar tudo que ja li, então venho até aqui com calma...
te amo lambisgóia,rs