domingo, 10 de maio de 2009

Traição Virtual




Traição Virtual
(por Lucia Czer)
Nando pedala pela rodovia em direção à faculdade, despreocupado, fones no ouvido com rock dos anos 60/70, mochila nas costas com o notebook, presente de Adelaide. Conheceu-a quando estudava Letras. A professora miúda, loira, doce e atraente, conquistara-o com seus olhos verdes meigos e atentos. Cada olhar dela em sua direção, fazia-o inquietar-se e sonhava em viver com ela, discutir poesia e literatura, falar de lugares e viagens.
Crescera como todo moleque negro e pobre do Nordeste. Passara por todas as dificuldades que um menino criado sem pai tem e Deus provera que uma tia o ajudasse a chegar à universidade. Fora lá que conhecera Adelaide. A professora o atraíra de imediato e a desejara desde o primeiro olhar trocado entre eles.
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Adelaide passava dos quarenta, mas ainda apresentava uma jovialidade incomum, originada pelo bom trato que a sua situação financeira oportunizava com os proventos do trabalho e da herança que o falecido marido deixara. Trabalhava ainda para não sentir-se ociosa. Dentre todas as turmas, aquela era a sua preferida pelo nível de receptividade que suas aulas obtinham. Sobressaía-se aquele jovem alto e desengonçado, dono de uma enorme bagagem cultural e interessado em poesia e literatura. Às vezes, Adelaide percebia-se discorrendo sobre a matéria como se ele fosse o único da sala. No início foram olhares, sorrisos, mãos tocando-se como sem querer, depois, saíram juntos e ela se apaixonou como uma adolescente.
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Nando acordou do torpor sentindo-se molhado por um líquido viscoso e quente. Quis levantar-se, mas não conseguiu apoiar-se ao chão. Tateou atrás dos óculos sem, contudo, encontrá-los. Deu-se conta de que estava em meio à escuridão, às margens do rio que ladeava a rodovia. Cedeu à sonolência e desacordou outra vez.
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Já no quarto, Nando percebeu a presença do doutor Márcio e de Adelaide ao seu lado. O médico passava as últimas instruções para Adelaide que ouvia atentamente, com o receituário e um vidro de remédio nas mãos. Despediu-se do médico e o acompanhou até a porta, voltando logo para junto de Nando. Puxou-lhe as cobertas, cobrindo-lhe suavemente os braços enfaixados. Afagou-lhe os cabelos e beijou-o no rosto de leve. Diminuiu a claridade da lâmpada para que não o incomodasse. Despiu o robe de cetim e estendeu-se com delicadeza ao lado de Nando.
Suspirou e somente o teto pode vislumbrar-lhe o sorriso melífluo de Mona Lisa aflorando-lhe os lábios: “Andra_gatérrima” esperaria em vão por seu “Júlio” no MSN para vê-lo masturbar-se diante do monitor...
Muitas noites de tranqüilidade viriam para Adelaide...

2 comentários:

Me Morte disse...

mais nova colaboradora com um conto pra lá de moderno, muito bom...gostei.

Lethéia disse...

mto legal..parabéns bjs