domingo, 5 de julho de 2009

Eutanásia - Flá Perez

Ladie sempre vinha chamar-me de madrugada para observá-la dar à luz seus filhotes.
Foram três ninhadas, ao longo dos onze anos que viveu comigo.
Uma perfeição: oito tetas para oito boquinhas fortes.
Cada uma pegava uma mamiquinha dela ao final de um parto simples e rápido.
Era engraçado como, ao final da gestação, aparecia no meio da noite,
bafejando meu rosto até me acordar.
Hálito quente, esbaforida,
a calma companheira de sempre nessa hora era toda preocupação e pressa.

Não entendia o porquê da necessidade da minha presença.
Eu era completamente inútil em todo o processo.
Levantava correndo, Ladie ia na frente até o local que havia preparado por instinto
e fazia tudo sozinha.
Eu ficava lá, olhando maravilhada.

Depois de um tempo percebi que Ladie chamava-me mais por amizade,
apoio moral, quem sabe por não entender direito o que estava acontecendo.
Até a hora em que despontava o primeiro serzinho de pelos molhados.
Então ela parecia que sempre soubera de tudo.

Talvez seja porque da primeira vez, quando o primeiro filhote nasceu,
ela ficara olhando, orelhas em pé, o bichinho mexer-se, sem fazer nada.
Peguei o cãozinho, mostrei-o à mãe de primeira viagem, falei-lhe...
Então Ladie, como saindo de um encantamento, começou a lamber as narinas do bichinho
até desobstruir as vias aéreas e ouvirmos seu chorinhore.
Depois retirou restos de líquido amniótico, placenta...
faziatudo certinho daí por diante.

Cheguei a ter três gerações com cara de Ladie dando à luz na minha sala de jantar
(seu cantinho era sempre o mesmo e suas filhas a imitavam).
Seus descendentes povoaram a cidade onde morava.

Mas aos dez anos de idade começou a mancar da pata dianteira.
Não, não só a pata, a perna inteira mancava.
Seu andar parecia o de um homem com muletas.
Fomos ao veterinário e lá se constatou o de sempre: câncer.
Todas as nossas cadelas morriam de câncer na velhice, parecia uma praga.
Contudo eu já me acostumara a essas vicissitudes. Em sua maioria,
eram inoperáveis os tumores das “cãs” (como as chamava-mos carinhosamente) .

Dito e feito: o câncer da perna havia penetrado o pulmão de Ladie e só restava sacrificá-la. Acontece que não fazíamos esse crime de misericórdia
até que se tornasse insustentável a situação.
Achávamos que nossos bichos de estimação deviam aproveitar sua vida até o fim,
o que era, em teoria, fácil, pois não sabiam que iam morrer.
A notícia da morte certa não os afetava em nada.
Foi assim que Helga, a pastora alemã da minha mãe,
ficara viva até os tumores rasgarem suas mamas.
Aí sim pedíamos a injeção letal: diante do inexorável sangrando a olhos vistos.

Os veterinários diziam que elas não sentiam dor, mas eu não acreditava.
Se nos humanos doía tanto a ponto de encherem-se de morfina, porque não nos cães?
Foi assim que comprei seringas, agulhas e um forte remédio injetável pra dor
- um antiinflamatório- tudo com receita e aval do veterinário.

Duas vezes por semana aplicava nela, e quando isso acontecia,
Ladie parava de mancar tanto e chegava até a correr e brincar.

Até que aconteceu. Eu estava dormindo -eram mais de quatro da madrugada-
quando senti o bafo quente em meu rosto, a mesma sensação que me acordava
quando Ladie ia parir. Chamava por mim novamente.

Acordei, e ela não estava lá. Algo dentro de mim obrigou-me a levantar mesmo assim
e correr até a sala. Lá no cantinho de antigamente, Ladie jazia, olhos fechados,
respiração entrecortada, numa poça de sangue.
Estava desacordada, mas era patente que ainda assim sentia muita dor.

Na família ocorria por vezes nascer um médium, mas até então essas coisas
nunca haviam me acontecido.
A mediunidade, dizem, pula uma geração ou outra e minha mãe “sentia” coisas.
Achei que estava livre dessa sina, mas minha avó paterna,
com quem assustadoramente me pareço, além de “sentir”, “via” coisas bem piores.
Afinal eu podia ter um pouco de mediunidade residual...

Tive então a certeza que Ladie fora me chamar para ajudá-la uma última vez.
Se a força mental era dela ou minha, não me importou na hora tanto quanto me importa
agora que sei mais coisas...

Naquela época pensei rápido, rápido demais até: fui até o quarto de minha filha.
Ela dormia, não ia ver o que eu estava para fazer.
Peguei a seringa das injeções contra dor, coloquei agulha, puxei o embolo até o fim,
enchendo a seringa de ar. Abri as pernas dianteiras de Ladie, mirei no coração,
ou onde sabia que ele estaria, e apliquei todo o ar de uma vez só no coraçãozinho dela.
A sensação foi horrível: a ponta da agulha penetrando rápida, o enorme suspiro que deu
antes da morte. E expirou. Tudo muito veloz e, pensei, indolor. Estava morta.

Chorei de pena e remorso. Consolei-me pensando que Ladie havia me chamado
exatamente para isso: terminar seu sofrimento.

Acordei meu marido, pedi para enterrá-la logo, antes que nossa filha acordasse,
mas não contei como morrera. Deitei na cama e não dormi.

Meu espanto foi enorme ao amanhecer, quando minha filha, que não tinha nem cinco anos, levantou-se da cama e disse:

— Mamãe, a Ladie me contou que você a machucou. É verdade?

3 comentários:

Ruy disse...

Caramba, Flá. Essa história me arrepiou todo e arrancou uma lágrima. Muito bem narrada.
Beijão

Blá Blá disse...

Obrigada Ruy! Tentando aqui virar boa contista, rs
beijos

Duda Falcão disse...

Fas poucos dias que conheço o teu blog, pra ser mais preciso desde que participei do Concurso Escritores de Terror. Gosto muito do que você escreve aqui, por isso linkei o banner do teu blog lá no Museu do Terror.
Um abraço!