domingo, 2 de agosto de 2009

Do tempo





Hoje eu estava olhando o álbum de fotografias. Sabe, leitor, quando há rostos inequecíveis que você já havia enterrado no passado e eles ressurgem em alguma foto? Como eu pude deixá-los para trás; mas, se não deixasse, como eu poderia ter seguido em frente.

Ah, leitor, você não conheceu Hamir, o meu protetor. Ele tinha a sabedoria simples que só a vida simbiótica com a natureza proporciona; sabia quando ia chover só pelo vento, conhecia a índole das pessoas só pelo sorriso. Hamir adorava cenouras e fazia pouco caso das maçãs; sempre me carregava até em casa quando passeávamos ao ar livre. Certa época ele foi rebelde, mas jamais perdeu o brilho ou a doçura. Ah, leitor, ele, quando o conheci, era um árabe velho, serviu-me até quando precisou partir. Hoje eu achei um retrato nosso, não há nada na foto além de um nome e minhas lembranças.

O tempo passou, afinal ele está sempre a passar, no entanto alguns não passam com ele. O tempo não pára, nem espera. Que ironia é constatar que o tempo é a única certeza eterna nesse mundo. Só havia o tempo e as pedras, depois só o tempo, as pedras se consumiram em pó.

Até as sensações se vão com o tempo. Eu tinha uma vizinha que se deliciava com o bolo de creme da minha mãe, até o cheiro enchia de água a boca dela. Então a mãe dela aprendeu a fazer o tal do bolo, dois meses depois ela passava mal sóde houvir falar dele, dizia que estava enjoada de tanto comer.

O tempo é uma espécie de deus, não concorda, leitor? Repare:o tempo tudo sabe, está em todo lugar, sempre existiu, tudo pode, é a vontade do destino. Senão do destino, de Murphy. Cheguei a conclusão que o Tempo inventou até o amor. Qual o propósito? Acho que o tempo é um Deus sádico. Nós somos fantoches fadados às travessuras desse Menino-deus. Mas, sim, só o tempo pode trazer às chuvas, ou levá-las embora. Ele é quem fez férteis algumas terras e desertas outras.

A questão em si não é o porquê temos vida, porquê a ganhamos. A ciência já mostrou o que é a vida. O que nos instiga é por que temos consciência. Por que sabemos que estamos vivos, que morremos, que procriamos porque vamos morrer, por que somos racionais, seres pensantes, críticos,personalíssimos. Hahaha, leiror, não é engraçado a ironia? Não entendeu, leitor? Só criamos consciência com o Tempo; mas não está nesse detalhe a totalidade daquela, mas que é uma criação de uma consciência social.

Pois é, leitor, essa conclusão me lembra certa vez que eu quis pegar uma varinha de bambu a mais e a professora me repreendeu porque assim não sobraria para as outras crianças. Mas não é isso que eu quis dizer, não dessa consciência, não da consciência ética, leitor. Foi da consciência de ser a qual me referi noutra hora, na verdade nem na de ser, mas na de sermos. E como ser ou sermos é cruel, não? A consciência de que esta um dia acabará, ou não, sei lá, mas essa incerteza é a mais cruel de todas, e é isso que mata a humanidade dia a dia: as guerras, os estresses, as depressões, as fomes, tudo.

Voltando ao assunto das fotos, é cruel sabê-las quando aquele rosto já se desfez em osso e nem consegue saber que sentimos saudades, revivemos as lembranças, amamos. Amor... devo ser uma das cronistas mais românticas que já se houve, afinal, nem creio numa vida sem amor. Pudera, se mesmo Schopenhauer amava, quem sou eu para desacreditar o Amor? Não acredita que Schopenhauer amava, leitor? Que descrente! Se não amava por que viveria tanto? Por que se preocuparia em propagar seu canto para a humanidade? Ele amava o próximo, a seu jeito, mas amava. E eu? É mais fácil listar o que não amo, mas de nada interessa o que eu não amo, não para mim, pelo menos. Sabe, leitor, ame de se entregar, não ame pela metade porque você apenas vive pela metade. Perca, sofra, isso também faz bem a alma.

Eu já perdi tantas vezes que nem sei mais contar, e nem posso. O que perdi não é número para virar estatística. E não é porque perdi que deixei de amar. E nem deixei de viver porque dedico meu respirar para outrem. Alguns dizem que altruísmo é não viver para si, eu acho o contrário, viver só para mim seria tão egoísta que me privaria da própria vida. Mas efim, esse é um assunto para uma próxima conversa. Desculpe-me pelas divagações, leitor, mas é assim o meu raciocínio, a coerência é subtendida.

Um comentário:

Me Morte disse...

Uma bela crônica Mali! Me recordou algo que aconteceu comigo há muito tempo. Eu tinha um amor de infância inesquecível, mas não tinha nenhuma foto.Um dia, anos depois, eu tentei lembrar seu rosto e não consegui. Senti tanto remorso, me penitenciei, chorei...Implorei para sonhar com ele e lembrar do rosto. Pois não é que sonhei? Nunca mais esqueci do rosto. Por isso as fotos são importantes, são pura memória, a nossa memória...
Parabéns pelo texto.