segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Aquilo

(pintura de Ana Andrés - Mujer III)





Que sentimento é esse que faz uma mulher abandonar marido, filho e uma casa luxuosa para viver num porão sujo e coberto de mofo, com uma pessoa insana, consumida pelo ciúme a paixão lasciva?
Eram duas horas da tarde. Havia cheiro de sexo pelo cômodo, uma panela de caldo de galinha no fogão e duas maçãs na fruteira sobre a mesa.
-Ana...Você está arrependida não é?
-Não.
-Quer me convencer de que não sente saudades do luxo, das jóias, das atenções do seu marido?
-Eu sinto falta de meu filho...
-Podemos buscá-lo.
-Não. Está melhor lá.
-Eu amo você.
-Eu também te amo.
-Sempre vai amar?
-Sempre.
-Não minta. Em breve vai acordar e fugir daqui.
-Acha que para mim é um sonho?
-Não é?
-Nunca sonhei com um porão fedido, tampouco com restos de frutas que doam na feira, com caldo de galinha quando o estômago clama por um bom arroz e feijão...
-Eu não disse...Reclama.
-Eu sonhei com um homem que me amasse acima de todas as coisas, que seu cheiro provocasse em mim essa febre que não cessa, que seu toque me levasse ao céu em um segundo, que me completasse, que comesse comigo um pedaço de fruta podre e me beijasse depois com sabor de morangos silvestres, que eu amasse a ponto de não ver seus defeitos e se insano fosse, para mim um ser perfeitamente apaixonado, alucinadamente amoroso, ciumento para o mundo, cuidando do que é seu para mim, e nas vezes que perdesse o controle e me batesse por fantasias loucas de um transtornado que imagina o ser amado em traição, eu sentisse apenas amor, carinho, dedicação, como uma amada cuidando de seu parceiro no leito, pois ciumes também é doença como qualquer constipação...
-Você é louca...
-Somos os dois...
-Até quando?
-Não sei...Quanto tempo durou seu amor anterior?
-Não me lembro.
-Dois meses?
-Até o dia que pensei tê-la visto com outro e a esfaqueei...
-Com requintes de crueldade...
-Sim...Cortei os dedos, os olhos, o clitóris, os bicos dos seios...Tem medo que aconteça com você?
-Não. Eu o amo. Mas quero que me prometa uma coisa...
-Diga...
-Se acontecer...Tire o coração primeiro.
-Por que o coração?
-Por que o simples fato de saber que vou morrer e ficar longe de você fará com que doa bem mais que todas as facadas que eu leve.
-E que faço eu depois que estiver morta?
-Que fez da outra vez?
-Fugi...Mas foi diferente. Ela nunca me amou. Era uma simples prisioneira.
-Eu sei, você me contou...A roubou numa cidade vizinha.
-Sim.
-Então que quer fazer depois que eu morrer?
-Transar...
-Ora, transe então...
-Mas você estando morta não vai poder fazer aquilo...
-É mesmo...Nossa, criou-se um problema agora.
-Eu não sei mais transar se não fizer aquilo...
-Você gosta?
-ADORO!
-Então nunca me mate...
-Não mato. Mas você tem que me prometer algo...
-Diga.
-Nunca vai morrer...Eu não saberia viver sem aquilo.
-Morrer de morte morrida? De doença?
-Sim.
-Mas como posso prometer uma coisa dessas?
-Não sei porra! PROMETA!
-E se eu fico doente e pego uma pneumonia...
-Não morra! PROMETA!
-Eu...
-Prometa ou TE MATO!
-E vai ficar sem aquilo?
-NÃO!!!!!
-Ok...Prometo nunca mais falar de morte. Se não falamos não atraimos ok?
-OK
-Está tudo bem agora?
-Não...
-Não? O que mais quer?
-Aquilo...hehe....




4 comentários:

edinhomonteschio disse...

Nossa, que forte. Muito bem escrito. Pergunta óbivia: o que seria "aquilo"? hehe

Me Morte disse...

hehehe...é uma das artimanhas usadas nesse conto, imaginar o que seja "aquilo"...valeu!

Ge Dias disse...

caramba, ficamos perguntando "o que é "aquilo"? O legal é que cada um imagina o que quiser.

Drisph disse...

"Se não podem me ler; que eu me leia; que conheça os sobressaltos que interpõe esta ponte, e se ela não existir, que eu seja o engenheiro sagaz; determinado a cumprir com o meu objetivo, seja lá, onde estiver as ferramentas que preciso ainda encontrar para beijar os pés de Clarice Lispector; limpando o chão pelo qual passou Machado de Assis; lendo e aprendendo com o tão polêmico Nietzsche... Ah, Senhor, protetor dos novos e loucos autores, que esta chuva que refrescou a luta árdua de tantos molhe o meu telhado a ponto de encontrar a humildade necessária que não me fará algoz de minhas próprias ambições..."
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