quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A SOMBRA DO VAMPIRO

Aproveito a penumbra da noite para vagar pelas ruas. Meus passos são incertos, minha procura está fadada ao fracasso. Através dos séculos tenho tentado encontrar uma cura para meu mal, mas ele é muito mais que uma doença, é uma maldição. A sede incessante faz arder as entranhas instigando-me a caçada. Os incautos, que perambulam pela noite, são como uma droga.
Ah, o que não daria pelo doce beijo da morte! Mas a insensível dama de negro me evita, ela conhece minha danação. Outra vez o desejo incontrolável de sorver o precioso líquido está me enlouquecendo. Posso sentir os odores pelo ar. Cada um tem sua própria fragrância. Nenhum humano emana o mesmo aroma. Sei distingui-los individualmente. Posso sentir cada variação por menor que seja. Jamais me engano quanto à vítima que deve ser imolada para aplacar minha sede.
Silenciosamente sobrevôo as artérias da cidade. Embora nunca adormeça, ela diminui seu ritmo ao anoitecer. Melhor assim. Tudo ocorre em poucos minutos. O desgraçado não chega a saber o que o vitimou. Sou benevolente com aqueles que me sustentam. Com os resquícios do precioso líquido gotejando por entre meus lábios, cerro os olhos e me refugio nas sombras da noite. Menos um humano no mundo, mais uma alma a ser contabilizada em minha consciência. Até quando tudo irá continuar...
Outra noite de agonia. Nem mesmo a tempestade pode refrescar a sensação de ardor que queima minha alma. As labaredas do inferno acompanham meu vagar. Muitos me consideram um parasita, outros invejam minha sina imortal. A verdade é muito mais trágica do que os superficiais humanos podem conceber. Minha alma padece uma condenação infinita.
Enquanto a humanidade vive seus percalços e mergulha numa infinidade de ilusões sem valorizar o melhor que lhe é ofertado. Sigo minha sina de maldito. O brilho incandescente das ígneas labaredas infernais consome o fulgor de minha existência. Já não sou mais capaz de recordar o momento em que se deu minha queda, mas ainda trago vivo, em mim, o motivo.
O doce aroma, que me prende a este vagar sem fim, penetrou minhas narinas, pela primeira vez, há muito tempo. A missão redentora que me trouxe a este plano inferior fragmentou-se diante da suavidade daquele odor inocente. Jamais havia sentido um perfume tão inebriante. Meus sentidos se aguçaram e não fui capaz de deter minhas ações. Antes que compreendesse a extensão de minha falta, o sabor adocicado do precioso líquido irrompia em minhas entranhas.
A pequena vítima imolada não teve a menor chance. Seu olhar confiante me fitou antes que minha embriaguez a conspurcasse. O desespero jogou-me num turbilhão de acusações e remorso. O que eu havia feito? Seria digno de portar o selo da redenção? O abismo do inferno se abriu sob meu corpo tragando-me com sua força devastadora. O anjo se fora e o monstro tomou seu lugar. As lágrimas concorrem com os pingos da chuva que cai. Depois de tanto tempo nem mesmo sei se são lágrimas.
A noite reina absoluta. A tempestade ainda dominará a região por muitas horas. A sede queima meu âmago. Como um ser insano, recuso-me a caçar; não esta noite. Que a sede resseque minha alma, mas esta noite, não! Ninguém mais poderia suportar a agonia que me domina. O apelo do sangue é tão violento que sinto todo peso do mundo.
As dores que tocam os seres humanos desabam sobre minhas costas. O sangue que deveria me saciar, verte de meu corpo. Agonia em proporção além das possibilidades de qualquer ser vivo, mas eu já não vivo, sou apenas uma sombra em meio à escuridão.
Uma sombra! Um espectro despojado de sua condição original! Aceito estas e muitas outras recriminações, mas não sou um parasita! Alimento-me da seiva que corre nas veias dos humanos, mas não os mato, a não ser quando isso se faz extremamente necessário.
Das vítimas que imolei, lamento e assumo as primeiras. Ainda não dominava a força imensurável que me animava. Com o passar dos anos fui aprendendo a controlar o ímpeto que me guiava ao encontro de minhas vítimas. Isto me tornou muito mais letal. Consciente de minha maldita condição, perambulei por todos os cantos deste abençoado mundo. Testemunhei atitudes tão vis que me enojaram. Atrocidades perpetradas por humanos contra humanos. Isto me levou a indagar: será que eu era, realmente, um monstro?
Cheguei a me julgar livre do peso que tinha em meus ombros. Muito cedo descobri o quão enganado eu estava. Os humanos têm uma prerrogativa que não se coaduna com minha natureza. A eles foi concedido o poder de decidirem seu futuro. Uma bênção tão inestimável que qualquer um, de minha espécie, teria abandonado sua condição sem hesitar.
Mas os humanos não souberam valorizá-la. Atiraram sua mais preciosa jóia nos charcos imundos do erro e da obstinação. Enfureci-me quando tomei ciência do quão mesquinho eram, os humanos. Uma espécie destinada a reinar sobre todos. Mas que sucumbiu ante o brilho fátuo de uma ilusão. Trocaram seu livre arbítrio por grilhões que já não podem mais romper.
A descoberta do malogro, que abarcou a espécie humana, não serviu para atenuar minha condenação. Ainda sou um ser maldito. Outros tempos vieram e sempre o pior se mostrava ainda longe de ter se manifestado em toda sua intensidade. Testemunhei tantas afrontas contra a natureza da Criação do homem que a pouca misericórdia, que ardia em mim, morreu.
Um interminável período de violência foi iniciado, então. Despi-me de minha aura redentora e trajei o luto da morte. Onde quer que eu estivesse, a morte volitava em redor. Minhas presas rasgaram tantas carnes que passei a sentir nojo de sangue. Novamente a consciência solapou minha fúria. Em um momento de total abstração do certo e do errado, fui abatido. Não por forças justiceiras ou vingadoras. Não por uma força a qual não pudesse fazer frente com minha virulenta sede.
Uma força que ainda vivia latente em meu âmago. Uma força que eu havia decidido soterra sob os corpos de minhas vítimas. De repente, em um dos muitos ataques que efetuava, um lampejo vivo me deteve. A alma foi traspassada por uma dor sem igual.
Não sei se foram as lágrimas ou o sorriso, só sei que a fonte de minha segunda perdição manifestou-se na forma mais sutil. Minha alma reverberou os sons mantidos aprisionados por tanto tempo. Meu ser vibrou na intensidade da força que eu havia abandonado. Meus olhos vazaram toda angústia que consumia meu ser. Diante da imponderabilidade do fato, não tinha como impedir a derrota.
O foco da vigília se modifica. A apreensão toma o lugar da angústia. Um inimigo de respeito está nas proximidades. Sinto sua presença ainda invisível. Em breve estaremos frente a frente. As energias que ele emana são de natureza nefanda. O instinto de sobrevivência grita em meu peito. Meu estado de alerta atinge seu mais elevado grau. Estou pronto.
A sombra das trevas vem chegando mansamente. Quem a observa ilude-se com sua aparente serenidade. Somente aqueles que já se defrontaram com seu atuar podem antecipar-lhe os movimentos. O perigo está aqui. Num átimo ele se materializa a minha frente. Seu cheiro nauseabundo poderia deixar tonto um ser comum, mas não a mim.
Nossos olhares se miram em desafio. Sinto as forças que orientam seus desejos. Elas tentam atingir-me sorrateiramente. Um sorriso de indiferença revela-lhe que não sou uma presa fácil. Se ele quiser me vencer, terá que lutar muito. Seus músculos se retesam. A sensação de absoluto controle da situação se desvanece como fumaça. Sei que ele me conhece.
Como se fossemos dois hábeis bailarinos, passamos a nos medir em um cadente circular. Olhos fixos, não abrimos nossas guardas. Mesmo sua capacidade de alterar seu estado material, hora sendo sólido, hora sendo sombra, não chega a me surpreender. Um urro furioso escapa-lhe das entranhas. Meu adversário entendeu que não sou apenas um peregrino sem defesas.
Seu desejo de abater-me é muito mais intenso do que sua precaução. Sem aviso algum, ele rompe o círculo. Seu movimento foi tão célere quanto o fulgir de um relâmpago, mas não tão rápido para me atingir. Seu corpo desaba sobre o chão. Não sinto animosidade alguma por esse infeliz. Minha postura reflete o sentido da preservação. Não desejo bailar com a morte, ainda não.
Ele se ergue mais irado do que faminto. Agora não sou mais um petisco a ser saboreado, mas um rival a ser derrotado. Sei que ele é forte, mas estou em meu ambiente. Conheço cada molécula que volita por este meio. Sinto cada vibrar a minha volta. Ele não desiste. Volta a investir contra mim. Novamente desvio meu corpo fazendo-o desabar outra vez. Seu rancor é imensurável.
A dança bélica se arrasta por longos minutos. Esperava que ele desistisse ao perceber que apenas me esquivava. Sua determinação me fascina. Somos seres das trevas, mas ainda assim tão diversos quanto os elementos básicos. Sinto que ele começa a se cansar. O arfar de seu peito deixa claro que ele nunca enfrentou um adversário como eu.
Apesar de minha recusa em atacá-lo, sei que não haverá outra maneira de por fim ao combate. Eu terei que enfrentá-lo. Assim que ele se afasta para tomar impulso, escolho uma posição favorável e aguardo. Este será seu último movimento.
O brilho atônito reflete toda sua perplexidade. Um ser como ele jamais imaginaria que pudesse encontrar um fim tão besta. Minhas presas cravam-se em sua jugular. O líquido viscoso escorre com liberdade. O dele não é vermelho, nem quente ou saboroso. Ele não é uma vítima que servisse para satisfazer minha sede de sangue. O ataque foi apenas para aniquilá-lo.
Ainda sinto a sede ardendo em minhas entranhas, mas não tenho ânimo para uma caçada. O sabor ácido tira-me o apetite. Sem mais esperar, assumo minha forma alternativa e lanço-me em um furtivo vôo. Agora já não poderia mais me saciar esta noite.

Um comentário:

* Renan disse...

Simplesmente incrível. Brilhante quem o escreveu.