sábado, 17 de novembro de 2007

Noturno


Um sorvete no final da noite, como num ritual. Senta-se no primeiro banco do balcão e espera, não é preciso pedir. Sirvo-lhe e ofereço minha atenção por alguns instantes, no dia de falar serve-lhe, quando não, retiro-me sem nada dizer.

A maquiagem sempre borrada dessa hora, não lhe diminui a delicadeza dos traços. Houve ocasião, pela minha atenção, de saber o motivo da falta de pressa, quando todos se preocupam em correr para suas esposas, antes que o dia lhes denuncie. Há um alguém lá no porão, foi o que disse numa noite em que o sorvete medicinal quase não causava mais efeito. Um desabafo ou um anúncio, não soube muito bem. O porão é um lar, mas não o seu lar, apesar de morar só. A presença lhe tira a paz e as noites, essa é a razão de sua freqüência constante.

A noite ensina sem petrificar, sensibilizo-me sim, mas sem interferências, mesmo tendo muita curiosidade sobre o motivo que leva uma garota como essa a suportar todos os tipos de idiotas noturnos. Uma presença... Agrada-lhe o meu silêncio atencioso, por isso mostrou-me o braço arrepiado por estar tocando neste assunto naquela noite. Claro que eu quis perguntar o motivo de não se mudar, mas sempre preferem o meu silêncio, os que ficam depois da casa fechada, só com o piano, além de que penso compreender, de certa forma.

Certas experiências mostram a alguns o que outros não perceberiam nem que lhe dessem com bastão na cabeça. Ela percebe, não me disse qual a sua ligação, mas deve haver, mesmo sendo um dilema que dilacera o seu coração, cala-se e sempre se calam por uma boa razão.

Tantos que por aqui já passaram e, por um motivo ou por outro deixaram de vir. Sinto que ela será um desses, mas temo que essa ausência possa advir do desespero que noto em seu olhar. Um dia simplesmente não virá. A presença a terá vencido, a terá em seu território, do qual ela nada sabe e estará condenada mais uma vez pelo medo, a tornar-se uma presença na vida de alguém.

Num ciclo frio e sombrio, outro se torna num freqüentador assíduo das noites de um bar, onde o balconista não faça perguntas. Onde haja um bom pianista, mesmo nunca dando muita atenção, pois seus mistérios, como é muito comum, ocupam todas as suas reduzidas capacidades de compreensão. Incapazes de perceber a fragilidade dos que os buscam, nem sempre com a intenção de atemoriza-los, mas tantas vezes atemorizados que estão.

O piano sempre acalenta o que teme, seja o que for, seja quem for. Um balconista silencioso nunca comenta as desonras da noite anterior. Um balconista que more embaixo do próprio bar, num porão, com uma presença que ele não deseja abandonar só nas noites de inverno. Um excelente motivo para se ter um piano bar, cujo piano pertence à doce Marguerite, que o tem quando quer, além de mim.

Um comentário:

Me Morte disse...

A noite esconde tantos monstros por baixo da maquiagem, tantos desejos reprimidos e sentimentos escondidos. Eu gosto da noite, mesmo com todo o terror e mistério, gosto. Teu texto é sedutor. Gostei.