terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Agressão Prematura


_ Mutações genéticas são definidas como alterações aleatórias no DNA. Seu filho é anencéfalo. Ele não possui calota craniana, o topo da cabeça acima dos olhos.
_ Meu filho não vai sobreviver?
_As estatísticas não são muito favoráveis, geralmente os anencéfalos costumam viver no máximo dois dias. Eu sinto muito.
Silêncio
_ A culpa é minha? Quer dizer pode ser um problema herdado geneticamente.
_ Não, por favor. Não se culpe.
_ Meu marido vai me culpar por isso.
Lágrimas escorrem pelo rosto alvo da jovem gestante. O vestido solto não oculta a barriga redonda e de aspecto saudável
_ O que eu posso fazer, meu deus, eu não estava preparada para uma gravidez quanto mais uma gestação assim.
_ Você não precisa levar a gravidez à diante.
A moça olha espantada.
_Como?
_Você pode pedir autorização judicial para interromper a gestação. Seria muito menos traumático já que é seu primeiro filho.
_ Ele não vai ter consciência ou sentimentos?
_ Não, somente funções orgânicas. Será muito melhor, tanto para ele como para você.

***

_Eu não tive culpa.
_Você vai abortar essa aberração.
O homem, de rosto rústico e mãos calejadas, fala em voz alta deixando cair gotículas de saliva de sua boca aberta num esgar pavoroso.
_ Não fale assim do nosso filho.
_Ele não vai nem saber que está no mundo. Está decidido, você vai tirar e acabou. Eu mal tenho condições de sustentar um filho normal, quanto mais uma criança problemática como essa.
A expressão na face bruta suaviza-se por um momento e o jovem pousa o braço sobre os pequenos ombros da jovem mãe.
_Querida ele nem saberá que somos seus pais...


***
_Como você se sente?
_Bem.
A jovem, de rosto pálido e olhar triste está deitada sobre a cama de hospital. As coxas se contraem num movimento inconsciente.
_Faremos o possível para você se sentir confortável está bem?
_Obrigado.

***


Senta-se na poltrona branca no quarto. O lugar onde sentara vezes incontáveis imaginando o ato de amamentar, a união total com seu filho. O milagre de ser mãe, deixado para trás. Desliza a mão no ventre oco. Segura o pequeno travesseiro. Borboletas azuis a espera de um bebe que não virá.
Escuta um choro vindo de longe.
Exalta-se. Anda no pequeno apartamento.
O choro vem de todos os lados. Choro de uma bebe recém nascido, um choro forte e faminto. Volta ao quarto.
Espanta-se ao ver o menino deitado em sua cama as faces rosadas os braços gorduchos. As lagrimas escorrem em seu rosto. Ela o acolhe em seus braços e o embala.

***

O trabalho foi bastante difícil hoje, ficou preocupado com sua esposa. Anda com passos largos chega em frente ao velho prédio mau pintado e cheio de rachaduras.
Entra no pequeno apartamento e vai até o quarto.
Encontra a esposa cantando uma canção de ninar segurando o pequeno travesseiro recostado no seio dilatado e lactante
_ Veja querido nosso filho voltou. Ele não esta mais doente agora. Veja meu bem como tem fome.


POR JULIANA T.P.

7 comentários:

Ana Kaya disse...

Nossaaaaaaaaa me arrepiei no final.
Muito bom mesmo, boa idéia e bom enredo.
Parabéns e obrigada por abrilhantar nosso blog querido.
Bjs

Ruy disse...

Já vi situação semelhante. Toca demais os sentimentos da gente.

Juliana disse...

gente, obrigado pelos comentários :)
espero continuar agradando

bjus Juliana T. P.

Me Morte disse...

Juliana
quer participar do 2° ebook do vale?

Juliana T.P. POE disse...

com certeza Me é uma grande honra para mim :)
me avisa quando que eu preparo alguma coisa boa !

Me Morte disse...

Juliana. 2ª escritora do ebook do vale 2.

beijos

Giselle Sato disse...

Muito bom Juliana, arrepiante. Gostei.