segunda-feira, 24 de março de 2008

A Hospedaria do Diabo - Capítulo 1

Uma novela de Adroaldo Bauer





O silêncio compacto tornou tétrico, feral e lúgubre toda a ala sul, onde era localizada a Hospedaria do Capeta, como os demais presos batizaram a 666, cela isolada, de chegada e trânsito entre as alas que se definiam por níveis de periculosidade na Casa de Detenção.
Os vizinhos da hospedaria estranharam o repentino silêncio. Certo que era já noite alta, mas o preso do cubículo 666 esmurrara paredes e grades desde que chegara ainda no final da tarde da véspera e nada o fizera parar até aquele momento, seguramente umas três da madrugada, conforme a posição da lua vista detrás das grades.
Ou dormira ou desmaiara.
Os demais ainda insones estalaram olhos e aguçaram ouvidos.
Nada.
Talvez estivesse morto.
A carceragem não se surpreenderia.
O passeio da manhã no pátio interno de certo seria tenso para o novato.
A lenda do lugar era que matador de criança ou estuprador de mulher morria cedo ali, muita vez antes de ter sentença em julgamento. E de motivos diversos. Até suicídio aparecia como causa das mortes assim.
Dois dias antes a imprensa dera copiosa cobertura da casinha destruída por incêndio, do cadáver de mulher incinerado junto a dois outros, de crianças.
As primeiras informações, ainda nos noticiários de rádio, reportavam incêndio, descuido da mãe, curto-circuito. As hipóteses ligeiras e comuns sempre sustentadas pela pressa incauta de dar publicidade à tragédia.
As imagens de televisão foram de um bombeiro operando o rescaldo dos escombros, revirando cinzas. E uma boneca de plástico enrolada em um cobertorzinho rosa num carrinho de bebê milagrosamente intacto parecendo coisa plantada ali para animar a cena que as outras imagens tornava banal.
Os diários da véspera mais parcimoniosos todos, menos o escandaloso Berro da Hora, já especulavam hipóteses de crime passional ou latrocínio.

2 comentários:

Me Morte disse...

Onde está sua novela na íntegra? Vc publicou-a em um livro? Ou jornal? Eu tenho curiosidade de ver...
Muito boa a história porque faz a gente querer saber do resto...
Beijos

Adroaldo Bauer disse...

Arrrá!
Dia 24 de abril, o segundo capítulo aqui.
Se for assim tanta a curiosidade - que mata gatinhas também, guria - dá para chegar em meu perfil no Overmundo, no Recanto das Letras ou mesmo no Retorno Imperfeito, ondem já estão 8 capítulos.
Ou.., até que termine, quem sabe uma inserção semanal aqui mesmo.
Daí sou capaz de terminar de vez a história que travou em outubro de 2007, mas já está coçando o miolo de vontade de aparecer mais.