sexta-feira, 13 de junho de 2008

CONVIDADO DO VALE Luiz Filho

O Exército das 32 Barrigudas



- Vem que o bicho tá pegando! – gritava aquele homem a todos que passavam pela calçada – Tem mais de quarenta mulheres aqui dentro. Eu já não agüentava mais andar pelo centro de São Paulo naquela tarde ensolarada e fria. Tempo estranho para um final de primavera. Mas não mais estranho do que aquele homem baixinho e vesgo que anunciava suas quarenta mulheres. Caminhar pelo centro da cidade é um exercício de reflexão quase filosofal, onde as coisas mais absurdas convivem em harmonia, na base do não mexe comigo que não mexo com você. Mas o anão vesgo continuava a gritar – Vem que o bicho ta pegando! Sete Reais e ganha um vinho grátis – ao seu lado duas garotas para chamar a atenção de mais homens que por ali passavam. Se algum dia te mandarem ao inferno, pode ter certeza que ele se chama Cine Globo, e fica na avenida Ipiranga, 955. Minhas pernas cansadas, e minha curiosidade quase infantil, me fizeram parar na frente do anão vesgo.
- Quanto é pra entrar?
- Sete Reais! Mas se você quiser mesmo te faço por seis, e você ganha um vinho grátis.
- Beleza!
O anão vesgo correu até o caixa, e disse que o meu era com desconto.
- E como está ai dentro?
- Uma beleza, mais de quarenta mulheres, todas lindas.
Não sei o que ele pensa sobre beleza física, talvez falasse sobre o caráter e alma das pessoas, porque as duas mulheres que acompanhavam o anão eu tenho a certeza de que saíram do útero de suas mães na base da paulada.
Entrei. Quando você entra num puteiro, ou algo semelhante, a mesma sensação de que “merda que eu to fazendo aqui” vem na cabeça. É uma adrenalina estranha, e sempre vem aquele negócio de que preciso ir embora, como se alguém soprasse no meu ouvido “sai fora”.
Subi três lances de escada e me deparei com um pênis gigante, e depois uma vagina gigante, e bocas gigantes chupando o pênis gigante. Estava dentro do cinema, no meio da sessão de um filme pornô e sem enxergar onde pisava. Podia ser chão, podia ser gozo, podia ser tudo, queria mesmo que fosse o chão da minha casa, ou um sonho bizarro dentro de um filme de David Lynch. A única luz que vi foi a do bar, então lembrei que o anão vesgo disse “vinho grátis” e o cara do guichê me deu um ticket. Cheguei ao balcão. O barman com sua cara tediosa e sebosa encostou perto de mim.
- Vai querer o quê?
- Vinho.
Pegou aquele copinho de plástico, que provavelmente foi lavado e reutilizado umas oitenta vezes, e colocou o vinho de garrafão e doce no copo.
- Só isso? Dá uma chorada ai.
Ele chorou até derramar. O barman seboso foi gente boa. Peguei meu copo e fui procurar um lugar para sentar e curtir os órgãos gigantes na tela. A escuridão daquela sala não permitia que eu enxergasse quase nada, então fui pelo canto e achei uma fileira que estava vazia, sem risco de sentar perto de alguma bicha que quisesse pegar no meu pinto. Sentei e apreciei o vinho, o filme, e aquele monte de cabeças sentadas que se mexiam estranhamente a minha frente. Acendi um cigarro. Minha visão começou a se acostumar com a escuridão daquele lugar. Vi que as cabeças estranhas eram de mulheres, que caminhavam por entre as fileiras de cadeiras. Levantavam, procuravam uma possível vitima e sentavam ao seu lado, ou no colo. Continuei tomando aquele vinho doce que me lembrou meus tempos de adolescente, e meus porres de vinho Natal. Entre um trago no cigarro e um gole no vinho, senti algo se aproximando de mim, uma imagem indefinida, podia ser qualquer coisa naquele mundo esquisito. Aquele rosto gordo se aproximou de mim.
- Oi! Quer companhia?
- Senta ai.
- Posso sentar no seu colo?
- Senta ai do lado.
Aquele rosto gordo se aproximou do meu, mas tão perto, que pude sentir que ela mascava chiclete de merda, ou não escova os dentes há longos anos. Ela segurou na minha coxa, bem próximo ao pênis.
- Ta afim de um programinha?
- To tranqüilo, só vim curtir um show. O cara lá fora disse que tinha show de strip e de sexo.
- Então vamos tomar um drink!
- Não quero.
O rosto gordo se levantou e foi atrás de outra vítima. Mas eu era uma vítima ali. Uma a uma foi sentado ao meu lado com o mesmo papo de sempre, e caiam fora quando percebiam que eu não queria nada. O vinho acabou e minha visão clareou, não, acenderam as luzes e anunciaram que o show ia começar. Pude ver com clareza tudo a minha volta, estava numa fileira alta, e pude analisar quem eram todos aqueles rostos que sentavam ao meu lado. Contei todas. Era um exército de trinta e duas mulheres com barrigas salientes de alcoólatra. Circulavam, sentavam, e levantavam. O DJ Paulinho 80 colocou uma música esquisita, um embalinho meio rap, meio brega. Entrou a primeira garota barriguda no palco e começou a dançar. Um dancinha sem graça. Acendi outro cigarro e percebi que próximo ao palco algo destoava daquele exército de barrigudas. Ela estava vestida toda de branco, e segurava algo igualmente branco em suas mãos. Podia achar que era efeito daquele vinho barato e doce, mas ela parecia uma entidade desencarnada caminhando lentamente em meio aquele ritmo frenético de pessoas, e da dançarina esquisita. Continuei com meu cigarro, observando um a um dentro daquele recinto. A entidade começou a subir em minha direção, segurando aquele troço nas mãos. Chegou, e aquele troço era um cachorro, um poodlezinho branco desencarnado.
- Posso sentar?
- Que merda é essa na sua mão?
- Não fala assim do Roberto.
- Roberto?
- É, meu cachorro se chama Roberto.
Foi então que eu percebi que o poodle era de pelúcia, e ela acariciava aquele monte pano como se fosse um cachorro de verdade, e tinha todo um carinho especial pelo Roberto. Puta que o pariu. Quanto mais vivo, mais estranha fica a vida.
- Quer fazer amor gostoso comigo?
- Não!
- Vamos tomar um drink então!
- Não!
Agora foi minha vez de me levantar, e cair fora daquela mistura de cinema, puteiro e boate. Mijei todo aquele vinho podre, e nem quis mais saber do show de sexo explicíto. Fui e larguei o exército das trinta e duas barrigudas com suas perguntas padrão. Na saída o anão vesgo ainda gritava – Vem que o bicho ta pegando.

Luiz Filho

Um comentário:

Me Morte disse...

Por um momento deu pra visualizar o antro de putas velhas, todas carcomidas pelo tempo e ofício. Um dos muitos bordéis de beira de estrada,rs
Cinema brasileiro meu caro, realidade...teu conto é pura realidade e a luz aí, pura ducha fria.