quinta-feira, 14 de maio de 2009

A DAMA DA MORTE




A tempestade não possui força suficiente para aplacar a sede que arde em minha garganta fazendo-me desabar sob o peso de minha maldição. Olhos injetados de desejo, analiso as possíveis vítimas que transitam desavisadas nas proximidades de meu covil. São tantos ardis e os emaranhados de pensamentos que não consigo decidir-me.
Os segundos parecem intermináveis para aqueles que possuem a eternidade a seu bel prazer. Enquanto tantos se esbarram em um afã sem fim, posso esperar o tempo que for necessário até ter certeza de ser a vítima mais apropriada. Minha única contrariedade e a maldita sede irascível.
De repente percebo passos que se aproximam em uma cadência tão suave que poderia pertencer a um anjo planando sobre a rua mal cheirosa e empilhada de silhuetas que em nada lembram os formosos seres que chegaram a este mundo.
Apuro meus sentidos focalizando a origem dos passos. Um débil e irônico sorriso ganha meu semblante. Meus olhos dardejam o desespero originado pela sede implacável. A graciosa silhueta de uma dócil donzela transita totalmente absorta em seus pensamentos.
A visão de sua jugular e o odor de seu sangue penetram em meus sentidos fazendo-me olvidar tudo o mais. O quadro restringe-se a rua e minha próxima vítima. Toda vez que a escolha é feita, amaldiçôo-me com rancor. Que famigerado e desprezível ser sou!
Os demais elementos são consumidos pela premência de minha sede. Minha razão concentra-se no caminhar tranqüilo enquanto preparo-me para mais uma abordagem triunfal. Não tanto pela beleza peculiar a minha espécie, mas principalmente pela capacidade que possuímos de hipnotizar nossas vítimas.
Os ruídos característicos a agitada rotina da cidade, mesmo considerando o adiantado das horas, não interfere em minha investida. Primeiramente meus lábios se movem imperceptivelmente entoando uma monótona canção. Apenas os ouvidos de minha vítima serão capazes de percebê-la. Ao notar que sua atenção foi conquistada, prossigo em minha caçada, suave como se fosse uma folha de árvore a planar soprada pelo vento, aproximo-se totalmente silencioso. A última fase começa com o olhar envolvente que antecede minha abordagem:

-- Lugar errado para uma moça tão bela estar andando em uma hora tão imprópria.
-- Estou voltando para casa.
-- Não tem outro caminho para seguir?
-- Este é o mais curto.
-- Alguns atalhos podem ser muito perigosos.
-- Não mais do que o outro caminho que poderia ter utilizado.
-- Neste caso, deveria fazer-se acompanhar por um cavalheiro.
-- Que cavalheiro se disporia em acompanhar uma proletária até um local tão suspeito?

A consciência da moça tocou-me de um modo que não estava habituado. Diferente da maioria de sua geração, ela parecia possuir uma maturidade incomum. Novamente a sensação de extrema consternação apossou-se de meu âmago. Uma raridade em pessoa e eu estava preste a por um fim a sua existência.

-- Talvez queria acompanhar-me no restante do percurso.
-- Não deveria confiar em qualquer um que a aborda.
-- Sei que não é perigoso.

O tom de sua voz incomodou-me. Mesmo tendo sob efeito de minha energia hipnótica, ela foi autentica em proferir a afirmação. Será que eu estava fadado a perder-me e sucumbir à estúpida noção de piedade que aflorava de meu íntimo toda vez que realizava uma caçada?

-- Ainda está muito longe?
-- O que?
-- Sua casa.
-- Cerca de meia hora.
-- Tão longe, assim!
-- Nem todos tem condições para morar próximo ao seu local de trabalho.

Detive-nos mirando seus olhos cândidos. A coloração de um azul pastoso era tão suave que definitivamente ela deveria ser filha de algum anjo desviado de suas funções.

-- Por que me olha assim?
-- Admirando seus olhos.
-- Não deveria.
-- Por que não? São tão belos.
-- E inúteis.
-- Como assim?
-- Servem para ornamentar meu rosto, mas são incapazes de mostra-me o caminho por onde devo seguir.
-- Não consegue enxergar?
-- Obrigada pela consideração em não me chamar de cega.
-- Mas é impossível perceber...
-- Mais constrangedor ainda, não acha?
-- Constrangedor?
-- Na maioria das vezes, o galanteador já avançou muito quando se dá conta de meu defeito.
-- Não penso que seja um defeito. É claro que tem o inconveniente de não deixá-la admirar as belezas da vida, mas...
-- Não se desculpe. Posso enxergar com minha visão interior.
-- Isto é preocupante.
-- Por que?
-- Se ela fosse tão boa quanto deixa transparecer, não estaria tão tranqüila a meu lado.
-- Sei que posso confiar em você.
-- Não deveria.
-- Estamos chegando a um entroncamento, podemos parar por um instante? Meus pés estão me matando.

Matando! Próxima de se tornar a vítima de um dos predadores mais letais do mundo e ela se preocupava com as dores que seus pés estavam lhe causando. Sorri mesmo não me sentindo contente com a situação.

-- Está com frio?
-- Não. Caminhar me aquece.
-- Podemos nos refugiar naquela cabana, se desejar.
-- Sabe quem mora lá?
-- É apenas uma cabana abandonada.
-- Não está querendo...

Ela não precisou concluir sua sentença para que eu soubesse exatamente qual era o pensamento que a dominava. Seu temor despertou uma parte adormecida em minha consciência, há muito que o corpo de uma mulher não oferecia atrativo algum para mim.

-- Tudo bem, ficamos por aqui.
-- Por favor, não se ofenda. Disse que confio em você.
-- E eu lhe disse que não deveria.
-- A ausência de visão abriu-me um mundo além das aparências. Posso sentir a energia que se desprende de seu âmago.
-- Desta vez está equivocada.
-- Será que você é tão perigoso, assim?
-- Não faz idéia do quanto sou letal.
-- Só porque é um vampiro?
-- Como...
-- Senti desde quando se manifestou.
-- Por que aceitou minha companhia, então?
-- O que mais poderia fazer? Correr?

A naturalidade com que ela se expressou causou-me outra sensação há muito mortificada em mim. Um autentico, embora débil, sorriso ganhou meus lábios. Antes mesmo que alguém pudesse notá-lo, o fiz morrer sob o peso de minha maldita consciência.

-- Por que esconde seu sorriso?
-- Acredita que um ser como eu tem direito a sorrir?
-- Qualquer um tem. Fica mais afável quando sorri.
-- Eu, afável!
-- Por que o espanto?
-- Um vampiro possui apenas nuances trevosas.
-- Não é verdade! Senti suas energias mais leves quando sorriu.
-- Mas...

O inusitado que permeava o encontro impediu-me de terminar meu pensamento. Desde que me tornara um vampiro, jamais passara por uma situação tão incomum. Quem seria aquela misteriosa jovem?

-- Acho que vou aceitar seu convite.
-- O que? Convite?
-- Sim. O frio está aumentando, creio que seja melhor nos refugiarmos na cabana.
-- Quem é você?
-- Eu o amedronto?
-- Você me surpreende!
-- Você me encanta.
-- Sabe que é uma habilidade inerente a minha espécie.
-- Mesmo com quem não pode ter seu olhar defasado?
-- Não hipnotizamos os olhos, mas penetramos na mente de nossas...
-- Vítimas!
-- Droga!
-- O que foi?
-- Você me confunde!
-- Por que?
-- Você ma faz sentir pior do que estou habituado.
-- Desculpe-me, pensei que estivesse sendo uma companhia agradável.
-- Este é o problema. Como posso... posso...
-- Sacrificar-me?
-- Basta! É melhor que fique sozinha!
-- Não! Por favor, não me deixe só.
-- Não percebe que se permaneço a seu lado sua vida não tem a menor chance de continuar?
-- Não temo a morte.
-- A morte é uma bênção comparada à maldita existência que levo.
-- Sentir-se-ia melhor se morresse?
-- Sei que minha alma está perdida para sempre, mas deixar esta existência nefanda seria como atingir a redenção. Não faz idéia do quanto me incomoda o peso de minha consciência.
-- Mas faz parte de sua natureza.
-- Maldita natureza!
-- Você não tem escolha.
-- Tenho, sim! O momento era aquele. Uma luz brilhou em minha mente mostrando-me como colocar um fim a toda minha danação.
-- Não faça isso! O rogo soou com premência tão dorida que detive meus passos.
-- Não posso continuar esta sina maldita!
-- Eles não são dignos de assumir a tarefa.
-- Quem seria?
-- Podemos ir?

A insistência dela em irmos para a cabana me deixou cismado. Se antes julgava ser uma opção natural, agora começava a duvidar da identidade de minha acompanhante. Seu modo suave e sua tranqüilidade inexorável começavam a demonstrar a existência de um verdadeiro mistério por trás de sua presença naquele local.
O trajeto, curto, foi percorrido em total silêncio. As imprecisões do terreno fez-me envolvê-la em um suave abraço. O perfume fresco de seu corpo penetrou em minhas narinas impedindo-me qualquer outra sensação. Nem mesmo a sensação insuportável da sede, que queimava minha garganta, era capaz de suplantar o inebriante estado que se apoderou de meus sentidos.

-- Espere até que eu verifique se não há nenhum nômade utilizando-a.

A precaução tinha sentido. Era comum que algumas cabanas abandonadas fossem utilizadas por pessoas que vagavam sem rumo. As acomodações nas cidades, ou mesmo em alguns vilarejos, não era acessível a todos. Uma rápida vistoria confirmou que não havia ninguém no interior da construção.

-- Sinto-me melhor aqui dentro.
-- Deseja que acenda a lareira?
-- Não quero incomodar-lhe mais do que já o fiz.
-- Volto logo.

Reunir madeira em condições e quantidade suficiente para que a lareira mantivesse fogo capaz de aquecer minha delicada companheira demorou um pouco mais do que havia mensurado. O frio cortante não me incomodava, mas os efeitos mais grosseiros dificultavam os movimentos mesmo para os de minha espécie. A densa nevasca que se precipitava sobre a região impedia um deslocamento mais livre.
Depois de haver arrumado tudo para que ela não sentisse qualquer desconforto, colocamo-nos diante das labaredas que devoravam as achas. A conversa fluiu descompromissada sem que qualquer um de nós tocasse em algum assunto mais delicado.

-- De onde você veio? Perguntou-me em um tom indiferente.
-- América.
-- Não me parece ser britânico.
-- Latino.
-- Sangue quente!

Um tênue suspiro perdeu-se de meu peito. Ela percebeu o efeito de sua fala e desculpou-se e aconchegou-se mais em meu peito. Instintivamente recuei.

-- Isto o incomoda?
-- Faz tanto tempo que não sinto...
-- Você me deseja?

A pergunta foi tão direta que me deixou sem reação. Como poderia negar que o perfume de seu corpo me inebriava? Como mentir dizendo que o único atrativo que ela tinha era o frescor de seu sangue? Ah, quanta estupidez em um só ser! Sem me dar conta do ocorrido, havia olvidado, por completo, o odor de seu sangue.

-- Não?
-- Não deveria, mas, sim, eu a desejo.
-- Não me quer?
-- Não posso!
-- Por que?
-- Sou um vil maldito! Uma alma desgraçada que nem mesmo deveria estar mais perambulando por este mundo.
-- Mas está.
-- Apenas por que sou covarde demais para enfrentar a solução.
-- Não! Sei que é nobre e valoroso.
-- Talvez já tenha sido, mas desde que... desde que...
-- Você não teve culpa.
-- Isto não diminui o peso que me dobra.
-- Esqueça de tudo, pelo menos por esta noite.
-- Como?

Ao invés de responder-me, ela pousou seus macios e quentes lábios nos meus. Ah, quanta dor reprimida durante tanto tempo! As lágrimas fluíram sem que eu pudesse controlá-las. Como era possível que ainda tivesse algum sentimento humano em meu âmago? O coração acelerou-se e quando retribui ao beijo não foi com a avidez de um predador sedento de sangue, mas a de um homem carente pelo amor de uma mulher.

-- Sim, me ame como sempre teve vontade de amar uma mulher.
-- Isto é muito pior do que lhe sugar o sangue.
-- Por que?
-- Sinto que a estou conspurcando com meu desejo.
-- Não! Eu também quero.
-- Não sabe o que está fazendo.
-- Sei muito mais do que você é capaz de supor.

A última sentença deveria ter despertado meu sentido de sobrevivência, mas o enlevo era tão intenso que nada mais importava. Os lábios se devoravam com sofreguidão e as mãos buscavam as partes que as vestes escondiam. A ânsia não se coadunava ao desejo de desnudar o outro, mas de sentir o calor de seu corpo, de buscar o contato mais íntimo com a pele em efervescência.
Com movimentos ritmados os panos foram sendo suprimidos e nossas carnes se tocavam intimamente. O frescor de seu corpo feminino e a frieza do eu vampiro se chocavam, se mesclavam, se fundiam em uma mistura de fluídos distintos em uma mesma busca frenética: o prazer.
Nossas bocas avançavam por onde antes os panos impediam um acesso mais direto. Nossas mãos prosseguiam a exploração do corpo alheio. Sussurros e gemidos alternavam-se em uma seqüência desordenada sem que nos déssemos conta de quando um expirava mais fortemente enquanto o outro apenas sussurrava, os sentidos rendiam-se a febre da carne.
Delicadamente ajeitei-a sobre o tosco catre existente, admirei-lhe as formas perfeitas, saboreando seu escultural conjunto longilíneo, olhando-o mais detalhadamente, não me recordava de ter notada que ela era tão formosa. As roupas a faziam parecer mais frágil.
Agradecida pela realização de seus desejos, ela retribuiu-me aos carinhos colocando-se a disposição para tudo que fosse proposto. Os limites foram varridos, os conceitos negligenciados e a temperança perdeu-se sob o magma da fornalha que devorava nossas entranhas.
Nossos olhos se cruzavam, quando não estavam buscando outras partes mais atraentes, revelando nossas disposições irrestritas de propiciar o maior prazer ao outro. Não tínhamos posição, local, toque que fosse tido por proibido ou evitado. As sensações que nos embalavam estavam longe da erotização banal de dois amantes, nossas almas vibravam a cada contato que nossos corpos perpetravam, a vivência estava sendo intensa para ambos.
Fundentes em nossos acessos, antegozamos, com frenesi, as carícias que tocávamos. A carne invadida agradecia a investida máscula que a desvirginava tornando-a plena de sua feminilidade. O auge estava para ser consumado quando o fogo queimou minha garganta, a sede manifestou-se mais forte do que jamais a havia sentido.

-- Faça o que tem que ser feito! Ela sussurrou-me resignada.
-- Não!
-- Você precisa!
-- Não com você!
-- Por favor!

Sua voz foi um rogo tão plangente que as lágrimas voltaram a banhar minhas faces. O peito fremiu, a dor o dilacerou rompendo todas suas células. A morte seria menos atroz do que a maldita dor que me consumia.

-- Faça!

As lágrimas ainda vertiam sem controle quando aproximei minha boca de sua jugular. As presas cintilando em meio à escuridão reinante, os beijos ardiam em meus lábios, mas a sede venceu toda resistência que tentava impor a consumação daquele horrendo ato. Quando as presas vararam a carne e o sangue vazou, o ardor tornou-se maior.
Languidamente ela se deixou sugar. A tez ia se tornando pálida qual o brilho argênteo da lua que reinava absoluta no céu. Pela primeira vez não sentia a prazerosa sensação de alívio que o sangue me propiciava. Minha garganta continuava a queimar e, até mesmo, aumentava o incômodo.

-- Não posso permitir que se torne uma aberração!
-- Não serei.
-- Não posso viver sabendo que lhe impingi a morte.
-- Não viverá!

De repente toda debilidade que se percebia em seu corpo desapareceu. Seu corpo tornou-se ereto e mais maravilhoso do que antes. A altivez em seu semblante denotava o quanto ela era superior, seu espectro emanava uma energia sem igual.

-- Quem é você?
-- A resposta para suas atormentadas preces. Nem mesmo os vampiros são tão desgraçados e malditos que não mereçam comiseração. Vim para atender suas súplicas.
-- Seu sangue...
-- É um veneno para os seus. Não se preocupe, a sensação de ardor logo passa.
-- Estou morrendo?
-- Não era o que tanto desejava?
-- Por que você?
-- Não me reconhece mais?
-- Eu a...

Sim, eu a conhecia desde os primórdios dos tempos. A mais bela das donzelas que habitavam os Elíseos. A gélida dama da morte.

-- Em breve estarei conduzindo-o para o campo dos guerreiros.
-- Mas sou um amaldiçoado!
-- E ainda assim possui mais valor do que muitos que se prestam a servir aos credos que o condenam.
-- Por que desejou que a amasse?
-- Para que soubesse que não sou fria muito menos insensível.
-- O que virá depois?
-- Seja paciente e espere que tudo se fará a seu tempo.
-- Sinto frio.

Aquela foi a última sensação que se apoderou de meu corpo. Os olhos cansados cerraram-se para sempre. A existência maldita extinguiu-se e, já sem o pesado corpo material, caminhava ao lado daquela que libertará meu âmago, aquela que conquistará, no último ato de minha existência, meu amor incondicional.

Um comentário:

Me Morte disse...

o romantismo da morte, ninguém fala melhor e nem transporta melhor para a escrita como vc, adorei!