segunda-feira, 18 de maio de 2009

Uma Maria qualquer... (by lucia czer)





James parou o carro na rua escura. Estava a fim de um programa, algo que tirasse o marasmo do que tinha sido aquele dia infame.
Olhou com atenção as prostitutas que andavam sem meta, daqui pra lá, de lá pra cá à espera de cliente. Algumas meninas, magrelas, desnutridas. Nem bunda tinham... Outras, já coroas com ares afetados, fenecidas, meias arrastão costuradas, escondendo o gasto, sapatos de salto alto, velhos, meio tortos. Era deprimente.
Quase desistiu. Mas o tremeluzir da lâmpada fraca no poste iluminou a silhueta esguia, vestida de vermelho. O vestido sugeria uma cigana... “-Será?”.
Despertada a curiosidade, piscou com os faróis do carro. Acudiram outras que ele espantou com um simples gesto da mão. Acendeu um cigarro e esperou. O vulto de mulher foi se aproximando, requebradamente, felinamente. Aí, deu pra ver a cabeleira preta ondulada batendo à cintura. Tinha na boca uma piteira com uma cigarrilha. Sentiu-lhe o perfume almiscarado em meio ao cheiro de fumo.
Usava uma blusa folgada transparente, seios aparecendo, e por cima um colete preto. A saia rodada com babados, vermelha, enfeitada com rendas pretas. Traje incomum. Isso apenas acendeu-lhe mais o instinto caçador.
Ela abaixou-se até por o rosto à altura do vidro, sorriu mostrando os dentes alvíssimos, perfeitos. Tinha um cheiro de ervas, sândalo, algo sedutor e indecifrável, na boca pintada com batom vermelho. Olhos escuríssimos.
Ele mostrou-lhe o assento do carro e ela entrou, ajeitando a saia. James deu partida ao carro e rumaram para um motel de baixa categoria ali por perto. Ofereceu-lhe um baseado que ela recusou com um meneio da cabeça. Sem falar, ela foi logo tirando a roupa, meias, sapatos. Era divina, escultural. Não usava roupas íntimas. Tudo no lugar, seios altos, cintura fina, quadris cheios, coxas roliças.
James foi ficando meio atordoado, mas, excitado, rolou com ela pela cama, beijando, mordiscando, tragando o perfume daquela pele trigueira. Ela ativa, movimentava-se, ora cavalgando ora deixando-se galopar, num gingado perfeito de quadris.
O sexo foi estonteante. James urrou como doido e caiu para o lado, extenuado e satisfeito. Por um instante ela pareceu lânguida, domada, vencida. Sem falar, levantou-se e começou a vestir-se. Ele mirava, contemplativo, a beldade nua, ainda sem fôlego para conseguir falar.
Deu um salto quando ouviu baterem à porta. Escondendo o corpo nu, entreabriu-a e deu de cara com um homem de cavanhaque, usando terno completo e cartola.
O homem ignorou-o. Pos a cabeça para dentro do quarto...
- Senhora...!
James, atônito, ainda foi em direção à carteira, tirando umas notas que tentou por nas mãos delas.
Ela jogou a cabeça pro lado, soltando uma gargalhada que ecoou por muito tempo na cabeça de James. Girou na ponta dos pés num redemoinho de saias vermelhas, sempre gargalhando e foram sumindo no ar, homem e mulher.
No quarto, um cheiro enjoativo de rosas e enxofre. James caiu desacordado e foi assim que os empregados do motel o encontraram no outro dia.
Não demonstraram admiração nem surpresa. Simplesmente benzeram-se e atiraram água benta que já traziam à mão, espargindo-a pelo ambiente.
A criada comentou, crucifixo na mão e a benzer-se:
- Maria Padilha escolheu outro incauto pra ser pai do seu filho meio humano!

4 comentários:

Antonio Celso disse...

Muito bom! Exala a essência lúgubre do blog. Parabéns!

Giselle Sato disse...

Lu, seu conto está perfeito! Bem estruturado, personagens delineados com cuidado, trama bem amarrada, excelente desenvolvimento e muito, muito excitante e misterioso.
Só posso dar os parabéns e dizer que é um prazer ler Lucia Czer.

Angela Nadjaberg Ceschim Oiticica disse...

Gostei da ideia do conto, bem escrito, bem estruturado.

ivam disse...

Interessantíssimo o conto. Final foi surpreendente. Idéias claras e bem conduzidas. Gostei do espaço e dos textos publicados.