sexta-feira, 5 de junho de 2009

Divã - By Flá Perez


Mamãe cortou os pulsos. Eu devia ter uns quatro ou cinco anos, e só o que me lembro é de vê-la chorando muito naquele dia. Depois, o sangue nos seus braços quando veio me dar um beijo de boa noite. Pensando bem, aquele era para ser um beijo de adeus...
Essa época da minha vida foi um tanto conturbada. Minha mãe havia deixado meu pai por causa de um outro homem. E meu pai aparecia lá em casa a toda hora com cara de cachorro. Eu ficava ouvindo os pedidos de reatamento, as promessas de que tudo ia mudar. Via o rosto de minha mãe, pedra, dizendo que não, que não dava mais tempo, que era tarde e amava outro.
O outro que era um homem enorme, moreno, desbocado e de feições rudes, extremo oposto do meu pai, um tipo magro, atlético e loiro. Meu pai era um homem muito bonito. Ninguém entendia o porquê dessa troca. Alguns não entendem até hoje.
Mas eu entendo. Várias vezes ouvi, escondida, mamãe conversando com minha tia, de como papai tinha desde os tempos em que namoravam, outras mulheres, e mamãe, coitadinha, ficava sabendo. Não sei o que ele dizia a ela para que ficasse. Não sei por que ficava.
Uma vez ouvi papai dizer, tentando abraçá-la:
- Antes você era tão carinhosa e me amava tanto!
Ao que ela respondeu :
- E de nada adiantou o meu amor...
O amor de minha mãe foi morrendo devagar e culminou com o abandono.
Mamãe também era linda. De corpo e de rosto. O que mais chamava atenção nela era sua cintura, fininha! Suas pernas grossas, morenas de sol. Mais tarde, quando eu já era mocinha e os homens ainda olhavam para ela nas ruas. Eu os encarava feio, fazendo às vezes de meu pai. Alguns mais sem vergonha vinham falar com ela. Então eu me enfezava de verdade. A história mais famosa da família é a de que um amigo de infância dela, reconhecendo-a na rua, perguntou-me:
- Sua mãe se chama tal e tal ?
E eu respondi:
- Se chama sim, mas ela já tem marido!
Merecendo meu pai ou não o que aconteceu, mamãe um dia lhe disse:
- Amo outro.
Tudo mudou. Papai saiu de casa. Fomos para a casa de minha avó junto com mamãe, que começou a namorar o gigante espalhafatoso.
Parecia um bom sujeito, o gigante. Chamava – se Mauro. Quando ia nos visitar arrumava eletrodomésticos, trocava lâmpadas. Tudo que meu pai nunca havia feito, ele parecia disposto a fazer: Ia com mamãe a todos os lugares, nos levava a passear, trazia presentes.
Acontece que Mauro também era casado e largara mulher e filho para ficar com minha mãe. E um dia, chamou-a de lado e a pediu em casamento. Queria morar com ela. Ouvi tudo atrás da porta. Ela disse não. Era cedo, deviam pensar nos filhos, deixar–nos acostumar com a idéia primeiro. O ouvi esbravejando, insistindo.
Depois disso mais uma vez tudo começou a mudar. Mauro tornou – se um homem ciumento, desconfiado de mamãe, a ponto de perguntar a toda hora onde ela estava indo, reclamar de suas roupas curtas ou decotadas. Uma vez o peguei cheirando as roupas dela às escondidas. Isso meu pai nunca havia feito!
Mamãe não ficava atrás: reclamava quando ele ia visitar o filho, pois tinha ciúmes da ex–mulher e Mauro não queria nem que meu pai chegasse perto dela.
Então minha mãe ficou grávida e teve um aborto, que não sei até hoje se foi espontâneo ou provocado. Lembro–me dela internada durante dois dias no hospital, pois perdera muito sangue. Quando voltou, não parecia triste ou deprimida, apenas muito pálida. E Mauro falou:
- Você não queria um filho meu.
Disse isso e foi embora, para nunca mais. Minha mãe não entendeu, ou entendeu e se arrependeu de algo e foi falar com ele várias vezes. Voltava sempre com olhos inchados de chorar. Minha avó se desesperava e eu via tudo sem poder fazer nada. Ela já não me fazia carinho, ficava com o olhar parado, não queria comer.
Um dia mamãe veio se despedir de mim como sempre fazia, na minha cama. Demorei a adormecer. Fiquei inquieta e não sei por que acendi a luz novamente; no meu travesseiro havia sangue. Mamãe havia se despedido de mim para sempre.
Mas não conseguiu ir até o final de seu intento, pois meu pai, sabendo da ausência do outro, estava novamente tentando voltar. Pulou o muro da casa, forçou a porta, não sei como ele adivinhou que estava sendo necessário.
Encontrou minha mãe na cama, o lençol cheio de sangue.
Vi tudo sem entender direito o que estava se passando, mas sabia que minha mãe sofria, e isso me doía fundo. Só vim a compreender mais tarde, ouvindo discussões entre os dois sobre o assunto. Meu pai enfaixou seus braços, chamou minha avó. Foi uma verdadeira comoção na família.
Mas mamãe não morreu. Ele pediu a ela mais uma chance alguns dias depois. Derrotada, ela anuiu. Ainda ganhei uma irmã depois disso. Papai é cada dia mais apaixonado e nunca mais ouvimos nada sobre suas aventuras.
Um dia Mauro apareceu no portão de casa e chamou por ela. Gritei por meu pai, que saiu de arma em punho e correu com ele de lá.
Ela voltou a ser a mesma: carinhosa, mandona, engraçada, minha linda mãe. Mas bem no fundo dos seus olhos por vezes se pode ver. Parece que alguém pegou sua alma e trocou. Trocaram minha mãe durante a noite enquanto eu dormia.

3 comentários:

Lucia Czer disse...

Muito bem escrito. Perfeito. Um tanto triste. Espero q vc tenha somente criado sobre o tema.... Bj

Blá Blá disse...

misturo ficção e realidade, mesmo quando não é a minha realidade, gosto de preservar o mistério. de qq forma não tenho tanta criatividade pra bolar algo do nada, sou sincera quanto a isso:ou pego da minha vida e modifico ou pego algo que ouvi ou vi acontecer com outra pessoa.Quando o final é muito chato mudo tbm,rsrs.
Valeu pela atenção!

ivam disse...

muito bem escrito. Meio triste.