sábado, 14 de maio de 2011

ENCONTRO FINAL

A alma amedrontada, prisioneira de seu medo, limitada em seu terror, não se expande, não ousa, simplesmente aceita a truculência, o abuso, a consumação de sua derrota.

The soul frightened, prisoner of its fear, limited in its terror, not if expands, not dares, simply accepts the truculence, the abuse, the consummation of its defeat.


Os olhos ainda não querem conceder crédito àquilo que testemunham; o horror é tão intenso que a mente recusa-se a aceitar a inevitável compreensão da realidade; a morte está a sua frente; não a morte serena e natural de alguém que percorreu a estrada que lhe cabia, mas a morte fria e desumana, corporificada em ossos esbranquiçados, luzente em seu traje de ébano, voraz em seu apetite, indiferente em seu atuar.
As mãos, que antes empunhavam o gládio com vigor, tremem aterrorizadas, refletem o pavor que domina o âmago do guerreiro; as falanges de seus dedos se distendem, o tremor adensa a exaustão do embate, não há como fugir ao abraço gélido que se avizinha, o fim nunca esteve tão próximo.
As pernas, que já venceram distâncias imensuráveis sem jamais vacilarem, oscilam sobre pés débeis impossibilitando a fuga. O peso da fadiga abate as energias travando a ação, incompatibilizando o desejo ao poder; não há como reverter a realidade; o barqueiro já estende sua destra descarnada, o Estige salpica suas vestes destroçadas.
A reluzente proteção peitoral não conseguiu deter o avanço da seta vingadora. Uma débil trave fincada onde ele menos acreditava que pudesse ser tocado; o filete rubro decorando a argêntea peça como um rio que verte através de um orifício invisível. A incredulidade o abateu antes mesmo de sua carne sentir o toque da desdita.
Seus joelhos se rendem; o choque com o solo não lhe causa maiores dissabores; a dor que domina sua alma já é suficiente para anular todo estímulo adicional. Seu peito arfa, sua respiração se torna inconstante, seu corpo registra o domínio da virulenta frigidez que se espalha por seu ser. O silêncio engolfa tudo que o cerca, as vistas se fecham ao brilho crepuscular, a escuridão o abraça inexorável.
Num último esforço para deter o avanço da dama fatalista leva sua destra a frente apoiando o gládio no terreno. Luva e espada refletem o brilho prateado de sua verve, mas um brilho ainda maior se destaca contra a frieza do material, o sangue goteja por entre as lacunas existentes na delicada peça que reveste sua mão. Um lampejo de cólera o domina, mas seu âmago é incapaz de expressar sua revolta, a dor é mais forte; os lábios se abrem numa tentativa de blasfemar, mas permitir que o ar penetre em suas entranhas é mais crucial.
A golfada de gases que deveria amenizar seu arfar incrementa ainda mais sua agonia; assim que o ar avança pelas veias, acelera o ritmo da corrente sangüínea conferindo maior velocidade ao sangue que verte de sua ferida. Num acesso incontrolável ele sente que o ar não lhe serve mais como alento, o espasmo gerado pelo respirar o faz dobrar-se ainda mais.
O vento cortante impulsiona o manto fúnebre fazendo-o tocar a destra do atônito guerreiro, o frio que o dominava podia ser tido como tépido ante o contato gélido do tecido mortuário; arrepios constantes assumem toda extensão de seu corpo, o fim está a poucos segundos, a distância entre seu ser e a cadavérica senhora se extingue velozmente, seus lábios sentem o sopro externo da proximidade do ósculo fatal.
Apesar da inevitável consumação de sua tragédia, ele não permite, ou não se sensibiliza, com o advento da passagem, a morte não lhe causa pavor por representar um fim, mas pela continuidade que ele, finalmente, consegue divisar além do manto negro, a vida não se encerra com o beijo mortal.
Seu corpo reage convulsivamente ao beijo recebido, a mente, já destituída de amparos racionais, é tragada por um redemoinho voraz, a sanidade dilui-se, os conceitos tão tenazmente adquiridos ruem ante o imponderável, ele não jaz num campo de batalha, seu corpo está preso ao solo material, mas ele prossegue em sua senda maldita.
Em andrajos escurecidos pelo rubro do sangue, não, não se trata do seu próprio sangue, mas o sangue das incontáveis vítimas que fez tombar em ações desprovidas de honra; aqueles que ele venceu em batalha não estão a sua espera, eles avançaram em suas epopéias, apenas os injustiçados o aguardam, estes querem a vendeta que acalentaram durante tanto tempo. Tribunal? Não, não há tribunal ou agente togado, a vingança será executada incondicional e imediatamente.
Instintivamente ele procura pelo gládio, para sua surpresa a destra apossa-se da arma inseparável; ele não permitirá que sua existência seja suprimida sem luta. Existência? Mas é o beijo que recebeu ainda há pouco? A morte não o havia tocado com seu forcado? Não, ele tinha conseguido ludibriar a nefanda dama; um sorriso de sarcasmo desenhou-se em seu rosto.
A carnificina se restabelece, suas energias afloram fortalecidas, os adversários são muitos, mas ele os aniquila sem piedade. O campo vai sendo coberto pelos corpos despedaçados e pelo sangue que jorra das carnes trespassadas pelo gládio cego de sua fúria insana. O terror o torna insaciável, a morte o fez invencível.
A escuridão intensifica seu poderio tornando impossível vislumbrar qualquer indício de outros adversários, sua mente ainda vaga pela irracionalidade de sua batalha, mas ele é incapaz de raciocinar, onde estão seus inimigos? Será que todos foram derrotados?
Não! A constatação vem da maneira mais dolorosa, sua carne sente o voraz contato de uma arma inimiga, seu sangue verte de seu ventre, seus olhos se embaçam, suas pernas vacilam, seus sentidos estão em colapso, o fim estava mais próximo do que ele esperava.
O longo silêncio o fez duvidar de que tivesse conseguido superar a morte mais uma vez, mas se sucumbiu ao encontro com a medonha senhora, por que se sentia tão vivo? A dor que o golpeava não deveria ter sido suprimida pelo fim? Sua mente não deveria estar inerte, sem questionamentos?
Olhos abertos sem conseguirem enxergar, a escuridão é total. O sentimento de completo abandono o faz erguer-se. Tateia em redor procurando por algum elemento que o auxilie a identificar o ambiente, apenas o vazio pode ser tocado por suas mãos.
Desorientado ele percorre a vastidão em que foi lançado. Onde estão os outros? Não sente a presença de mais ninguém, apenas o frio asfixiante da solidão. Seus passos seguem imprecisos, a necessidade de continuar o impele a frente, mas para onde?
Uma indefinida silhueta se apresenta envolvida pela única fonte de luz que é capaz de vislumbrar. A certeza de que não se encontra em nenhum mundo irreal acelera seus passos, agora ele sabe para onde ir. À medida que aumenta o ritmo de suas passadas percebe que seu objetivo se coloca mais distante. Que absurdo era aquele? Como poderia ficar Ada vez mais distante quando sés passo estavam seguindo em direção ao alvo de sua corrida?
A sensação de derrota o invade. Ele que jamais foi vencido por inimigo algum se sente incapaz de vencer a distância que o separa de seu alvo. A luz bruxuleia como se zombasse de sua incapacidade. Com um urro surdo ele extravasa seu ódio, ele não será vencido por nada, ele não nasceu para ser derrotado.
Mesmo se sentindo fatigado ele prossegue em sua jornada, os passos vão se tornando mais e mais lentos, as pernas não respondem a decisão que domina sua mente. O objetivo poderá ser alcançado? A dúvida o assalta fazendo-o temer pelo insucesso, mas o receio de fracassar o incentiva, ele não desistirá, jamais.
A mente decide prosseguir, mas o corpo sente os limites que o cerceiam. Como fazer a vontade prevalecer sobre sua fragilidade humana? O espaço se mostra infinito; a tentativa se mostra infrutífera, será que ele será derrotado por uma ilusão? Ah, sua mente reage à conclusão inesperada, ele está perseguindo uma ilusão!
Ante a descoberta ele trava seus passos, cerra os olhos em um instintivo gesto de revolta; lança seus braços ao alto despejando todas as blasfêmias que consegue recordar. Maldiz a perversa senhora que o tocou com o beijo mais cruel de todos; a funesta dama de negro não havia lhe dado o beijo da morte, mas sim o ósculo da loucura, ele havia perdido a sanidade e permanecia prisioneiro da insanidade.
Humilhado, castigado, executado, ele podia aceitar qualquer ação resultante do beijo fatal, mas jamais se renderia ao destino que o abatera, ele nunca iria se curvar diante de nada. Passaria sua maldita eternidade nos calabouços da loucura, mas jamais se entregaria à derrota; ele é invencível.
Assim que volta a descerrar os olhos ele se surpreende com a visão que se descortina diante de si: a luminosidade perseguida o envolve completamente, a difusa silhueta o acolhe solidamente. Um castelo, um gigantesco castelo se ocultava sob a luminosa ilusão. O eclodir de milhares de vozes o fez perceber que não estava só.
Um exército! Milhares de guerreiros o fitavam com ansiedade. Ele não atinou de imediato com aquilo que se passava, precisou recuar e contemplar o quadro todo; rodou sobre seu próprio corpo para ter uma visão total do quadro: ele estava posicionado sobre uma paliçada e os guerreiros o fitavam do exterior do castelo.
Mil bandeiras desfraldadas ao vento, cores múltiplas mesclando-se pelo campo, vozes diversas ecoando pelo ar, apenas ele se mantinha calado, sisudo, trajando uma armadura reluzente, mas tão negra quanto a escuridão que o envolveu ainda há pouco.
Sim, ele havia recebido o beijo da morte, ele tinha sucumbido ao forcado da desdita, mas não permitiu que o terror se transformasse em medo. Aterrorizado ele tentou fugir ao destino que aguarda todos que caminham pelo vale terrestre, mas não se deixou dominar pelo medo, sua tentativa de fuga era uma resposta ao desafio que a negra dama lhe fizera, ele não seria derrotado nem mesmo por ela.
A ferocidade que refulgiu em seus olhos espalhou-se sobre os guerreiros, um tremor indistinto percorreu o âmago de todos que se colocavam sob o comando do guerreiro. Um sorriso irônico seguiu o olhar feroz.
Se ele tinha um exército sob seu comando era porque tinha uma batalha a lutar, mas onde estariam os inimigos? Quando a batalha seria iniciada? Agora que se sentia dono de sua razão, ele não sentia urgência em saber os passos futuros. Sua voz retumbou num trovejar ensurdecedor. Todos que ouviram seu som se amedrontaram, os joelhos se dobraram, ele tinha o controle total de todos e de tudo.
No mesmo instante em que sua voz reverberou pelo espaço, ele sentiu o toque furioso do vento a soprar sobre si. A força do vento era tão impetuosa que foi obrigado a cerrar os olhos. O ar, embora ele estivesse engolfado por sua corrente, faltou em seus pulmões, a sensação o deixou confuso. Por que lhe era dado o domínio sobre todos para logo em seguida tudo lhe ser suprimido?
Ao abrir seus olhos pôde contemplar a máxima de sua nova realidade, onde antes reluzia sua impecável armadura tremeluzia um manto rústico e negro. As mãos hábeis que manejaram diversos gládios deram lugar a ossos esbranquiçados, o próprio gládio foi substituído por uma arma menos glamorosa, mas tão eficaz e nefasta quanto, sua destra empunhava um forcado.
O guerreiro que se deixou enfrentar pelo terror sem ceder espaço ara o medo, o guerreiro que recebera o beijo fatal da gélida dama de negro, o guerreiro que nasceu para jamais ser vencido compreendeu sua nova condição: ele não tinha mais que temer a funesta senhora, ele nunca mais se deixaria dominar pelo terror que ela representava, ele havia vencido sua mais decisiva batalha, ele não era mais um guerreiro campeando pelos campos transitórios da Terra, ele se metamorfoseara, deixou de ser apenas um guerreiro para se tornar a própria morte.

2 comentários:

Tsu disse...

oi!
curti o blog e estou seguindo ^^
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DÉIA disse...

Seu blog é muito bom por isso vim até o seu espaço e gostei muito do que li por aqui. Tenho um blog Tb gosto d++ de poemas. E estou te seguindo se VC puder da uma passada La no meu blog. VAI SER UM PRAZER SE PUDER ME SEGUIR...Bejs . Déia.........
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