sábado, 27 de agosto de 2011

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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Eu mesma

A raiva tomava conta de mim, então. Tudo era como uma afronta para meu lado sombrio, enquanto meu lado inocente e sofrido era fraco demais para acordar. Como tudo havia chegado a esse ponto?
Uma escuridão devastadora consumia meu coração, enquanto o resto de esperança morta em mim parecia querer ser sepultado ali. O amor não conseguia salvar-me. Ele não tinha força o suficiente, apesar de ser a única coisa que impedia que eu perdesse-me completamente em minha mente.
Eu estava presa em um quarto sem portas e sem janelas. Meus pensamentos estavam presos, acorrentados. Eu queria fugir de mim mesma, queria abandonar-me, libertar-me...
Eu era obrigada a ver rostos indesejados diariamente. Humanos hipócritas. Eu sentia ódio, e acabava descontando esse ódio em mim mesma, tanto psicologicamente quanto fisicamente. Eu tinha vontade de matar pessoas, desejo de sangue...
E tudo isso, tudo o que eu realmente era, estava preso dentro de mim. Por fora, havia uma máscara da qual eu já havia acostumado-me a usar. Eu era completamente normal, alegre, iluminada e boa, como todos exigiam de mim.
Eu não sabia o que fazer, o que sentir. Talvez tudo acabasse depois de um tempo. Talvez antes do dia mais claro de fato existisse a noite mais densa. Mas como posso ter certeza de que não vou acabar morrendo sozinha, afogada em meus próprios sentimentos?

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Porto Alegre, zero grau


Cai o frio da noite em gelada chuva fina
Sob marquises, dúvida:  dormir ou gelar?
E, se dormir, vai acordar ou morrerá?
Se não dormir, que comerá e beberá?
A morte é o fim, um dia virá, pois sim
Enquanto isso, o que se faz pra evitar
Perde-se pra miséria vidas sem vida!





sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A Preparação







A minha cabeça é meu atestado de óbito. Quando deitava no travesseiro e fechava os olhos sentia toda a pressão do "não sei o que" que comprimia meu cérebro. Um tumor? Uma veia estufada? Não sei...O que sei é que era evidente que um dia explodiria! Com certeza iria arrebentar e eu nem  me daria conta!
Quando estava de pé e me concentrava em algo sentia a tontura. Quando me estressava era como se alguns neurônios se apagassem. Esquecia coisas óbvias, se tinha desligado o fogão, se havia apagado a luz ou tomado os remédios...Todos os dias precisava de algumas pílulas para enfrentar a barra! Pior que, quando esquecia acabava tomando tudo de novo. Muitas vezes me sentia calminho, calminho...Dopado e meio! Provavelmente por ter tomado repedidamente os comprimidos. Ou era o meu normal a certa altura! Fazer o que?
Ontém alguém me tirou do sério! Só recordo que andei algumas vezes sem saber onde ir. Em casa, voltei  até a beira do fogão e me perguntei: "O que vim fazer aqui?". Não conseguia lembrar da dúvida de tê-lo desligado ou não...
Mais tarde fui até uma esquina e indaguei: Quem sou eu? Eu sei que tenho algo importante a fazer, um destino a seguir...Mas qual? O que?
Sempre quiz morrer dormindo. Fechar os olhos e acordar nas imensidão de um plano superiormente melhor que esse! Não gostei desse aqui! De fato, odiei!
Decidi que não me mataria, pois acreditava que não chegaria a esse plano maravilhoso se assim o fizesse. Mas, que eu me lembre é o único motivo que segurou minha mão! Não conseguia passar das ulcerações psicóticas, sempre banais.
E se a porta  abrir? E se ele novamente gritar comigo? Esquecerei do meu motivo? Por quanto tempo? Quantos minutos seriam suficientes para que eu desse cabo dessa porcaria toda? Eu lembraria que a vida é uma merda? Ou esqueceria o motivo dos motivos?
Eu  começava a delirar. Dizem que quando e gente está próximo da morte a cabeça viaja para longe...
Motivo de que? Lá vou eu  pelo esquecimento novamente. Da última vez foram três minutos. Acho que vou cronometrar dessa vez. Vixi! Esqueci! Meu cronômetro foi perdido na última enchente! A Última enchente! Quase me mata! Eu fui arrastado pelas águas. Bati em rochas, galhos de árvores, engoli tanta lama, tanta lama...Como será que escapei? Escapei? A lama existiu realmente? Sei lá...As vezes acho que não.
Toda vez que tento erguer o braço bato em algo sólido. Parece uma tampa de madeira de lei. Toda vez que abro os olhos a luz não entra, parece que estou cego. Eu grito! Grito! Nada.  Eu choro, soluço e só silêncio! Os dias não passam! Os instantes aqui são noites e mais noites...Tudo é breu! 
Preciso de ar, ele me escapa, mas não finda. Parece que ri da minha desgraça! Eu rezo para que acabe e eu morra sufocado, mas nada, nada...Ele parece sempre soprar mais um pouquinho, como se risse da minha desgraça! Desgraçado! Puto! 
Acho que vou dormir um pouquinho. Estou tão cansado! Quem sabe será dessa vez...


Me Morte

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Aquilo

(pintura de Ana Andrés - Mujer III)





Que sentimento é esse que faz uma mulher abandonar marido, filho e uma casa luxuosa para viver num porão sujo e coberto de mofo, com uma pessoa insana, consumida pelo ciúme a paixão lasciva?
Eram duas horas da tarde. Havia cheiro de sexo pelo cômodo, uma panela de caldo de galinha no fogão e duas maçãs na fruteira sobre a mesa.
-Ana...Você está arrependida não é?
-Não.
-Quer me convencer de que não sente saudades do luxo, das jóias, das atenções do seu marido?
-Eu sinto falta de meu filho...
-Podemos buscá-lo.
-Não. Está melhor lá.
-Eu amo você.
-Eu também te amo.
-Sempre vai amar?
-Sempre.
-Não minta. Em breve vai acordar e fugir daqui.
-Acha que para mim é um sonho?
-Não é?
-Nunca sonhei com um porão fedido, tampouco com restos de frutas que doam na feira, com caldo de galinha quando o estômago clama por um bom arroz e feijão...
-Eu não disse...Reclama.
-Eu sonhei com um homem que me amasse acima de todas as coisas, que seu cheiro provocasse em mim essa febre que não cessa, que seu toque me levasse ao céu em um segundo, que me completasse, que comesse comigo um pedaço de fruta podre e me beijasse depois com sabor de morangos silvestres, que eu amasse a ponto de não ver seus defeitos e se insano fosse, para mim um ser perfeitamente apaixonado, alucinadamente amoroso, ciumento para o mundo, cuidando do que é seu para mim, e nas vezes que perdesse o controle e me batesse por fantasias loucas de um transtornado que imagina o ser amado em traição, eu sentisse apenas amor, carinho, dedicação, como uma amada cuidando de seu parceiro no leito, pois ciumes também é doença como qualquer constipação...
-Você é louca...
-Somos os dois...
-Até quando?
-Não sei...Quanto tempo durou seu amor anterior?
-Não me lembro.
-Dois meses?
-Até o dia que pensei tê-la visto com outro e a esfaqueei...
-Com requintes de crueldade...
-Sim...Cortei os dedos, os olhos, o clitóris, os bicos dos seios...Tem medo que aconteça com você?
-Não. Eu o amo. Mas quero que me prometa uma coisa...
-Diga...
-Se acontecer...Tire o coração primeiro.
-Por que o coração?
-Por que o simples fato de saber que vou morrer e ficar longe de você fará com que doa bem mais que todas as facadas que eu leve.
-E que faço eu depois que estiver morta?
-Que fez da outra vez?
-Fugi...Mas foi diferente. Ela nunca me amou. Era uma simples prisioneira.
-Eu sei, você me contou...A roubou numa cidade vizinha.
-Sim.
-Então que quer fazer depois que eu morrer?
-Transar...
-Ora, transe então...
-Mas você estando morta não vai poder fazer aquilo...
-É mesmo...Nossa, criou-se um problema agora.
-Eu não sei mais transar se não fizer aquilo...
-Você gosta?
-ADORO!
-Então nunca me mate...
-Não mato. Mas você tem que me prometer algo...
-Diga.
-Nunca vai morrer...Eu não saberia viver sem aquilo.
-Morrer de morte morrida? De doença?
-Sim.
-Mas como posso prometer uma coisa dessas?
-Não sei porra! PROMETA!
-E se eu fico doente e pego uma pneumonia...
-Não morra! PROMETA!
-Eu...
-Prometa ou TE MATO!
-E vai ficar sem aquilo?
-NÃO!!!!!
-Ok...Prometo nunca mais falar de morte. Se não falamos não atraimos ok?
-OK
-Está tudo bem agora?
-Não...
-Não? O que mais quer?
-Aquilo...hehe....