sexta-feira, 14 de outubro de 2011

DESABAFO

O inferno! Ah, sim, ele existe de fato. Para aqueles que se contentam com a imagem distorcida criada pelos crédulos, afirmo que nem de longe eles delinearam o verdadeiro horror que o compõe. Eu o sei, eu fui atirado em seu ventre pútrido, eu fui engolido por suas entranhas sulfurosas. Por que? Como? As respostas me ferem ainda com maior contundência, o inferno real não é outro senão o âmago de nossas combalidas e erráticas consciências.
Diferentemente dos quadros ilustrativos do reduto abissal, a única companhia presente é a solidão. Como poderia ser diferente? Será que, além dos erros cometidos, também conseguiríamos condenar a outrem à nossa danação? Não, a solidão é inconteste, mas não se deve se alegrar por isso, as vitimas de nossas atrocidades nos visitam espectralmente. Seus fantasmas nos açoitam com crueldade, ou será apenas exercício de uma justiça à qual acreditávamos ser capaz de fugir?
Em sendo um inferno particular, acredito que nem todos sejam adornados com os mesmos adereços. Ainda não alcancei a fronteira do meu, se é que ele a possui, mas meus pés já estão em carne viva, as bolhas estouram e se formam continuamente, minhas pegadas são cobertas pelo sangue que esvai pelas fissuras e rachaduras que infestam a sola de meus pés.
Quanto ao fogo eterno que nos queimaria, bem outra inverdade, ou será que se trata de mais uma mentira deslavada dos crédulos, mas o fogo que existe provém da própria consciência em chamas. O frio externo é tão intenso quanto o ardor interno. O corpo padece ressequido pelo frio e pelo calor, não tem como aliviar a sensação de contínuo tostar.
Martirizado pelas chagas purulentas, minha vista recolheu-se na escuridão. Os sons que chegam aos meus ouvidos são indistintos, não sei identificar sua origem. Tatear pelos cantos é um exercício fustigante; nunca sei onde irei tocar, mas seja qual for a superfície, o resultado é sempre o mesmo: outro ferimento... outra chaga se abrindo...
Chorar? Mesmo que desejasse me seria impossível, o ressecamento de meu corpo não se restringe à sensação de secura corporal, vai muito além. Se pudesse verter lágrimas de remorso ou rancor, poderia atenuar a ardência que me castiga, mas estou exíguo... sem umidade... sem humildade...
Diabos e demônios? Sim, eles são tantos, sempre na mesma proporção de nossas culpas. A dormência dos sentidos não culmina com o sono, sempre que estou para cair na inconsciência eles surgem; espetam-me o corpo com seus tridentes peçonhentos, envenenam-me a mente com as recordações de meus crimes; estou certo de que acabarei enlouquecendo, mas não, eles não me permitiram uma fuga tão banal.
Orar? Para quem? A quem elevarei meus braços mutilados? Minhas mãos sangram tanto quanto meus pés. Os dedos parecem derreter-se, mas a carne nunca se desprende totalmente. O odor putrefato de minha carne me enoja levando-me a contínuos vômitos, mas o que tenho para expelir de meus intestinos? Há muito que não sei mais qual a sensação de se ingerir alimento algum.
Grito! Não em lamento ou injurias, apenas tento extravasar a dor que me consome, mas meu brado se perde sem nem mesmo despertar um oco eco. Ah, como adoraria receber a visita da ebúrnea senhora, mas ela não transita por estas paragens... aqui apenas eu e os fantasmas que pululam minha consciência...
Há tanto tempo aprisionado neste abismo e ainda não consigo olvidar as mazelas cometidas, será que não conhecerei o lenitivo de um julgamento final? Qualquer pena seria preferível a esta condenação alienante. Que minha vida fosse suprimida definitivamente, meu ser aniquilado sem piedade, mas não... não me cabe o hálito da misericórdia... eu devo penar pelo sempre...
Ouço... brados de fúria...
Sinto... as pedras que são atiradas contra mim...
Procuro... uma saída...
Quero minha morte, mas há muito que estou morto... desde que... desde...
Eu sempre acreditei que a morte representava o fim de tudo... eu estava errado...
A escuridão que me abraça impede o descortinar da razão, vago desde o primeiro instante sem sabe a direção que sigo; posso estar errando em círculos e não ter noção, mas posso estar caminhando em direção a abismos ainda mais profundos e não conseguirei deter meus passos... quanto pavor aderido a minha alma...
Ante meu desespero ouço um pranto sentido; tento apurar minha audição, mas não sou capaz de localizar a fonte do lamento. De repente o pranto se eleva alcançando amplitude ensurdecedora, oh, meu... meu... queria poder proferir o nome, mas minha glote se fecha impedindo-me de expressar minha angústia... meus pés sangrentos pisam a fonte do pranto que fere meus ouvidos...
Num lampejo minha visão retorna e o quadro é pior do que a cegueira; o corpo disforme de uma moça... uma quase menina... minha destra segura a lâmina que traspassa seu corpo... minha outra mão toca-lhe a intimidade afrontada... tento libertar-me do quadro, mas não consigo... estou preso a ele... estou... não, não mais, ela retira a lâmina de sua carne e a crava em meu peito... a dor da morte sem que a morte realmente me leve...
Antes do desfalecimento o quadro é substituído por outro ainda mais ignóbil; não é apenas uma, são varias as seviciadas... todas em andrajos embebidos em sangue... todas portando lâminas aguçadas... todas investindo contra mim... sem poder conter os golpes eu me rendo à queda...
Escárnio! Golpes certeiros e escárnio! Mas nem assim meu padecer cessa. Outra vez a cegueira me domina, mas minha mente já gravou as cenas... o pranto e os risos de escárnio vão cessando... o vazio... a solidão... a pressão de minha consciência recrudescendo minha danação...
Sinto o sopro cortante de um bafo nauseabundo empestear o ar. A presença de meus demônios não é novidade, eu posso encará-los sem medo, mas não sem maior sofrimento. Após testemunhar mais uma aberração criada por mim, o verdugo abissal se manifesta com seu tridente punitivo. Nem sei mais como ele consegue me ferir, devo estar com o corpo todo coberto por eczemas e cortes abertos, mas ele sempre encontra um ponto onde cravar seu instrumento.
O que mais terei que suportar? Quando tudo terá fim? Serei um caso perdido? Alguém sem direito a redenção?
O riso escarnecedor de meu verdugo soa como resposta às minhas indagações; sim eu não sou merecedor de um livramento condicional; tenho que viver minha pena sem almejar a piedade de minhas vítimas... mas se meu inferno é pessoal e tudo o mais não passa de fantasmas, como alcançar o amado alheio? Ah, quanta inocência... eu não o alcançarei...
O inferno! Aqui passarei o tempo que me cabe... aqui padecerei os efeitos de minha ignorância... aqui viverei a dor causada a outrem... aqui haverei de colher os frutos de minha seara... aqui... na solidão de minha consciência... aqui... no inferno!

3 comentários:

Paulo Sempre disse...

O INFERNO é o deserto mais longo...

Liritt disse...

Não só o deserto mais longo, mas também o mar mais fundo, onde a agonia da ausência de ar é incessante.

Anônimo disse...

enquanto ha vida ha esperança, você só precisa querer viver, e no fundo no fundo vc sabe o caminho de volta.Fernanda