sábado, 12 de janeiro de 2008

O ABUTRE


O cheiro de urina e carne podre era forte, até mesmo para os da casa que estavam acostumados com o odor habitual do velho. Mas agora estava pior, ela nunca encontraria uma empregada disposta a agüentar a árdua tarefa de cuidar de alguém que estava se decompondo ainda em vida.
Ela como filha sentia-se na obrigação de o faze-lo, formara-se enfermeira para ajudar pessoas como poderia ela virar as costas justamente a seu pai? Toda a manhã erguia o corpo velho e decrépito, já fraco e desmembrado, banhava-lhe, limpava-lhe as feridas em meio a insultos e berros do velho homem. Muitas vezes ela parava, depois de colocar o pai na cama e tentava descobrir de onde o velho moribundo tirava forças para xingar-lhe a agredir-lhe daquela forma, era como se algum demônio o possuísse e lhe desse animo ao corpo.A doença o consumia aos poucos, levara primeiro seus pés, depois as pernas inteiras. Logo sua lucidez também o abandonara. Antes um senhor gentil e alegre, agora apenas olhos turvos, alguém rude a quem ela não reconhecia.
No segundo andar da casa ficava o quarto do enfermo era amplo e confortável, tal qual um hospital. No seu intimo ela ansiava pela morte do seu progenitor, seu suplicio já durava cerca de dois anos. Há muito tempo ela não deixava que a pequena com seis anos de idade entrasse no quarto do avô. Além da figura cadavérica as palavras que o velho proferia a ela eram de mais ofensiva para os ouvidos de uma pobre criança.
Terminou de limpar o quarto do velho e fechou bem a porta para que o som não passasse nítido para o térreo.


***


Ele olhava pela fresta da cortina, dava para ver o imenso carvalho que já naquele verão roçava os galhos no vidro de sua janela. A mulher tinha trocado seu soro, achava que ela estava dando algo para sua dor aumentar ele sabia disso, aquela vagabunda. Que bela vagabunda havia se tornado sua filha. Todos queriam vê-lo morto ele sabia, foram eles que mandaram amputar suas duas pernas. Estava agora a mercê da vagabunda. Não só da vagabunda, como daqueles olhos vermelhos e esganiçados que já vinham o fitando fazia três dias.
Na manhã ele tentara ver o que eram os malditos olhos e avistara. Agora ele sabia com o que estava lidando. Um imenso abutre com sua corcunda e seu grande bico pousado sobre um dos galhos do carvalho.
Ele estava perto de mais da janela naquela noite. Sentia o olhar voraz do animal sob seus tocos de pernas enegrecidos.


***

Os gritos vieram de súbito interrompendo o jantar. A pequena arregalou os olhos enquanto a mãe saiu correndo para ver o que se passava com o avô, sua respiração ficara difícil, ela estendeu a mão e usou a bombinha duas vezes e a respiração tornou a ficar normal.
A filha entrou correndo enquanto o velho gritava e apontava pra janela:
_O que é isso? Esse animal está aqui para me comer vivo. Faça alguma coisa desgraçada faça logo.
Ela chegou perto do vidro e sentiu um arrepio na nuca. Era o maior abutre que ela já havia visto. Diferente dos outros animais este olhava fixamente para ela como se dentro dele habitasse um espírito maligno. Ela abriu a janela e tocou o pássaro, mas ele só fez afastar-se um pouco da janela continuando com suas garras presas ao carvalho.
Aplicou um sedativo direto na veia do velho. E enquanto ele de debatia na cama chorou de pavor e de angustia.

***


Acordou em meio à madrugada a coceira insuportável nos tocos. Sentia as pernas ali e elas coçavam.
Sobressaltou-se. Olhou para a janela, as cortinas fechadas. Foi quando ouviu um barulho como se algo riscasse o vidro. Esticou a mão e segurou a bengala, já não a usava há muito tempo, mas a mantinha ao lado da cama como de costume. Colocou a ponta entre as cortinas que desciam ocultando a janela.
E lá estava ele raspando o bico contra a vidraça, seus olhos famintos sobre ele.
É um demônio, pensou ele, só pode ser.
O animal bateu mais forte contra a vidraça e um estampido mais forte aconteceu, quando o vidro trincou.
O velho berrou alto e chamou por sua filha, por socorro, clamou a Deus e a todos os anjos.
Seu coração batia rápido, mais do que poderia agüentar.
***

Os gritos do velho chegaram ao térreo, mãe e filha acordaram num sobressalto. A mulher correu para cima sem dar-se conta de que a pequena tinha dificuldade para respirar.
Subiu as escadas rapidamente e entrou no quarto o pai tinha as mãos em seu peito e gemia alto. Ela olhou para janela, a vidraça trincada. Quando virou novamente o rosto seu pai lhe estendia a mão. Ela segurou lhe a mão. O homem lhe apertou fortemente os dedos, abriu toda a boca e revirou os olhos. Sua vida extinguira-se de uma vez, num único e breve suspiro.
Lágrimas rolaram pala face alva da mulher enquanto o cadáver de seu pai jazia imóvel no leito.
Ela virou-se de costas e deparou-se com a pequena no topo da escada, ela vivenciara tudo o que acontecera com o velho, sua respiração estava difícil.
A mãe correu em direção a ela, mas era tarde.
A menininha desmaiou e rolou as escadas a sua frente. Justamente as escadas, algo que a mulher tinha feito para protege-la a machucara agora.

de Juliana Tussi Padilha ***

No hospital, a criança imóvel no leito, suas faces arroxeadas, o tubo de oxigênio no pequeno narizinho. Ela poderia chorar todas as lágrimas pelo que acontecera com sua filhinha, mas ela sabia de quem era a culpa. A culpa era do velho que morrera, mas que a consumira, que terminara com sua vida, que tirara a atenção de sua pequena, sua única filha.
Amaldiçoou o pai, muitas e muitas vezes e pediu que os demônios o levassem para o inferno.

Enquanto ela amaldiçoava o velho morto, pode ver na janela do hospital o abutre que fitava com profundo interesse a mescla de palidez e arroxeamento do rosto da pequena.
Um grito esganiçado e agudo saiu da boca da mulher enchendo o quarto do hospital.


Juliana

Um comentário:

Me Morte disse...

Que estreia maluca! Muito bom! Um conto cheio de sentimentos sombrios, suspense e mau agouro. Eu diria que foi o mais gótico até agora. Linda, vc é talentosa! Parabéns!