quarta-feira, 19 de março de 2008

Encontro com a Morte




Era escrava da dor que cultivava se auto-infligindo em ritos as
piores provações. Bulímica, anoréxica, esquálida, tão magra que os
familiares não suportavam sua figura. Vivia no quarto trancada.
Restos de comida e sacos de vômito escondidos no fundo das gavetas e
armários. A enfermeira contratada havia se demitido naquela manhã, o
soro estava jogado no chão.
Sentia um enorme prazer em exibir as marcas de gilete que marcavam sua
inúmeras internações. Eram tantas que os dois braços inteiros já não
bastavam. Após entupir a sonda gástrica que a alimentava, ouviu passos
suaves próximos à sua cama. Um vulto diáfano envolto em véus escuros a
observava. A tão ansiada visita da morte finalmente se apresentava.
Apurou a visão, o rosto era familiar, mas tão apagado, quase não via as
feições e muito menos o que o fantasma murmurava...apesar da fraqueza,
tentou enxergar alguma coisa e mais uma vez reconheceu fragmentos de
um espectro débil e quase incolor. Sentiu o corpo tremer em espasmos,
as articulações doíam, as vísceras ressecadas ardiam em pontadas, mal
conseguia respirar...
Mais uma vez a figura espectral se aproximou e desta vez uma luz muito
fraca iluminou a face cadavérica. Horrorizada a menina viu seu próprio
rosto, a boca muito aberta tentando emitir algum som, os dentes haviam
caído, ossinhos no lugar das mãos tentavam tocá-la. Ela gritou,
gritou de horror diante do espelho da Morte. Seu reflexo seria o
castigo e sua única companhia na longa travessia desejada. No último
instante se arrependeu da existência inútil, mas era tarde demais.
No vale dos suicidas almas gemiam em desespero, abutres aguardavam a
carniça, o ar pesado, denso, nenhum rosto amigável nem mão estendida,
apenas dor e lamentos. Caminhando por estreitas vielas tropeçava em
meninas e meninos jogados no chão, sem forças, derrotados, esperando,
não falavam nem se moviam. Alguns estavam tão desfigurados que nem
pareciam serem humanos, eram restos distorcidos, mutilados, fiapos de
carne ...como ela, só tinham o vazio e a desesperança.
Uma menina vinha caminhando apressada e com ela uma legião de crianças.
Quando estavam próximos ela percebeu que não eram crianças e sim
adultos e adolescentes descarnados numa procissão de horrores sem fim.
Eles vinham buscá-la, eram seu comitê de boas vindas. Reconheceu
antigas amigas de hospitais, se abraçaram, rindo e chorando, entre os
seus o lugar já não parecia tão inóspito. Sorriu. Estava em casa.

Giselle Sato
............................................................................................................

2 comentários:

Beto Reis disse...

Amiga Giselle....

Espetáculo...

Sou seu fã, incondicional...

Parabens pelo escrito...

Abraços

Ana Kaya disse...

Gi amiga, está de arrepiar.
Nossa, fiquei até estranha aqui, arrepiou tudo.
Maravilhoso texto, amei de paixão.

Uauuuuuuuuuuuuuuuu