quarta-feira, 12 de março de 2008

Souvenir




Acorda cedo. Mãos imundas. Lava uma vez, muda o sabonete, este já esta contaminado, pensa, cinco ensaboadas em cima de cada mão, sete nas palmas. Entra no chuveiro, liga três vezes, antes de sentir a água, escova os dentes, trinta giros completos dentro da boca. Vai para a janela, limpa a vidraça, pano umedecido com álcool três vezes.
Olha-a, de camisola, na mesa de café, cabelos perfeitos bem penteados, com cachos nas pontas, estética perfeita, mãos que seguram uma xícara de porcelana, quase tão alva quanto a sua pele. Ela o nota e encosta a persiana da cozinha. Ele sente a rejeição. Dá rejeição ao desejo. Do desejo à volúpia.
Coloca suas luvas, não gosta do seu tato, sente suas mãos amortecidas, como se fossem de outra pessoa e não as suas, as usa quando é necessário, de forma precisa. Confere a porta quatro vezes antes de descer as escadas. Afasta-se do corrimão marcas de dedos e manchas de suor na madeira clara lhe dão náuseas.
Para no caixa eletrônico, com ajuda de um lenço de papel retira as notas de dinheiro e coloca dentro da carteira de couro escuro.
Entra no consultório, senta e espera à hora passar, lê um panfleto que se encontra sob a mesa de centro, a secretária o olha, não o conhece ainda - deve ser funcionária nova- pensa- estranha minhas roupas, luvas em um dia de verão, talvez sinta medo do meu rosto pálido.
O panfleto mostra exemplos de síndromes e transtornos comuns, TOC, transtorno obsessivo compulsivo, depressão, bipolaridade, síndrome de turet.
Sai do consultório sabendo que aquela terapia não serve para ele, nada muda nem seu comportamento nem seus desejos.
Chega em casa limpa a janela, pano úmido com álcool três vezes, cinco voltas para a direita cinco pra à esquerda, três nas laterais.
Ela não está em casa só chega em algumas horas, sabe que ela foi trabalhar, pois acompanha todos os dias a descida dela até o ponto de ônibus e o embarque as 9:00 horas.
Contenta-se em ficar olhando seu quarto, ela está trocando as cortinas desse cômodo, o que o favorece muito, pode vê-lo completo. Mobília escura, decoração sóbria. Admira cada centímetro, imagina que cheiro tem o ambiente. Talvez sua pele tenha o mesmo odor. Suas mãos, dedos incrivelmente longos e alvos.
Pensa enquanto desliza a mão sob o seu delicado souvenir.


***

Observa seu corpo nu sobre a mesa. Perfeita, exceto, pelo bisturi em que ele delicadamente introduziu em seu ventre. O utensílio não a deforma apenas a modifica.Ele deleita-se em sua beleza ainda mais quando a corta nas extremidades. Um corte perfeito da altura da vagina até o pescoço, mãos talentosas e odiadas. Limpa o bisturi com cuidado, cinco mergulhado no álcool antes de começar.
Incisões perfeitas resultam em bons suvenires. Dedos? Bons suvenires.

***

Organiza a coleção -bela- conclui. Porém um colecionador nunca se satisfaz sempre existe algo mais a buscar, a perfeição está sempre no próximo toque.
Senta-se e limpa seus suvenires um a um. Belos. Dedos de damas.


Juliana T. Padilha

5 comentários:

Giselle Sato disse...

Muito criativo, um psicopata perfeito. Bjs

Ana Kaya disse...

Nossa que idéia maravilhosa, me lembra o livro O Colecionador, só que ele colecionava pedaços de pele de mulheres.
Menina, é de arrepiar. Só tenha cuidado com escrever muito e perder o foco, tipo tem um pedaço dele que eu fiquei meio perdida e depois que me achei de novo. Não sei te explicar direito.
Mas não se preocupe, com o treino tudo vai melhorando.

ESTÁS DE PARABÉNS DONA MOÇA LINDA
Beijosssssssss

Ana Kaya disse...

Ah, e a descrição das manias, tipo pessoas que tem TOC, foi perfeita, posso te garantir.

Textos de Anthony Angelo disse...

Juliana,

sua descrição é pefeita, detalhe feito a bisturi. Incisiva. Nada lhe escapa. Adoro o seu jeito de escrever.

Juliana T.P. POE disse...

Anthony, querido !
obrigado pelo apoio que você tem me dado, te adoro muito...
Ana Kaya, Giselle adorei os comentários.
bjão