domingo, 19 de outubro de 2008

A MENINA DO BORDEL - Giselle Sato


Angela, a menina do bordel


Debruçada sobre o piano, a menina ouvia a valsinha, sorriu para o rapaz tímido e deu uma volta pela sala repleta de móveis finos e bibelôs. As chaise-longue bem posicionadas, almofadas de veludo e franjas, brocados e seda italiana. Mesinhas com abajures e estatuetas de finíssima porcelana. Tudo era lindo naquele ambiente: - Rafael, porque você trabalha aqui?
-Preciso viver, vim estudar na escola de música e não tenho parentes na cidade.
-Sua mãe sabe que você é pianista no Bordel?
-Que isso menina, isto é jeito de falar?
- Não sou tão bobinha, vou fazer oito anos semana que vem- O rapaz perdeu o sorriso e parou de tocar.

Madame Desirré desceu a escadaria silenciosa e elegante. Observou a neta, cada dia mais parecida com a mãe, não sabia se era uma bênção ou castigo. Tocou a sineta que sempre trazia no bolso. A criada chegou correndo e sumiram pelo corredor lateral:- Vou acabar perdendo meu emprego por sua causa.
-Eu só estava conversando com meu amigo. - A empregada tinha pena da garota magrinha e atrevida.

Qual é a vida que uma criança pode ter em um puteiro? Trancada no quarto, vigiada pela babá, brincando, montando joguinhos ou folheando livros de gravura. Sozinha no mundo de faz-de-conta alquebrado.

Apesar da pouca idade, o convívio com adultos trouxe maturidade e compreensão. Não queria de maneira alguma viver como as moças do salão. Sabia muito bem o que acontecia no andar superior. A maldade e desvios haviam forjado uma mente ágil e inquieta.

Ouvindo as conversas das criadas, descobriu que a avó obrigou sua mãe a trabalhar na casa. Leiloou a primeira noite da filha e fez vencedor o próprio amante. Advogado famoso e de idade avançada. Diante da novidade, o doutor caiu de amores pela filha e dispensou a mãe. Pior, em poucos meses anunciou orgulhoso a gravidez da jovem.
Quando Angela nasceu, a mãe fugiu para Manaus. Penalizado com a situação, o advogado ofereceu uma boa mesada em troca dos cuidados com a criança. Crescendo naquele ambiente festivo, as prostitutas e os empregados foram a única companhia.

Nada disso faria diferença. Em poucos dias deixaria a casa e iria para o colégio interno. Na cidade serrana, estaria longe o suficiente para ser esquecida até a maioridade. O que Madame desconhecia, era que a menina e o pai e encontravam-se com a ajuda da cozinheira.

Breves escapulidas entre uma ida ao mercado ou um passeio até a queijaria no centro da cidade. Aos poucos o velho advogado foi conquistado pela menina de olhos de boneca, redondos e escuros. O que começou com uma simples curiosidade terminou em um grande apego.
Muito bem recompensada, a cozinheira implorava permissão para a jovem acompanhante:- Ela vive presa no quarto senhora, vamos depressa pegar os queijos. A pequena adora andar de bonde.
-Pode levar, desde que não atrapalhe. Como da vez passada, os pedidos vieram trocados.
-Perdão senhora, não irá se repetir, pode ter certeza.
-Minha única certeza é que você será dispensada se acontecer novamente. Leve a criança e pegue um carro de aluguel. Nada de bondes.
Desciam a ladeira apressadas, o carro do doutor aguardava na esquina. A rotinha semanal nunca era alterada, compras sempre as terças e quintas. Ele esperava pela empregada e a menina. Quando não avistava a figurinha ficava triste e limitava-se a pedir notícias:- Hoje a mocinha está muito calada- Angela balançou a cabeça confirmando-
- Vou embora para o colégio interno semana que vem, vou morar com as freiras.
-Querida, quem sabe não será melhor viver em um ambiente saudável?
-Minha avó disse que tem planos. Vou aprender a ser fina e educada para ajudar nos negócios.
-Isto é um absurdo. Sua avó está louca, traçou seu destino como fez com sua mãe. - Dr. Muniz compreendeu que ela iria exigir uma fortuna para entregar a menina.

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A festa de aniversário

Madame Desirré nunca tocou a neta, nenhum beijo ou abraço. A única concessão acontecia diariamente quando partilhavam o chá das cinco: - Amanhã você deixará esta casa. As moças insistiram em um lanche de despedida. Hoje é terça e quase não temos movimento.

Angela observava a avó com um misto de raiva e admiração. Nunca havia visto mulher mais bonita e elegante. Tudo nela era perfeito, as unhas polidas, a pele clara, jóias finas e discretas:- A senhora gosta de mim?

A pergunta inesperada não afetou a frieza do olhar, fez um sinal para que a neta servisse mais chá:- Esta marca inglesa é bem melhor que a da semana passada. - A menina deixou a varandinha do quarto da avó cabisbaixa e triste.

Sentada em um canto da cozinha observava o preparo do banquete. Naquele dia, o pernil bem temperado estalava em cozimento lento. A cozinheira Doralina fatiava o prato principal em tiras finíssimas:- Separei um pouco para o jantar dos empregados, tinha que ver a alegria quando viram a carne no prato- A pequena não respondeu, torcia a ponta do casaco, vez por outra consultava o relógio.
- Calma , está tudo pronto e será servido sem demora.
-Estou triste com a sua partida.
-Não posso perder esta chance, seu pai me deu dinheiro para voltar para a Bahia e começar meu negócio.
- Vou sentir saudades.
- Você é muito esperta, vai ficar bem, tenho certeza. Hora da festa, ajeite esta carinha, quero um grande sorriso.

Enfeitado com frutas secas e batatinhas coradas, o assado ocupou local de destaque. Canapés delicados, patês e o bolo de aniversário. O refrescante ponche descansava sobre cubos de gelo e as taças eram servidas pelas próprias moças. Dia de folga e comemoração eram raros naquele lugar.

A grande mesa estava repleta e as moças muito maquiadas, erguiam brindes e brincavam como meninas. Angela sabia que no fundo não eram felizes e que a alegria era falsa como as jóias que exibiam. Ninguém sentiu falta da dona da casa, a cadeira permaneceu vazia e o jantar foi servido.

Aos poucos, gemidos escapavam abafados, todos sentiam-se mal e enjoados . Angela acompanhou a agonia dos adultos intoxicados. Alguns tentavam levantar, não tinham forças, a grande maioria terminou caída sobre o prato, olhos vítreos e inchados. O jovem pianista foi a única perda que sentiu, tocou de leve a testa do moço:-Eu avisei que não viesse, quase estraguei tudo por sua causa.

Encontrou a avó estirada na cama, contorcendo-se de dor e vomitando negra substância, viscosa e fétida. A mulher parecia hipnotizada pelo semblante tranqüilo da menina:- O que está olhando?- conseguiu pronunciar entre golfadas- Ajude, chame a ambulância, peça socorro.
-A senhora não respondeu, eu só queria saber se gostava de mim e a senhora não respondeu. A senhora não foi uma avó boazinha.

Um velho conhecido entrou sorrateiro, Angela correu ao encontro do pai:- Procurei por toda parte. Venha filha, precisamos sair o quanto antes– Os olhos de Madame brilhavam de ódio. Tarde demais.

De mãos dadas deixaram o casarão da rua Alice. O homem explicou que um famoso estudioso de venenos havia feito várias misturas e não havia como identificar a fórmula original. Tudo indicaria uma grande intoxicação por botulismo.
- No meio deste caos levarão algum tempo para perceber sua ausência. Em algumas horas embarcamos para Europa em um grande navio.

Angela sorriu enquanto acariciava o vidrinho no bolso do casaco. Não havia derramado tudo no chá da avó como ele havia ensinado. Apenas algumas gotas foram suficientes. Sabia que o pai não era um poço de candura. Ele estava fascinado pela sua semelhança com a mãe. A cozinheira facilitou a aproximação e deixou bem claro o perigo que corria.

A menina de casaco vermelho, correu para o carro sem olhar para trás, sentia-se como chapeuzinho vermelho, a personagem favorita , a grande diferença é que não haveria vitória para o lobo mau.

4 comentários:

Me Morte disse...

Macabramente perfeito!
Eu esperava sexo e o que vi foi bem maior, muito melhor!
Parabéns Giselle!

Ana Kaya disse...

Sempre inusitado e de bom gosto.
Giselle parabéns menina. To arrepiada.
Bjs

Adroaldo Bauer disse...

Com a certeza que pode haver na inconstância... o nome que se pode dar a esses sentimentos todos não é amor.

Inominável Ser disse...

Lindíssima e estupenda narrativa, Giselle, muito bem elaborada, com um final que não deixa de ser surpreendente, pois abre caminhos e possibilidades para sabermos do depois, do que virá a ser, do que se fará dos fatos a partir do ponto de encontro com as demais linhas narrativas abertas. Tu escreves como artista da palavra, elabora um painel que não é fácil de ser visualizado e desvendado, é todo imprevisível!