sexta-feira, 19 de junho de 2009

A menina e as doze badaladas




Foram doze badaladas, o som repercutiu através dos salões imensos e vazios. Quem ousaria enfrentar o medo e espiar, ainda que pela fresta da fechadura, a quem pertenciam os passos cadenciados. Um...dois...três...

Uma lufada de vento forte, arrancou as cortinas diáfanas e a lua penetrou toda senhora de si o aposento sombrio. Iluminando e evidenciando os cantos escuros. A última esperança era o circulo de luz, no chão do quarto de brinquedos. Ainda podiam tentar... Mas quem iria se arriscar? Espreitando na escuridão eles aguardavam.
O que antes era motivo de alegria, agora só trazia pânico e horror. Bonecas rotas e caolhas pareciam acompanhar seus movimentos, bailarinas tortas pendiam pelas prateleiras, caixas de lembranças em papel desbotado. Caixas de brinquedos , papeis e giz de cera espalhados pelo chão.
Houve uma vez uma menina que só queria ser feliz. Ela cresceu em uma casa linda, com pais que se amavam muito, tanto que não tinham tempo para mais nada alem de si. Restavam os jardins com muitas flores e balanços, empregadas e babás. Correndo pelas alamedas ela sonhava que era uma fada e pintava as mais lindas cores. Cantava e bailava e assim eram os dias de sol. Dias de luz.
Algumas vezes a doçura perdia o encanto. Prendendo laços negros nas pontas das longas tranças, ela transformava-se na bruxa má e desejava afogar todos no grande lago. Todos sem exceção, mesmo os que deveria obedecer e respeitar. Nestes dias em que o céu cingia as nuvens em chumbo de puro rancor... Ela partia-se em mil pedaços e não sabia o que era ou o que fazia. Destruía o que atravessasse seu caminho, maltratava os bichos e as pessoas tinham verdadeiro pavor.
Quando tudo se acalmava ele repetia baixinho: Não estou sozinha. Foi ela quem fez estas coisas ruins. Somos duas irmãs em almas costuradas a ferro e brasa. Talvez seja um castigo... Talvez... Mas não estou sozinha. Ela está comigo.
Como a canção de ninar jamais entoada. Ela ou elas adormeciam. Almas siamesas tão diversas, brincavam por trás do espelho do salão de chá. Esgueirando sob tapetes vivia o tormento, oculto sob camadas de espessa lã e tramas bem amarradas. Prisioneiros e cúmplices aguardando o momento propício da salvação, eles se apegaram. Agora eram três.
Algumas vezes deitada em frente a lareira, ouvia historias de um tempo em que não havia nada. O vazio e o inexplicável, caminharam juntos e criaram vida. Foi assim que ela iniciou seu aprendizado com o mestre dos sonhos. Ele repetia cada lição, dia após dia... Incansável em sua doutrina. E todo ensinamento tem um custo muito alto. Talvez insuportável ou além dos limites.
Certo dia os pais perceberam, que não tinham uma criança que se contentava com doces e afagos. Era uma aberração que precisavam destruir o quanto antes, temiam o dedo acusador e os risos de escárnio. A menina encarou os pais : Dentro dos olhos da família feliz, viu medo e ódio. O cutelo firme destruiu cada pedacinho daquelas vidas.

-- A décima terceira hora ---

Urros animalescos, sons guturais, gritos agudo e graves. Ópera dos desalmados, incompreendidos e fracassados. Música.
O cheiro acre crescia e os animais rondavam a fazenda. Todas as portas e janelas foram abertas. Era o convite final! Que viessem e compartilhassem o banquete... A menina percorreu cada cômodo e fingiu não perceber os poucos sobreviventes. O ar gelado da noite envolveu o ambiente. Eles chegaram aos poucos, vinham deslizando pelo caminho da escuridão, ainda temiam o casulo, mas sabiam que precisavam obedecer.
Finalmente a menina deixou-se levar pelo destino, sentiu quando partes de seu corpo eram arrancadas e engolidas às pressas. Precisava ser devorada e destruída, era parte do todo e ela agora compreendia. A agonia final veio arrebatada de um contentamento indescritível. Abriu os braços e foi recebida pela Mãe.

A lua negra ofertou o fio condutor.
Formando um ponto único nas trevas.
Surgiu uma centelha criada pelo medo
Partiu-se em duas fagulhas ínfimas.
Tênues e pálidas... Mas vívidas!





A Morte soprou e deu vida ao que seria sua criação derradeira. Partiu gloriosa do seu feito, mais uma vez havia triunfado. Os seres divinos sempre apostavam e perdiam. Ninguém conhecia mais o homem... Do que ela. Tão temida e odiada. Para ela não havia segredo, perdão, compaixão ou misericórdia. Apenas justiça.
O pequeno milagre acontecia e todos os seres observavam em silencio. Das duas forças abriu-se um vórtice e de lá surgiram sete mistérios. Eles iriam engolir o mundo, tomar o fel da taça.
E trazer a ruína à humanidade torpe.

Um comentário:

Me Morte disse...

Macabra essa relação familia/monstro que vc coloca nos contos. Perfeita! Sou sua fã Gi, sempre! Beijos