sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O FANTASMA

Em meio ás brumas da noite, ele caminha.
Sua mente relembra velhos tempos, velhos amores, a família que um dia teve.
Seu caminhar é leve, é como se flutuasse.
Desde que morrera não conseguiu separar-se de seu corpo, das coisas terrenas.
Há anos ele vagueia, há anos tenta entender o porquê de sua partida tão súbita.
O cemitério está banhado em silêncio e pelo brilho da lua cheia.
Ruídos, passos, um jovem casal procura entre os túmulos e capelas, um lugar para fazer amor.
Estão alegres, talvez ate bêbados ou drogados. Mas felizes e apaixonados.
Ele se aproxima mais, aquela dádiva de vida o encanta.
O amor carnal, ali bem á sua frente.
Velhas lembranças o engolfam e ele sai rápido dali.
Ele não pode mais amar, não este tipo de amor.
Ele ouviu de outros como ele que havia uma saída, uma solução para aquele sofrimento.
Ele devia conformar-se com a morte. Só isso.
Deixar aquela luz engolfá-lo de vez, na sensação de paz.
Não entendia que nunca morreria, pois a alma é imortal.
Deveria apenas entrar na dimensão correta.
Mas ele não queria a luz, queria a vida de volta.
E o burburinho da vida o engolfava outra vez a cada vaga-lume que brilhasse no escuro da noite.
Ele vagava ás vezes de dia, mas era cruel demais andar entre os outros e não ser visto, não ser notado.
Então ele evitava as ruas tumultuadas e preferia o isolamento dos parques, praças ou qualquer outro lugar mais tranqüilo.
Um cineminha, por que não?
Mas de que adiantava ver o filme e não ter com quem comentar?
Ele logo cansou das distrações do mudo e teimava em ficar ali, sentado, em sua tumba, vendo mais uma noite chegar.

By Ana Kaya

Um comentário:

Melissa disse...

Outra que escreve bem pra caramba! Gostei.