Estava um tempo fora, três dias, diria
Volto a ti agora, a pele minha ainda fria
Tenho dúvidas se mais me queres
Por tê-la feito sofrer assim tanto
Não foi voluntário, nem eu queria
Aconteceu de acontecer, entretanto
Sendo que esteja vivo, cá estaria
Se mais não estou, nem me vês
Acontece de continuar a te querer
Bem vindos ao Cemitério do Vale das Sombras. Uma Necrópole de nossos textos sombrios. Aqui só crônicas, poemas, contos e tudo no bom e velho estilo gótico de viver. Falou de morte? Poste aqui. Tristezas? Raiva? Contos macabros? Fábulas assombrosas? Temas exóticos? Textos fantasmagóricos? Aqui não tem meio sorriso, sorriso inteiro, só choro e sobrenatural. Venha fazer parte das almas atormentadas do Vale das Sombras.
domingo, 24 de abril de 2011
quinta-feira, 21 de abril de 2011
O segredo

irrompe o dia,
assim, como por muito insistir,
a destrancafiar-se da longa noite
onde o pesadelo ungia sonhos
e a boca louca balbuciava
desconexas verdades imperfeitas, assim,
como todas as verdades.
irrompe o dia
enquanto a lua derruba sua tristeza
encharcada de nuvens, estrias de ventanias,
de sombras incandescentes; comovida com a desesperança
que resta sob esta pálida luz bipolar.
irrompe o dia
a suplicar o novo, a suplicar de novo a todas as esquinas
para que não se virem, assim,
súbito, e para que as palavras não fujam por entre caules de
árvores outonais, desguarnecidas de folhas e flores, assim,
sem registro, mudas, inaudíveis.
irrompe o dia
a desesconder esconderijos, rotas de fugas fúteis,
inúteis navegares.
irrompe o dia a farfalhar fantasias vencidas
e a destruir as máscaras intactas de um tempo pretérito.
irrompe o dia no eterno aguardo da nova noite,
definitiva.
(Celso Mendes)
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Espírito de Páscoa!
O corredor estava totalmente enfeitado. Eram ovos de todas as marcas, de todas as cores, um mais tentador que o outro...Chocolate ao leite, com coco, meio amargo, ao creme, etc...
Ali se via reunidos os chocólotras mais convictos! A simples visão dava água na boca.
-Vou levar seis.
-Mas ontém você levou oito...
-Nunca é demais...
Na saida do supermercado...
-Moço...Me dá um real?
-Sai, sai menino...
-Um real para ajudar na caixinha de Páscoa...
-Sinto muito. Não sobrou nada. Ele puxou os bolsos para fora a fim de comprovar o que dizia.
Já no carro...
-Sacrilégio...Você podia ter dado o dinheiro...
-Para ele comprar drogas? Jamais!
-Um dos chocolates então...
-Não diga besteira. Ele certamente teria uma diarréia. Não está costumado. Teria que ser uma barrinha bem pequena...
-Pensando bem...
-Faria melhor se desse um prato de comida ou uma fruta...Mas certamente ele se ofenderia.
-Não entendi...Se ofenderia por que?
-Ora...Nessa época oferecer comida a um pobre é ofensa na certa. Todos esperam cestas mirabolantes carregadas de chocolates.
-Os pobres sonham com cestas assim, mas não esperam. Sabem que milagres não acontecem.
-Pois é...Mas se damos comida numa ocasião assim é bem capaz de jogarem na nossa cara.
-Que tristeza...Aninha, Eduardo! parem com essa bagunça no carro. Não comam tanto chocolate, depois não almoçam...
-Deixe as crianças comerem a vontade. Nada de almoço, depois pedimos uma piza.
No semáforo...
-Para com isso garoto! Que merda!
-Ele está limpando o vidro, de um trocado ao menino, anda...
-O pano está sujo. Vai ficar uma lama só...Puta que o pariu...!
-Moço...Tem um trocado?
-Toma. Deu uma moeda de cinquenta centavos ao menino. -Vá para casa esperar o coelhinho. Deixa esse serviço para quem sabe...
-Brigada moço, Deus te abençõe..
-Vai, vai...Odeio agradecimentos. Caridade se faz sem esperar por isso...
-Vamos embora. Temos que arrumar as cestas das crianças ainda...
Ali se via reunidos os chocólotras mais convictos! A simples visão dava água na boca.
-Vou levar seis.
-Mas ontém você levou oito...
-Nunca é demais...
Na saida do supermercado...
-Moço...Me dá um real?
-Sai, sai menino...
-Um real para ajudar na caixinha de Páscoa...
-Sinto muito. Não sobrou nada. Ele puxou os bolsos para fora a fim de comprovar o que dizia.
Já no carro...
-Sacrilégio...Você podia ter dado o dinheiro...
-Para ele comprar drogas? Jamais!
-Um dos chocolates então...
-Não diga besteira. Ele certamente teria uma diarréia. Não está costumado. Teria que ser uma barrinha bem pequena...
-Pensando bem...
-Faria melhor se desse um prato de comida ou uma fruta...Mas certamente ele se ofenderia.
-Não entendi...Se ofenderia por que?
-Ora...Nessa época oferecer comida a um pobre é ofensa na certa. Todos esperam cestas mirabolantes carregadas de chocolates.
-Os pobres sonham com cestas assim, mas não esperam. Sabem que milagres não acontecem.
-Pois é...Mas se damos comida numa ocasião assim é bem capaz de jogarem na nossa cara.
-Que tristeza...Aninha, Eduardo! parem com essa bagunça no carro. Não comam tanto chocolate, depois não almoçam...
-Deixe as crianças comerem a vontade. Nada de almoço, depois pedimos uma piza.
No semáforo...
-Para com isso garoto! Que merda!
-Ele está limpando o vidro, de um trocado ao menino, anda...
-O pano está sujo. Vai ficar uma lama só...Puta que o pariu...!
-Moço...Tem um trocado?
-Toma. Deu uma moeda de cinquenta centavos ao menino. -Vá para casa esperar o coelhinho. Deixa esse serviço para quem sabe...
-Brigada moço, Deus te abençõe..
-Vai, vai...Odeio agradecimentos. Caridade se faz sem esperar por isso...
-Vamos embora. Temos que arrumar as cestas das crianças ainda...
Me Morte
quinta-feira, 14 de abril de 2011
CAPITULAÇÃO
Não vou chorar sobre seu sepulcro Não conhecerá as lágrimas que cultivo As trevas não mais dominarão meu ser Repudiarei suas injúrias decrépitas Serei o eu de minha existência O sol de minha caminhada final Não depositarei meu ósculo em seus lábios Estou morto para você... estou perdido... ... para sempre... Não adianta evocar minha maldição Fustigar-me com meus pecados Vergastar-me com minha queda Sei que não terei o perdão da Vida Mas não desejo nem necessito Ser ungido por suas escusas O fetereo é concluído em silêncio Repousa sob a terra pútrida Seu corpo consumido pelo ódio Sua carne corroída pelos vermes Meus olhos chovem, mas você não vê... Sinistra... a escuridão dominante... A solidão que rege a noite infinda... Os diapasões estridentes... A agonia que se apossa de mim Não lamento, até celebro, seu fim Mas minha mente se distorce Minha alma se confrange O espírito padece a dor maior Desejo olvidá-la... abortá-la... Mas não consigo... não posso... A cova rasa ainda guarda a maciez A terra ainda não se acomodou Minhas mãos ensandecidas cavam Meu peito arde... meu coração queima... Preciso de você... preciso de seu perfume... Não, não é nada disso que me faz falta, Tudo se resume em sua mais cruel fealdade Falta-me a tirania de sua maldade... Maldito! Este sentimento infeliz... insano Leva-me a violar seu túmulo Torno-me um vil abutre O ataúde já se mostra... eu a vejo... Horror! O choque é intenso Seus olhos, sem vida, me fitam... Acusação e rancor são seu luzir Por que? Por que sou tão fraco? Onde está o guerreiro indomável? O campeador invencível e inabalável? O choro verte sem vergonha A dor sufoca a certeza do eu Saber que seu fim foi justo Não atenua o sofrimento A carne apodreceu antes do tempo Não existe mais possibilidade Não posso mais ser seu Nunca mais poderá ser minha Apenas o vazio a golpear-me A fermentar o fel em meu ego A destilar o veneno mais cruel Ainda que não vaze ou se mostre Este abatimento atroz e interno Faz-me padecer, na terra, Tudo aquilo que você padece... Solitária... atormentada... no inferno...
terça-feira, 12 de abril de 2011
MEU AMADO IMORTAL
Durante séculos caminhei só,
Numa busca desenfreada.
Muitos amantes eu tive,
Mas, nenhum deles caminha ao meu lado.
Eles estão mortos.
Enterrados na poeira dos tempos.
Muitos amigos cativei.
Mortais que me amaram.
Mas, também eles se foram.
Perdidos no passado.
Também mortos.
Meus pais há muito me deixaram.
Sucumbiram na mão do destino implacável.
Muitas lágrimas sangrentas,
Molharam a terra sob meus pés.
Tento recolher os pedaços de meu coração.
Que foram se perdendo no tempo.
Na escuridão da solidão.
Tento em vão achar algo que aplaque esta dor.
Tento em vão chamar sua atenção.
Sim, pois eu achei o que tanto procurava.
Achei alguém especial, assim como eu um caçador.
Mas, ele também carrega em suas costas,
O peso dos séculos de sofrimento
A dor da solidão e da decepção.
Nem percebe meu lamento.
Na noite fria e úmida.
E, se percebe, tem medo de ousar outra vez.
Ah, se ele soubesse do medo que também sinto.
De expor todos estes sentimentos.
E soturno e calado ele se mantém.
Ah, se ele soubesse, quanto carinho guardei.
Ah, se ele ouvisse as batidas loucas de meu coração.
Este coração que insiste ainda em bater.
Mesmo estando morto e frio.
Mesmo você não ouvindo meu lamento.
E na neblina da noite eu me escondo.
Envolta em manto escuro.
E observo você, enquanto caminha pelas ruas desertas.
Amando cada pedaço de seu corpo,
Desejando ardentemente seu abraço.
Em meu sono diurno,
Sonho com seus lábios rubros.
Tocando os meus gentilmente,
Num longo e apaixonado beijo.
Até quando esta espera insana?
Até quando devo sofrer sua ausência?
Por favor, anjo da noite, olhe para mim.
Note meu amor imenso e venha, sem medo.
Para que, juntos, possamos ter tudo que nunca tivemos.
Para aplacar de vez este grande desejo.
By Ana Kaya