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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Infinitudes de um passado em expansão


bebo do sol deste céu
deste sal que me escorre negro
deste lamento turvo e rubro
a arder-me a voz plena de sombras
do mais distante
do mais longínquo
do mais pretérito
arrebol

eu sei, eu sei
sei sim
que vento em pranto
é tempestade
que só

assola lírios inconsolados
pela palavra que queima
e alimenta
a imagem ferida
do entardecer
que silencia
a cada dia

e é assim

afago
manhãs
e afogo
crepúsculos
agonizantes
na escuridão
de noites sem fim

bem aqui
aqui em mim

(Celso Mendes)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Uma história de Rita

      No pequeno quarto fechado e mal iluminado, a luz do abajur vermelho pesava sobre o ar quente e abafado. Flutuava um acre de suor e sexo. A romper a solidão, um arfar de corpos entrelaçados atingia seu êxtase. Em seguida, o silêncio da exaustão.
      O amanhecer se desejava entre tímidos feixes de luz que traspassavam as brechas da veneziana de madeira mofada. Trazia o frescor das ervas daninhas do quintal e amenizava a densa atmosfera do quarto. Uma brisa nos cabelos da velha prostituta adormecida de bruços descobriu-lhe o olho direito, que, no descerrar de suas pálpebras, pode vislumbrar os lábios cianosados e a pele marmórea do seu velho e costumário cliente; percebia que seu habitual e intenso roncar se transformara numa silenciosa e definitiva apnéia. Levantando-se vagarosamente, fitou o corpo obeso e frio sobre sua tão frequentada cama e constatou que dera o último momento de prazer ao calado homem que a visitava toda terça-feira, infalivelmente, para comprar o que a vida não mais lhe proporcionava.
       Com a serena sensação de dever cumprido, Rita pegou o telefone e chamou uma ambulância.

sábado, 21 de maio de 2011

Sobre o que fere


a navalha é a mesma e está rubra
escorre o fel de línguas fendidas
de lábios carmins
de olhos vermelhos
caminho sem volta ao inferno
cereja num copo de vinho
cascas de maçã
rosas de Hiroshima

a navalha é a mesma e está bruta
escorre ao léu em raízes perdidas
de um corte no branco a vazar os seus  nadas
rasgo radical na lúdica lucidez
cúmulo cinzento no palato plúvio
poda no verde de um verbo
um silêncio gris
o escuro do giz
muros de Berlim

a navalha é a mesma e contém cicuta
escorre no céu de bocas despidas
no frio do fio um fonema letal
tal arma fatal em dentes alvos
mensagem que ecoa em asas pardas
voo subterrâneo num corpo sem pele
viagem sombria no fibrilar miocárdico
vida sem sol
pulso sem luz
pó de torres gêmeas

a palavra é navalha
e está cravada

(Celso Mendes)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O segredo


irrompe o dia,
assim, como por muito insistir,
a destrancafiar-se da longa noite
onde o pesadelo ungia sonhos
e a boca louca balbuciava
desconexas verdades imperfeitas, assim,
como todas as verdades.
irrompe o dia
enquanto a lua derruba sua tristeza
encharcada de nuvens, estrias de ventanias,
de sombras incandescentes; comovida com a desesperança
que resta sob esta pálida luz bipolar.
irrompe o dia
a suplicar o novo, a suplicar de novo a todas as esquinas
para que não se virem, assim,
súbito, e para que as palavras não fujam por entre caules de
árvores outonais, desguarnecidas de folhas e flores, assim,
sem registro, mudas, inaudíveis.
irrompe o dia
a desesconder esconderijos, rotas de fugas fúteis,
inúteis navegares.
irrompe o dia a farfalhar fantasias vencidas
e a destruir as máscaras intactas de um tempo pretérito.
irrompe o dia no eterno aguardo da nova noite,
definitiva.

(Celso Mendes)

segunda-feira, 21 de março de 2011

Filha da noite

Por onde perambulam os sonhos de milhares de meninas e meninos?

há uma ruptura neste azul que te acinzenta
e te empalidece os olhos
sob o frio deste sol
a iluminar
mais uma manhã que não sorri

migalhas de gemidos
dançam
nos vãos de teus dentes amarelo-tabaco
sob a vertigem de estrelas artificiais
regada a alcalóides e anfetaminas
de fins de noite
em que luas se cobrem de limo
entre lençóis acres
torporosamente revirados
e fumaça

resta o vazio
a latejar ouvidos
o corpo cansado
ranhuras de amores fantasmas na pele
um choro no esôfago
e sonhos de princesa
trancafiados na masmorra
dos dias

amanhã
talvez
um talvez indolor
uma flor
nova cor
amanhã
de manhã

talvez

(Celso Mendes)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Sobre esperas e compulsões










Mais uma vez
mergulho.
O fundo é cego
e seu ruído surdo
martela
cada instante de ausência.
E cada palavra não dita
ecoa
numa mudez que fere.

Sístoles e diástoles
preenchem
o silêncio
da noite.


(Celso Mendes)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

ultima ratio


espreito o indefinido como quem morre outra vez
meus olhos carregam cinzas
seguem opacos, cansados
mas avistam a última barreira

um sussurro me confessa mistérios
demônios dançam libertos
tridentes na carne que sangra fustigam meus sonhos
que teimam existir

insisto
rasgo realidades com meu arpão de delírios
penetro o infinito como um bólido
abaixo do limiar, o desejo do verme me devora entranhas
mergulho-me

caminhos a escolher e um destino marcado
resta-me seguir e contar às estrelas

até a treva, seus derradeiros reflexos
haverão de me acompanhar

(Celso Mendes)

domingo, 21 de novembro de 2010

Esconderijo


neste agora
em que as asas me pesam
o rastro se perde
o chão me abandona
dispo-me das cores
e me acomodo na solidão

deste escuro que busco
queria uma calma
que não me alcança

desta luz que renego
permanecem sombras
que não consigo apagar

em minha mudez
guardo o silêncio do mundo

fecho os olhos
junto cinzas
refaço-me lentamente

um dia volto

(Celso Mendes)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Procura


Já conversei com os deuses
Já repousei vários colos
Escorreguei entre ventres
Bebi do frescor da infância
Ouvi conversa de insetos
Mergulhei infernos
Descansei escuridões
Nadei olhares
Percorri sorrisos
Provei um pouco do céu
Bebi do vinho maldito
Pulei abismos e bocas
Enquanto não me atordoava o giro do mundo

Lunático
Agora persigo o fogo
O gelo
Uma luz distante e desfocada
No rastro das bruxas um brilho de fada
O vento
O centro
E uma improvável paz

(Celso Mendes)

sábado, 21 de agosto de 2010

Esconderijo

neste agora
em que as asas me pesam
o rastro se perde
o chão me abandona
dispo-me das cores
e me acomodo na solidão

deste escuro que busco
queria uma calma
que não me alcança

desta luz que renego
permanecem sombras
que não consigo apagar

em minha mudez
guardo o silêncio do mundo

fecho os olhos
junto cinzas
refaço-me lentamente

um dia volto

(Celso Mendes)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Fronteiras

"Entre mim e a vida há
uma ponte partida...”
(Fernando Pessoa)


tenho navegado sobre duas vidas
duas dimensões
duas fases do tempo

projeções distintas
verdades partidas
mentiras divididas

nesta viagem abstrata
em que a espera
confunde-se com a busca
meu voo é subterrâneo e solitário

eu tenho estado entre dois mundos
entre dois sonhos
entre quatro olhares
trinta e três palavras
infinitas imagens
uma só tristeza
e a única certeza:

do que fui
do que sou
tornar-me-ei
o que me restou

(Celso Mendes)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Epífora



Uma agulha atravessando a pele
Sorrisos costurados
Alegria lacrada na memória
Percepção rasgada, picada em pedaços
Partilha de angústias brancas
Pretéritos presentes nada perfeitos
A prisão perpétua no hipocampo
O grito

Ferroadas agendadas sistematicamente
Auto-inoculações precisas
O lento destilar da peçonha
Lucidez embargada de fel
Dias que arrastam correntes
Paredes atravessando olhos
O brilho triste da esperança vermelha
Solidão recorrente na multidão sem face
O que não quer ser choro
Epífora

A mesma velha sensação disfarçando-se por semitons
O ponteiro que insiste registrar horas de ansiedade
A esperança da manhã que foge por campos floridos
E a rotina vespertina anoitecendo mais uma vez
Mudez

(Celso Mendes)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

PÂNICO



Sempre o medo e a angústia, a falta de cor selando seu semblante desbotado de vida e a música do silêncio a pesar sobre seus ombros. O ritmo acelerado de um coração mecânico, autômato, que nem mais lhe pertence, bate forte e descontrolado como a querer saltar de seu corpo, o mesmo corpo que flutua, límbico, na eletricidade de sonhos psicossomáticos; os mesmos sonhos focados na direção imagética de seu olhar estático.

Percorrer caminhos arteriais só leva a retornos venosos, escuros, tortuosos e sem oxigênio. Alma sufocada, seus olhos, por alguns segundos, arriscam explorar um vazio cercado de coisas sem razão ou sentido. Plantas artificiais enfeitam o dia fabricado por encomenda enquanto cãezinhos latem até acabarem suas baterias.

Estabelece-se um contato com o centro do nada. Segue brincando com lágrimas presas, que brilham, mas distorcem sua visão, e tenta, assim, esquecer que o sangue inunda lentamente seu mediastino prestes a transbordar ansiedade ou implodir sua tristeza. Já tem consigo uma certeza: não há anatomia que resista a mais um dia tonificado de pânico. E a noite chega.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A Busca

Persigo fantasmas fugidios
em noites tépidas
feito diamantes
incrustados na escuridão.
E cada estrela
tenta me explicar
o porquê do brilho
e o motivo do silêncio
a banhar galáxias.

Mas já aprendi
que a mudez vem da alma,
de cada canto
que espero escutar,
de cada sombra
que quero seguir,
de cada encanto
que tento viver.

Persigo fantasmas fugidios
em noites tépidas
que são só minhas.

(Celso Mendes)