quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Sinais do fim

Detalhe de O jardim das Delícias,  de Hieronymus Bosch



Tarde demais autoridades e pessoas outras envolvidas atentaram para o fato de que a pressão liberada era demasiada. Nenhuma ação preventiva fora adotada. Qualquer paliativo de contenção da vazão resultava inócuo. O ambiente gelado, de baixas temperaturas intoleráveis, a profundidade colossal, o equipamento precário, a falta de coragem pessoal mesmo, tudo conjurava a favor da catástrofe em andamento. A morte rondava apressada a vida de qualquer semovente. Tudo seria extinto em horas, talvez em poucos dias nada restasse vivo numa geografia imensa, incalculável. O pavor crescia na proporção geométrica da inépcia. Quaisquer novidades eram ainda cada vez mais aterrorizantes. Aquilo era o divisado por Bosch, Dante e João, junto. Talvez pior. A agonia, agora acelerada, de tudo. O fim vindo a furo pela incompetência técnica. A vida se acabando desastre após desastre na exploração de poços submarinos de petróleo, o combustível resultante da vida que há muito se acabara, o fóssil de uma era outra engolindo a que ainda é.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Abstrações sobre estrela, queimaduras, pérola e cicatrizes

há dias em que todo escuro
escorre em minha saliva
e eu digo da ausência da palavra
e eu digo destas auroras-abismo repletas de vazios
dos mergulhos por onde me embrenhei
das manhãs e tardes insanas
à espera do consolo da noite
quando em minhas mãos
eu tinha a esperança do teu tanto brilho
a queimar-me as palmas

são nesses dias que recordo
ante o precipício de espanto das minhas midriáticas pupilas
o lado negro do arco-íris

sim, toda pérola tem a lembrança da areia úmida
e toda luz já foi matéria em combustão

e este canto não é um lamento
é apenas a memória de um tempo
em que te imaginavas minha
qual uma estrela que me caia
mas me feria
ao tentar reter
nesta brevidade de ser
a eternidade
do teu calor
a tua luz

(Celso Mendes)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Anjo

        Olá Mortais...


    Hoje, um pouco atrasada, venho postar um poema de minha autoria que gosto muito e que achei interessante compartilhar com vocês.
     Espero que gostem.

 

O ANJO

Sou o Anjo que nasceu quando
Tu nasceste...
Sou o Anjo que te acompanha
Durante toda a tua vida
Estou sempre a espreita de
Uma oportunidade para estarmos juntos...
Quem sabe nesse momento poderemos
Permanecer juntos pelo resto dos tempos...
Sou o Anjo que depende de ti para viver...
Tua vida é o combustível para a minha
Quando estás incerto
Eu apareço para te ajudar na escolha,
Mas quando desistes de saltar...
Só me resta esperar...
Pois sou o Anjo que nasceu quando
Tu nasceste...
Sou o Anjo que te espreita a todo momento
Esperando uma oportunidade de
Te ter para sempre comigo...
Sou o Anjo que caminha sempre ao
Teu lado...
Ah, meu doce querido...
Tão sedento de vida...
Mal sabes que ao passar das horas
Mais perto de mim tu estás...
Sou o Anjo que temes, mas
Que anseias quando nada mais
Faz sentido...
Sou o Anjo que ceifa a Vida que
Deixas para trás em tua
 Longa caminhada...
Sou tudo e sou nada
Sou teu medo e teu mais puro desejo...
Ah, meu inocente querido...
Sou teu Anjo
    

sábado, 5 de novembro de 2011

Intenso



Nós dois,
tramados em cetim violento.

Amor de cortar os pulsos
até chegar no osso.

Amor de olhos inchados
e marcas violáceas no pescoço.

Cama convulsa.

Pulsa
e jorra da pele molhada
combustível
de alta inflamabilidade

Minha beleza fagulha
e explode
tua insanidade.

Tóxica.

Monóxida de carbono,
mata por asfixia.