domingo, 29 de agosto de 2010

Tiro ao Álvaro - Adoniran Barbosa





De tanto levar
"frexada" do teu olhar
meu peito até
parece sabe o que?
"talbua" de tiro ao "álvaro"
não tem mais onde furar

teu olhar mata mais
do que bala de carabina
que veneno estriquinina
que pexeira de baiano

Teu olhar mata mais
Que atropelamento
De automóvel
mata mais
Que bala de revorver.

De tanto levar
"frexada" do teu olhar
meu peito até
parece sabe o que?
"talbua" de tiro ao "álvaro"
não tem mais onde furar

teu olhar mata mais
do que bala de carabina
que veneno estriquinina
que pexeira de baiano

Teu olhar mata mais
Que atropelamento
De automóvel mata mais
Que bala de revorver.

sábado, 28 de agosto de 2010

Soneto do Nascimento


Soneto do nascimento


Eu nasci no dia que te conheci
logo vi,metade do céu completar
e formar uma vida que há de existir
onde qualquer aurora virá contemplar.

genitor,e gentil verbo conhecer
me pariste no frio da madrugada
encantada de glória a me padecer
benzendo minha alma morta na cruzada.

nasço saudade e morro esquecido
e renasço na áurea do teus olhos
pois a eternidade está velha demais

Para o tempo caduco matando seus filhos
deixando o que há de durar nos empórios
os saudosos tempos onde nasci - e nada mais.

Por Emerson Sarmento.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tráfico de drogas intrusa o poder de estado num Império Bandido


O assentamento de necropsia não afirmava a causa mortis. Vago, matutava Cheguêva. Asfixia. Pelos relatos recolhidos da ocorrência entre os presos, teria sido lenta e dolorida, tanto tempo gritara desesperado na solitária. Sem marcas externas ou internas, os órgãos saudáveis, intactos, todos. O que mais poderia ser.
E o que dizia o relatório sobre as manchas escuras na cueca do morto?  “Exame mais acurado pode apurar com precisão, mas a probabilidade de ser esmalte de unha é maior que 80%. De modo algum é sangue”. Eunício assinara o laudo.

Cheguêva pulou da cadeira como boneco surpresa de caixa de presente. Eunício, o filho do diretor da prisão. Era tudo o que o inspetor jamais sonhara, e nunca quis: voltar a investigar alguém daquela família.

(Trecho de um dos 42 capítulos da minha novela O Império Bandido... Pedidos pra adroaldo@portoweb.com.br - R$ 35,00. Frete incluso)

sábado, 21 de agosto de 2010

Esconderijo

neste agora
em que as asas me pesam
o rastro se perde
o chão me abandona
dispo-me das cores
e me acomodo na solidão

deste escuro que busco
queria uma calma
que não me alcança

desta luz que renego
permanecem sombras
que não consigo apagar

em minha mudez
guardo o silêncio do mundo

fecho os olhos
junto cinzas
refaço-me lentamente

um dia volto

(Celso Mendes)

sábado, 14 de agosto de 2010

À NOITE

Os gritos de horror ainda retinem em meus ouvidos nas noites frias e solitárias desta natureza completamente morta e destroçada. Embora não esteja mais certo do tempo que se passou desde que a tragédia se desenrolou, ainda sou capaz de recordar cada cena daqueles pavorosos acontecimentos. Tudo foi tão dantesco que as marcas gravadas no âmago não se diluem ou arrefecem. A lua, tingida pelo rubro do sangue subtraído à humanidade, acompanhou o deflagrar da atrocidade.
As vozes do além ainda retumbam com estardalhaço. Ouço-as sempre que a noite se mostra incipiente. Após os gritos de horror, elas se levantam acusatórias. Não existem fantasmas ou juizes, sei que é apenas efeito de minha consciência, mas elas não se calam; deleitam-se em me atormentar acompanhando-me por toda minha maldita eternidade.
O desejo de poder emudecer, a revolta de minhas vítimas, não pode ser satisfeito. Vago, perdido e solitário, sabendo que jamais as farei calar. Os anos se acumularam sobre meus ombros e ainda assim eu as ouço, eu os desperto sempre que minha sede se manifesta, sempre que minha sina sepulta a razão e o animal domina meu âmago.
O antigo orgulho de sentir-se imortal há muito se desfez em uma nuvem difusa. A imortalidade é um peso que subjuga o desejo de continuar existindo, ela é como uma prisão inexorável asfixiante e cruel. Aqueles que gritam e acusam não sabem o quanto são mais afortunados do que aquele que os vitimou. As sombras acolhem meus passos, mas a lua insiste em me revelar ao mundo.
Agora que já não desejo mais a imortalidade, ela se mostra intransponível. Outrora eu possuía adversários a altura, almas fleumáticas que não mediam esforços em sua caçada, mas hoje os homens preocupam-se mais com a mesmice de suas rotinas, eles não têm mais tempo para mitos construídos sobre verdades que eles não são capazes de abarcar.
Lampejos dardejantes antecipam o pranto singular da abóbada celeste. Mais uma noite chuvosa, mais uma vez sentirei a insensibilidade maldita que me mantém impermeável às manifestações simples da vida. O caudal líquido não me desperta sensação alguma, estendo minhas mãos, aparo um punhado de água, mas não sinto sua frieza. Eu não pertenço mais a este mundo, não possuo mais as capacitações necessárias para assimilar as nuances materiais.
A tempestade afugenta os transeuntes. As ruas estão desertas, ou quase. Alguns desavisados ou deserdados pela sorte perambulam sem perceberem que a morte os vigia, silenciosa. O fogo arde em minhas entranhas. Já faz um longo tempo que negligencio minha sede; esta noite a necessidade suplanta o desejo ignorar minha natureza.
O sobrevôo é como uma benção. Não fosse pela motivação, eu me sentiria livre. Minhas asas não se umedecem com a precipitação aquosa, posso seguir sem me preocupar, sem ser notado. Sou como uma sombra imperceptível, um nada que se materializa apenas quando a vítima já não pode mais reagir.
Maldita era tecnológica! O homem se intoxica com produtos sintéticos e outras drogas mais alterando a consistência, o sabor, a pureza do sangue. Os buquês já não são tão apreciáveis; sangue ruim. Mas é melhor uma taça amarga do que nenhuma.


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terça-feira, 10 de agosto de 2010

Pré Natal




Arrancado do ventre
Fora de hora
Num choro silencioso
De conta gotas
Roubados
Tempo, berço e vida
Vida, berço e tempo
Deportado de um ventre para um nada
De volta ao nada de um ventre
Anti materno
O pré natal que um dia
Ja foi um sonho
Agora é sangue
No ralo da pia...

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Aborto Tardio

Pobres criaturas impotentes
que cortam em pedaços nossas filhas
e jogam displicentemente aos cães:

malditas sejam suas mães!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O Terceiro Olho

Absorta, ela continuava estática olhando a cena diante de seus olhos. Um lenço cobria sua cabeça, o corpo disfarçado sob uma gabardine escura, luvas finas... E a Magnum ainda quente na mão!

Entrara sem barulho no quarto barato que cheirava fétido. Quem primeiro a vira, foi a morena de nádegas trigueiras, seminua, de quatro sobre o homem, prensando-lhe a cabeça contra a cabeceira da cama. Ele, com a cara enfiada num cunninlingus, não pressentira a invasão.

Primeiramente, a mulher que escolhera o homem errado! Levou um golpe com a navalha que decepou-lhe a mandíbula inferior. Ela nem gritou. Emborcou sobre a cama tingindo os lençóis de vermelho.

Aí, sim, ele estupefato, arregalou os olhos míopes, encarando-a. Nem teve tempo para analisar os fatos. Teve o projétil encravado no meio da testa, como um terceiro olho.

Aída ainda pensou que a pobre, se sobrevivesse, poderia ainda dar aulas usando máscara... Quem sabe uma de Minnie?

Ele... Ah! Ele! Arderia no inferno, o cão maldito, traidor ingrato!




LU CZER

domingo, 1 de agosto de 2010

Enterro e chuva






O relógio contava os segundos que não viriam; um cheiro de terra; um gosto de sal...
Era adeus e um Deus o esperava trêmulo, como se estivesse disfarçado.


Me Morte