domingo, 24 de julho de 2011

De astros e ex-estrelas

De Marte chegam-me novas

De uma Vênus de morte

Por certo perdeu o senso

A estrela supernova antes nua

Hoje sem sorte míngua à lua

A miríade de rios, sem amor,

Inconformada é um mar de dor

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Uma história de Rita

      No pequeno quarto fechado e mal iluminado, a luz do abajur vermelho pesava sobre o ar quente e abafado. Flutuava um acre de suor e sexo. A romper a solidão, um arfar de corpos entrelaçados atingia seu êxtase. Em seguida, o silêncio da exaustão.
      O amanhecer se desejava entre tímidos feixes de luz que traspassavam as brechas da veneziana de madeira mofada. Trazia o frescor das ervas daninhas do quintal e amenizava a densa atmosfera do quarto. Uma brisa nos cabelos da velha prostituta adormecida de bruços descobriu-lhe o olho direito, que, no descerrar de suas pálpebras, pode vislumbrar os lábios cianosados e a pele marmórea do seu velho e costumário cliente; percebia que seu habitual e intenso roncar se transformara numa silenciosa e definitiva apnéia. Levantando-se vagarosamente, fitou o corpo obeso e frio sobre sua tão frequentada cama e constatou que dera o último momento de prazer ao calado homem que a visitava toda terça-feira, infalivelmente, para comprar o que a vida não mais lhe proporcionava.
       Com a serena sensação de dever cumprido, Rita pegou o telefone e chamou uma ambulância.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Uma duzia de rosas vermelhas, querida...



Numa lápide do cemitério,
Deixaram envoltas em fitas,
Uma duzia de rosas vermelhas.
A foto era amarela e antiga,
Inscrição apagada,descolorida.
Provavelmente uma namorada,
Um amor que se foi...

Eu nunca ganhei rosas vermelhas.
Como invejei aquela morta,
Que mesmo estando deteriorando,
Se fazia desejada, amada, lembrada
E eu aqui mofando...em vida!
Uma alma fúnebre que respira
E nunca ganhou rosas...

Peguei as fitas e joguei,
Uma a uma, no túmulo ao lado.
Cada botão de rosa que eu tocava
Morria, murchava, condenado
A ser um morto-vivo despeitado,
Como meu coração ali se mostrava,
Um mero órgão desapaixonado...

E a foto da inscrição apagada,
Verteu duas lágrimas caladas,
Longe da percepção humanamente sentida
Chorou por ter em morte gesto tão pleno de vida
__Uma duzia de rosas vermelhas querida!
E nem percebeu que haviam lhe roubado,
Nem as flores, nem as fitas...

Disso aprendi que o que vale
Não são as rosas que por ventura receba,
Mas o amor que por certo distribua,
Que faça, mesmo em morte, ser lembrada,
Mesmo depois de deteriorada,
Continuar a ser desejada e querida
Isso é só para os que foram plenos em vida!

Me Morte
(Feliz Aniversário Vale das Sombras- 02/2008)

ressuscitando para novas apreciações...

terça-feira, 5 de julho de 2011

Soldadinho de Royo e a Bailarina



Nem sei bem porque esperei tanto,
o cozinhei
(fogo brando),

- depois, foi a sua vez
de me deixar estalando,
no ponto -

E agora,
nessa fogueira imensa
em que liquefaço seu corpo,
e o deixo até um pouco tonto
e estremecido,

estamos fu(n)didos...