quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O momento exato

dia após dia
hora por hora
cada momento

um tormento
ir-se embora
câmara fria

apenas pó
cinzas só
ao vento

ora, ora, ora
hora certa
exato momento

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Sobre esperas e compulsões










Mais uma vez
mergulho.
O fundo é cego
e seu ruído surdo
martela
cada instante de ausência.
E cada palavra não dita
ecoa
numa mudez que fere.

Sístoles e diástoles
preenchem
o silêncio
da noite.


(Celso Mendes)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

JOÃO & MARIA

O convite foi uma surpresa sem tamanho; colaboradores há longos dez anos, eles jamais haviam participado de um encontro do círculo mais importante da organização. Admiração à parte, ali estavam eles; jovem casal desfrutando do privilégio de estarem reunidos à elite; os sorrisos podiam lhes parecer falsos, mas que importância isso podia ter? Eles também sabiam sorrir com falsidade.
A reunião avançara pelo dia sem que eles testemunhassem algum fato mais extraordinário. Ao invés de um almoço majestoso e lauto, eles estavam sendo servidos com alguns petiscos e bebidas, muitas bebidas; inclusive ele se perguntava se não estariam exagerando nas doses, afinal alguns dos presentes já estavam meio altos, ele teve que ser firme com um e outro que havia se aproximado mais ousadamente de sua mulher.
A tarde chegou e todos foram convidados a se dirigirem à área aberta onde uma imensa e fabulosa piscina aguardava que se banhassem em sua água límpida e tépida. Os mais embalados pelas bebidas foram os primeiros a se jogarem na cristalina superfície aquosa; alguns entravam como estavam, ternos e vestidos finos pareciam não representar empecilho algum; logo depois outro grupo se aventurou às águas, ao contrario do primeiro, este se jogou sem veste alguma; as mulheres e seus maridos pareciam desprovidos de qualquer senso de pudor.
Apesar de um tanto chocados, eles não demonstraram a consternação que sentiam; entre os membros mais íntimos da elite não deveriam existir barreiras, se todos agiam com tanta liberdade diante deles, era porque já os consideravam iguais. Um dos dirigentes aproximou-se questionando se não desejavam juntar-se aos outros. Não querendo causar algum embaraço, eles se jogaram na piscina; ainda reservados, uniram-se ao primeiro grupo ignorando o incômodo que as roupas lhes causavam.
Taças iam e vinham de mão em mão; era tanta diversidade que eles já não sabiam mais identificar se estavam se servindo de vinho, espumante, champanhe ou wiski, a noção de sobriedade perdia terreno e conseqüentemente a moral e o recato iam se diluindo, em pouco tempo todos estavam completamente nus. As mãos e as bocas se tornavam mais e mais ousadas, os membros e as intimidades femininas recebiam afagos indistintos; ninguém era de ninguém.
Casal solidamente constituído e aferrado aos costumes mais tradicionais, eles não se perceberam de quando foram colocados no centro dos acontecimentos, mas um senão mínimo incomodava suas consciências ao se verem tocados por tantos outros parceiros, eles jamais haviam sequer fantasiado um relacionamento além dos moldes permitidos pelos bons costumes; como encarar aquela verdadeira orgia?
Enquanto as mulheres se apoderavam de seu corpo, ele assistia, sem reação, sua mulher ser dominada pelos outros homens; um lampejo de lucidez clareou sua mente, seria aquele algum ritual de iniciação ao qual eles estavam sendo submetidos? Será que para pertencer à elite eles tinham que se sujeitar ao domínio de seus corpos por todos os membros da organização?
Mesmo incomodado pela visão de sua mulher sendo possuída, na verdade currada por tantos homens, ele não conseguia afugentar a excitação que sentia tendo tantas mulheres se oferecendo aos seus caprichos; bocas se alternavam num bailado inebriante em seu membro, mulheres se revezavam ofertando sua intimidade ao contato molhado de sua boca. Nunca havia ido além de relações formais e sob o sigilo da mais profunda penumbra do quarto conjugal.
Agora já não eram mais bocas, mas as próprias intimidades que colhiam seu membro. Estava ficando cada vez mais difícil identificar aquela que lhe cavalgava; em momentos fugazes, conseguia ver o corpo de sua mulher; ela estava sendo sodomizada pelos selvagens; tinha a intimidade invadida por membros vorazes; até mesmo seu pequeno e fechado anelzinho estava sendo corrompido; ele nunca havia sequer tocado o delicado orifício de sua mulher e agora via aqueles membros enormes penetrando-o sem qualquer cuidado, mas seus olhos não se concentravam em parte algum do corpo de sua mulher, pois as visões iam se sucedendo vertiginosamente; agora era a boca de sua mulher que recebia a visita de inúmeros membros, que disparate, ela nunca havia tocado seu membro a não ser com leves contatos das mãos.
Outras taças foram colocadas junto a seus lábios; estava tão inebriado que já não se sentia mais capaz de recusar qualquer líquido que lhe colocavam a boca; seu corpo estava tenso, mas não era por estar se sentido usado ou violentado, mas sim por pura e selvagem excitação; aquelas mulheres o estavam colocando num processo vertiginoso que culminaria num êxtase tão pleno que ele temia não resistir aos seus feitos.
Por seu lado, sua mulher se deixava dominar sem qualquer reação; ela devia estar tão embriagada quanto ele, em sua sanidade ela não permitiria aquelas baixezas que estavam praticando; em alguns lances, ele conseguia ver que ela tinha o rosto coberto por substancia viscosa e esbranquiçada que escorria de sua boca, de seus cabelos, pelas faces, pelos seios; aqueles desgraçados estavam ejaculando em sua mulher...
Antes que pudesse se enfurecer e se revoltar, sentiu que seu membro era comprimido por um canal tão apertado que a dor lhe tirou qualquer reação. Uma das mulheres estava sentada sobre seu colo e o membro havia sumido em seu interior, mas não em sua intimidade, mas sim em seu anelar inferior; o fato de estar tendo sua primeira experiência anal o deixou enlouquecido; de repente sua mulher desapareceu num vórtice de sensações inexplicáveis.
Racionalidade anulada, libido estimulada ao extremo, sensações carnais afloradas, o instinto de preservação suprimido, nem mesmo a ilusão de se ver partilhando de um grupo poderoso permaneceu; fosse efeito da beberagem ou da excitação, o certo é que a parte racional das mentes não assimilava mais nenhum estímulo exterior ao seu estado de completa entrega ao prazer. Frases soltas que não faziam o menor sentido chegavam quase inaudíveis a seus ouvidos.
Entre um grunhir e outro, entre um suspira e um gemer mais animalesco, eles ouviram algo sobre o banquete da noite; o prato principal devia estar pronto antes do anoitecer, a carne relaxada é mais tenra, o prazer deixa os músculos mais apetitosos... um riso senil ganhou as faces do homem, além de toda aquela orgia, ainda iriam saborear um banquete... ah, como era bom pertencer à elite, eles jamais voltariam a sentir-se preteridos ou ignorados.
Os sentidos se apagaram tão logo o prazer explodiu num ejacular violento; ele nunca havia sentido tamanho prazer, sua satisfação era tão intensa que desculpou a mulher por ter se mostrado tão vulgar, afinal o que ela poderia ter feito, eles ansiavam por aquele mundo, se aquele era o pagamento que lhes abririam as portas para a fortuna, que mal havia em ter sido violentada ou currado? Tudo estava bem, o amanhã estava envolto em fama e dinheiro.
Quando os olhos voltaram a se abrir todo prazer diluiu-se por encanto. Os corpos ainda estavam nus, deitados sobre uma superfície lisa e fria. Olhou para os lados procurando por alguém e encontrou a esposa na mesma posição que ele; tentou se levantar, mas uma pressão muito forte em seus pulsos e em seus tornozelos o impediu; que diabos estava acontecendo? Ao tornar a tentar abandonar a posição, compreendeu o que se passava, ele estava preso àquela estranha superfície. Voltou a olhar para a esposa constatando que ela também tinha os pulsos e os tornozelos amarrados por peças resistentes.
Quis gritar para chamar a atenção da esposa, mas não emitiu um único som; somente nesse instante sentiu a pressão em sua boca, eles o haviam amordaçado. Não sabia se a mulher ainda dormia ou se também estava na mesma situação que ele; grunhiu o mais alto que pode e se horrorizou quando a esposa atendeu aos seus apelos desesperados, ela também estava amordaçada. Antes que pudesse se entregar ao horror, uma luz se acendeu e passos ecoaram no ambiente.
O caminhar era moroso, quase que como para mortificá-lo ainda mais. Esperou que a pessoa surgisse diante de seus olhos, mas a espera o deixava mais irritado. Lançou um olhar de soslaio para a esposa e aí sim o terror se apoderou de seu ser; o homem que entrara tinha um cutelo em suas mãos apalpou o corpo da mulher, virou-se em sua direção e sorriu; um riso demoníaco e demente, um riso que deixava claro as intenções de seu emissor:

-- Ah, finalmente despertaram, que bom! Não gostamos de preparar o prato principal quando ele ainda está sem sentidos.

Se não estivesse com a boca amordaçada, teria gritado o mais alto que já conseguira, mas o som não saía; seus olhos se esbugalharam, seu coração acelerou tanto que ele quase perdeu os sentidos. A mulher não reagiu de modo diferente, o horror era visível em seu semblante. Ambos compreendiam toda trágica situação; o prato principal seria preparado com seus corpos.

-- O que foi? Ah, estão querendo dizer algo. Bem não desejamos ouvir nenhuma reclamação. Não reclamaram enquanto se divertiam com todos, não é?

As amarras eram tão firmes que eles não conseguiam nem mesmo se contorcer sobre a superfície. Os movimentos que tentavam executar causavam dores violentas, logo eles desistiram de tentar mover-se. Os olhos eram os únicos órgãos que conseguiam acompanhar o deslocamento do homem, ele parecia brincar com o terror que causava em suas vítimas.

-- Acreditaram mesmo que seriam admitidos entre nós? Quem são para imaginarem que mereciam tal deferência? Tolos, somos pessoas muito além das limitadas posições que ocupam na sociedade, vocês não passam de repasto, de alimento para nós.

O enorme instrumento de corte se elevou sobre a cabeça do homem; uma sombra soturna cobriu o corpo da vítima; vertiginosamente a lâmina desabou sobre o membro inferior do imolado. O grito desesperado de dor não ganhou espaço, a mordaça impedia qualquer som de soltar-se do invólucro bucal, o sangue jorrou tingindo a veste do carrasco. Uma perna desprovida de sustentação desabou sobre o chão.

-- Oh, eu errei o golpe, devia ter sido apenas o pé, uma pena ter cortado tão acima do desejado.

A mulher olhou para o marido ensangüentado; sem que precisasse de explicações, sabia que seu destino era o mesmo, aquele homem iria esquartejá-los ainda vivos. O medo avolumou-se, o terror cresceu e a impotência deixou claro que nada podia fazer, ela seria a próxima...

-- Experimentaram o prazer mais alucinante que poderiam desejar, suas carnes ficaram macias, agora é hora de deixar suas mentes entorpecidas, o cérebro precisa estar fragmentado para expelir a mais saborosa e preciosa de todas as substancias que contém. O banquete será divino.

A lâmina voltou a ação decepando um dos braços. O sangue banhava o semiconsciente imolado. O carrasco ria com vontade, a mulher externava todos seu terror eliminando urina e excremento, a condição humana havia sido degradada de modo a forçá-la a reações que vexariam qualquer vivente, mas naquelas condições, ela não tinha como reagir de modo diferente.

-- Maldita! Está querendo emporcalhar a mercadoria! Vou ter que lavá-la antes que esta porcaria afete o sabor da carne.

Um jato potente partiu de um ponto incerto, a água lavou toda sujeira que havia se depositado sob o corpo da mulher. Dejetos e líquidos se misturavam antes de se precipitarem num ralo colocado sob a estranha superfície. O frio contato da água a deixou ainda mais desperta, agora ela não contava nem mesmo coma embriaguez originada pela beberagem experimentada.

-- Terei que tomar medidas extremas para que não perca o sabor.

Atendendo a um chamado inaudito, dois homens entraram no recinto, soltaram as amarras que a prendiam, agarraram-na com firmeza conduzindo-a para um enorme vaso colocado em um dos cantos da sala. Sem o menor cuidado, emergiram-na no líquido que estava contido no vaso. Quando ela tentava emergir, eles voltavam a empurrá-la para o fundo do vaso, seus pulmões estavam ardendo de tanto líquido que ela ingeria.
O sabor ácido, que penetrava pelas narinas, fazia com que toda sua via respiratória ardesse como se estivesse respirando fogo puro. A tortura prolongou-se por uma eternidade, mas de repente eles a retiraram do vaso; antes tivessem deixado que ela morresse ali mesmo.
Com brutalidade ela foi colocada de bruços sobre a superfície. As mãos seguras por um dos homens e as pernas separadas pelo outro. O carrasco sumiu de sua vista, mas logo ela soube o porque. Um objeto pontiagudo foi encostado em seu ânus e em seguida começou a ser forçado para seu interior. Ela chorou mesmo sem poder emitir qualquer som, as lágrimas caiam sem controle. Sem saber o que se passava, ela só podia sentir, sentir que a estavam partindo com uma imensa vara que penetrou seu ânus e viajava pelo interior de seu corpo.

-- Vamos empalá-la devagar, a fogueira ainda não deve ter atingido a temperatura ideal.

Fogueira? Se fossem monges inquisidores, ela saberia que estavam preparando-a para ser morta na fogueira, mas não era isso que ela acreditava fosse acontecer, eles a estavam preparando para ser assada em uma fogueira, ela iria virar churrasco. Com muito esforço ela conseguiu lançar um último olhar para o marido, ele não existia mais, apenas pedaços de um corpo sem vida colocados sobre a superfície tingida pelo sangue vertido. O fim estava próximo, o banquete iria começar em poucos minutos.
Um último pensamento passou por sua mente distorcida, eles haviam vivido um efêmero momento de suposta glória, mas a verdade se mostrava mais dantesca do que podiam imaginar; o marido morrera sem maiores aflições, mas ela iria penar até que as chamas a consumissem ou a fumaça a asfixiasse, de qualquer forma, ela ainda estaria viva quando começassem a cortar as partes suculentas de seu corpo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

SUICÍDIO


Ela olha para baixo, para o precipício escuro e profundo.

Em sua mente passa de um chofre, toda sua vida.

Ela busca a coragem, passo final, para sua descida vertiginosa.

Não existe saída, não existe nada nem ninguém que a impeça.

Já não se sente morta? É fato.

O cansaço dos anos pesa-llhe os ombros cansados.

Suas unhas pintadas já não tem espaço, nem porque.

Pensa nos que vão ficar, é até capaz de alguém chorar.

Mas logo será esquecida, como muitos outros suicidas.

Seu corpo despedaçado será encontrado em breve.

Nem um bilhete ou carta de despedida. Para que?

A tristeza é tão grande que nada mais vale à pena.

Cansou de esperar, cansou de lutar, sobreviver.

O futuro incerto da morte lhe parece melhor que a vida que leva.

Ela não quer a decrepitude da velhice iminente.

Não tem mais contato com a vida , que ela tanto despreza.

O vento açoita-lhe o rosto banhado em lágrimas.

Só mais um passo e tudo estará consumado.

Olha para os lados, ninguém. Olha para o alto, ninguém.

É agora, respira fundo pela última vez.

Olha o fundo escuro e misterioso.

Não deixará um vestígio. Para quem?

Mais um passo....

Adeus!


By Ana Kaya

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Atenuante

À noite minha cama
se enche de demônios,
e o choro de crianças não nascidas.

São césares, otelos, minotauros,
creontes, menelaus, jasões e midas.

Chegam de costas, como a saírem,
carregando as almas tortas
mancando atrás dos corpos.

São íncubos furiosos e antigos
de olhos másculos, músculos,
espartanos, falos maiúsculos
e vem brandindo os rabos
e os remorsos
pra ter alento
nessa boca tântrica
e na doçura soberana do meu dorso.

tenho o equilíbrio das forças
entre as cheetas e os antílopes,
papoulas, carma dos lobos,
entre meus dedos de morgana

tenho o olhar dos destinados
às grandes revelações e martírios
contrastando com a cara de sacana

e a pele santeria
manuscrita em pena ígnea
que dissolve cianetos,
aleijões, incestos,

e faz das faltas deles
meros palimpsestos.

Quando amanheçe,
e peço aos céus,
que acabe logo com isso...

bem, eles se vão, como a chegar,
quando repito, como se fora em prece:

"ao menos uma vez
me mandem cristo".

(postagem de 11/08/09, agora com vídeo feito por Márcia Regina Medina)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Por detrás das lágrimas

Rasteja o ente entre as tumbas
Por sobre a terra fria e úmida
As vestes rotas pelo chão que o seguem
Levam um séqüito de flores pútridas

Criatura criada à imagem do Criador
Hoje vaga em meio a lápides e detritos
Aborto expurgado pela mãe desdita
Percorre as dores deste mundo insano

Este ser bizarro é mero espectro profano
Sacia o cio usando o vil metal
Mais fera híbrida do que humano
Rega folhas mortas com o sêmen fétido

A mão que estende é de chagas feitas
Lazarento resto do que foi em vida
Só vê sua imagem através das lágrimas

O reflexo que lhe devolve, não o reconhece
Simulacro de homem que já foi outrora
Insensato objeto do amor que jogou fora

Clama aos céus sem nenhuma prece
Chora, o pária, genuflexo
Ao ver sua alma pelo avesso.