quarta-feira, 30 de março de 2011

Sorriso Convidativo

Naquele tédio dominical meus amigos estavam com suas namoradas ou estavam descansando diante das drogas midiáticas de domingo, por isso não os chamei para que me acompanhassem em mais uma aventura, como era de costume esse seria um passeio noturno solitário para matar o tédio. Eu me sentia um lixo e não revelaria isso a ninguém, certas coisas são tão minhas que minha boca não pode explicar. Mataria o tédio ou ele me mataria por dentro, essa era minha sentença, por conta disso me arrumei com as melhores roupas e perfumes para um passeio casual; peguei minha carteira com umas pratas, chaves, caneta e papel e fui andando pelas ruas naquela noite. Após caminhar a pé encontrei um inferninho de pouca luz, decoração retrô, mesas com algumas pessoas variadas e mulheres que pareciam esperar um convite para conversa e eu era um dos poucos homens no local, para minha felicidade, mas eu não queria conversar, talvez não ainda. Fui recebido por uma linda e simpática balconista que apresentou o bar que tinha um clima interessante, disse-me que o microfone era livre para artistas; e eu nem pensava mais em produzir artes. Como eu já me encontrava condenado a ser demitido de uma latrina profissional fui abraçar o Diabo travestido de bebida alcoólica, os meses anteriores foram sofridos no trabalho e por um raro momento eu nem mesmo sabia o que queria para mim. Portanto bebi solitário do lado de fora do bar, tentando avistar estrelas e mantendo-me isolado, queria até andar mais e deitar numa grama para observar as belezas noturnas, mas lá fiquei. Avistei várias mulheres com diferentes belezas e umas nem tão agraciadas pela natureza. Não quis me dirigir a nenhuma delas, notei olhares e leves sorrisos, mas eu nem estava com clima de pronunciar qualquer coisa, queria beber, apenas beber e talvez pensar. Pensei seriamente em me abrir mais para conhecer novas pessoas, mas cadê o estímulo que vem de dentro? Talvez a noite ainda reservasse algo especial para mim.

Uns músicos amadores talentosos se apresentaram e assisti suas apresentações, bebi calado a curtos goles e veio a pausa dos artistas, resolvi entrar no bar e ocupei uma mesa vazia. Surgiu uma moça do nada quando virei o rosto para o lado, ela estava vestida com chinelos pretos, saia cigana vermelha, blusa decotada preta solta na pele, e tinha pulseiras, brincos e bolsa em estilo hippie; era de baixa estatura com pele clara, cabelos pretos ondulados até os ombros, olhos castanho escuros e uma boca com sorriso convidativo; passou perto de minha mesa, deu um sorriso que mesclava inocência e luxúria e seguiu até o microfone. A pequenina foi ao palco e cantou músicas nacionais e estrangeiras famosas sobre amores decadentes, mulheres cativando homens e outras coisas românticas sugestivas em MPB, blues, jazz e rock progressivo. Cantou com uma certa técnica e muita emoção em sua doce voz que variava do soprano ao contralto e nas névoas de cigarros e charutos daquele bar eu fui embalado pelo seu canto sedutor. Sorria discretamente para minha direção enquanto cantava e pensei que não era comigo, mas eu era o único homem na posição de seu sorriso, então sorri. Fui recompensado com um sorriso completo com dentes e olhos brilhando; ela mal sabia que eu tinha uma grande atração por cantoras, era como se ela soubesse como me cativar. Pensei "mocinha, não faz assim que você me leva no bico", virei o rosto para disfarçar meu interesse por ela e acabei minha primeira garrafa de cerveja barata.

Ela andou devagar desviando das mesas e cadeiras, pediu uma cadeira, disse-lhe "leve todas as cadeiras que quiser", então sorriu para mim, desistiu das cadeiras e sentou-se perto de mim dizendo estar solitária e interessada em conhecer novas pessoas. Não sou vítima do amor romântico, mas por aqueles minutos eu só queria ilusões, pois a realidade era drástica demais para que eu me concentrasse nela. Sentou-se colada ao meu corpo e pedi a balconista bonitona uma garrafa de vinho tinto bem doce acabando por sacrificar todas as cervejas baratas que compraria. Li o rótulo daquela garrafa fingindo ser algo inédito. Pedi mais um copo para a hippie, e ela bebeu comigo, a mesma era baixinha, talvez tivesse pouco mais que um metro e meio e pés por volta do tamanho trinta e quatro. Conversamos assuntos inteligentes e divertidos regados a álcool, depois bebemos uma garrafa de vodka paga por ela que me rasgava a garganta mas valia a pena pela companhia. A hippie me perguntou algo que não lembro, quando virei o rosto para respondê-la fui interrompido por um beijo na boca; nem tive tempo de pensar, os beijos dela foram súbito, fui abraçado de lado pelas costelas, paramos de nos beijar e ela permaneceu fortemente abraçada a mim. Quase tive um torcicolo para beijá-la pela nossa diferença de altura, mas ignorei a dor e continuei abraçado fazendo-lhe carinho na nuca e cabelos. Conversamos ainda mais e não nos apresentamos por nossos nomes parecerem obsoletos. Pegamos nossas garrafas de vodka e vinho e caminhamos abraçados bebendo no gargalo como se nos conhecêssemos há tempos. Entre um gole e outro, mais beijos e abraços apertados rolavam.

Deitamos num gramado mais afastado na madrugada e observamos estrelas, falando coisas intelectuais e bobagens, já estávamos arrastando a voz pela embriaguez. Aqueles momentos foram tão profundos e gostosos parecia até uma piada do suposto destino, pois eu era imã de mulheres problemáticas. Então ela me deu um bilhete fechado e me fez prometer que eu só abriria quando chegasse em casa, aceitei a carta com curiosidade, mas fui fiel ao compromisso pedido por ela. Depois de várias horas juntos nos despedimos calorosamente com abraços fortes e beijos selvagens com mordidas, perguntei se a encontraria novamente, lembro de sua voz arrastada a dizendo: "Não se preocupe, eu vou te buscar para comemorar meu aniversário amanhã". Dei um abraço e beijo de presente e o resto de vinho da garrafa, ela bebeu tudo num só gole. Várias horas depois eu acordei e li o bilhete que estava todo amassado dentro de minha carteira, continha um endereço de um cemitério na cidade vizinha com o horário de 16h e com um beijo em batom rosa claro como assinatura. Almocei e me arrumei ainda com um pouco de ressaca; era uma tarde nublada e cheguei ao cemitério no horário marcado, fiquei esperando por muitos minutos até que tive uma curiosidade por observar a beleza dos túmulos e mausoléus. Notei duas garrafas por trás de um arranjo de flores, em um túmulo todo colorido, provavelmente era de alguém que morreu jovem, aproximei-me e removi um vaso com flores mortas da frente da lápide e percebi que eram as garrafas que a hippie e eu bebemos na madrugada, logo consegui ver a lápide agora descoberta e encontrei a foto da moça com aquele sorriso convidativo e os dizeres "Camila Arlequim Vinhedo. Nascimento: 20 de março de 1940 - Falecimento: 21 de março de 1964. Uma vida de emoções fortes que foi prematuramente interrompida". Fiquei triste pela morte dela e pensei se haveria um próximo encontro. Dessa vez eu tinha me engalfinhado com um fantasma hippie, já me relacionei com várias mulheres loucas, mas ter romance com uma mulher que já morreu é novidade para mim... realmente as leis de Murphy me perseguem muito.



- Mensageiro Obscuro.
Março/2011.


Foto: Isis Valverde. Postei essa foto por achar o rosto e sorriso dessa atriz lindos.

sábado, 26 de março de 2011

Tempestades


Turbilhão de algodão
mudando de cor
enegrecendo,
pesando...

Fúria!

Apresenta-se a luz
Inúmeros raios...

Força!

Ventos fortes
carregando tudo
a mim,
a ti...

Desaba!

Água
Será o choro do mundo?
Glória dos dias?
Bençãos caindo?
Ou somente
um coração sangrando...

por Moon Shadow

quinta-feira, 24 de março de 2011

O dia do descanso de Deus (*)

Capítulo 1






Romão nada temia.



Tipo calado, até taciturno. Consta que rira uma vez.



- Ainda menino, diziam alguns velhos que o conheceram antes que passasse a usar chapéu. Um de abas curtas e copa baixa. Enterrado na cabeça até onde se plantavam sobrancelhas negras, espessas.



- Foi uma brincadeira, molecagem, abrandava Alarico, amigo de Romão e dono de um cachorro manco que, atiçado ou desatinado, se botou um dia na jovem Florzinha até arrancar-lhe as saias. A de cima e a de baixo, na frente do criaredo, luz do sol a pino, no meio da rua. Romão não conteve o riso. Pouco, bem que se diga. É verdade que logo cedeu à vergonha por zombar da desgraça alheia e fechou-se.



Coragem em Romão era sobrenome. Ele não assinava, mas o povo sabia. Assinatura do tipo é marca, se faz, se repete, não muda mais. Não é bengala, nem muleta tomada emprestada. Faz parte do corpo, constitui o ser. Romão nada temia. Só cuidava de a vida não ser pega de surpresa pela morte. Tanto é que não descuidava da própria sombra. Cuspia no chão sobre a sombra do corpo, sem se mexer.



Era para saber se nela não se escondia a morte, ouviram-no justificar a esquisitice uma vez. Pois o tal gesto foi mal interpretado de uma feita. Achou um cuera de especular da razão. Intimou no grito. Sem resposta, desacatou Romão. Grosseria berrada na calmaria morna do lusco-fusco num boteco. Buliu em vespeiro. Houvesse trilha, seria em dó de contrabaixo com arco de crina de cavalo e corda de tripa de carneiro.



Sem erguer os cotovelos da madeira luzidia de um balcão tosco encerado por dúzias de mangas de flanela, brim ou panos de algodão cru ali escorridos, nem levantando os olhos de sob a aba do chapéu, Romão falou, ainda de costas, fitando o reflexo do desafiante num espelho enferrujado da prateleira de bebidas atrás do balcão:



- Valentia não é coisa que se cheire ou bebida barata que se arrota em boteco.



- Nem covardia! Urrou o cuera, no tom de desfeita, puxando da cintura uma pistola, disparando um tiro.



Um jorro de sangue descreveu curva tênue por sobre o reflexo do homem no balcão até uma cruz efêmera formada pela sombra de ambos no assoalho. Romão percebera o sujeito às suas costas sacando uma pistola. Tal um felino, girara o próprio corpo sobre os saltos da bota, projetando veloz o fio da navalha. Riscou de vermelho, fora a fora, o pescoço do desafeto. Não se ouviu mais som qualquer, após o corpo desabar frouxo os costados no piso gasto do bar. Romão bateu de leve os saltos no assoalho de madeira, anunciando despedida.



Saiu a passo. Lento e firme. Parou um momento no meio da rua sob o sol que banhava morno o fim de tarde. Sem se virar para o que já lhe parecia distante passado, cuspiu novamente na própria sombra.
 
____
Primeira novela minha, publicada em 31 de maio de 2007. Esgotada a edoção impressa, disponibilizei o texto integral grátis.  Aqui!

quarta-feira, 23 de março de 2011

Fora de controle


Eu não gosto do mundo, mas vivo nele. Por isso tento viver conforme  o meio, dançar contorme a música. Mas confesso, prefiro os momentos em que sou protagonista ou coadjuvante de alguma novela que esteja escrevedo. Porque lá eu choro, sangro, sinto dor, mato, faço chorar e até fico feliz,  as vezes. Mas sou eu que comando todos os destinos. Ah! Eu comando!
E como é bom brincar de Deus!

segunda-feira, 21 de março de 2011

Filha da noite

Por onde perambulam os sonhos de milhares de meninas e meninos?

há uma ruptura neste azul que te acinzenta
e te empalidece os olhos
sob o frio deste sol
a iluminar
mais uma manhã que não sorri

migalhas de gemidos
dançam
nos vãos de teus dentes amarelo-tabaco
sob a vertigem de estrelas artificiais
regada a alcalóides e anfetaminas
de fins de noite
em que luas se cobrem de limo
entre lençóis acres
torporosamente revirados
e fumaça

resta o vazio
a latejar ouvidos
o corpo cansado
ranhuras de amores fantasmas na pele
um choro no esôfago
e sonhos de princesa
trancafiados na masmorra
dos dias

amanhã
talvez
um talvez indolor
uma flor
nova cor
amanhã
de manhã

talvez

(Celso Mendes)

segunda-feira, 14 de março de 2011

VIAGEM

Estar ao volante de um veículo não era uma atividade habitual ou necessária, mas a dica recebida de sua fonte mais confiável compensava aquela postura incomum. A auto-estrada não era das mais movimentadas, na verdade poucos veículos cruzavam por ele, a solidão era sua mais agradável companheira. O velocímetro marcava velocidade que nenhum outro condutor se arriscaria a imprimir ao automóvel, mas ele não se importava com os desdobramentos de um possível acidente, a morte seria uma bênção; aliás, uma bênção que ele sabia não receberia, pelo menos não naquela noite.
Após um tempo prolongado em demasia para sua apreciação, o objetivo de sua viagem se mostrou a sua frente; o posto de serviços estava encravado em uma área plana, quase deserta, não fosse por duas ou três outras construções. Do interior do veículo ele pode notar que o movimento era inusitado tanto para o adiantado da hora quanto para a localização do posto. Um riso de satisfação ganhou seu semblante.
Seria impossível não perceber sua chegada; habilidade ou irresponsabilidade, ou ambos, ele freou com tanta vontade que os pneus cantaram devido ao atrito deslizante; a surpresa não era uma de suas intenções, que todos soubessem que ele havia chegado. Como se fosse um viajante comum, ele desceu, trancou o veículo e se dirigiu ao restaurante do posto.
Mal havia colocado os pés no interior do estabelecimento quando sentiu que um braço rude prendeu-se ao seu pescoço numa chave sufocante. O contato contundente na região de suas costas serviu para alertá-lo sobre a arma que tinha apontada contra si. Lançou um olhar apurado para o interior do restaurante e sobe o que se passava: um assalto.

-- Não reaja e nada de mal vai lhe acontecer. A voz gutural deveria intimidar qualquer um, mas ele na esboçou o menor temor.

A ação dos bandidos, que ele contara serem três, devia estar no fim; as pessoas estavam deitadas ao chão, os dois assaltantes que coletavam os pertences e o dinheiro caminhavam para a porta... o aroma, o doce aroma que invadiu suas narinas deixou-o perplexo; um assalto aquelas horas, num lugar isolado de tudo e aqueles facínoras haviam executado suas vítimas. Os corpos caídos ao chão não pulsavam mais, o sangue sob eles era resultado de projéteis mortais.
Com extrema violência o bandido o conduziu na direção do automóvel em que chegara. Os outros os seguiam com a mesma pressa. O que eles temiam? Todos estavam mortos. Polícia? Demoraria muito até que o crime fosse descoberto. Por que a pressa?

-- Vamos! Seu carro parece ser veloz o bastante. Dirija sem gracinhas e tudo acabará bem.

A partida se deu de modo similar à chegada, o veículo foi lançado à auto-estrada como um bólido chamejante. As curvas e retas eram engolidas sem o menor cuidado; aqueles que deveriam ser os amedrontadores começavam a sentir um temor inédito; será que haviam escolhido um louco para a fuga?

-- Para onde ia? O bandido que sentara no banco do carona tentou desviar a atenção de seu refém.
-- Por aí.
-- Sem destino?
-- Com um objetivo.
-- Qual seria esse objetivo?
-- Um encontro.
-- Ah, uma vadia qualquer.
-- Não!
-- Está bem, poderá ir para seu encontro depois de nos deixar bem longe daqui.

O diálogo não fez o motorista diminuir a velocidade do veículo muito menos desviar seu olhar da estrada; sem bem que ele dirigia como se não necessitasse prestar atenção a detalhe algum. A frieza de sua voz não foi registrada pelos bandidos e por um breve momento apenas o ronco do motor e o estridente deslizar do veículo eram ouvidos.

-- Um encontro nesse fim de mundo?
-- Sim.
-- Quem marca um encontro nesse fim de mundo?
-- Um amigo me deu a dica.
-- Bem, não deve acreditar em tudo que lhe dizem.
-- Ele nunca se enganou.
-- A não ser desta vez.
-- Ele nunca se engana.

A última frase despertou uma sensação ruim nos bandidos. Somente então eles passaram a analisar o refém. Era um homem de aspecto comum, não se notava nenhuma particularidade que pudesse chamar a atenção a não ser o olhar. O refém possuía um olhar tão gélido que era possível sentir o frio que eles emanavam subir pela vértebra instalando-se no centro do plexo solar.
De repente eles sentiram seus corpos serem cobertos por suor e a sensação de frio espalhar-se fazendo-os tremerem. Num esforço desesperado, o líder dos bandidos tentou recuperar o controle de suas emoções; eles eram os bandidos e o motorista era apenas o refém, a garantia de que escapariam.
O medo não tinha espaço em seu âmago, mas pela primeira vez ele o sentia sem saber ao certo o motivo; olhou de soslaio para o refém, mas este mantinha-se concentrado na estrada, ao menos seus olhos estavam voltados para ela. Num assomo de terror decidiu que não poderiam deixar aquele refém vivo; o faria dirigir até um ponto qualquer e daria cabo da vida do infeliz.

-- Entre na próxima vicinal que encontrarmos.
-- Não conhecem a região, podemos acabar numa estrada sem saída.
-- Não importa, pegue a próxima vicinal.

Nem seus comparsas entenderam seus objetivos. Pegarem qualquer desvio iria atrasar a fuga, por que o líder tinha decidido assim? Trocaram um olhar de incompreensão na tentativa de sondar o pensamento alheio, mas só encontraram o mesmo medo que se refletia através de suas pupilas. Ato reflexo, olharam para o líder, mas ele se mantinha concentrado no refém.

-- Ali! Pegue aquela saída.
-- Não existe nada naquela direção. Esta estrada não leva a lugar algum.
-- Melhor assim.

O breve diálogo estabelecido pelo líder e o refém serviu para clarear a mente dos comparsas; aquele desgraçado estava com seu tempo contado. Não havia outro motivo para estarem pegando uma estrada que não conduzia a lugar algum. Mecanicamente eles sacaram suas armas verificando a munição.
O medo estava se espalhando com tamanha virulência que eles já não tinham mais condições de assimilarem as nuances inusitadas da situação; o veículo continuava em sua marcha célere e apesar do piso irregular não se sentiam solavancos ou manobras mais bruscas; a condução era tão limpa quanto quando ainda estavam rodando pela auto-estrada.

-- Pare! Vociferou o líder dos bandidos.

A freada foi tão brusca que as armas voaram das mãos dos comparsas; o líder bateu a cabeça violentamente contra o pára-brisa. Um delgado filete de sangue escorria da fronte do bandido; um ódio desmedido fulgurou em seus olhos, seus lábios se contraíram num esgar de fúria incontrolável, com a habilidade que era possível, desferiu potente soco no rosto do refém:

-- Desgraçado! Via pagar caro por esta agressão.

O refém manteve-se impassível, seus músculos não demonstraram a menor contração, seu olhar manteve-se impávido, seu semblante tão passivo quanto até então. O soco parece não ter lhe causado maiores contratempos, silencioso e tranqüilo, ele aguardou pela ordem para descer do veículo.

-- Desça! Vomitou o bandido num urro furioso.

O local era completamente ermo. A escuridão só cedia espaço para o campo abarcado pela luminosidade dos faróis. Coroando o cenário desolador, uma pesada precipitação pluvial se manifestou repentinamente. O frio quer já dominava os âmagos dos bandidos se intensificou com a sensação de umidade trazida pela chuva, apenas o refém pareceu não se incomodar com o aguaceiro.

-- Eu pretendia cumprir minha palavra e deixar que você seguisse para seu encontro, mas você tinha que bancar o espertinho.
-- Não se preocupe com meu encontro.
-- Sempre existe uma primeira vez para tudo.
-- Sempre.
-- Desta vez foi seu amigo quem cometeu o erro de lhe dar uma dica furada.
-- Ele nunca erra.
-- Bem, eu não pensaria o mesmo estando prestes a ser mandando para o inferno.
-- Não pode me mandar para lá.
-- Para o paraíso? Que seja, tanto faz o lugar para onde vá depois de eu ter acabado com sua miserável existência.
-- Não pode me mandar para lugar algum.

Pela primeira vez o bando sentiu a voz cavernosa do refém retumbar na escuridão da noite. Quem haviam tomado por refém? Tarde demais eles haviam se dado conta de que o refém não demonstrara medo algum durante todo o tempo em que o mantiveram como trunfo para a fuga. Agora que sua voz sobrenatural ecoava no vazio noturno, eles sentiram o pavor que deveriam ter despertado no refém.

-- Chega de conversa fiada, atirem!

Os disparos foram simultâneos, diretos contra o peito e a cabeça do refém. Olhares pasmos e tomados de pavor contemplaram a vítima incólume, até sorridente, fixá-los como se nada tivesse acontecido. O medo atingiu seu ponto culminante, de repente uma necessidade capital se instalou nos âmagos dos três bandidos: fugir, correr desesperadamente para longe dali, mas para onde?

-- Como eu disse, meu amigo nunca erra em suas dicas. O encontro sempre acontece.

O ataque foi fulminante; em pouco mais de cinco minutos três corpos jaziam sem vida jogados na lama que começava a se formar no solo da estrada. Um rubro vivo misturava-se a água que precipitava do céu. Os faróis iluminavam o semblante satisfeito do refém; de seus lábios vertiam os vestígios da beberagem perpetrada, o excesso de sangue escorria livre obrigando o refém a passa o braço por sobre eles.
Um trovão cintilou no horizonte como se registrando a cena terrível. Sem dar importância às evidencias que deixava no local, o refém agradeceu a si não ter que fazer uso do veículo para retornar ao seu reduto. Necessidade atendida, ele assumiu sua conformação etérea e lançou-se em um vôo pelo de regozijo.

ECOS DO PASSADO

Ah, quanto tempo sem ouvir tua voz.
Doce melodia que encantava meu viver.
Agora, sepultada ou perdida está.
No Vale dos Reis, sob o sol do entardecer.

Por que não falas mais comigo, ó doce amor?
Por que não me dás mais a força de teu coração?
Por que o desprezo a quem tanto te estimas?
Beiro o desespero, seria uma traição?

Em vão te vejo sorrateiro aparecer.
Dás o ar de tua graça para outros amores vãos.
Finges que não me vês, que não vês minha emoção.
Finges que não me amas, queres ver-me perecer.

O que foi que te fiz, doce amado meu?
Proferi alguma palavra que porventura te ofendeu?
Apenas os ecos do passado povoam minha escuridão.
E sem nem saber por que, aqui estou entregue a solidão.

By Ana Kaya

sábado, 5 de março de 2011

Suja

Essa folia toda de mostrar gengivas
e levantar os braços,
- a-lá-lá-ô! -
aguentar, quem há de?

No carnaval queria mesmo
era ficar na cama
com o Marquês de Sade.



(poema do meu livro POESIA SE ESCREVE COM TESÃO)



sexta-feira, 4 de março de 2011

O nada


Subi na montanha mais alta
A cada pedra escalada
Deixaram cortes em minhas mãos.

Passei por desfiladeiros
Onde a vontade era desistir
soltar as mãos e deixar o corpo cair.

Subindo e deixando sangue
Sangue do esforço
Sangue do desgosto...

A dor aumenta e rasga a cada dia
Escalada maldita solitária
ao encontro de coisa alguma

Por muitas vezes parei
em algum patamar sentei,
pensei e tentei desistir.

Adormeci...
E os sonhos não me deixaram
me empurrando a seguir

Cheguei ao cume
Exausta...
Sentei e chorei, pois também,
nada havia ali.
Pois onde quer que eu esteja
nada há em mim.


Por Moon Shadow