sábado, 29 de agosto de 2009

A Máscara da Morte Escarlate




De Edgar Allan Poe
Tradução de Glória Athanázio e Karla de Barros Leite

A morte escarlate há tempos devastava o país. Nenhuma peste havia sido tão fatal, ou tão hedionda. Sangue era seu Avatar e seu selo – a loucura e o horror do sangue. Surgiam dores agudas, tontura súbita e, em seguida, sangramento em profusão pelos poros e a consumição. As manchas vermelhas no corpo, em especial no rosto da vítima, eram maldições proibidas que a afastavam do socorro e da simpatia de seus companheiros. E todo processo, a evolução e o extermínio, ocorria em meia hora.
Mas, príncipe Próspero era feliz, destemido e sagaz. Quando a população de seus domínios foi reduzida à metade, convocou à sua presença um milhar de saudáveis e despreocupados amigos entre os cavaleiros e damas de sua corte, e com estes retirou-se à total solidão de um dos seus mosteiros fortificados. Esta era uma estrutura extensa e magnífica, uma criação própria do príncipe, excêntrica, mas de um gosto majestoso. Completamente cercada por uma forte e altiva muralha, era protegida por portões de ferro. Após a entrada dos cortesãos, trouxe pesados martelos e fornos e soldou-lhe as trancas.
Resolveram não deixar meios de entrada ou de saída, para os súbitos impulsos de desespero ou para a loucura que havia à volta. A abadia foi amplamente abastecida. Com essas precauções, os cortesãos poderiam desafiar o contágio. O mundo exterior podia cuidar de si mesmo. Nesse momento, era loucura sofrer ou pensar no assunto. O príncipe tinha providenciado todos os tipos de prazeres. Havia bobos da corte, repentistas, bailarinos, músicos, Beleza e vinho. Tudo isso, mais a segurança, estava lá dentro. Lá fora estava a “Morte Escarlate".
Ao final do quinto ou sexto mês de sua reclusão, o Príncipe Próspero recepcionou seus milhares de amigos com um baile de máscaras de uma magnificência fora do comum.
Era um cenário voluptuoso, aquele do baile de máscaras. Mas, primeiro, deixe-me falar das salas onde ele foi preparado. Eram sete - uma suíte imperial. Porém, em muitos palácios, essas suítes formam um amplo e extenso cenário, quando as portas dobráveis deslizam até bem próximo das paredes em ambos os lados, para que a visão total não seja prejudicada. Aqui, o caso era muito diferente, como era de se esperar vindo do duque do amor pelo "bizarro". Os apartamentos eram tão irregularmente dispostos, que a visão cobria pouco mais que um por vez. Havia uma curva acentuada tanto para a direita como para a esquerda e, no meio de cada parede, uma alta e estreita janela gótica dava para um corredor fechado que acompanhava o contorno da suíte. Essas janelas eram de vitral, cuja cor variava de acordo com a tonalidade predominante na decoração da sala que se abria. Aquela, na extremidade oriental, por exemplo, era azul - e de um azul vívido eram suas janelas. A segunda câmara era roxa em seus ornamentos e tapeçarias, e ali os vidros eram roxos. A terceira era toda verde, e assim eram os batentes da janela. A quarta foi mobiliada e iluminada com laranja - a quinta com branco - a sexta com violeta. O sétimo apartamento estava envolto em tapeçarias de veludo preto, penduradas por todo o teto e nas paredes, caindo em pesadas dobras sobre um tapete do mesmo material e tonalidade. Mas, somente nesta câmara, a cor das janelas não correspondia à decoração. Os vidros eram escarlates - uma cor profunda de sangue.
Em nenhum dos sete apartamentos havia qualquer lâmpada ou candelabro em meio à profusão de ornamentos dourados espalhados por todos os cantos ou dependurados no teto. Não havia qualquer tipo de luz proveniente de lâmpada ou vela dentro da suíte das câmaras.
Mas nos corredores que circundavam a suíte havia, diante de cada janela, um pesado tripé com um braseiro, que projetava seus raios pelos vitrais coloridos e, assim, produzia uma infinidade de efeitos vistosos e fantásticos. Mas na parte oeste, na câmara posterior, o efeito do clarão de luz que jorrava sobre as cortinas escuras através das vidraças cor de sangue era desagradável ao extremo e produzia uma visão tão selvagem do semblante de quem entrava que, afinal, poucos ousavam colocar os pés naqueles limites. Era também nesse apartamento que se achava, encostado à parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo balançava com um ressonar aborrecido, pesado, monótono; quando o ponteiro dos minutos fechava o circuito, e estava para fechar a hora, veio dos pulmões de bronze do relógio um som, que era claro, alto, profundo e extremamente musical, mas com uma nota tão peculiar e enfática que, de hora em hora, os músicos da orquestra eram forçados a interromper momentaneamente sua apresentação para escutar o som, e, portanto, os dançarinos necessariamente paravam sua evolução, e ocorria uma breve perturbação em todo aquele alegre grupo. Aconteceu que, enquanto os carrilhões do relógio ainda tocavam, observou-se que os mais excitados empalideceram e os mais velhos e calmos passavam a mão na sobrancelha, como que em um confuso devaneio ou em meditação.
E, quando os ecos tinham cessado totalmente, ao mesmo tempo um rasgo de alegria tomou conta do grupo; os músicos se entreolharam e sorriram, como que de seu próprio nervosismo e insensatez e, sussurravam prometendo uns aos outros que o próximo badalar do relógio não produziria neles nenhuma emoção semelhante. Eis que, após um lapso de sessenta minutos (que abrange três mil e seiscentos segundos do Tempo que voa), na badalada seguinte do relógio, então, houve o mesmo desconcerto, tremor e meditação de antes. Mas, apesar disso, foi uma festa alegre e magnífica. Os gostos do Duque eram peculiares. Tinha um olhar refinado para cores e efeitos. Desprezava a decoração da “moda”. Seus arranjos mostravam-se ousados e veementes, e suas idéias brilhavam com um esplendor bárbaro. Há quem pensasse que era louco. Seus seguidores sentiam que não. Mas, era preciso ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo para ter certeza de que não.
Ele coordenou, em grande parte, a variável decoração das sete salas por ocasião desta grande festa, e foi o seu gosto pessoal que orientou e deu as características para as fantasias dos mascarados. Acreditem, elas eram grotescas. Havia brilhos e mais brilhos, de um gosto picante e fantástico. Havia figuras fantásticas com acessórios e adornos que não combinavam. Havia fantasias delirantes, como feitas por um costureiro louco. Havia muito de belo, muito de devasso, muito de bizarro, um tanto de terrível, e um pouco de algo que poderia causar repugnância. Saltitava, indo e vindo pelas sete câmaras, de fato, uma multidão de sonhadores. E eles, os sonhadores, giravam sem parar, assumindo a cor de cada salão e fazendo com que a impetuosa música da orquestra parecesse o eco de seus passos. E, logo, soa o relógio de ébano colocado no salão de veludo. Então, por um momento, tudo fica imóvel e em silêncio, menos a voz do relógio.
Os sonhadores permanecem congelados como estão. Mas, os ecos do carrilhão vão se extinguindo – duram apenas um instante - e um riso meio tênue flui, à medida que os ecos se despedem. Agora a música aumenta, e os sonhadores revivem, mais do que nunca falseiam alegremente para lá e para cá, assumindo as cores das muitas janelas multicoloridas, através das quais os raios dos tripés se refletem.
Mas, na câmara, mais a oeste dentre as outras sete, agora nenhum dos mascarados se aventura, pois a noite se aproxima do fim, e ali flui uma luz mais vermelha pelos vitrais cor de sangue, e o negror das cortinas escuras apavora; e para aquele, cujo pé cai sobre o carpete negro, próximo do relógio de ébano, soa um barulho abafado, mais solene e enfático do que qualquer outro que chega aos ouvidos daqueles entregues à alegria mais remota dos outros salões.
Mas esses outros salões estavam densamente cheios, e neles batia febrilmente o coração da vida. E, a festa seguia animadamente até que, enfim, começou a soar meia-noite no relógio. Então, a música cessou como eu havia dito, as evoluções dos dançarinos se aquietaram, e, como antes, houve uma preocupante imobilização de todas as coisas. Mas agora, eram doze badaladas do sino do relógio que soavam; assim aconteceu, e talvez por isso, mais pensamentos tenham se infiltrado, por mais tempo, nas meditações dos mais pensativos, entre aqueles que festejavam. E assim também sucedeu que, antes que os últimos ecos da última badalada tivessem irrecuperavelmente silenciado, muitos indivíduos que se divertiam na multidão perceberam a presença de uma figura mascarada que antes não chamara a atenção de uma única pessoa. E, o rumor dessa nova presença, se espalhou em sussurros por todo lado, cresceu aos poucos em todo o grupo um zumbido ou murmúrio de horror e de repulsa.
Em uma “assembléia” de fantasmas, como esta que pintei, pode-se muito bem supor que nenhuma aparência comum poderia causar esse tipo de sensação. Na verdade a liberdade dos mascarados nesta noite era praticamente ilimitada; mas a figura em questão superou em muito o próprio Herodes e ultrapassou até os indefinidos limites de decoro do príncipe. Existem acordes nos corações dos mais imprudentes, que não podem ser tocados sem emoção. Mesmo para aqueles totalmente perdidos, para os quais a vida e a morte são igualmente uma piada, existem questões com as quais não se faz piada.
Todo o grupo, na verdade, parecia agora sentir profundamente que na fantasia e na atitude do estranho não existia graça nem decoro. A figura era alta e magra, e envolta da cabeça aos pés em vestes mortuárias. A máscara que ocultava o rosto foi feita de tal forma lembrando o rosto enrijecido de um cadáver, que mesmo um exame mais minucioso teria dificuldade em detectar a trapaça. Tudo isso poderia ter sido tolerado, se não aprovado, pelos loucos festeiros ao redor. Mas o mumificado mascarado tinha ido longe demais ao assumir o personagem da Morte Escarlate. Sua veste estava respingada de sangue, e sua máscara exagerada, com todos os traços de seu rosto, estava salpicada com o horror escarlate.
Quando os olhos do Príncipe Próspero caíram sobre esta imagem espectral, (que, com um movimento lento e solene, como que para mais plenamente sustentar seu papel, andava para lá e para cá, entre os dançarinos), num primeiro momento, podia-se ver que ficou estarrecido, e teve um forte estremecimento de terror ou repulsa; mas a seguir, a sua fronte ficou vermelha de raiva.
- “Quem se atreve?” – perguntou com rouquidão, aos cortesãos que estavam perto dele.
- Quem se atreve a insultar-nos com esta zombaria blasfema? Agarrem-no e desmascarem-no. Assim poderemos saber a quem temos de enforcar, ao amanhecer, nas muralhas!
Príncipe Próspero estava no lado leste, ou câmara azul, quando proferiu essas palavras. Elas ressoaram pelos sete salões em alto e bom som, pois o príncipe era um homem arrojado e robusto, e a música tinha silenciado a um movimento de sua mão. O príncipe estava no salão azul com um grupo de pálidos cortesãos ao seu lado.
A princípio, quando ele falou, houve um movimento rápido do grupo em direção ao intruso, que, num momento estava também ao alcance da mão, e então, com um passo decidido e firme, aproximou-se muito do orador.
Mas, pelo temor sem nome com o qual o louco mascarado havia contagiado toda a festa, não foi encontrado ninguém que fosse em frente para agarrá-lo; assim, livre, ele passou a alguns passos da pessoa do príncipe; e enquanto o grande grupo, que por impulso, moveu-se do centro das salas para as paredes, sem ser interceptado e com o mesmo passo solene e medido que o celebrizou da primeira vez, ele fez o seu caminho livremente através da câmara azul para a púrpura, da púrpura para a verde, da verde para a laranja e, através desta, novamente para a branca - e daí até a violeta, antes que se fizesse um movimento decisivo para prendê-lo. Foi então, porém, que o Príncipe Próspero, ensandecido de raiva e vergonha por sua momentânea covardia, correu precipitadamente através das seis câmaras, embora ninguém o seguisse por conta do terror mortal que tomara conta de todos. Ele segurava bem alto uma adaga desembainhada, aproximou-se, com uma rapidez impetuosa, cerca de três ou quatro passos da figura fugidia, quando este último, tendo alcançado a extremidade do salão de veludo, virou-se de repente e confrontou seu perseguidor.
Houve um forte grito – e o punhal caiu sobre o reluzente tapete preto, sobre o qual logo instantaneamente, caiu prostrado e morto o príncipe Próspero. Então, convocando a coragem selvagem do desespero, uma multidão de festeiros de uma só vez atirou-se no apartamento negro, e agarrando o mumificado cuja alta figura permanecia ereta e imóvel dentro da sombra do relógio ébano, arfou de indizível horror ao encontrar a mortalha e a máscara de cadáver, que eles manusearam com tanta violência e grosseria, desabitada por qualquer forma tangível.
E agora foi reconhecida a presença da morte escarlate. Ela tinha vindo como um ladrão na noite. E, um por um, os festeiros caíram nos salões ensangüentados da sua festa, e cada um morreu na desesperada posição de sua queda. E a vida do relógio de ébano se foi com a do último folião. As chamas dos tripés se extinguiram. E a escuridão, a decadência e a morte escarlate mantiveram ilimitável soberania sobre tudo.


Pesquisa de Adroaldo Bauer

Edgar Allan Poe escritor, poeta, crítico literário e editor é um dos precursores da literatura de ficcção científica e fantástica modernas. Algumas das suas novelas, como Os Crimes da Rua Morgue, A Carta Roubada e O Mistério de Maria Roget figuram entre as primeiras obras reconhecidas como como do gênero policial.
Poe usa uma espécie de terror psicológico em suas obras, seus personagens oscilam entre a lucidez e a loucura, quase sempre cometendo atos infames ou sofrendo de alguma doença, os contos sempre narrados na primeira pessoa.

A sua colecção Tales of the Grotesque and Arabesque traduzida para o francês por Baudelaire como "Histoires Extraordinaires" e para o português como Histórias Extraordinárias é apontada como um marco da literatura estadunidense.
As obras mais conhecidas de Poe são góticas, seus temas mais recorrentes lidam com questões da morte, incluindo sinais físicos dela, os efeitos da decomposição, interesses por reanimação dos mortos e o luto.
Muitas das suas obras são geralmente consideradas uma reação literária ao trancendetamismo estadunidense.
Além do horror, Poe também dedica-se à sátira e a contos de humor. Para efeito cômico, usa a ironia e a extravagância do rídiculo, muitas vezes na tentativa de liberar o leitor da conformidade cultural.
"Metzengerstein", a primeira história de horror que Poe publica, foi originalmente concebida como uma paródia satirizando o gênero popular.
A escrita de Poe reflete suas teorias literárias. Se opunha a trabalhos com significados óbvios, acusando-os de assim deixarem de ser arte. Ele acreditava que o trabalho de qualidade deveria ser breve e concentrar-se em um efeito específico e único. Pensava que o escritor devesse calcular cuidadosamente sentimentos e idéias.
Edgar Allan Poe nasceu em 1810, de David Poe Jr., que abandonou a família naquele mesmo ano, e da atriz Elizabeth Arnold Hopkins Poe, que morre de tuberculose um ano depois, em 1811.
É acolhido por Francis e o marido John Allan, bem sucedido comerciante de Richmond, que lhe dá o nome, mas nunca o adota legalmente. Há um registro dele na Universidade da Virgínia, em 1826, que frequenta durante um ano, sendo expulso por comportamento não tolerado na instituição.
Desentende-se com o padrasto, alista-se nas forças armadas com o nome de Edgar A. Perry, em 1827, ano em que publica o seu primeiro livro, Tamerlane and Other Poems.
Depois de dois anos é dispensado do serviço militar.
Publica seu segundo livro, Al Aaraf em 1829, ano em que morre sua madrasta, quando reconcilia-se com o padrasto, que o auxilia a entrar na Academia Militar de West Point, de onde será expulso em 1831, pelo que o padrasto o repudia definitivamente. Com a morte do padrasto em1834, Poe muda-se para Baltimore, para morar com uma tia viúva, Maria Clemm.
Poe usa a escrita de ficção como meio de subsistência e, no final de 1835, torna-se editor do jornal Sothern Literary Messenger, de Richmond, onde trabalha até 1837.
Casara-se em segredo com a prima Virgínia, de 13 anos, em 1836. Um ano após mudara-se para Nova Iorque, onde permanecera 15 meses, mudou-se para a Filadelfia, e pouco depois publica The Narrative of Arthur Gordon Pym.
Torna-se editor assistente da Burton's Gentleman's Magazine, onde publicou um grande número de artigos, histórias e críticas.
Durante este período, Virgínia Clemm fica tuberculosa e inválida. A doença da mulher acabou por levar Poe ao alcoolismo. Deixa a Burton's Gentleman's Magazine.
De volta a Nova Iorque trabalha brevemente no Evening Mirror, antes de se tornar editor do Brodway Journal. No início de 1845 publica, no Evening Mirror, o seu mais popular poema The Raven (O Corvo).
Em 1846 o Brodway Journal quebra. Poe muda-se para uma casa no Bronx onde a esposaVirgínia morre no ano seguinte. A casa é conhecida hoje como Poe Cottage e está aberta ao público,.
Em 3 de outubro de 1849, Poe é encontrado na rua em Baltimore com roupas que não eram as suas, em estado de delirium tremens. Levado a hospital, vem a morrer quatro dias depois. As suas últimas palavras teriam sido «It's all over now: write Eddy is no more», «Está tudo acabado: escrevam Eddy já não existe».

Dupla Existência, Existência de Duplo

Caminhei como um fantasma em matéria e também em espírito,
A mortalha que me cobre é mutável como minha forma,
Hoje sou amigo de vivos e mortos, com ressalvas lógicas,
A alcova onde durmo é um sarcófago em um mausoléu.

Descobri mistérios da morte e agora recebo oferendas,
Tenho sentidos e habilidades incompreensíveis aos vivos,
Libertei-me da fragilidade mortal, estou imortalizado,
Tenho ciência de outros planos, sou parte de algo maior.

Anúbis me guia até os portões, Thoth relata minha vida,
Maat retira sua pluma, Seth me acusa, todos me observam,
Osíris, Ísis e Hórus aguardam meu espírito transfigurado.

Parte de mim é Ba, parte é Ka, juntos sou Akh,
Tenho quarenta e dois juízes antes do Amenti ou Abismo,
Meu coração será avaliado, apenas aguardo o resultado.


- Mensageiro Obscuro.
Janeiro/2008.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

"A Lenda do Corpo Seco"...finalmente!



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Ao descobrir um grande segredo de sua mãe, Teodorinho passou a nutrir muito ódio por ela. Sr. João, o pai, sem saber de tal segredo, a defendia de todas as formas dos maus tratos do filho. Mas um dia...
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...A Lenda do Corpo Seco está longe de ser apenas uma historinha de terror, é muito mais que isso.
Em A lenda do Corpo Seco, Mariângela Padilha (Me Morte) deixa bem claro o descaso que muitos pais têm por seus filhos, colocando em questão a indiferença da Sociedade diante daquilo que é visto apenas como um problema social.
Grande defensora das crianças, Mariângela Padilha (Me Morte) está sempre lutando, através de meios de comunicação, contra a pedofilia e os maus tratos cometidos contra elas.

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Paulinho Dhi Andrade

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• Esta história foi inspirada numa lenda urbana da cidade mineira de Pouso Alegre, mas o relato é ficção e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
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Finalmente!
O primeiro livro impresso de Mariângela Padilha (Me Morte) e como não poderia deixar de ser, especialmente no livro, sem esconder os rosto, mas com muito mistério, o que já se tornou característica em toda a sua obra.
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Espero que gostem!
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AUTORIA:
Mariângela Padilha (Me Morte)
CAPA e DIAGRAMAÇÃO:
René Ociné
REVISÃO GRÁFICA:
Geralda Aparecida Dias
PRODUÇÃO:
BIBLIOTECA 24 x 7
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VOCÊ ENCONTRA NO SITE:
www.biblioteca24x7.com.br

terça-feira, 25 de agosto de 2009

DE DESEJOS E VESTIMENTAS





DE DESEJOS E VESTIMENTAS
**Gaivota **


Na página rouca que se abriu
alçou a asa
mordeu o lábio
e sorriu
entre penas, histórias e confetes
sorriu ainda
em lúcida agonia
dizia: toca-me
o mar se debatia
a hora se rompia
a maça se mordia
era o pecado
era o pecado
lambuzando papéis
era o pecado
acariciando inevitável descuido
era a porta a abrir-se
a beleza a dilacerar-se
o desejo a nascer pedindo bis
no corpo faminto que vestia
o vôo deitado
na asa dum Gaivota


2009



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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

assassinato pela ordem


o soldado mira um alvo adiante
de um homem a roupa agora escarlate
o corpo inerte, jaz no chão inanimado
que honra haveria na batalha
se apenas um lado têm armas
o nome do massacre é assassinato
na iníqua e injusta ordem sustentado,
é a lei dos proprietários das vidas
de quem o servil miliciano é capacho

domingo, 23 de agosto de 2009

NOITE SILENCIOSA


Böcklin Ruins in a moonlit Landscape


NOITE SILENCIOSA


Agora, as noites são longas, vazias...
Oh! Triste madrugada torturosa
Que através destas brisas más e frias
Revela uma amplidão silenciosa!


Agora, só ficaram nostalgias,
Noite lenta, simplória e tenebrosa,
Silêncio intenso e fúnebre. Sombrias
Névoas cobrem a Lua lacrimosa...


Na noite em que eu não estava assim, sozinho...
As horas não passavam devagar.
Anjo flor rapidez vida cantar


Amor bonança dor saudade infinda!
Depois daquela noite alegre e linda,
Perdido estou por este descaminho.


ROMMEL WERNECK



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terça-feira, 18 de agosto de 2009

Vale das Sombras



O que é o Vale das Sombras? O que é gótico?
Um amigo me perguntou se eu achava que ele era gótico.

Se você é gótico? Claro que não, ou, claro que sim...
Mas no Vale o estilo é outro... Chamam de gótico agora e até aceito que o chamem assim, mas há muito pouco tempo eu mesma não aceitava...
As pessoas sempre rotularam o goticismo e isso me enojava.

Gótico é falar de pele, de sexo, de saliva, de sangue, de negro, de sentimentos renegados e incompreedidos, de dor que faz bem, daquela dor da paixão, que dói e você goza...Da cor da morte e não da morte em si, é como se fosse um ritual, como se soubéssemos que a morte é só uma passagem e que o outro lado é fantasticamente belo a ponto de nos inspirar em vida.
O Vale é assim, um novo goticismo (?), sem suicidio, sem mutilação, sem satanismo, sem depressão mas, no mínimo, um restinho de sentimentos sombrios que nos faça poeta...

Eu vejo o Vale assim, um lugar cheio de gente que escreve, que canta, que faz e acontece, mas somente no papel, aprendendo para a vida.

Somos um bando de jovens de corpo ou alma, que acredita que estilo gótico é arte e não precisa necessariamente ser rotulado de louco ou depressivo.
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Portal Vale
www.valedassombras.ning.com

Blog
www.valedassombrasmemorte.blogspot.com
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Comunidade
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=8910225
Me Morte

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Amou nu



O pensamento divaga,
Livre de qualquer amarra,
Pretensioso a compreensivo.

Vê-la em seu sono justo,
Que haveria de inspirar meu velar cuidadoso,
Distancia.

Do seu próprio motivo,
Que me fez sorrir noutra vez,
Fracas lembranças

Meu olhar se perde,
Por ainda poder amar
Até por poder merecer.

Seu cansaço possui o meu nu,
O meu coração ama assim
Todo o quanto que o tem

A atenção que recebe
Completa e reconhecida
Mas, que não vem mais de ti.


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sábado, 15 de agosto de 2009

NA LIMPA E BRANCA MESA





NA LIMPA E BRANCA MESA
Thiers R>


Sou um ator
um mentiroso
um canalha do bem
sinto enorme prazer
em destroçar palavras
eu as enforco
até gritarem
Socorro!
Sendo civilizado
sensível
possuo um coração
que bate dentro
da maçã
vermelha
espetada
nas festas
Comam-me!
sou uma falsidade
sequer estou na fila pra me ver
muitas vezes passo o dia
na cegueira
dormindo no dedo de alguém
que me ama
pois arrumo letras
na mesa do jantar
branca e rendada feita por artistas
que trabalham com mestria
no santuário deposito o punhal
limpo, brilhante e afiado
esperando o exato momento de cortar
o músculo do poema e
fazê-lo jorrar




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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

SOMBRIO

Os seres que vagam entre a vida e a morte possuem incontáveis semelhanças e diferenças, mas todos tendem a emanar energias abissais. Seus espectros liberam tamanha negatividade que chegam a suprimir qualquer outro tipo de energia. Suas atividades estão cada vez mais presentes no cotidiano da humanidade. Por que? Basta uma análise mais apurada para se entender o motivo da interferência destes seres em nosso mundo. O homem abriu, gentil e ansiosamente, as portas que os libertaram permitindo seu trânsito por nosso plano.
Espectros! Os seres trevosos não passam de espectros, desprovidos de corpo material, que ainda permanecem aprisionados em nossa dimensão. Mas existe um amaldiçoado que não pertence a nenhuma das espécies que compõem o vasto exército das trevas. Sua maldição começou quando se deixou conduzir mais pelo instinto do que por sua intuição.

As primeiras casas construídas pelos desbravadores ainda permaneciam aprumadas como a testemunhar o denodo de seus criadores. Mesmo que o homem moderno não preze pela memória dos seus, algumas de suas obras ainda insistem em se mostrar em meio à caótica paisagem hodierna.
Um dos antigos casarões localizado na agitada avenida já havia pertencido a uma poderosa família castelhana, seu destino foi menos cruel do que as outras que sobraram, um museu estava sendo instalado em suas dependências.

-- Tudo em ordem? Perguntou o curador para sua assistente.
-- Já verifiquei os últimos detalhes, estamos prontos para a inauguração.
-- Excelente! Teremos muitas autoridades presentes.
-- Todos ficarão deslumbrados com o resultado.

Ansiedade e agitação mundana à parte, o casarão destacava-se dentre os muitos arranha-céus que o espremia num restrito espaço. A noite que antecedia a inauguração do novo point cultural não poderia ser mais auspiciosa. O vento suave impedia que o calor, típico da época, se tornasse um fator desmotivador, o céu mostrava-se livre de qualquer indícios de tempestade. Tudo estava colaborando para que a inauguração fosse um sucesso.
Foi com o soar da vigésima quarta hora do dia que o desastre começou a se mostrar. Cinco guardas faziam a vigilância do prédio e, por se tratar de um edifício publico, não estavam preocupados com possíveis incidentes.
Antes de iniciarem a ronda regular, encontravam-se reunidos no imenso saguão do primeiro andar. As conversas eram tão amenas quanto seus ânimos. Aquele parecia ser um serviço extremamente mole que renderia uma boa quantia a todos.

-- Quem vem comigo para o andar de cima? Quis saber o mais velho.
-- Eu o acompanho. Ofereceu-se um dos mais novos.
-- Gerome e Natan vão para o térreo e você cuida deste andar. Orientou o líder.

As laterais do edifício haviam recebido revestimento de enorme e opacas placas de vidro. Ao percorrer os ambientes, podia-se ter uma visão privilegiada dos arredores. Sendo um dos mais novos, Dust encarava tudo com uma certa irresponsabilidade peculiar a sua pouca idade, mas também deixava-se impressionar por comentários alheios, esses, muitas vezes, feitos em tom de pilheria, mas que soavam sérios ao inexperiente vigia.
Um dos assuntos que haviam sido abordados referia-se as manifestações fantasmagóricas associadas a construções antigas como aquela onde se encontravam. Energias aderidas ao ambiente, mortos que não deixavam o local onde haviam desencarnado, almas penadas que vagavam sem descanso, enfim, as histórias foram muitas.
Dust preparava-se para entrar no pequeno corredor que conduzia as salas dos funcionários quando um brilho indistinto, incidindo sobre um edifício ao lado, chamou sua atenção. Aproximou-se das janelas para poder observara melhor. Sorriu descontraído ao certificar-se ser o reflexo de um imenso holofote que projetava um facho de luz em direção ao escuro do céu.
Seu riso perdeu-se num átimo. Sem que nada tivesse prenunciado, um estrondo ensurdecedor tomou conta do andar espantando o silêncio que dominava tudo até então. De imediato ele se deixou congelar onde se encontrava. A princípio julgou ser um dos colegas que derrubara algum dos objetos, mas os segundos se sucederam sem que ninguém se identificasse ou surgisse pela porta.
Como não ocorreu nova manifestação, ele relaxou voltando a sorrir. As histórias que ouvira deviam estar mexendo com sua imaginação. Não havia mais ninguém no andar. E mesmo que pudesse encontrar alguém, bastaria chamar por seus colegas. Tinha sido tolo por deixar-se impressionar pelo ruído.
De repete o ambiente começou a ficar gelado. Apurou os ouvidos na tentativa de ouvir o zumbido do ar condicionado, mas nada. O silêncio voltara a ser total. Apesar do desconforto, não voltou para apanhar o casaco deixado sobre um dos cavaletes dispostos na entrada do salão. A caminhada o manteria aquecido até que voltasse a entrada.
Além do frio, sentiu um arrepio intenso percorrer todo seu corpo. Esta manifestação o inquietou mais do que o desconforto causado pelo frio. Maldita imaginação que se deixava influenciar pela conversa de dois velhos decrépitos. Já espantava o temor quando seu corpo voltou a congelar-se incontinenti.
O que seus olhos estavam vendo? Havia uma sombra deslocando-se em sua direção? Não, não podia ser verdade. Estava sofrendo uma alucinação causada pelo seu medo. Aquele fantasma não era real, ele não estava vendo aquilo.
A recusa em aceitar o fenômeno não lhe serviu de escudo. Tão célere quanto silenciosa, a sombra aproximou-se fazendo com que o apavorado vigia perdesse qualquer desejo de reagir. Nem mesmo um berro de terror escapou-lhe, a ação do espectro foi fulminante.
A imensa e etérea sombra negra planou acima do corpo enrijecido, fixou, aquilo que podia ser tido como um olho, nos olhos do aterrorizado rapaz, mantendo-o imobilizado e mudo. Em um movimento circular descendente, o espectro aproximava-se cada vês mais do corpo. À medida que a distancia diminuía, as ondas de energia iam sugando toda vitalidade do vigia.
A pele foi sendo ressecada lentamente, a carne diluía-se em um suco pastoso que se misturava ao sangue acarretando o fluir de um liquido viscoso e mal cheiroso, os ossos iam se consumindo pela pressão desfazendo-se em pó. A morte foi lenta, dolorosa e cruel. O imenso espectro urrou ao completar sua ação.
O brado ecoou pelo andar extrapolando suas dimensões e invadindo outros ambientes. Tanto os dois vigias que haviam subido quanto aqueles que se encontravam no térreo, ouviram o sinistro grito. A mesma sensação de terror que imobilizou o primeiro vigia, também gelou os outros.
Desvencilhando da imobilidade que os acometera, dirigiram-se para o andar que era a origem do grito. Não haviam reconhecido o timbre da voz do colega e, portanto julgaram tratar-se de algum estranho. O colega deveria ter surpreendido alguém escondido nas dependências do museu.
Assim que se encontraram, ainda no saguão eterno do andar, olharam-se admirados. Seus olhares indicavam a agitação que dominava seus íntimos. O pressentimento de que algo muito ruim estava para se desenrolar, deixou-os em estado de alerta.

-- Vocês também ouviram? Perguntou o líder assim que viu seus auxiliares.
-- Não parecei ter sido Dust. Opinou um dos vigias.
-- Não foi ele. Confirmou o líder. Deve ser alguém que ele surpreendeu escondido por aí.
-- Vamos ajudá-lo. Adiantou-se Gerome.

Embora decididos e não demonstrando estarem dominados pelo medo, agiram cautelosamente empurrando a porta com lentidão. O salão estava deserto e em ordem. O fosco do ambiente conferia um aspecto sombrio ao mesmo, mas nenhum indício, que pudesse evidenciar algum perigo, foi notado.
Tão lentamente quanto haviam descerrado a porta, seguiram pelo interior do salão. Não notaram nada fora do lugar, nem mesmo a presença do colega. O silêncio absoluto os deixou incerto sobre como agir. Antes que os outros tentassem algo, Natan berrou:

-- Dust!

O brado ecoou pelo salão. Esperaram por alguns minutos e nada. A apreensão começou a dominar os ânimos, ainda sem constituir-se fator desestabilizante. Passos cautelosos avançavam pelo salão seguindo em direção ao corredor. O silêncio deixava tudo ainda mais enigmático.
Estavam próximos ao conjunto de salas quando o odor nauseabundo de carne podre penetrou por suas narinas. Sem que conseguissem definir qual sala exalava o fedor, começaram a abrir porta por porta. A iluminação reduzida dificultava a nitidez do interior, mas assim que descerraram a porta que guardava os restos mortais do vigia, sentiram o pânico gelar seus corpos.

-- Pelos céus! Que imundice é esta? Grunhiu o líder antes de tapar a boca e o nariz.

Os outros não conseguiram articular palavra alguma. Seus olhos viram aquilo que o líder ainda não notara. Pairando, como se fosse uma sombra ameaçadora, sobre aquilo que restara do colega uma imagem fantasmagórica os fitava com fúria. O medo paralisou todos.

-- Hei, o que houve? Por que esses olhares aparvalhados? Inquiriu o líder.

Ele não teve tempo para mais nada. Sem que soubesse a particularidade daquilo que o atingiu, sentiu uma fisgada em seu peito ao mesmo tempo em que sua vista era obscurecida por uma sombra gigantesca. O grito de dor, que tentou emitir, morreu antes que pudesse ser dado.
Diante dos olhares aterrorizados dos colegas, o corpo do líder foi elevado até quase chegar ao teto, tremores violentos o dominavam sem que isso fosse manifestação de seu dono. O sangue começou a vazar no mesmo instante em que a carne secava e os ossos estalavam numa clara constatação de estarem sendo pulverizados.

-- Vamos embora daqui! Gritou Gerome tão logo conseguiu recuperar o controle de suas faculdades.

O incorpóreo ser pressentiu a ação dos outros homens. Sem abandonar sua vítima, lançou energias na direção da entrada do edifício lacrando as portas. Ao baterem contra a madeira da única saída disponível, os vigias se desesperaram.

-- Estamos trancados! Exasperou-se Natan.
-- Que monstro era aquele? Francisco manifestou-se mais para espantar o medo do que procurando uma explicação para aquilo que testemunhara.
-- Temos que encontrar uma saída! Exclamou Gerome.
-- As janelas! Indicou Natan.

A altura não era suficiente para uma queda fatal, ainda assim eles consideraram a possibilidade de um tombo desastroso. Qualquer infelicidade e poderiam ficar paralíticos ou mesmo perderem a vida. A iminência de sucumbirem ao ataque da sombra, os fez relegar o temor a segundo plano. Procuraram por algum objeto que lhes possibilitasse a evasão, mas só haviam as peças expostas.
A indecisão sobre como agir custou caro ao que estava mais distante da janela. Natan sentiu ser jogado para cima como se não tivesse peso algum. o choque contra o teto provocou fraturas em diversas costelas e em um dos braços. A cabeça foi ferida e o sangue escorria por sobre os olhos.

-- Joga logo uma dessas porcaria contra a janela! Bradou Gerome.

Enquanto os dois colegas tentavam quebrar uma das janelas, Natan compreendia o inexorável momento que vivia. Estava para morrer e não tinha como fugir a ação daquele ser espectral. Mal chocou-se contra o solo e seu corpo foi elevado outra vez. Pairando no ar, sentiu o contato da substância, que compunha a sombra, queimar a superfície de seu corpo.
Não percebeu nenhuma chama indicando a existência de fogo, mas seu corpo ardia como se estivesse dentro de uma fornalha. Ao olhar na direção da transparente sombra, notou dois brilhos indistintos onde deveria haver dois olhos. O terror assomou com mais vigor. Labaredas vivas bailavam nas órbitas vazias da criatura.
Mas aquilo que mais lhe causou pavor não foram as chamas no lugar de olhos, mas sim a mandíbula que avançava para ele. A primeira mordida arrancou parte de seu ombro esquerdo deixando-o próximo da inconsciência. Com todas suas forças, rogou por um fim imediato.
A tentativa. De seus colegas, de quebrarem a janela mostrou-se infrutífera. Fosse a espessura dos vidros ou a pouca resistência das peças atiradas, o fato é que não conseguiam abrir nenhum buraco na imensa parede de vidro.
O sangue que jorrava do corpo do colega atingiu-os enquanto passavam por sob o local do ataque. A corrida até o reduzido corredor das salas permitiu-lhe colocar uma distância entre eles e a criatura, mas que proveito poderiam ter? Suas mentes sabiam que precisavam encontrar uma saída, mas o estado de aflição que os dominava impedia que raciocinassem com clareza.

-- Tem alguma saída por aqui? Perguntou Francisco.
-- A saída de emergência.
-- Onde?
-- Depois da última sala.
-- Vamos!

O ar que dominava o corredor externo os atingiu tal qual o sopro da esperança que tanto ansiavam. A liberdade precária permitiu antever uma fuga miraculosa, mas logo foram golpeados pela fatalidade. Ao chegarem ao piso térreo, viram a imensa sombra pairando no cento do saguão. O terror voltou a imobilizá-los.
Tão silenciosa quanto célere, a sombra se colocou sobre eles. Olhares esbugalhados se miraram sem conseguirem emitir qualquer luzir de esperança. Apenas a sombra da morte tornando-os opacos. Choro e furor mesclavam-se a tantas outras sensações que eles perderam a noção de tudo o mais. A iminência da morte travou suas mentes impedindo qualquer reação.
Uma força descomunal pressionou ambos os corpos em um choque inevitável. Como se tivessem duas mãos gigantescas a forçá-los em direções opostas, sentiram que seus ossos rasgavam suas carnes num esmagar colossal. Assim que a pressão começou a vaporizar o esqueleto, suas consciências se apagaram. O fim estava próximo.
A manhã começava a receber os primeiros vestígios da luz dourada do sol iluminando os imensos e vazios salões. As evidências, do ataque da entidade espectral, resumiam-se a manchas rubras no chão e nas paredes. Nada, dos corpos, havia sobrado. Quando os funcionários chegassem para o turno de trabalho, não encontrariam nada que indicasse o violento ataque perpetrado durante a noite. Apenas a ausência dos vigias chamaria a atenção para a anormalidade.
No entanto, nem mesmo isso chegaria a ser visto. Assim que o último corpo foi consumido por sua sanha assassina, a sombra volitou por todo o prédio. Energias inflamáveis emanavam de seu espectro incendiando as dependências do edifício. Em meio às chamas, um urro de dor e ódio logrou êxito naquilo que os aterrorizados vigias haviam falhado, os vidros do edifico se estilhaçaram como se não passassem de cascas frágeis.
O sangue ainda gotejava de suas vestes quando o ser incorpóreo penetrou em sua dimensão. Ali ele deixava de ser apenas uma sombra e assumia a grotesca conformação de seu amaldiçoado ser. Seus olhos luziam uma vibração plangente. A dor ainda dominava seu íntimo, a fome ainda devorava suas entranhas. Nem todo corpo que consumisse saciaria sua fome, nem todo sangue que sorvesse diminuiria sua sede.

-- Já de volta? Soou a odiosa voz de seu mestre.
-- Não preciso compartilhar sua presença.
-- Não, não precisa, mas tenho que fiscalizar as atividades de meus servos.
-- Não sou seu servo!
-- Tolo! Age como um demônio e acredita que não me pertence?
-- Minha queda nada tem a ver com você.
-- Oh, não, nisso tem razão! Mas assim que desabou, penetrou em meus domínios.
-- Quer discutir seu poderio de modo mais acintoso?
-- Está me desafiando?
-- Entenda como quiser.
-- Para onde acreditam que caminham as almas dos infelizes que trucida?
-- Não me importo com o destino que as esperam.
-- É claro que não. Tem-se em conta de ser mais, de valer mais que qualquer outra criatura.
-- Não tente expressar uma compreensão que está além de suas possibilidades.
-- O que julga que é? Um arcanjo injustiçado? Um espírito condenado sem razão? Um inocente sacrificado em lugar dos verdadeiros criminosos?
-- Não penso ser nada do que acabou de supor.
-- Um verme! É isto o que é!
-- Deixe-me!
-- Não suporta a verdade? Criou uma imagem tão irreal, para si mesmo, que lhe causa pejo encarar seu reflexo!
-- Está indo longe demais.
-- Isto foi uma ameaça?
-- Sente-se confiante de que não seria capaz de eliminá-lo, não é?
-- Você não tem poder para tanto!
-- Posso provar que está errado.
-- Hum, uma batalha! É tentador tentar descobrir como poderia sustentar uma batalha comigo sem atingir os indefesos humanos.
-- Não teria chance de levar a batalha até a superfície.
-- Claro que não. O todo poderoso arcanjo injustiçado é imbatível!

O escárnio que permeava o manifestar do visitante deixou o amaldiçoado enojado. Sua maldição já era um fardo pesado demais para sustentar, não precisava de mais aquele adendo a fustigá-lo.

-- Diga a que veio e me deixe!
-- Seu tempo está chegando ao fim.
-- Não preciso que você venha me avisar para saber quanto tempo ainda me resta.
-- Mas talvez queira saber como será o seu fim.
-- Não me importa como, desde que ele chegue.
-- Não será um rito breve. Será consumido por séculos.
-- Isto lhe importa?
-- Nem um pouco. Mas me permitirá saborear seu sofrimento.
-- Não é isto que tem feito nesses últimos milênios?
-- Nada me satisfará mais do que assistir ao seu martírio.
-- Martírio é para os santos.
-- Lógico! A execução de sua sentença é mais correto.
-- Já terminou?
-- Por agora, sim. Ainda voltaremos a nos ver.

O evaporar do visitante o deixou entregue a seus fantasmas. O cenário infernal que o cercava não lhe causava sensação alguma. Sua dor provinha da maldição que o acompanhava desde que falhara em sua missão. O fato de estar condenado a viver em um ambiente inóspito não o tocava.
As ígneas labaredas, que se elevavam dos incontáveis buracos existentes no solo arenoso, não chegavam a impingir nenhum desconforto a ele. Nem as emanações sulforosas, que acompanhavam as erupções ígneas, traziam qualquer sensação mais penosa. Seu espírito penava uma danação muito maior que qualquer castigo físico.
O tormento espiritual que o acometia originava uma dor que não podia ser, nem sequer, atenuada; um padecer que morte alguma poderia eliminar; uma agonia sem fim; um existir maldito que ceifava a vida de muitos.
Ali, no ambiente que lhe era pertinente, seus olhos vertiam as lágrimas que não era capaz quando estava agindo na matéria. Também era ali que ele se sentia mais consciente de tudo. As energias que perpassavam seu mundo eram, em sua totalidade, oriundas de planos inferiores. Mesmo sentindo o peso de sua nefanda existência, não tinha como fugir a sina assassina que o dominava toda vez que se sentia atraído ao mundo material.
Resignado, submergiu em uma imensa e voraz corrente de fogo. Até que a tração o levasse, outra vez, ao mundo dos humanos, que o fogo retivesse aquilo que não podia consumir. A dor, que as chamas lhe causavam, não atenuava sua maldição, mas servia para lhe purgar as energias da última ação. Ao se ver livre dos gritos aterrorizados de suas últimas vítimas, estaria pronto para transpassar o portal que o mantinha aprisionado nas dimensões inferiores e, uma vez mais, sairia para coletar as almas dos infelizes que se punham em sintonia com as energias oriundas do inferno.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Macambúzio em mim


Não sei, hoje não estou legal, parece tudo tão anormal, tudo tão triste.
Um dia qual quer, um dia banal, um dia infeliz.
Tudo ao meu redor não tem graça, tudo é preto e branco, onde estão as cores?
A musica que soa ao fundo, distante, é um som frio, tudo em notas menores.

Lembro de acontecimentos passados, todos tristes, infelizes.
Vivo os momentos lembrados, revivo-os novamente
A raiva nem passa mais ao meu lado,
A vontade de ser melhor é que consiste.

Não vejo mais em mim, o que via no passado,
Mas vejo o passado em mim.
As fronteiras foram quebradas,
Tudo foi água, passou e desviou-se de mim

Não sei, hoje não estou legal, é tudo tão banal
Quem dera fosse uma quimera
Mas não ligo, é normal
Um dia a chuva passa e o vento joga tudo para longe de mim.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Suicídio planejado




Eu vou pular da janela
Mas não agora
Ainda não é hora.

Eu vou cometer um tiro na orelha
Mas não agora
A arma é velha.

Eu vou tomar um veneno,
Mas não agora
O gosto é acre.

Eu vou usar a gilete nos pulsos
Mas não agora
Não quero sujar o Box

Não vou fazer botox
Nem lipoaspiração
Nem mesmo prótese dentária

Não vou sujar de vermelho
O lugar comum
Onde hei de ficar velho.

Eu vou segurar a respiração
Até que o impulso
Suspire de novo.

Vou me esgasgar com um ovo
Com casca e tudo
Assim não falo
E morro mudo.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A luz no fim do túnel




(by Lucia Czer)

Duas da manhã... Faz um frio de menos de nove graus, acompanhado pelo vento sul. Uma chuvinha fina e cortante bate no meu rosto, parecendo espinhos. Misturam-se com as lágrimas a escorrer pela face. Choro, sem saber por que.
Sob as luzes de néon da rodovia, alguns motoristas passam e, surpreendendo-se com o vulto de mulher, sozinha àquela hora, confundem-me com alguma prostituta em busca de programa. Soam buzinas, algumas piadas... Não ligo. Sigo em frente. Não uso nenhum agasalho pesado, nem bolsa, não queria nada que pudesse chamar a atenção de desocupados, queria evitar encontros desagradáveis.
Um carro para e ouço a voz da mulher, cheia de boas intenções:
- Moça, precisa de ajuda?
Meneio a cabeça sem responder. O carro demora um pouco, mas parte.
Desço pela estradinha estreita até a ponte férrea. A vegetação reluz, molhada pela chuva. Na via férrea, tropeço, os dormentes atrapalham meus passos durante a caminhada. Tiro os sapatos e os deixo, não sei onde. As meias de náilon começam a se desfiar. Que importa?
Olho para trás e vejo as luzes da cidade a piscar como palhaço alegrando a garotada, mas aqui, a solidão é completa. Fico com meus pensamentos. Nenhum rancor, nenhuma lembrança amarga.
Sinto os ombros doerem um pouco, talvez por estar de braços cruzados sobre o peito, encolhida no vestido leve.
Adiante, a luz branca se aproxima. Nada de arrependimentos, nada de rostos dos familiares mortos, nenhum filme com flashes da vida levada, nenhuma voz do além que chame. Afinal, isto é a realidade, não literatura.
A luz está cada vez mais próxima, ouço o apito bem perto de mim. Enfim, o encontro esperado, enfim, o baque. Sinto o corpo levantar-se velozmente às alturas, para, em seguida, ser jogado ao solo como se não tivesse nenhum peso. Ainda penso, vejo, ouço, para logo cair num vácuo profundo, escuridão, leveza, nenhuma dor... Somente paz!

sábado, 8 de agosto de 2009

OM





Soando pela estância do infinito

Em cordas eternais do inexistente,
Discorrem pelo olhar da minha mente
Os mundos que jamais havia escrito.

Em sílabas que agrupam velhos ritos,
Acoplam-se universos em nascentes
Vibrando melodias transcendentes
Além das espirais de céus aflitos;

A essência que permeia todo o mar
E abrange o macrocosmo tão vibrante
Das águas do universo a desflorar,

Transforma o nada astral num curto instante
Em letras que se eclodem no pulsar
Dum som primordial e ressonante.



ps: OM - Mantra mais importante do hinduísmo, sendo considerado o "som do universo" que dá origem a todos os mantras. Algumas informações adicionais presentes aqui

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Influenza





Eu liberdade
Tu incompetência
sem interferência nos porcos
irreverência nos portos
incontinência nos mortos...


Fui conhecer outros mares
Outros males, dos males o maior
e agora jazem os fracos
e eu mato, cada um ao redor...


Eu liberdade
Tu é que sabe
tens a chave
do cativeiro que abre
a cada tossida
ou beijo...a saída.



Me Morte

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Ôca




As vezes cansada

Buscava-o com o olhar

Não dizia nada

Inútil falar

Os mesmos gestos

O mesmo gosto

De beijo de todo dia

As vezes se via

Como amarelinha

Pisada, demarcada, com fracas linhas...

E uma vontade de se ir

Às entranhas da terra

Voltar aos braços da mãe guerra

Porque em seu ventre há paz

As vezes doia mais

N'outras menos

Mas as lágrimas, agora secas

Detinham o mesmo gosto amargo

De uma vida inútil

De uma busca louca

Que cessava

Com as lâminas frias

Que o pulso beijava...


Me Morte

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Torta

Cortar


a artéria aorta


entrar


pela veia porta


beber sangue sujo


da jugular


Assim mostra


a que veio


a vampira


e na veia cava


uma cova


ao luar.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Fadas e Vampiros - por Adriano Siqueira



desenho - adriano siqueira


Fadas e Vampiros
adriano siqueira

Alami era um fada que passava sempre naquele bar.
Ela bebia e bebia. Mas os homens sempre perdiam a competição.
Uma noite um vampiro que se chamava Andário chegou. Olhou para ela e a convidou para um drink.
Alami apreciou o vampiro por sua coragem. Afinal estava desafiando a fada mais poderosa daquele local.
Andário, já na sua quarta garrafa de vodca pergunta para Alami.
Por quê insiste em permanecer neste bar? Uma fada como você deveria estar em um mundo melhor.
E Alami diz: - Aqui, eu descido como criar meu mundo. Meus amigos, são eles que aprecio. Meus amores, sou eu quem escolho. Minhas riquesas estão entre viver e ser feliz.
Minha jovem Alami... - Responde Andário. - Acaso sabe que humanos não podem com o seu amor? Eles envelhecem 5 anos por cada beijo que dá. Aliás... Gostei do seu brinco. São algemas?
Alami fica intrigada com a pergunta. Ela olha para os lados, ri e responde.
- Não Vampiro. Não são.
Andário se aproxima. Beija Alami por algum tempo... Olha para seus olhos e diz:
- Quantos homens morreriam para ter um beijo seu?
Alami usa as suas asas para voar bem alto no bar. Ela fica rodopiando algum tempo até que fica flutuando perto do vampiro e responde:
- Homens eu não sei, mas as mulheres...
Alami voa para fora do bar.Andário assiste ela sumir na floresta.
Ele ri, cruza os braços e diz sorrindo.
- Que mulher.

domingo, 2 de agosto de 2009

Do tempo





Hoje eu estava olhando o álbum de fotografias. Sabe, leitor, quando há rostos inequecíveis que você já havia enterrado no passado e eles ressurgem em alguma foto? Como eu pude deixá-los para trás; mas, se não deixasse, como eu poderia ter seguido em frente.

Ah, leitor, você não conheceu Hamir, o meu protetor. Ele tinha a sabedoria simples que só a vida simbiótica com a natureza proporciona; sabia quando ia chover só pelo vento, conhecia a índole das pessoas só pelo sorriso. Hamir adorava cenouras e fazia pouco caso das maçãs; sempre me carregava até em casa quando passeávamos ao ar livre. Certa época ele foi rebelde, mas jamais perdeu o brilho ou a doçura. Ah, leitor, ele, quando o conheci, era um árabe velho, serviu-me até quando precisou partir. Hoje eu achei um retrato nosso, não há nada na foto além de um nome e minhas lembranças.

O tempo passou, afinal ele está sempre a passar, no entanto alguns não passam com ele. O tempo não pára, nem espera. Que ironia é constatar que o tempo é a única certeza eterna nesse mundo. Só havia o tempo e as pedras, depois só o tempo, as pedras se consumiram em pó.

Até as sensações se vão com o tempo. Eu tinha uma vizinha que se deliciava com o bolo de creme da minha mãe, até o cheiro enchia de água a boca dela. Então a mãe dela aprendeu a fazer o tal do bolo, dois meses depois ela passava mal sóde houvir falar dele, dizia que estava enjoada de tanto comer.

O tempo é uma espécie de deus, não concorda, leitor? Repare:o tempo tudo sabe, está em todo lugar, sempre existiu, tudo pode, é a vontade do destino. Senão do destino, de Murphy. Cheguei a conclusão que o Tempo inventou até o amor. Qual o propósito? Acho que o tempo é um Deus sádico. Nós somos fantoches fadados às travessuras desse Menino-deus. Mas, sim, só o tempo pode trazer às chuvas, ou levá-las embora. Ele é quem fez férteis algumas terras e desertas outras.

A questão em si não é o porquê temos vida, porquê a ganhamos. A ciência já mostrou o que é a vida. O que nos instiga é por que temos consciência. Por que sabemos que estamos vivos, que morremos, que procriamos porque vamos morrer, por que somos racionais, seres pensantes, críticos,personalíssimos. Hahaha, leiror, não é engraçado a ironia? Não entendeu, leitor? Só criamos consciência com o Tempo; mas não está nesse detalhe a totalidade daquela, mas que é uma criação de uma consciência social.

Pois é, leitor, essa conclusão me lembra certa vez que eu quis pegar uma varinha de bambu a mais e a professora me repreendeu porque assim não sobraria para as outras crianças. Mas não é isso que eu quis dizer, não dessa consciência, não da consciência ética, leitor. Foi da consciência de ser a qual me referi noutra hora, na verdade nem na de ser, mas na de sermos. E como ser ou sermos é cruel, não? A consciência de que esta um dia acabará, ou não, sei lá, mas essa incerteza é a mais cruel de todas, e é isso que mata a humanidade dia a dia: as guerras, os estresses, as depressões, as fomes, tudo.

Voltando ao assunto das fotos, é cruel sabê-las quando aquele rosto já se desfez em osso e nem consegue saber que sentimos saudades, revivemos as lembranças, amamos. Amor... devo ser uma das cronistas mais românticas que já se houve, afinal, nem creio numa vida sem amor. Pudera, se mesmo Schopenhauer amava, quem sou eu para desacreditar o Amor? Não acredita que Schopenhauer amava, leitor? Que descrente! Se não amava por que viveria tanto? Por que se preocuparia em propagar seu canto para a humanidade? Ele amava o próximo, a seu jeito, mas amava. E eu? É mais fácil listar o que não amo, mas de nada interessa o que eu não amo, não para mim, pelo menos. Sabe, leitor, ame de se entregar, não ame pela metade porque você apenas vive pela metade. Perca, sofra, isso também faz bem a alma.

Eu já perdi tantas vezes que nem sei mais contar, e nem posso. O que perdi não é número para virar estatística. E não é porque perdi que deixei de amar. E nem deixei de viver porque dedico meu respirar para outrem. Alguns dizem que altruísmo é não viver para si, eu acho o contrário, viver só para mim seria tão egoísta que me privaria da própria vida. Mas efim, esse é um assunto para uma próxima conversa. Desculpe-me pelas divagações, leitor, mas é assim o meu raciocínio, a coerência é subtendida.