sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Notícias do front!


As noticias de hoje chegaram atrasadas devido a bomba de chocolate que o infromante comeu...

so depois ele descobriu que ela n era de chocolate!

rsrsrsrsrsrrs....

Abraço!

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

"O Corvo"... de Edgar Allan Poe


The Raven

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
"'Tis some visitor," I muttered, "tapping at my chamber door-
Only this, and nothing more."

Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow;- vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow- sorrow for the lost Lenore-
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore-
Nameless here for evermore.

And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me- filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating,
"'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door-
Some late visitor entreating entrance at my chamber door;-
This it is, and nothing more."

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
"Sir," said I, "or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you"- here I opened wide the door;-
Darkness there, and nothing more.

Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortals ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, "Lenore!"
This I whispered, and an echo murmured back the word, "Lenore!"-
Merely this, and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
"Surely," said I, "surely that is something at my window lattice:
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore-
Let my heart be still a moment and this mystery explore;-
'Tis the wind and nothing more."



Tradução de Fernando Pessoa (1924)




Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo:
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, de certo me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo
Tão levemente, batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais,
Isto só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
Meu coração se distraia pesquisando estes sinais.
É o vento, e nada mais."



(foto de HATS)

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Plúmbeo


flores brancas e serenas
no ventre úmido da morte...

a coroa de sentimentos
na cabeça
do caixão de madeira...

o púmbleo escuro das nuvens,
os suspiros sem eira nem beira...

um rock na horizontal...

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Lucidez enclasurada







de Guilherme Zanella


Pela primeira vez no dia, sentei. O ato consolidava toda aquela sensação de simples prazer casual. Como se bastasse como único ato válido de uma vida vazia. Não era exatamente um trono, mas mesmo uma singela cadeira de praia acomodaria sem igual meu corpo dormente. Havia andado tanto, andar é pouco. Havia corrido, isso sim. Mesmo assim, todas as janelas me indicavam perigo lá fora. Pensei inúmeras vezes em fechá-las, mas permanecia sentado por menos de um minuto. Não me parecia justo levantar. Mesmo a porta fechada sussurava ágeis ameaças. As frestas, elas mesmo, essas que são perigosas. Por elas que rastejam os perigos, os tormentos, com a vítima sempre em foco.

Temia me perder no caminho do escritório ao sofá da sala. Fazia um dia de sol, assim como a lógica me dizia. Nem mesmo o sol, muito menos as lâmpadas fluorescentes, sopravam para longe meu medo inocente. Embora o silêncio gritasse solidão, sabia que sozinho não estava. Antes fosse, em mim eu confio. Não confio naqueles que moram nos confins de qualquer coisa, pra lá de lugar nenhum, trancafiados no fim do mundo. O medo vem do desconhecido e teme a própria alma.

A quietude não deixava de ser metalingüística. A mesma quietude que reafirmava a idéia de um dia de domingo. Quem sabe com churrasco no quintal do vizinho, programas de auditório da televisão e todos aqueles clichês casuais e aceitáveis. Estava, pelos meus cálculos temerosos, há duas horas plantado na mesma cadeira. Duas horas e a mesma cadeira, o mesmo suspense. Minha visão óbvia enganava-se pelo vazio aparente. Minha mente era mais esperta. Mais duas horas depois, estava no sofá da sala.

Não sou o tipo de pessoa que chora lágrimas de esquecimento. Esqueço de mim para chorar melhor. Até hoje, nunca chorei. Meus olhos transpiram emoções baratas. Nada que me faça considerar o bastante para ameaças suicidas em prédios e pontes. A ameaça vem de fora, é tão externa quanto a solidão. solidão verticalizada.

Um dia depois. Devo ter desmaiado no carpete enquanto debatia-me. Estava certo da minha perdição, atirado, desmaiado, esquecido na sala de estar. Soube da presença de alguma outra pessoa ao ouvir as batidas na porta. Eram abafadas e distantes, faziam juz aos quase dez metros de diferença do carpete onde eu me encontrava. Já não bastavam os olhos para enxergar. Preferi fechá-los. Exatamente a mesma coisa, enxergava nitidamente, ouvida nitidamente, sentia toda a inexistência espaçosa.

Hoje. Quarto pequeno, claro, tenso. As paredes brancas servem apenas para me assustar. Como um sinal, uma carcterística única do local, que mais afetuosa que fosse, tinha um significado semiótico claro em minha mente. Nada me tirava dali, para o meu azar. O rapaz que me salvou, porém, trazia ainda um pouco de esperança para os dias cheios de pensamentos alegóricos. Vestia sempre o mesmo jaleco branco. Eu o chamava de doutor. Eu o chamava sorrindo. Hoje o doutor disse que vou passear no parque se me comportar devidamente. Quanto tempo não via as árvores, não sentava nos bancos brancos de madeira, não assistia o caminhar repetitivo das pombas. Era um eterno clímax quando elas voavam no momento em que alguém se aproximava.

Conto os dias, marco num calendário com fotos de cachorros. Dei nome a alguns, até brinquei com eles. Se dão muito bem, aprenderam a fazer suas necessidades fisiológicas no local correto. Acredito que vão se tornar ótimos cachorros no ano que vem, quando o próximo calendário vier. A cada dia uma apreensão ansiosa, divertida. Meu estômago brinca de esconde-esconde com o resto do corpo. Meus pés se cansaram de andar. Minhas mãos faziam amizades com os diferentes comprimidos.

O doutor disse que vou ficar bem. Confio nele. Falta pouco. Vejo a vida da pequena janela com grandes. Agora não consigo ver de outra maneira. Minha vida tem lacunas. O enquadramento da janela é reconfortante. Mais um mês ou dois e voltarei para casa. Volto para a minha esposa. Sinto falta dela, como sinto. O doutor disse que poderei levar flores, irei presenteá-la com um belíssimo buquê de orquídeas. Não entendo porque ela se mudou tão rápido, ainda mais para um lugar tão pequeno. Deve ter concretizado aquilo que vive às beiras de suas ameaças. Deve ter partido para viver por si.

Amanhã é o aniversário dela. As roupas no meu armários cheiram a naftalina. É uma pena, ela preferia meu antigo perfume. Estava preparado para o dia que passaria no molde de um mês. Não dormiria, estava decidido. Sustentava a minha insônia pelo único pensamento que me mantinha coeso. A frase esculpida na pedra de mármore sobre a sua nova moradia. "Sempre viverá em nossos corações adormecidos". Não entendo como alguém inventou frase tão inquieta, irritante. Não entendo porque ela foi morar em um local tão sombrio, tão pequeno.

As flores que carrego não vão durar muito. Tenho pressa. Vejo-me refletido em olhares fechados. Para mim, basta ela, minha esposa. Sempre viverá no meu coração adormecido. Da minha boca, faz mais sentido. Agora restava despejar as flores e ir embora. Não entendo como ela vive em um lugar tão pequeno. Talvez ela precise se espaço.

Agora apenas uma cadeira cambaleante me separa do meu amor. Amanhã, me mudarei para a nova casa dela. Espero que me aceite, pois discordo de flores atiradas. Me basta uma, a mais bela. A minha única flor enterrada.



Guilherme Zanella

(foto de Carla Salgueiro)

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Verão Ardente


de Ulisses Vieira de Oliveira

Mulher és bela
Sabes me encantar
Me fazes delirar
Quando te beijo;
sonho, gozo, enlouqueço
Só tu sabes expressar o amor.
Quando me olhas,
vejo magia em tua face.
Quando me tocas, sinto suas mãos em meu corpo
como uma brisa suave, que transpira frescor no verão.
Tu és puro fogo que em todo instante
sua presença me faz sonhar em ardentes loucuras.
Sois minha força,
minha vida.
Onde a felicidade,
estas presente.
Onde sorri tudo se torna
brilho.
Minha ninfa,
meu AMOR !!!

Ulisses Vieira de Oliveira
(Respeite os direitos autorais)

(foto de Helena Margarida Pires de Sousa)

sábado, 24 de novembro de 2007

O Teatro da Morte

Soprou o brinquedo, como se dispersasse a pólvora imaginária enquanto fitava a matéria jogada no chão. Quisera tantas vezes fazer isso de verdade, matar alguém... Ensaiou muito, diante do espelho, esperando ver ensangüentada a própria imagem, os miolos escorrendo pela face, em borbotões jorrados do crânio esfacelado.

Quando o menino passou correndo com a pistóla de plástico, brincando de seguir um homem, sentiu um calafrio bom. Enfiou-se diante da figura, dura demais para um garoto, que trombou contra seu corpo, surpreso com a manobra inesperada do desconhecido. A arma caiu em seus pés, enquanto o guri se esparramou mais adiante.

Baixou-se e segurou a pistola, deliciado. Apontou-a para o menino, estranhamente desconcertado na posição de vítima, ele que há pouco representara o bandido. Mirou e puxou o gatilho. Havia espoleta no brinquedo, que pipocou maravilhosamente real.

Em transe, não ouviu os gritos. Não ouviu as sirenes. Não sentiu o próprio corpo ser cravado pelas dezenas de projéteis disparados pelos outros participantes daquele teatro, homens trajando preto, boinas e coturnos. Caiu sobre o corpo do menino e lá ficou até a chegada do rabecão.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

No inferno, onde moram os necrófilos...

Por Marcus Gonzalles








- Eu queria morder os cotovelos. Os meus e os seus. Queria mesmo.
- O velho foi morto a pauladas. O velho foi morto a pauladas.
- Eu queria morder detrás dos joelhos. Dos meus e dos seus. Muita vontade
- Estupraram o casal. Os dois. O cara e a mina dele. Estupraram os dois.
- Dor de cabeça é muito estranho. Eu não compreendo o que sinto. Merda!
- Porque você não joga ele no lixo? Joga a cabeça dele lá no lixo, vai...

Se aproximou o cão raivoso, cheio de raiva, fome, angústia e saliva.

- Tíl, tíl, tíl...
- Um cachorro... Me parece perigoso... Será que ele comeria o seu cadáver?
- É apenas um cão. O velho lá, ó... Joga ele no lixo que eu quero vomitar.
- Vomita em mim não. Eu não tomei meu prozac hoje.
- Olha... Tem formigas na boca do cão, formigas na boca dele.
- Estupraram os dois... Violência suja e exagerada. Eu odeio esses antidepressivos.
- Tíl, tíl, tíl...

O cão, em sua mais alta demonstração de imparcialidade, atacou o que estava morto.

- Segura o cão! Segura, desgraça! - Falou já vomitando -
- Vou pegar um pedaço de pau, precisamos de um pedaço de pau.

Se afastou uns duzentos metros, correndo, arrastando sua perna coxa.

- Aqui! Tem uma macieira aqui... Deixa o cão com a cabeça, a boca e as formigas, vamos comer maças.
- Eu não me alimento há três anos. Será que vai fazer-me bem?
- Será que vai fazer-me bem? - Imitou-o, desdenhando -
- Sinto mais vontade de vomitar

Vomitou pedaços de si. Fígado, rins, pedaços de orgãos...

- Eu não me aguento mais de tanto sangue. Eu quero sangrar até morrer. É um sonho que tenho.
- Tem um lance entalado na minha garganta. Dê-me um tapa nas costas, por gentileza.
- Tem um jeito mais fácil. - Deu-lhe uma rasteira e chutou-lhe os bagos -
- Gasp, gorp, glurp... - Soltou as bolas pela boca -
- Ta melhor? Tu se sente melhor?
- Agora sim eu tô bem.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Contos do Conde Vortak


Apresentação

Meu Nome é Conde Vortak. Sou um vampiro. Uma criatura noturna que vive de sangue. Tenho muitos amigos e alguns são humanos mas eles nunca aparecem quando estou com fome. Eu não os culpo. Afinal, eles poderiam ser meu prato principal.
Adoro viajar. Por isso, eu não tenho um endereço fixo. Eu já morei em castelos, hotéis, parques e até no metrô.
Estou há muito tempo neste mundo. Tempo suficiente para adquirir bastante informação sobre os humanos.
Conheci muitos que queriam dominar o mundo e às vezes, até destruí-lo. O ódio, a ganância e a vaidade, que eles possuíam aguçavam o meu paladar. Por muitas vezes. Estes tipos de humanos foram o meu prato principal. Estes eu os tenho no meu sangue. Foram jantares maravilhosos. Uma iguaria.
Sobre estes jantares... quer dizer... Humanos, são os que irei falar. As histórias que vou contar trarão muita diversão como poderão ver nas linhas que se seguem.
Você é meu convidado.

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Um rosto Inesquecível
por adriano siqueira
siqueira.adriano@gmail.com

- Rosana! Minha querida! Você vai adorar essa novidade!
- Mostra logo Vilma! É aquele produto para passar no rosto?
- Isso mesmo! Eu trouxe da França. A sua amiga que mora no andar de baixo também pediu!
- O que? A Patrícia quer um? Nada disso Vilma! Eu pago por todos os que tiverem com você...
- Não posso! Eu prometi que traria para ela também! Agora mesmo ela está me esperando!
- Por favor Vilma! Eu quero ser a única do Brasil a ter esse produto! Olha.. Eu pago em dobro para ter todos!
- Não seja tão egoísta! Eu sou uma vendedora e eu tenho compromissos com meus clientes! Agora cm licença que vou descer para o apartamento de Patrícia... Eu estou atrasada.
Vilma pega a maleta dos produtos e sai em direção ao apartamento da sua outra cliente, Patrícia.
Rosana estava desesperada. Ela tinha que dar um jeito para que Vilma nunca chegasse ao apartamento de Patrícia. Ela a seguiu e quando Vilma estava nas escadas, Rosana a empurrou mas a maleta abriu bem perto dela. Rosana foi vitima dos produtos que quebraram e atingiram diretamente a sua face.
- Não!! Meu rosto!!!
Vilma estava desacordada pela queda na escada. Aparentemente estava tudo terminado. Ela teve o que merecia mas, como eu sou um vampiro. Eu queria dar uma boa lição nesta humana.
Enquanto ela gritava. Dei uma mordida em seu pescoço. Ela desmaiou.
Enquanto alguns vizinhos socorriam Vilma, eu levei Rosana de volta ao seu apartamento. Ela acordou alguns minutos depois.
- Quem é você?
- Sou um vampiro que gosta de se divertir com pessoas como você!
- O que você fez comigo! Meu rosto!
Rosana corre para um espelho mas ela não consegue se ver.
- Vampiros não podem ser vistos no espelho Rosana.
- Não!!! Não pode ser!! Eu quero ver meu rosto! Eu tenho que ver!!
- Eu posso vê-la Rosana! Sinceramente! Nunca vi uma vampira mais feia em toda a minha vida! Mas não se preocupe! Você agora é uma vampira e será, agora, uma eterna vampira feia!
- Não!!! Não!!!

Deixei a Rosana em seu apartamento, ela gritando muito e depois começou a rir como uma louca.
Acredito que ela tenha aprendido que o egoísmo e a vaidade são defeitos mortais.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Banheiro Maldito

A menina está dopada por sua própria loucura.O cheiro de pecado ainda está sobre seu corpo.
Ela agora sente o desejo do sanatório e anseia pelo delírio eterno.
A menina já está perdida; não há mais salvação. Não há mais esperança. Restou apenas o doce gosto do ilusão angustiante.
A fuga de si mesma a deixa maluca... O cárcere do hospício sufoca sua mente que paira quase mortadevido ao excesso de cocaína.
Ela anda pelos corredores a procura de alguém que a escute, mas está tudo tão confuso, tudo muito embaçado para ela ver quem está perto...
Seus parceiros de delírio nem a notam passar cambaleando, quase caindo. Talvez isso se deva ao gardenal tomado em excesso.
Por que ela ainda faz isso? Se tranca no quarto e brinca de fazer orgias; de início tudo maravilhoso, tudo tão prazeroso...
Mas quando o efeito do ecstasy acaba ela cai na realidade e se dá conta que ainda está num sanatório rodiado por loucos e que de lá não sairá nunca mais. Até que a morte a leve...
Todas essas lembranças vem à tona quando ela se tranca no banheiro maldito. Onde habita o mal e fede a desejo vencido...

† Jully Morgan †

domingo, 18 de novembro de 2007

O sangue da rosa


Na minha cama de trevas
Costuro rosas sanguinolentas
Na bolsa, levo poesia,dois punhais,
algemas e uma focinheira
Caso minha sombra se rebele
e escape novamente do chão
caso algúem enlouqueça
e eu me aproveite da situação...


Ando pesado nas tardes sombrias
Pois sinto as asas da morte cobrindo meu corpo
Eclipsando minhas energias
De vez em quando
um beijo invisível,roubado nos lábios

Gelo inteiramente
Murmuro palavras santas
e caio de lado
E é esse pesar que me faz
só querer dormir
Voar alto,sonhar gritando
da morte fugir
Não iluminem meu sarcófago!
O silêncio é precioso
Em troca te devo
um crucifixo de ossos
e um banho puro
do sangue das minhas rosas

Um jorro eterno,beatificado
O torpor das minhas drogas
ofereço...uma canificina amorosa

sábado, 17 de novembro de 2007

Noturno


Um sorvete no final da noite, como num ritual. Senta-se no primeiro banco do balcão e espera, não é preciso pedir. Sirvo-lhe e ofereço minha atenção por alguns instantes, no dia de falar serve-lhe, quando não, retiro-me sem nada dizer.

A maquiagem sempre borrada dessa hora, não lhe diminui a delicadeza dos traços. Houve ocasião, pela minha atenção, de saber o motivo da falta de pressa, quando todos se preocupam em correr para suas esposas, antes que o dia lhes denuncie. Há um alguém lá no porão, foi o que disse numa noite em que o sorvete medicinal quase não causava mais efeito. Um desabafo ou um anúncio, não soube muito bem. O porão é um lar, mas não o seu lar, apesar de morar só. A presença lhe tira a paz e as noites, essa é a razão de sua freqüência constante.

A noite ensina sem petrificar, sensibilizo-me sim, mas sem interferências, mesmo tendo muita curiosidade sobre o motivo que leva uma garota como essa a suportar todos os tipos de idiotas noturnos. Uma presença... Agrada-lhe o meu silêncio atencioso, por isso mostrou-me o braço arrepiado por estar tocando neste assunto naquela noite. Claro que eu quis perguntar o motivo de não se mudar, mas sempre preferem o meu silêncio, os que ficam depois da casa fechada, só com o piano, além de que penso compreender, de certa forma.

Certas experiências mostram a alguns o que outros não perceberiam nem que lhe dessem com bastão na cabeça. Ela percebe, não me disse qual a sua ligação, mas deve haver, mesmo sendo um dilema que dilacera o seu coração, cala-se e sempre se calam por uma boa razão.

Tantos que por aqui já passaram e, por um motivo ou por outro deixaram de vir. Sinto que ela será um desses, mas temo que essa ausência possa advir do desespero que noto em seu olhar. Um dia simplesmente não virá. A presença a terá vencido, a terá em seu território, do qual ela nada sabe e estará condenada mais uma vez pelo medo, a tornar-se uma presença na vida de alguém.

Num ciclo frio e sombrio, outro se torna num freqüentador assíduo das noites de um bar, onde o balconista não faça perguntas. Onde haja um bom pianista, mesmo nunca dando muita atenção, pois seus mistérios, como é muito comum, ocupam todas as suas reduzidas capacidades de compreensão. Incapazes de perceber a fragilidade dos que os buscam, nem sempre com a intenção de atemoriza-los, mas tantas vezes atemorizados que estão.

O piano sempre acalenta o que teme, seja o que for, seja quem for. Um balconista silencioso nunca comenta as desonras da noite anterior. Um balconista que more embaixo do próprio bar, num porão, com uma presença que ele não deseja abandonar só nas noites de inverno. Um excelente motivo para se ter um piano bar, cujo piano pertence à doce Marguerite, que o tem quando quer, além de mim.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Antes de qualquer coisa, algumas palavras! (Não...não é discurso!)

Olá todos!
Aos leitores assíduos deste blog, minhas mais gratas e felizes satisfações! Espero que minhas postagens tragam um pouco de alegria a este vale cheio de sombras! E é com esse objetivo que irei lhes trazer (ou ao menos tentar...rsrsrs) as tiras NOTÍCIAS DO FRONT. Notícias do front era uma expressão usada na guerra para se saber as últimas notícias sobre o campo de batalha e sobre a condição do inimigo. Nesse contexto que decidi fazer esta tira, não para falar sobre as guerras presentes por esse mundo de deus, mas uma que todos nos enfrentamos, a guerra do dia- a- dia. Da escola ao trabalho, do clube ao cursinho do carro ao ônibus, todos já passaram ,pelo menos alguma vez em suas vidas ,por situações que pareciam um verdadeiro batalhão de infantaria...E é isso que quero explorar...Situações que independente de onde aconteçam ou com quem aconteçam mostrem essa questão que acontece por estar no campo da batalha da rotina!
Um abraço a todos!
E câmbio desligo!
Rafael Pereira.

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segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O PAI QUE AMAVA...por Blaide.























Para muitos era uma família estranha; não que seja desmantelada como essas famílias de hoje em dia. Eles eram diferentes, pelo menos para a vizinhança, sempre um ou outro comentava alguma coisa. Talvez pelos seus hábitos esquisitos. Mas, nada fora do normal: trocavam as fechaduras todos os meses, não conversavam com ninguém e vestiam roupas estranhas, sem falar que nunca se via alguém lá dentro daquela casa.
A família era pequena: Hugo, o pai, alguns gatos e a pequena Clarisse de apenas cinco anos. Hugo tinha em torno de trinta anos. Era um magro sisudo de rosto esticado, talvez por causa de uma cicatriz que atravessava parte de seu rosto. Parecia sempre estar melancólico. Os vizinhos nunca o viram sorrindo, a não ser nas horas que ele saia para comprar os doces da pequena Clarisse, em um fiteiro da esquina. Ele era meio apressado. Não importa para onde ia ou se estava atrasado, às vezes até sem destino.
Clarisse era linda. Tinha olhos verdes (como os do pai) branquinha de tez vivaz e sempre usava roupinhas combinadas: se a pequena blusa era de cor rosada, todo o conjuntinho teria que seguir a mesma linha. Era uma exigência sua e não mudava de jeito nenhum.
- Papai eu muito gosto de você viu? – falou a pequena Clarisse, durante o jantar.
Ele se continha. Não agüentava ouvir essas coisas da pequena. Amava muito sua Bonequinha (como ele a chamava). Ela era tudo para ele, a amava de tal forma que começou a se preocupar com o seu futuro. Abriu uma popança em seu nome e começou a aplicar-lhe dinheiro. “Ah, sim, com muita certeza ela há de fazer uma boa faculdade!” pensava a cada novo deposito.
Ele adorava passar as tardes brincando com ela. Dava o próprio rosto para a Bonequinha praticar suas habilidades de maquiadora. Constrangido, ele se sentia uma sirigaita, fazendo a pequena morrer de rir.
Na hora do banho era uma novela! Há semanas que ela tomava banho sozinha. E quando ele ousava em lhe ajudar ela retrucava: “Papai, eu já sou uma mocinha, já tenho idade suficiente para me enxugar só.” Ele apenas sorria.
Numa tarde, ele estava mexendo em alguma coisa na porta.
- O que você esta fazendo papai?
- Estou trocando a fechadura.
- Fechadura papai? O que é fechadura?
- É onde colocamos a chave para fechar a porta. – explicou ele – olhe aqui.
- Ah... Entendi... Mas porque o senhor mexe muito na fechadura, papai?
Ele não respondeu. Pediu para a garota brincar com os gatos no quarto, enquanto terminava o serviço.
Deveria agora esconder a nova chave em um lugar seguro! Afastou o centro – que estava na sala – para o canto da parede, pegou uma das cadeiras da cozinha, colocou-a em cima do centro, e subiu. Tentava alcançar à divisória daquela parede, que dava para o quarto de dispensa. Começou então, ali deixar as chaves. Temia que a pequena Clarisse, saísse para a rua, sem que ele soubesse.
Ele há muito vinha se preocupando com as portas. Principalmente depois que começou a ver alguns noticiários na TV. Muitos assaltos vinham acontecendo. Não eram na cidade, diziam os repórteres, mas ele iria confiar? “O mundo está muito perigoso!” não parava de pensar nisso.
A cada novo plantão ele ficava apreensivo. Roia as unhas quando via tanta miséria e desgraça acontecendo pelo mundo afora. Já era notória sua frustração para os vizinhos.
Bastava qualquer ruído durante a madrugada para ele sair correndo para o quarto da pequena Clarisse. Ele ficava apavorado só em pensar em acontecer alguma coisa com a sua princesa. Passou então a ser guarda noturno, todas as noites encostando-se à porta do quarto da pequena. E ao amanhecer acordava assustado com os gatos se esfregando em sua perna, talvez pedindo alguma coisa para comer.
Temia o futuro da sua Bonequinha, nesse mundo de tantos assaltos, estupros... de tantas discórdias. Não agüentava mais, tinha que fazer alguma coisa para protegê-la disso tudo!
Numa manhã ele trouxe algumas caixas. A pequena Clarisse ficou eufórica quando viu as lindas bolas vermelhas, as trenas e dezenas de outros enfeites. Começara então, com a ajuda do pai, a montar a sua primeira arvore.
Quando trocava a fechadura, pela quinta vez naquele mesmo mês, ele conseguiu pensar no presente que iria dar a pequena Clarisse. Na tarde seguinte foi ao shopping. Comprou um lindo travesseiro do Ursinho Pooh que ela tanto amava e lhe deu naquela noite.
- É lindo papai! – respondeu, dando um abraço demorado.
Ele deu um sorriso triste. Apertou o abraço da filha amada e deu-lhe o beijo em sua bochecha. – Está na hora de dormir, vamos...
Tudo já estava pronto. Deitou-a na cama e ajustou o novo travesseiro. A pequena com olhar de pidona lembrou a seu pai os contos de fadas de todas as noites. Ele suspirou. Contou-lhe em fragmentos rápidos, uma fantástica fábula de uma tartaruga lerda que vencia corridas para uma lebre que se achava inteligente. E, antes que a tartaruga cantasse de galo, a pequena já estava dormindo.
Ficou observando-a. Deixou que algumas das diversas lembranças passassem por seus olhos: as maquiagens extravagantes, o banho, os sonhos... Teria mesmo que ser assim? Determinado, tirou alguma coisa do bolso.
Hesitou.
Lembrara da esposa; do triste incidente que lhe arrancou a vida. Fora assassinada quando voltava para casa. Chorou descontrolado por não conseguir proteger sua esposa daquilo tudo.
Tudo iria se repetir?! Olhou novamente para o objeto da mão esquerda.
Ouvia-se os sinos da igreja e algumas sonatas natalinas, quando teve que mover o delicado queixo de sua Bonequinha para, enfim, esvaziar o frasco por inteiro.
No dia seguinte, encontraram-no desnorteado, chorando em meio de várias bonecas; dentre elas, estava a pequena Clarisse.


Arquiles Petrus é da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência
Autor do livro Cataclismo (ed. Baraúna)

domingo, 11 de novembro de 2007

O cardápio das sobras


Pode ser que o jogo termine
E eu não tenha motivos pra ver
O que fica escondido na sombra
Que me cega por ócio ou dever

Viram gritos o que eram vozes
Na espera do retorno ao pó
Quero ver esse tempo acabando
Esvaindo, desatando o nó

E se quando a gente se olha
Vira as costas e chora no braço
Corre e foge, se mela e se molha
Somos doidos, perdemos o passo
Decretando o fim da infância
Como aquele que afrouxa um abraço

No mais curto de todos os cânticos
Hinos românticos, medo, veneno e sal

No cardápio das sobras, as vítimas
Obras legítimas, fungos, migalhas de pão.

sábado, 10 de novembro de 2007

ZUMBI



De quê me vale
a aberta vala,
se sou um morto
Que ainda fala ?

De quê me vale
a acesa vela,
se sou um morto
Que ainda reza ?

Mais que a morte,
Hoje a vida me consome.
Cara de sorte !

18:28 04/11/07
Leandro de Almeida

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Definido


Eu vou roubar tudo
Lhe tomarei tua alegria
O brilho do teu olhar
Teu sorriso espontâneo
Teus ideais, tua luta
Teus talentos
Podes me salvar?
Sendo você, libertar-me-ei?
Ainda que pouco signifique tua dor
Sendo a mais completa
Indefinidamente leviana
É capaz de esmagar-nos
Ó dor que de pequena
Faz-se imensa a quem sente
Doces problemas incontrolados
Faz-me incontrolável ser
Não quero nada de você
E nem sou capaz
De lhe tirar nada
Quero que tudo tenhas
Que sejas feliz
E que distante permaneças
Enlace coberto de doces promessas
Escuro, caminhas na escuridão
Distante de ti, não me encontras
Somente eu não posso ser tua luz
Uma vez que luz não possuo
Resguardo-me o direito de não parecer
Infinitamente sou das trevas um ser
Descrente de tudo que pode proteger
Onde o horizonte despe-se de prédios
Limpando-se tão quanto a nossa vista
Na noite comigo nunca estás
Estes momentos em que lhe quis
Ocupado estavas contigo mesmo
Me perco em meu próprio desespero
Acolhem-me os seres da noite
Protegem e acolhem mais que tudo.
Sombras que ausentes amedrontam
Noite escura que protege
A não lógica para os demais
Uma nova visão para tudo!

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frozen kisses


Thamires Nayara.copyright © 2007 proibida cópia ou venda sem o conhecimento do autor."A violação dos direitos autorais é crime"(lei federal 9.610)

quinta-feira, 8 de novembro de 2007


SOCORRO!
Grita minha alma.

No intuito de se libertar
Da escuridão gelada
Em algum lugar perdida
Dentro de meu corpo desolada.

AJUDE-ME!
Ela implora.

Salve-me desse corpo desgraçado!
Fecho os olhos
Tento intimida-la
Mas é em vão.

Ela grita ainda mais forte:
NÃO SE ILUDA SEU IDIOTA!

Resolvo ignora-la e ela apela:
VAI SE FUDER SUA CADELA!

Sabes que neste mundo
Não teves sorte.
Não relute
E se entregue a morte!

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Chacal

Ladram os chacais
no portal do inferno.
São guardiões das almas
que ás drogas se entregam.

Rosnam feito loucos,
anúnciando a chegada daqueles
que trocaram a vida pelas pedras
que são tragadas.

Transpiram de ódio,
ladram de euforia, abrindo
os portões das trevas para
aqueles não não valorizam suas vidas.

É triste vê-los condenados,
engolindo terra fria,
sete palmos enterrados,
suas almas em agônia

O preço a pagar é alto
pela ilusão consumida,
ausência de amanhã, abismo,
fantoches em forma de vida.

Choram as mães dos insensatos
por suas mentes vazias,
apelam pra que suas preces
não sejam súplicas tardias.

Leni Martins
(respeite os direitos autorais)

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Frustração de infância ...por Fernando Soares Campos



.



Durante muitos anos me senti frustrado por não ter conseguido matar a minha professora do segundo ano primário. Só matei o seu gato e cachorro de estimação.

Mas eu não era tão mau assim como alguém possa pensar.

Não matei o papagaio da avó de minha professora, pois o bicho vivia com ela há mais de cinqüenta anos. Roubei o papagaio e o vendi na feira.

Acusaram-me durante alguns anos pela morte da avó da minha professora, pois falavam que a velha morreu de desgosto pelo desaparecimento do papagaio. Mas eu não acredito nisso, pois o que a matou mesmo foi aquele seu desespero sem causa, aquele histerismo por causa do desaparecimento do papagaio. Ela era uma pessoa muito nervosa.

Mas não senti dó quando a professora escorregou em sala de aula e fraturou a bacia. Quem mandou ela escorregar na casca de banana que deixei nas imediações do quadro-negro? Além do mais, não foi para ela que eu coloquei a casca de banana. Foi para um colega exibicionista, que sempre se apresentava para resolver as questões que a professora escrevia no quadro.

Só sei que me senti frustrado por não ter matado minha professora. O marido dela me roubou esse prazer. O cara matou a mulher para ficar com Aninha, uma colega nossa da escola, que sempre ia à casa da professora a fim de tomar reforços escolar. Mas todo mundo sabe o que ela ia tomar mesmo. E onde!

Porém, hoje a Aninha, que já não é tão "inha" assim, está viúva. E falam por aí que o veneno para rato que ela comprava no armazém não era bem para os ratos. Sei lá!.

Mas alimento a esperança de que a Aninha tenha se vingado. Não da morte da professora, pois esta mereceu o fim que teve. Espero mesmo que a Aninha, que tanto gostava de mim, tenha se vingado de ele ter me roubado o direito de matar minha professora.

FSCampos
http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=845

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Pós despedida






Morrendo entre os mortos
a selene dádiva
de uma noite sem rimas

a espera pálida
desta mão
qual esgrima
que feriu-me
a alma
lançando-me
na neblina

da ferida tumba
guardada
pela noite
ávida

domingo, 4 de novembro de 2007

Cigana


Sou cigana
Leio sua alma
Desvendo seu corpo
E sua emoção

Sou cigana
Domino seu querer
lhe amarro no laço
a meu bel prazer

Te faço meu homem
te ato nas linhas
do meu destino
te faço meu bem
meu amor e meu menino.

(Sirlei L. Passolongo)

Direitos Reservados a Autora

(foto/www.revistaparadoxo)

sábado, 3 de novembro de 2007

Apresento


Meus dedos...
Furados pela ponta da minha caneta.

Escrevo com sangue
Sangue dos que já foram, mas
ainda circulam em minhas veias.

O passado nunca me abandona.
Eu o tenho por todo o meu corpo.

Um dia eu vou lamentar pelo que escrevo.
Mas primeiro...
vou saciar minha sede.

Autor: Adriano Siqueira
http://www.adrianosiqueira.cjb.net

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

por Mali Ueno


Olho teu retrato
na página do meu diário
entremeado por confissões
Já não és o mesmo
Que pecado, danado
saudades aos turbilhões

Lembranças partidas
algemadas às feridas
que companhia foram
nos momentos de só

Teu vulto só meu
me assombrava
delatava tuas delineações

Lembranças acabadas
enterradas ao crepúsculo
que embora foram
me deixando só

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Abate


Aquele corredor imundo fedia a bosta. Uma fila imensa de companheiras, angustiadas pelo que viria.
Os homens costumam dizer que somos seres irracionais. Mas eu estava consciente do que acontecia. Sabia onde ia dar o fim daquela agonia: No carrasco e seu facão. Ali naquele matadouro ainda usavam os métodos antigos, uma tortura. Eu era tão jovem, só cruzara uma vez. Ele era o Touro mais belo da fazenda, o mais viril. Lembro que foi a foda mais esperada, eu sempre o comia com os olhos. Seu pau esteve dentro de mim por horas. Tivemos dois bezerros, algum tempo depois, arrancados de meus braços.
Agora ali, com meu pelo ouriçado pelos bernes, medrosa, pois havia chegado minha hora.
Empaquei, não ia desistir, iriam ter trabalho comigo. Um dos ajudantes, percebendo minha manha, enfiou um cabo elétrico no meu cu. Quase morri de dor. Não tinha mais nada a fazer, era enfrentar meu destino.
Quando finalmente minha companheira de frente chegou ao nosso algoz, uma facada fulminante atravessou seu pescoço e de seus olhos sairam duas lágrimas, sem mugido, como se estivesse entregue, morta em vida. O sangue jorrava e era aparado por um balde de metal. Nem o sangue nos pertencia.
Assisti a carnificina como se dopada estivesse. Chegara a minha vez. Teria voz para mugir? Meus músculos contorcidos tremiam, choravam...
-Não! Acordei molhada de suor e em prantos. Maldito! Maldito! Tu sabias que eu levava sempre tudo ao pé da letra. Desde a infância fui uma pessoa sugestionável. Se me jogavam praga pegava, se me diziam que pedra era mole eu acreditava. Sempre tonta. E o bilhete continuava lá, colado ao espelho, como uma vingança fria. Paulo, meu noivo, descobrira que eu o traia e terminou o namoro de dois anos, idiota. E para me castigar colou uma pequena placa de alumínio escrita em vermelho no espelho do toucador:
- SUA VACA, ESTÁ SE PREPARANDO PARA O ABATE?
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