domingo, 31 de agosto de 2008

Pit Bytes



Quem não lembra dos PitBoy, nome dado a um ser semi-humano, fisicamente avantajado, fortíssimo, ignorante e, sobretudo, violento, muito violento. Em geral oriundo de famílias comuns da classe média da zona sul carioca, costumam praticar lutas marciais e se exercitam de uma forma no mínimo peculiar: dando porrada em pessoas inocentes, em geral escolhendo aleatoriamente suas vítimas...Pois é, aqui na internet temos os Pit Bytes, seres inteligentes, com grande aptidão em informática e truques internéditos, com cérebros transbordando de páginas offlines e perfil com foto de um cara sarado, na maioria das vezes atores americanos ou, quando muito, sua própria foto de perfil, sem camisa, numa pose para fotografia de seu próprio celular. Eles são inofensivos, é só você não clicar em nenhum link ou adiciona-los em sua página ou msn, de onde certamente tramariam alguns códigos em html para te roubar, esporte predileto dessa categoria.

Mas esse ser é quase sempre infantil, provocando mais risos que propriamente dano. O que preocupa mesmo são os BadCharacterBytes, seres inteligentes, letrados, quase sempre sem talento e na maioria das vezes com curso superior. Seres oportunistas, seguem o lema “tudo dentro da lei” e como internet é uma “terra de ninguém”, aqui pode...Roubam textos descaradamente, assinam obras de outrem, poesias, letras, frases, não se importando com a lei dos direitos autorais, uma vez que o fazem aqui, inatingíveis às punições legais. Não respeitam nada e ainda posam de bons samaritanos, possuem um vasto contato com literatas, comunidades, etc...O remédio para eles, por enquanto, é o barulho. Muito barulho! A denuncia sem medo, a mensagem em massa falando de seu crime, até que, acuado, bata em retirada e vá escolher outra vítima, outro babaca, como ele mesmo fala aos quatro ventos.Sim, porque ele não para, de vítima em vítima vai construindo seu currículo literário, uma vez que não possui capacidade para criar seus próprios textos.

A polícia e a justiça já deflagrou e puniu hackers, redes de pedofilia, atualmente deu um passo importante na questão da apreensão de automóveis para pagamento de dívidas pela internet...

-BadCharacterBytes! A sua vez vai chegar...Ah, se vai! E eu quero assistir de camarote!

sábado, 30 de agosto de 2008

Três pontinhos...

Acordei com vontade de três pontinhos, do tudo ou nada, não quero o talvez ou o quase, tive vontade de me lançar no vazio abismático sincronizado com o meu eu, que doidera! Seria indícios da minha insanidade, ou do revertério da minha insensatez, o que seria pior!
Tive vontade de pôr um ponto final nisso tudo, mas alguém sabe me dizer se do lado de lá não seria somente mais uma vírgula!? Três pontinhos, me deixa solta, livre, ir e vir sem lhe dar satisfação, quero três pontinhos nos meus medos, hora deixá-los crescer a ponto de me engulir do avesso, hora esmagá-los como míseras formigas, usando-o a meu bel prazer, três pontinhos naquele beijo demorado que foi interrompido pelo teu adeus, só mais três pontinhos é o que eu quero.
Não é ponto e vírgula, não é pausa, é deixar lá quieto sem ninguém saber, e quando der na telha eu volto, ora congela o momento, ora vai em slow motion, ora deleta mesmo, que se dane!
Tá tudo sem gosto mesmo, tá tudo preto e branco, três pontinhos pra isso tudo, quero prosseguir do meu jeito, será que dá?! Vou me refazer, me dispor a me impor novamente, ter uma reintegração de posse, vou ser dona do que já é meu, meu eu, que está aqui dentro esquecido a mercê de fórmulas de auto-ajuda, de rezas e cantigas milagrosas, de tantas vírgulas e exclamações, e o que ele quer é só três pontinhos.
Vou te dar um ponto meu querido, você que está em mim, e ao mesmo tempo parece ser tão autonômo, mas é frágil, sensível, inquieto, ansioso.
Nem o espelho consegue mais te revelar, vou ter dar uma colher de chá, só porque você me pediu com jeitinho... me deixou numa deprê braba, daquelas, do seu jeito sutil de me chamar a atenção.
Três pontinhos é o que quer? Então toma...


Angel Ilanah

blog:http://sushidebanana.blogspot.com/

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

DE ENCONTRO AO DESTINO



Ela caminhava pelo cemitério silencioso.
A noite caia de leve, cobrindo tudo com seu manto.
O cenário é triste, quase tenebroso.
E o murmúrio do vento nas árvores, confunde-se com seu pranto.

Ela chora por quem já se foi deste mundo,
Deixando-a sozinha neste poço sem fundo.
Sobre a tumba de seus pais mortos,
Seus pensamentos tristes voam absortos.

Nem percebe, a bela donzela,
Que alguém a observa a distância.
Brilhantes olhos que gritam a paixão por ela.
Paixão que o consome desde a infância.

Mesmo que agora ele caminhe pelo vale da morte,
As lembranças não o deixam um só instante.
Quando soube de sua tristeza, ele veio do norte.
Com um amor puro, de uma profundidade gritante.

Entre soluços, ela o percebe atrás de uma lápide.
Seus olhos se encontram, finalmente.
Ela estremece, misto de pânico e vontade.
Seu coração o conhece, mas não sua mente.

Ele então se aproxima lentamente
E toca no rosto por lágrimas banhado,
Num carinho suave e amoroso há muito ansiado.
E o rosto sofrido, se abre num sorriso finalmente.

E os lábios se tocam num beijo profundo.
Ela não sabe quem ele é, mas sabe que é para sempre.
Ele, por sua vez, não espera mais nem um segundo.
E crava suas presas, bebendo do sangue ardente.

E antes que o sol se levante detrás das montanhas,
Os dois amantes já longe se encontram.
Agora juntos, lutarão em outras campanhas,
Repletos de amor e desejo, que não se amedrontam.

By Ana Kaya Cristina,

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Assassinato




É apenas um jardim
de peito nu ao ar livre
onde o corpo de neve adormece em plumas pétalas
onde o sereno vermelho dar cor a tais.

Meu coração um velho templo medieval
escuro,onde apenas lustres suspensos lume
onde tua misericórdia adormecida gritava
mas eram apenas ecos sem vida.

Quando chegas em lugarejos a trucidar-me
caio de joelhos,sem receios por assassinar-te
e no acaso à saudade jamais há no meu peito.

E ao ressuscitares em outra inspiração
digo-lhe em voz trêmula minha renúncia retratada:
-és amor cósmico a cada volta,apenas imortal!

Por Emerson Sarmento

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A Casa Mal Assombrada

Eu preciso que vcs escolham uma foto para a comunidade "A Casa Mal Assombrada" e que digam se concordam que ela mude para:

"Eu vi, ninguém me contou" ou

"Aconteceu comigo, mas prefiro esquecer" ou

"O Fantasma da Casa"


Ou deixem sugestões de nomes....


FOTO 1



FOTO 2



FOTO 3


FOTO 4



FOTO 5

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Beijo da Morte


Do teu veneno destilo amor
Com teu prazer aniquilo como antíduto a dor
Não quero esquecer do mal
Pra me vingar com a minha mordida
Sugada de sangue maldita
Daquele seu instante malígno
Quase infinito
Instintivo
Em que me ignorou

Cristiana Passinato

(saiba sobre o seu primeiro livro de poesias: Ebulições: http://livroebulicoes.blogspot.com)

SOLUÇO FAMINTO




SOLUÇOS FAMINTOS


Vagueia pútrida como fel amargo, vagueia...
Pisa teu salto na límpida margem mas depois não venha dizer:
- “manchei o amor, ensangüentei a flor, facetei as letras que um dia me destes”
Sim eu sei, um dia te entreguei límpida como água cristalina, chegaste a encostar a boca mas vomitaste negra tinta, tu que tinges oceanos, tu que enfeitiças o amor e vorazmente comes.
Sobro-me faminto.


** Gaivota **




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domingo, 24 de agosto de 2008

A Hospedaria do Diabo


Reúno aqui os capítulos de 1 a 8 já aprontados para facilitar a leitura, sem ter que sair por aí a pessoa interessada abrindo linques para encontrar os capítulos anteriores.
Os que ainda não haviam lido capítulo algum, ficam apresentados a essa minha novela ainda inconclusa que se vai encerrar no mês de setembro, se espera, conforme as previsões mais otimistas, independentemente do resultado das pesquisas quantitativas ou qualitiativas que, nós do Vale das Sombras, estamos nem aí para institutos fazedores de imagem.


Adroaldo Bauer



Capítulo 1

O silêncio compacto tornou tétrico, feral e lúgubre toda a ala sul, onde era localizada a Hospedaria do Capeta, como os demais presos batizaram a 66, cela isolada, de chegada e trânsito entre as alas que se definiam por níveis de periculosidade na Casa de Detenção. Os vizinhos da hospedaria estranharam o repentino silêncio. Certo que era já noite alta, mas o preso do cubículo 66 esmurrara paredes e grades desde que chegara ainda no final da tarde da véspera e nada o fizera parar até aquele momento, seguramente umas três da madrugada, conforme a posição da lua vista detrás das grades. Ou dormira ou desmaiara. Os demais ainda insones estalaram olhos e aguçaram ouvidos. Nada.
Talvez estivesse morto.
A carceragem não se surpreenderia. O passeio da manhã no pátio interno de certo seria tenso para o novato. A lenda do lugar era que matador de criança ou estuprador de mulher morria cedo ali, muita vez antes de ter sentença em julgamento. E de motivos diversos. Até suicídio aparecia como causa das mortes assim.
Dois dias antes a imprensa dera copiosa cobertura da casinha destruída por incêndio, do cadáver de mulher incinerado junto a dois outros, de crianças.
As primeiras informações, ainda nos noticiários de rádio, reportavam incêndio, descuido da mãe, curto-circuito. As hipóteses ligeiras e comuns sempre sustentadas pela pressa incauta de dar publicidade à tragédia. As imagens de televisão foram de um bombeiro operando o rescaldo dos escombros, revirando cinzas. E uma boneca de plástico enrolada em um cobertorzinho rosa num carrinho de bebê milagrosamente intacto parecendo coisa plantada ali para animar a cena que as outras imagens tornava banal. Os jornais diários, mais parcimoniosos todos, menos o escandaloso Berro da Hora, já especulavam hipóteses de crime passional ou latrocínio.



Capítulo 2

Um plantão de polícia na sexta-feira já é uma merda, com esse gelo de zero grau e chuvarada, pior será, ajuizava com dois botões de um surrado casacão três quartos o inspetor Cheguêva. A uma da madrugada, então, a geladeira em que se transformava a sala úmida de alvenaria já sem reboco do prédio da 13ª Delegacia de Polícia era um cenário que cooperava com o raciocínio do polícia, que apenas dormitava em razão de que pés, pernas e a bunda; da cintura para baixo, o corpo inteiro, não havia jeito de aquecer. Tentara todo o possível. Mover-se. Enrijecer os músculos. Descalçar os sapatos. Trocar de meias, que trouxera nos bolsos um par delas de lã, sobressalentes para aquelas ocasiões. Por fim, medida que aprendera com mendigos nas rondas de rua, enfiou jornal velho nos sapatos, que molhara na chuva para chegar de casa até ali, caminho diário de um pouco mais de dois quilômetros percorridos a pé, em qualquer condição de tempo. Olhou a folhinha do calendário e deu-se conta que também era 13 o dia do mês de agosto em que fazia aquele plantão polar na 13ª. Suspirou desalentado.
- Vai dar merda!
- Que merda que nada, considerado, é barro. Fede, mas é só barro. Cai um caldo de dar dó. Vai desabar barraco no morro. É só esperar. O mal já foi feito, falou à guisa de saudação à chegada o inspetor Valafora, colega de plantão de Cheguêva naquela sexta.
- E choveu só pra ti, ô sem alma? Eu molhei o pé no vaso aqui do mictório, é isso? É água tanta que a Várzea do Agrião já virou raia de remo e vela, mais um pouco os sem patrão vão jogar os caícos nágua do Arroio Areão, é só esperar. Boa-noite pra ti também, colega. Sente aí e vá encilhando o mate que eu já ponho a chaleira pra aquentar.

Não tinham trocado três cuias, a parelha foi interrompida pela estridente campainha do telefone, já posto em sala contígua como tática de precaução para evitar desmaios de paisanos, modo como os polícias chamavam o contribuinte que se apresentasse à DP para requerer serviços. Lembravam sempre em momentos de descontração de uma certa feita em que um paisano despenhou-se para baixo de um birô no tilintar de trovão do telefone e não havia santo que fizesse o homem acreditar que fosse apenas uma campainha.
- Me alcança uma arma que eu ajudo! Tá vendo alguém? São muitos? O ronco é de calibre grosso, podem crer.
- Tu és prejudicado de guerra, vivente! Sai daí debaixo e te apruma nos conformes que isso aqui é só local de trabalho, não temos plantão médico. Alguém traz aí um chazinho pra acalmar o moço dos nervos, convocara o delegado que ouvia a parte numa queixa contra uma vizinha.
- A sirigaita põe a vitrola no último furo, com aquelas modas de viola e fica se estufando pros moleques da rua toda. Já tem visita chegando até da rua de baixo pra bisbilhotar o ponto turístico. É pura algazarra o dia todo. Até dez da noite, quando ela desmancha o teatro e ainda fecha a cortina com um adeusinho beijado de mão, seo delegado.
O queixoso acabara de ouvir do funcionário que há direitos e bom senso, que uma conversa ia ser feita com a dona, quando o telefone tocou naquele espalhafato atingindo em pleno os nervos já abalados do homem.
- Beba o chá e acalme-se. Essa sua queixa tem remédio, aconselhava paciente o polícia quando recebeu de troco uma resposta inusitada:
- Chá eu tomo em casa, o senhor me respeite que eu quero é sossego.
A reação desmedida do queixoso foi recebida por estrondosa gargalhada dos demais presentes, uma senhora com um guri de olho roxo, a roupa rasgada; dois homens de gestos efeminados que até ali haviam sido apenas sussurros e cochichos, o gurizote faz-tudo, estafeta da repartição, e Ofelina, a servente, que quase deixa cair a bandeja em que, solícita, já trazia uma xícara de chá para o alterado queixoso.
O episódio virou lenda na 13ª.

- Atende lá, Valafora. É pra ti. Aliás, às duas da madruga só pode ser pra t, deve ser aquela...
- Pode parar por aí, considerado, já estou lá. Deixemos as privadas no recato...
- Se a privada é pública, não tem remédio, colega...

Com o retorno do silêncio ao ambiente, agora sobrestado o tumultuoso alarme acoplado ao telefone, Cheguêva apercebeu-se de que a chuva estancara. E também de que os pés já se haviam aquecido com a receita infalível apropriada dos miseráveis. “Melhor que não sou pé-frio em sexta 13”, regozijou-se o inspetor, ainda sem suspeitar do que ou quem era ao telefone, do que não retornava o colega há já uns cinco minutos.
- Tragédia! Explodiu um botijão de gás, incendiou um barraco no Morro Carlota do Piá! Tem morte! Parece que até criança! Apronta-te que vou chamar o vigia pra segurar o plantão!
Valafora era só agitamento, a exclamação em pessoa.
- Pego a camioneta ou o sedan?
- Pega um carro que ande e nos traga de volta, Valafora, deixa de suplício. Vai logo senão chegamos depois dos bombeiros saírem e o povo caga a cena do crime. Pressa, homem!
- Quem falou em crime, ô agourento? É incêndio. Explosão de botijão de gás e fogo.
- Tem morte, é quase crime. Pra mim é assim. Pressa, vivente!





Capítulo 3

A intermitência da estrepitosa sirene de um carro de bombeiros acordou de supetão o Morro Carlota do Piá. Adultos e crianças correram às janelas e portões. As de colo e os bebês desataram em choro. Polvorosa era aquilo. As vielas estreitas e o barral não permitiam progresso rápido à viatura. Enfiados em improvisados abrigos contra a chuva, que iam de chambres a toalhas, passando por sacos de aniagem à moda de capotes, a multidão que se formou rápida amorteceu ainda mais a velocidade da marcha. Formou-se procissão à entrada da pequena vila onde o chamado telefônico dizia estar acontecendo o incêndio.
A sirene convocara mais que a urgência. Espicaçou a curiosidade do povo. A guarnição emperiquitada no carro parecia de santos em andor. Não faltaram sombrinhas, guarda-chuvas, até guarda-sóis de praia arremedando estandartes. O séqüito transmudou-se em fúnebre cortejo no minuto mesmo em que o alarma serenou. No cume do morro, isolada a um canto de uns matos, uma casinhola ainda ardia em poucas chamas sob um chuvisqueiro ralo, que já amainara a tormenta de há menos de meia-hora.

Valafora escolhera a perua preta com faixas brancas largas para subir Ao morro, argumentando ao parceiro que o veículo maior emprestava mais autoridade à operação que o pequeno sedan. Na embarrada curva de acesso à via principal da vila, com a redução de marcha, a perua refugou o aclive e quase desanda morro a baixo, em ré. Cheguêva grudou-se ao freio-de-mão enquanto gritava para o colega engatar a primeira marcha que acavalara a transmissão.
- Aí doutor! Essa lomba dá trabalho até pra caminhão de gás. Toca de freio puxado que ajuda.
Cheguêva não estranhou o cumprimento nem a orientação, que acabou sendo ajutório. Venceram a lomba em curva em segundos que pareceram horas de aflição, mais pela expectativa do vexame que dariam em público do que pelo risco corrido. Não estranharam a quantidade de gente acompanhando a perua à frente e nas laterais por terem já ouvido há bem dois quilômetros dali o inconfundível sinal dos bombeiros.
- Então, colega, adiante! Roda a manivela e faz soar a sirene e vê se afasta esse povo que não tá ligando pra autoridade do teu camburão.
Valafora não respondeu, mas obedeceu. Ele mesmo improvisara a sirene manual desde que a de fábrica há muito pifara sem conserto. Pegou uma extensão de fios por debaixo do painel dianteiro do carro, ligou nos contatos e rodou com volúpia quase infantil a maquineta posta para fora pela janela.
Abriram alas muito lentamente na multidão e invadiram o pequeno sítio da funesta ocorrência. A guarnição dos bombeiros encerrava já os trabalhos. Pouco pudera fazer além de recolher os corpos carbonizados de uma mulher e duas crianças para um rabecão e isolar o acesso à casinhola em escombros, as toras de madeira do telhado arriado pelo fogo ainda esfumaçando do rescaldo ajudado pela chuva.
Uma câmara de televisão perseguia o facho de um pau-de-luz por sobre a ruína calcinada recolhendo para a edição da manhã as imagens de uma boneca de plástico num carrinho de bebê.
- Que circo é esse? Que vocês pensam que tão montando? Não chega a desgraça, tem que ter crueldade? Tenho certeza que vão dizer lá no jornal que plantaram o brinquedo aí, com cobertorzinho rosa delicado e tudo e que a casa queimou toda e matou três e a boneca de plástico se salvou do tenebroso incêndio. A crueldade não tem mais limite! É tudo urubu em banquete no inferno! Arreda, arreda!
O protesto do inspetor Cheguêva era dirigido fisicamente aos jornalistas da TV. A peroração contra a farsa óbvia também justificava entre os mais próximos a encenação própria, o trovão da voz impostada, os gestos de comando, tudo há muito estudado em laboratório de dezenas de cenas iguais era destinado à alma do apinhado, que não movia milímetro de espaço para a investigação ser iniciada se não fosse tocada em profundidade.
E ao público da TV se a edição não cortasse a tomada dele.
Cheguêva arrematava como sempre naquelas circunstâncias: “quem ficar é testemunha, se tiver algum crime pode ser indiciado como suspeito, podem ir dando lugar ao trabalho da polícia”. As últimas três palavras eram sempre soletradas, pausadamente, ainda em voz alta, mas já em tom conciliador e conselheiro, dirigidas agora só ao povo presente.
Explodira um botijão de gás. A alvenaria da cozinha viera a baixo, arriando também a madeira do telhado. O fogo pegou nas treliças, nos tabiques, na mata-junta, no soalho de pinho, nos escassos móveis da peça feito fogueira junina.
- Na urgência de acudir, pulei duas valetas vindo para cá e me arranhei toda segurando no arame farpado pra não cair no lodo, repetia a quem chegasse uma vizinha de fundos da casa incendiada. Falava e erguia a mão à altura dos lábios, o gesto dando extensão às palavras. “O fogaréu era junto. Uma chama só, lambendo toda a outra peça de madeira, que era quarto e sala”, tagarelava compulsiva, reiterando o detalhe do próprio acidente com a cerca.
Aglomerado na viela ainda ladeada por duas caudalosas corredeiras resultadas do aguaceiro, o povo lamentava condoído a rapidez do sucedido sem chances ao socorro mesmo de vizinhos de lado e frente, coisa de 150 metros no máximo do lugar da tragédia.
Eram já quase três horas da madrugada, Valafora dentro da perua conversava com uma outra pessoa e teve um estalo. Despediu rápido e sem rodeios a mulher que já se debruçava na janela do veículo em prosa solta e só não correu no encalço de Cheguêva para não resvalar no lamaçal e rolar para uma das valetas da viela, agora já sem as cachoeiras antes evidentes.
- Chê! Chê!
- Calma, respira fundo e fala...
- Guardou a lata do sujeito contra o Chile?
- Que língua é essa, homem? Fala feito gente.
- Cheguêva, te deste conta que só uma pessoa desceu o morro enquanto nós vínhamos para cá e todo o resto era essa romaria aos céus? Justo o sujeito que te mandou grudar no ferro pra eu tocar fundo, lembra?
Cheguêva fingiu que não era com ele a provocação capciosa da malandragem e respondeu à altura do perguntado:
- Vamos investigar, doutor Valafora, vamos investigar...




Capítulo 4

- Zelito, pega teu irmão e passa pra dentro, já! Sai da ventania que vai chover. Vem logo, menino!
O chamado de Carlota pelas crianças seguiu-se a avistar um céu de chumbo que se formou num repente sobre o morro onde moravam, de um jeito dos que preparam vendaval e chuvarada. Correu a recolher a roupa nos varais repletos aos fundos da casa. Aproveitara para secar montanhas de camisas, blusas, calças, lençóis e fronhas naquele mormaço fora de época que a cidade costumava enfrentar nos agostos de inverno mais rigorosos. Fora um dia de 30 graus aprontando uma noite de cinco. Enquanto retirava a roupa a passar para entrega no final do dia, ainda antes da novela da tevê, Carlota fazia mentalmente a contabilidade dos ganhos com as 13 trouxas que lavara na semana. Mais com mais, menos tanto, põe e tira... Deu-se a si mesma um sorriso satisfeito de quem poderia comprar aquele tubinho vermelho para estrear na Primavera e os novos chinelos de borracha colorida para os filhos.
As crianças dela eram dois meninos, um de 12, outro de cinco anos de idade, que ela aos 25 cuidava como poucas. Amava-as de tal modo que nem deixava ficarem sós mais de um minuto.
- Criança é azougue dona Ofelina! Descuidou, tá pregando peça na gente, fazendo traquinagem e ralando a cara no chão, comentara com a vizinha ainda pela manhã, quando estendia pacientemente, peça por peça no varal, dois prendedores de madeira em cada para esticar bem os panos e buscar melhor o vento e o sol.
- Manhê! Deixa a gente tomar banho de chuva, deixa! Pediu um esbaforido Zelito, vindo correndo da rua sem pavimento, já levantando um pó vermelho fino com o vento forte do temporal que se armava, trazendo quase de arrasto o irmão Piá, como a vizinhança apelidara o mais novo de Carlota. Piá fazia caretas e se contorcia tentando livrar-se da pegada forte da mão de Zelito. Surdo, não emitia som pelo descontentamento. Era apenas esperneio de insatisfação de estar a reboque naquelas condições de euforia do irmão.
- Banho de chuva só no pátio dos fundos, no piso de laje, sem barro. Se embarrar, vão ficar do lado de fora até eu terminar de passar a montanha, consentiu Carlota, apontando para as roupas já recolhidas empilhadas sobre a cama de casal que dividia a única peça da casa de uma cozinha minúscula em que fogão e uma mesinha redonda formavam a mobília com um armarinho suspenso sobre a cuba de uma pia sob a qual alojava-se rente à parede um botijão de gás. Além da cama, um vão em que cabiam apertadas ela e a tábua de passar e, após ela, já na outra parede, um roupeiro de duas portas e um tamborete sobre o qual instalara televisão e rádio-relógio.
Sobre o armário, todas as demais riquezas da família, um triciclo de plástico, uma mala preta grande e um enorme bicho de pelúcia que ganhara numa rifa de quermesse. Um urso branco já amarelecido pela poeira que não havia jeito de evitar entrasse em casa, quanto mais em dia como aquele de ventania. Apressou-se a estender um lençol enorme sobre as roupas recém lavadas para não empoeirarem e baldarem o serviço do dia.
A faina de Carlota foi interrompida pela música do alto-falante do caminhão de entrega do gás. Ela correu até a porta e fez o gesto de sim com o polegar da mão direita para o entregador, que alçou um botijão ao ombro e veio no rumo da casa. Ela era toda sorrisos com o moço da entrega, que já se conheciam de há muito, até intimamente, ele inclusive desconfiado de que o Piá fosse filho dele, tanto que se pareciam os olhos azuis dos dois e o cabelo loiro grosso feito palha de milho, nada similar ao de Carlota que os tinha pretos e finos, escorridos até o meio das costas, bem cuidados e limpos, quase sempre em longa trança, pelo que muita gente a chamava de cigana, Cigana do Piá.
- São meus tesouros, além das crianças, estas madeixas de madalena que mamãe sempre me fez bem cuidar, dizia prosa em resposta a quem comentasse da beleza da longa cabeleira.
- O senhor, seu moço, pode trocar o botijão para essa sua amiga que está cuidando de roupa lavada e não deseja sujar as mãos, por gentileza. Tenha certeza que sua paga será generosa e justa, provocou Carlota.
Apressado, com o motorista do caminhão já empilhado na buzina do caminhão, Zuni, como era conhecido o rapaz da entrega, trocou o botijão, beijou rápido os lábios de Carlota e saiu apressado, tropeçando nos degraus e deixando escapar o botijão de gás vazio, que rolou por um declive para dentro da vala do esgoto. Apressado e aborrecido, bateu a porta do veículo e ordenou a partida. Quando retirou o botijão do lodo, o atirara e as luvas agora imundas sobre a carroçaria do transporte.
- Vamos embora, Doutor Pressa, essa foi a última entrega do dia, estamos feitos e eu cagado até os joelhos.



Capítulo 5

Sem o sol, a primeira hora da manhã é ainda mais escura que o comum dos dias daquele rigoroso inverno. Nuvens carregadas recortadas amiúde por coriscos e trovões. Ainda que longínquo, o ribombo faz tremer as carcomidas estruturas da antiga carceragem. E mesmo as almas de alguns apenados, acordados de chofre, ainda sem tino para o acontecido. O vento varre impiedoso e frio os corredores fracamente iluminados, balouçando lúgubres pêras incandescentes, bulbos pingentes do teto úmido por apenas fios coalhados de moscas. O lugar é malsão. Promotor celerado dos resfriado a gripes, estas a pneumonias muita vez severas comandantes de mortes rápidas. O ruído de ferro rolando na pedra apenas cimentada do lúgubre corredor sequer é percebido nas celas. O tranco compassado do pino torto da roda de uma maca carrega de estalidos os intervalos retumbantes. A 64 e a 62 são celas convenientemente esvaziadas de presos para obras inacabáveis, justificativas de pedidos sucessivos de material de construção à administração pública. Um outro corredor extenso e de mesmo modo parcamente iluminado, com ainda menos lâmpadas que a galeria principal, inicia à frente da cela 66, agora aberta, para onde a maca é empurrada com evidente contrariedade e contraditória pachorra por um sonolento gordo de roupa mal abotoada, a pança pontuda estrebuchando dos vãos entre casas do jaleco roto caído dos ombros estreitos feito disfarce de fantasma em festa infantil de assombração.
São exatas 6 horas.
Dali sai ensacado em plástico azulão fechado por cordas o corpo retesado do encarcerado que estrugira uivos lancinantes até três horas antes. Nenhum dos poucos presos já despertos vê mais que de esguelha, ou por espelhos colados em varetas feitas de antenas quebradas de automóveis espichadas para fora das grades, a muita distância, mais que a rápida transição de cinco metros da cela ao vão oculto pelas paredes. Desde a 66 para o inferno, sem escalas, dizem entre si os presos sempre que a cena se repete, porque o destino da maca deslizando o féretro improvisado entre as paredes é a enfermaria do lugar, que além de socorro urgente serve também de lugar para a acomodação temporária de cadáveres até a chegada da gente da Medicina Legal, que costuma “demorar além da conta”, como consta do terceiro relatório seguido da administração do presídio enviado por trimestre aos superiores hierárquicos da secretaria de Justiça. É que ali ficando, sem a devida atenção asséptica, para não imporem além da incômoda ocupação indevida de espaço dos ainda vivos, são levados à câmara fria do dispensário, enfiados de flanco na geladeira de seis portas, único recurso do lugar com temperatura achegada ao zero capaz de preservar os corpos da ruína irreversível.
“Morto está”, sentenciara o gordo enfermeiro em final de plantão de 24 horas, apalpadelas rápidas no pescoço sob o queixo e nos braços do corpo estirado no chão de pedra da fria cela. Último recurso, o estetoscópio sobre o peito à cata de batida cardíaca não encontrou ruído. O ribombar dos trovões cessara como a oferecer réquiem ao ligeiro diagnóstico. O silêncio tornara a azáfama funesta. Do que exatamente morrera o mais recente encarcerado da hospedaria do diabo, ainda não era possível saber. A inspeção ligeira do corpo não revelara ferimento de faca ou enforcamento, as causas mortes mais freqüentes no lugar, além da pneumonia, da tuberculose e das recorrentes assombrosas asfixias. Fora do ramerrão, as cuecas do homem apresentavam à frente e às costas minúsculas placas escuras endurecidas parecendo de sangue coagulado, única peça das vestes todas com aqueles sinais sabe-se lá quando produzidos, de que modo e por quem. A testa inchada denunciava as cabeçadas recentes dadas nas grades da cela, assim como as costas das duas mãos raspadas nas juntas dos dedos todas denunciavam ter ele esmurrado violentamente o concreto das paredes e do piso, o que se verificaria após exame do lugar com facilidade para encontrar vestígios da pele do homem. Quase se podia afirmar que estertorara em dor intrínseca, não do que doesse porque se debatesse.
O despertador da enfermaria disparou o alarme às 7h30min, mesma hora em que fenomenal aguaceiro desabava os céus sobre a carceragem e os sinistros portões de quatro metros de altura se abriam em par a dar entrada para o automóvel de transporte administrativo que trazia ao lugar o diretor do presídio, confirmando a ordinária programação de trabalho. O locutor de uma emissora de rádio dava o boletim meteorológico informando que a chuva iniciada há pouco poderia continuar por todo o dia e mais o próximo, que a temperatura ia baixar a próximo de zero, produzindo o fenômeno de variação de 30º graus em menos de 24 horas.
- Desliga essa merda aí, Pancrácio, é só notícia ruim que dá esse rádio, porra!
Lentamente, o motorista alcançou o painel do veículo com a mão direita enluvada e desligou suavemente o aparelho, conforme o comando espinafrado do chefe, sem qualquer comentário. Antes de retornar a mão ao volante, acertou o quepe e alisou o nó da gravata de modo também autômato.


Capítulo 6

Apolo Zuni retornou à casa de Carlota à noite, sob aguaceiro descomunal. Ao chamá-la do portão tosco da pequena morada, estranhou que ouvisse a própria voz à porta da mulher. Não pensara em retornar ali tão cedo, ainda que a suspeita de que fosse mesmo pai do Piá não o abandonasse há bom tempo mais que por uma semana, aquelas em que a entrega de gás não subia o morro.
Uma réstia de luz mortiça projetou-se no acanhado alpendre desde o interior da casa, iluminando fracamente o perfil de Carlota convocando o moço encharcado a entrar. Zuni fechou a pequena sombrinha que tomara emprestado da própria Carlota em uma outra noite e a pendurou pingando num gancho na parede externa da casa. Sacudiu forte a capa de plástico azul uniforme da empresa distribuidora de gás e a transformou rápido numa pequena bola empapada, que enfiou num saco da mesma cor retirado do bolso de trás das calças de brim.
- Tiro as botas?
- Não carece, o assoalho está uma lagoa mesmo. Entra. Rápido que a ventania pode resfriar as crianças. Recém dormiram, as espoletas.
Carlota respondia e já o puxava carinhosa, com a mãozinha de unhas pintadas em vermelho vivo espalmada à nuca do homem. Para completar o gesto, mignon que era de porte, Carlota ficava à ponta dos pezinhos, uma bailarina em demi, quase voando. Era por essa razão que sempre retornava ali, explicava-se em pensamentos o homem já embevecido com o gentil e fino trato que lhe dispensava Carlota.

Aos 13 anos Carlota engravidara de um namoro que logo se desfez, razão porque abandonou a escola de balé em que dançava desde os sete. A família quisera o aborto. Ela rechaçou, afrontou. Foi mandada para a casa de parentes no interior, onde ganhou Zelito e ficou lavando roupas para fora apenas até juntar dinheiro que lhe pagasse a passagem e um mês de estadia numa pensão que localizou por jornal. Chegou na cidade com a roupa do corpo, mais duas de muda e uma sacola fedendo à fralda cagada, do que se desculpou de pronto com a dona da pensão.
- Isso é só por causa da viagem que foi longa, eu cuido bem das roupas, sei lavar muito bem, se a senhora precisar, inclusive lavo as daqui e cobro metade, bem baratinho.
- Não carece, mocinha. Sei bem qual tua necessidade. Eu mesma já passei por isso. Vá entrando e depois nos entendemos. Teu quarto é aquele...
A mulher parecia de há muito dela conhecida. Afável, falava baixinho, gesticulando largo, mostrando cozinha, sanitário, pátio, tanque e uma ampla sala onde ficava a maior mesa que Carlota já vira até aquele dia. Dava bem umas 30 pessoas sentadas ao mesmo tempo. O “pensionato familiar só para moças” , como se lia na tabuleta à porta, acabava de receber a décima terceira pensionista. O neném não contava como hóspede, assim como os pequenos filhos de outras sete hospedadas ali também não, fossem meninos ou meninas, que podiam ficar com as mães até com 12 anos de idade, explicava um pequeno folheto que a dona da pensão passara a Carlota para “leitura com atenção”.

Apolo Zuni espreguiçava-se no apertado reservado improvisado por Carlota para separá-los das crianças na cama única da pequena família.
- Cama de trinca, que aqui não tem casal, brincava a mulher, zombando de si mesma pelas condições precárias em que sobrevivia.
O amor feito em silêncio deixara marcas nítidas em lençóis amarfanhados e denso cheiro de sexo mesclado à lavanda mentolada dele e ao toque de amor de florais dela. Aproveitando o que lhe pareceu ser o melhor momento para tanto, Apolo disparou a pergunta que lhe martelava a cabeça semana sim, semana não:
- O Piá é meu filho, Carlota?
Sem piscar, nem mover músculo da face, apenas tremendo levemente um dos pés expostos para fora do lençol que lhe recobria o corpo alvo e desnudo, a unha vermelho vivo faiscando reflexos da tênue luminosidade da pequena lâmpada de abajur, Carlota replicou em tom de voz frio, grave, quase soturno:
- Sim, Apolo, o Piá, o Zelito, os trigêmeos da vizinha aí da frente e a puta que foi parida pela macega também. Te manda daqui, merda! Tá me tirando pra zona! Pega teus brinquedinhos e salta fora!
A fúria não alterou o tom da voz de Carlota, que era baixo por causa das crianças a dormir, mas também porque vizinhos dela adoravam saber do que se passava na casinhola para levar à feira. A força do braço que empurrou o homem para fora da cama no rumo da porta, no entanto, parecia de quem carrega mais que botijão de gás, isso Apolo Zuni percebeu. Sentiu e apressado juntou peças de roupa no chão, vestindo-se rápido porque aquele surto de Carlota ele já sofrera outra vez e não queria provar de novo. Quando ia trancando a porta, o homem já fora da casa desembrulhando a capa plástica para se abrigar da chuvarada, a mulher falou à guisa de despedida:
- Não vai cair na merda outra vez, ô tanso!



Capítulo 7

- A senhora tem certeza de que não é trabalho, dona Ofelina? É possível que volte só no domingo pela manhã, mesmo. A gente nunca sabe. Depois de tanto tempo, nem sei o que se faz mais em festa...
- Que trabalho que nada, Carlota, o Zelito é um mimo de criança. Fica tranqüila e vê se te diverte um pouco, que só ralar embrutece a alma. Vê se arranja um namorado firme, bonitão e trás ele aqui pra gente conhecer.

A mofa da vizinha tentava desanuviar a tensão que percebia em Carlota, enfiada numa saia tão justa e curta que lhe deixava o par de coxas bronzeado quase todo à mostra. Era uma mini-saia em brim lavado azul, que fez combinar com uma blusinha vermelha esvoaçando solta desde as alças fechadas em laços quase infantis sobre os ombros nus de um moreno conquistado ao sol no tanque de lavar e no estender as roupas no varal ou no quarador. Dali só as tirava ao cair da tarde de todo o dia em que não chovesse.
- Então, desde já fico agradecida e lhe devendo um presente. E tu, guri, cuida da dona Ofelina pra mamãe que já volto, tá bem?
Beijou e abraçou o menino, tapinha na própria testa a dizer que estaria pensando nele, dois beijos de comadre na vizinha e uma rápida volta sobre os calcanhares que fez os sapatos de tênis rangerem no assoalho do alpendre e as duas mulheres e a criança rirem do fato, antes de abanarem-se às mãos em despedida.

Desceu rápido as ruelas do morro, quase todas vazias de adultos àquela hora de início de tarde da sexta-feira feriado ao encontro da turma de meninas da Avenida, que haviam todas combinado de irem juntas ao parque de diversões. Ela não estranhara o convite das adolescentes, embora já com filho e já aos 19 anos, por saber que a consideravam menina, mais por pequenina que por de fato. E, também, por acompanhar à risca a moda da juventude, que conhecia até pelo avesso.
A maioria das jovens da turma era de famílias para quem Carlota lavava e passava trouxas e trouxas de roupa há já quase cinco anos, desde que deixara a pensão em que se alojara ao chegar à cidade e mudara-se para a casinha construída numa ponta de terreno cedida a ela pela futura vizinha Ofelina no cume do morro em que foi morar. Conhecera Ofelina de uma vez que foi à 13ª Delegacia procurar informações de como fazer carteira de identidade. Conversaram sobre outras coisas, caíra nas graças da funcionária, que passou a visitar com alguma regularidade no trabalho e mesmo em casa, em fins de semana, para espairecer do clima pesado da pensão, lugar em que “problema pouco e pequeno era coisa rara”, como costumava repetir para a amiga.
- Eu mesma fiz a casa! – jactava-se Carlota.
E a verdade é que a fizera mesmo, em parte ajudada por dois moleques do beco, que subiam os caibros e as folhas de zinco por cordas para o oitão e o telhado. O resto foi tábua e prego, prego e tábua, depois tinta, tinta e tinta, já no último mês do ano que a obra durou. Certo que os alicerces e o conjunto de alvenaria para banheiro e cozinha ela contratou de um pedreiro dali mesmo, que o fez em um sem número de fins de sábados em que não tinha bicos fora do morro. E tudo em troca de um bom chimarrão cevado a capricho, uma rapadura puxa que ela assegurava ser da colônia e, ele muito agradecido a isso, pela roupa sempre bem lavada e passada.

Carlota começava a duvidar ter sido boa idéia aceitar a coação da turma animada para a reunião-dançante após à tarde de domingo no parque com todos aqueles rapazes que se enrabicharam nelas há primeira hora que chegaram ao lugar. Elas todas em mini-saias, tubinhos justos, shortinhos, blusinhas tomara-que-caia transparentes e até camisetas pintadas em casa com desenhos originais resultantes de amarras de cordões enfiadas em baldes de tintas corantes, do tipo daquela do artista do filme de música que ela adorara ter visto e se apaixonara pelo descabelado. Os pés em sapatos de tênis ou sandálias de couro e mesmo de borracha para enfrentar o calor de mais de 30 graus que dera folga ao inverno já quase primavera.
Um loirinho miúdo se arranjou de par e, toda vez que olhava para ele, onde fosse, nos brinquedos ou num banco do parque, estava de olhos encravados nas coxas dela.
- Nunca viu perna de mulher, ô tarado!
O rapaz ficara tão rubro como a blusa dela em conseqüência da chacota súbita. Sem ligar para o acanhamento dele, ela o convidou para andarem juntos na montanha-russa. Santo remédio. Ele cerrou o semblante em quase pânico. Ela viu-se livre do olhar concupiscente dele pela primeira vez. E para o resto da tarde. Por muito pouco não retorna para casa mais cedo e dá fim à festa, quando ele, enjoado e aliviado do medo do brinquedo, vomitou a seus pés na saída da montanha russa. Carlota alcançou-lhe um lenço mínimo que catou numa bolsinha de crochê já um pouco marcado de batom vermelho. Deu-lhe as costas para não pejar ainda mais o moço estremecido. Condoeu-se, mas ria para si mesma da fragilidade outra vez confirmada por aquele candidato a seu par.
Eunício, era o nome todo do Nisso, como os demais da turma de rapazes o chamavam. Não tinha ainda 18 anos, não prestara serviço militar, estava no segundo Científico. Nascido e criado na Capital, sempre morou na Zona Norte, em um casarão de quadra e meia da Chácara dos Bento, na Estrada da Pedreira. Quase um depoimento formal, essa última fala apressada do rapaz a fez parar o questionário, um rosário banal de prestação de contas de onde estudas, já trabalhas, onde moras, de que gostas, sabes dançar, jogas bola, tens namorada, vens sempre aqui...
A música que os dois dançavam, já as mãos dele à cintura dela, as dela à nuca dele, os rostos colados ainda que o suor porejasse das frontes, as pernas de ambos amassando umas às outras, roçando leve de quando em vez as pélvis, cessou para ela, embora ambos continuassem a rodar suavemente, cobrindo a extensão da sala, os passos guiados firmes por Nisso, que a conduzia leve tal um mestre-sala, do que ela muito gostara. A memória dela desandou em turbilhão, como uma fita desenrolada de carretel na matinê, à menção dos nomes familiares do bairro onde também ela nascera: Chácara dos Bento, Estrada da Pedreira... Para todas as pessoas que conheciam Carlota adulta isso era um segredo.

Capítulo 8

Aquela era uma cena cotidiana, fosse quem o plantonista da emergência da enfermaria do estado-maior-de-grades: o diretor sentado à mesa tipo escrivaninha, ainda de chapéu, de costas para a porta de entrada da sala, como a contemplar o nada numa parede lisa sem um quadro à frente, ouvia o relato das ocorrências do setor, por cinco minutos, às 7h45min. Fazia o aceno frouxo com a mão direita como o dar até logo a pessoas apenas conhecidas ou para intervalos breves de ausência já de frente para o destino. E não usava ter quadros na parede às costas de si, como explicava a quem sugerisse enfeitar a sala, como uma ou duas secretarias mais animadas já lhe haviam sugerido, para “não perder de vista a olhada do comparte e não dar motivo de abstraimento, que isso aqui não é recinto de convescote, é sítio de afazeres.”
Naquele dia, no entanto, após ouvir o relato, não dispensou o interlocutor, parado às costas do espaldar da cadeira de couro preta que dissimulava os seus quase dois metros de altura e, principalmente, a largura estranha dos ombros em relação ao peso, muito estreita para o conjunto, como a formar a figura de um losango.
- Com o que, então, senhor doutor plantonista, morreu um homem de não sei o quê ainda e guardamos o cadáver na geladeira junto às comidas frescas de nós todos? E se a peste se espalha por ali, e a levamos paras nossos filhinhos e amadas esposas em nossas casas e esses levam às escolas e essas levam aos mercados e feira esse tal de não sei o quê de quem nos fala sua eminência?
- Mas... Mas... Deixar que ficasse fora do gelo não ia dar na mesma e mais rápido e já na teria isso tudo acontecido se o homem entrou aqui e respirou conosco desde o meio-dia de ontem, senhor?
- A razão está contigo. Vai e apressa a Medicina Legal para vir recolher o presunto que disputa o espaço no gelo com a nossa merenda. Vá depressa, homem. Vá, logo!
O enfermeiro já fizera o recomendado. Há meia hora encomendara o serviço aos colegas, que se comprometeram a buscar o corpo do morto da 66 no presídio ainda pela manhã. Não disse ao diretor para não parecer provocação e supunha que, sendo parte da rotina, ficasse em surdina o tema, a sensação de que a providência tomada deixasse as coisas no lugar e se impusesse como fato à compreensão de todos.
A suposição durou poucos segundos, a extensão do percurso no tapete marrom escuro, um trilho claro ao centro resultado do tempo de uso, disposto da pesada mesa de madeira-de-lei escura à parede clara, a alvenaria repintada de bege, ou pérola, “essa cor meio suspeita que vocês aviaram para minha sala” , como o diretor havia reclamado ao mestre-de-obras na oportunidade da última reforma do lugar, há já uns cinco anos. Reclamação apenas para constar, que as tintas estavam já compradas e na medida exata do para cada qual, sem volta que não durasse pelo menos um exercício orçamentário e mais um processo inteiro sobre os porquês da recusa.
Girando a poltrona, que gemeu nas molas e suportes como um gato pisado no rabo, o diretor interrompeu a saída do enfermeiro já meio corpo fora da porta com nova argüição, essa parecendo completamente estranha aos fatos corriqueiros daquele expediente e às formalidades do ambiente:
- Pode-se saber por que o vivente sabe tudo das cuecas do morto?
- Tudo é muita gentileza de vossa senhoria. Sei o que vi e talvez pouco menos do que vi, que as lâmpadas continuam queimadas, muitas, e a luminosidade escassa pode produzir efeitos que só as sombras explicam. E a regra é tirar o uniforme do preso morto para aproveitamento futuro se não há sujidades e furo de bala ou faca. O uniforme está intacto, pronto pra reuso e não é prova de crime algum, sem pólvora ou mancha de sangue. Não é do senhor mesmo a instrução?
- Novamente a razão lhe emprenha, considerado, vá fazer o que tens feito. E avisa-me da chegada dos colegas da Legal, que o circuito interno de tevê pifou de novo e não se vê daqui mais o portão da entrada principal. Pode ser?
O gordo abanou com a cabeça lentamente em sinal de afirmação e saiu ruminando a idéia de uma jornada estendida até um talvez que só dependia de colegas de outra seção. “Membros de fora atacam novamente”, era a expressão cunhada para ocasiões do tipo.


De que morrera o homem trazido para ali há apenas 24 horas em perfeito estado físico atestado no ingresso embora a aparência óbvia de pacóvio era pergunta suspensa em inextrincável silêncio. O rabecão chegara ao presídio às 13h39min. Cheguêva acompanhava a equipe da Medicina Legal. Fizera o mesmo trajeto na véspera, à mesma hora, com o atoleimado prisioneiro, capturado após uma bebedeira no Bailão do Ricomota, em que se jactava de estar livre tendo feito o que fez. Contava pela terceira vez a mesma história no balcão, entre goles traçados de cachaça e cerveja.
A rotina do inspetor Valafora, de ronda a botecos, boates e congêneres o levara a dar com os costados no Ricomota, lugar em que encontrou pela segunda vez em apenas uma semana com o homem que nunca vira antes, o que lhe dera conselhos de como dirigir a camioneta para vencer a lomba escorregadia do Morro Carlota do Piá.
- Pois o amigo não quer contar essa história para mais gente, num lugar mais sossegado? Eu tenho uma prima bonita que gostaria muito de ouvir isso de que tanto gostas de falar, queira acompanhar-me.
A reação do homem ao perceber que estava sendo detido por polícia foi de fuga imediata. Tentou correr. Derrubou cadeiras, atropelou pessoas. Jogou um casal que rodopiava no salão para cima de uma mesa repleta de garrafas de cerveja recém dispostas pelo garçom à freguesia, meia-dúzia de homens aparentemente estivadores da Mercante. O resultado não poderia ser pior para ele. Parado à porta pelo segurança do lugar, um sujeito mais alto que ele quase um metro e largo como o vão de saída, os seis que lhe iam ao encalço após o estrago à mesa só pararam de afofar-lhe os músculos e ossos a socos e pontapés ao comando de Valafora:
- É a Polícia! Deixem o homem comigo que ele tem mais contas a pagar que meia-dúzia de cervejas.

À frente da escrivaninha do diretor do presídio Cheguêva sentia o mesmo incômodo de muitos que ali estiveram antes a falar com as costas do espaldar da poltrona. Via apenas a careca luzidia do homem e o adivinhava alto em razão do espaço que ocupava o corpo do assento ao espaldar, coisa de mais de metro. Somando as pernas, pensava, poderia o careca ter até dois metros de altura.
- Com o que, então, senhor diretor, o morto de não sei o quê apresenta ferimento algum de bala, nem de faca, não tem marca de estrangulamento, tá de pescoço e lombo lisos e só abrolha alguma alusão a sangue nas cuecas maculadas?
- como de fato é mesmo, senhor inspetor, e estamos aqui no aguardo de que nos digam lá, da Medicina Legal, o que se passou na travessia do de cujus dessa para outra instância. E nos faça o favor de mandar informação breve porque a cela 66 é de passagem e, com a reforma em andamento, não temos outra para abrigar seus convidados eventuais que ainda não acertaram os saldos com os juízos da lei. E vá que nos traga vossa senhoria um outro hóspede antes de concluir a desmontagem da cena. Temos mais o que nos dizer?
O trato polido era demasiado aparente para policiais de carreira que há muito se conheciam. Por alguma razão, pensava Cheguêva, já dando volta aos calcanhares, tendo pegado os papéis que o diretor lhe alcançara assinando a liberação do corpo para transporte ao Instituto Médico Legal, o homem está indisposto com a função.
Há cinco anos, o diretor era Chefe da Polícia Metropolitana. Substituído do cargo numa dessas trocas de governo, a confraria dissolvida por mortes variadas de motivos diversos e aposentadoria compulsória, entre motivos outros, restou-lhe a exoneração do quadro ou a direção do presídio, que só aceitou, contava-se à boca pequena, porque carecia dos proventos aumentados posto que dilapidara as posses todas no carteado e na roleta, nas rinhas de galo e cachorro, jogatinas que protegia sob o manto da inação e dos grossos óculos escuros, mas que não lhe garantia vitória contra o azar. Quando a propina deixou de pingar, foi-se o boi com corda ao brejo em que a vaca já se encontrava. Era o que supunha o inspetor, colega que fora do atual diretor do presídio na Central. O próprio Cheguêva é remanejado para “delegacia de confins sem meios”, como diziam dos locais afastados em que o patrimônio ou caía aos pedaços ou andava empurrado. Sorte, diziam, que ainda havia munição para revólver, pois as escopetas desembaladas eram só ameaço e cagaço. Seguidamente davam retorno vexatório a perseguições não organizadas em batidas por falta de munição para confrontar metralhadoras automáticas portáteis que a bandidagem já comprava de quartéis daqui e de contrabando.
- Uma boa tarde para o senhor também, retribuiu secamente ao cumprimento o diretor, sem o aceno de mão, posto que estava de frente, mas com o usual ar de enfado aumentado pelo humor pouco e a depressão daquele dia ainda chuvoso e cada vez mais frio.
- Peço para ligar o ar-condicionado na saída se o senhor não se importar. Essa gente miúda sempre esquece os detalhes mais comuns, disse Cheguêva, sarcástico e sabedor de que não havia aparelho de ar-condicionado no presídio, batendo a porta sem aguardar a explosão de raiva do ex-todo-poderoso colega.

sábado, 23 de agosto de 2008

URUBU

















No alto ele voa

negro

nobre

sereno

por ter comido

morte

vivo!


Marcelo Farias - Para Entender a Mágica

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Feitiço




Eu te convido
Entre ervas e unguentos
De um caldeirão
De cor viva
De tom morto
Um pouco torto
De enchofre cheiro
E propriedades...
Um sapo
Uma aranha
Uma asa de morcego
Um dente de piranha
E um motivo...
Eu te convido pra beber
E ser escravo de meu ser
Senhor de minhas vontades
Você que sabe
E eu que dito
Eu te convido
Eu te convido...a vir comigo...
A eternidade...maldade...amor...tesão...
E se disser um não
Eu te obrigo
A me querer...tiro seu chão.

Me Morte

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O ANTRO DA BRUXA

Ele entrou, cerimonioso.

Nunca poderia crer que a Bruxaria lhe abrisse os olhos daquela maneira.

Afinal, vinha de uma prole fortemente influenciada pelas prevenções infundadas da Santa Inquisição. Ele mesmo fôra um beneditino ferrenho.

Vasculhou com os olhos o covil. Era estranho. Era obscuro. Era mágico. Sentiu pairar no ar, inundando o ambiente, toda aquela irradiação superior, inexplicavelmente venerável, que só conhecera entre os gauleses em seus ritos pagãos.

Havia algo ali que o intimidava. Cada recipiente, cada poção borbulhante, cada objeto disposto nas prateleiras e nas bancadas rústicas, como se talhadas com as próprias lascas do stonehenge.

Uma senhora ruiva, muito bela, olhos percucientes, estava ereta, atrás do caldeirão negro, fitando demoradamente através da janela os campos claros pelo luar.

Era uma bruxa. E ele estremeceu ao vê-la. E descobriu-se um genocida que atirara ao fogo, com seus editos infelizes, as sacerdotisas celtas, cujo único crime era a busca pela eremia, pela compreensão do mistério da fertilidade da Mãe, por serem depositárias de um tesouro infinitamente mais rico que o seu, engessado pelos dogmas e pela intolerância religiosa.

As vassouras, os gatos pretos, os corvos empoleirados nas gárgulas, os elementais como sombras luminosas vitalizando aquele reduto celta: tudo agora parecia menos ofensivo, mais nobre, mais respeitável.

E mais um homem sensato prostrou-se ao jugo irresistível da bruxaria.

Felizmente, a Verdade se difunde por fontes diversas, de diversos modos. E nem piras e Index e autos-de-fé e Concílios poderão sufocá-la. Como a Terceira Revelação, ela provém das plagas etéreas, e se dissemina entre parábolas saídas das bocas dos nossos filhos e das nossas filhas, que já estão a profetizar.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

O Fio da Maldade - Giselle Sato


Abriu a porta com um sorriso cínico nos lábios. O cheiro de tempero perfumava o ambiente com aromas exóticos:- Oi Jenni, chegou na hora.
- Que delícia está preparando? Alguma comida especial?- Ele passou o braço nos ombros da moça e beijou de leve a bochecha rosada.
Era um jogo, ela adorava quando brincavam assim, precisava adivinhar o ingrediente: -Acho que tem alecrim e hortelã. Talvez uma pitadinha de zátar e raspas de gengibre. Acertei?
O rapaz fez ar de pouco caso e pegou um baseado na ponta da prateleira. Encarava a mulher enquanto acendia e aspirava a primeira tragada. Sabia o quanto incomodava:- Não me olhe deste jeito. Isto aqui é para relaxar. Senta aqui, vem ficar mais pertinho, não vou te morder. Vem amor, anda logo Jennifer.
Tensa, queria pegar a bolsa e voltar para o hotel. Mas não havia nada além do silêncio no quarto impessoal e frio. Sentia-se sozinha. O namorado não ficou satisfeito quando ela apareceu sem avisar. Sentiu saudades e decidiu passar um mês de férias no Brasil, queria muito conhecer o Nordeste.
Ali acariciava os cabelos da moça:- Quer fazer sexo, está com saudades? -Puxou a garota pelo casaco, tentou abrir o zíper do jeans. Apertava com força os seios, mordia o pescoço, respirando forte, excitado, a violência assustou Jennifer:- Pare com isso, Ali, está me machucando.
Ele não soltou o braço, apertou mais forte, torcendo e imobilizando:- Puta! Fofoqueira, pensa que não sei o que você fez? Minha mãe ligou e tenho até o final do mês para voltar para Londres. Eles cortaram minha mesada. Vadia. Porque veio atrás de mim?
A mulher tentava soltar-se, ele era muito mais forte. Não imaginou que a família de Ali contaria que ela havia alertado sobre as drogas. O namorado em poucos meses havia-se tornando um grande distribuidor e feito amizades com primos perigosos:- Eu te avisei que queria uma vida nova, que precisava de liberdade. Eu nem gosto mais de você. Tenho outras mulheres.
Ela precisava encontrar uma saída: - Tudo que fiz foi para o seu bem. Eu juro que nunca mais vou te procurar. Prometo - Sentiu a pressão no cotovelo e a dor insuportável. Gritou quando o osso foi deslocado:-Por tudo que é mais sagrado, não faça isto comigo...não me machuque mais...deixe eu ir embora.
Um soco forte partiu os dentes da frente e fez com que perdesse o equilíbrio. Deitada no carpete, chutes cada vez mais violentos. Ali descarregava anos de raiva reprimida:- Eu não acredito nas suas promessas, você me traiu uma vez. Não confio em você. Vai correndo chamar a polícia e vou ser deportado.
- Não. Juro que não vou fazer isso, tomo o primeiro avião para Londres. Eu não agüento mais Ali, pare com isso.
Ali batia sem pena. Em nenhum momento hesitou. Ela merecia cada porrada. Era uma dedo-duro safada. Foram namoradinhos desde a infância. Sempre juntos em todas as ocasiões.
Ele, descendente de árabes, só era aceito porque vinha de uma família extremamente rica. Exibia a namorada como um troféu.
No fundo odiava a vida na Europa. Enquanto a lourinha era eleita princesinha da primavera, ele recebia olhares desconfiados.
Tinha vindo para o Brasil em busca de paz e distância daquela gente. Meses depois, Jennifer apareceu. Maldita.
Pegou o celular e ligou para os pais, segurando firme o aparelho, machucando o rosto da moça:- Vai dizer que você mentiu, estava com ciúmes e inventou tudo. Se não fizer o que estou mandando, vai ser muito pior - Ela tremia e tentava controlar o choro, ouviu a mãe de Ali atender:- Senhora Ibrahim, é Jennifer. Sinto muito, eu menti sobre o Ali e as drogas. Inventei tudo porque estava com ciúmes dos primos. Não senhora, eu sei que ele me ama de verdade, ele é bom para mim. Sim, ele me perdoou. Senhora, diga à minha mãe que eu a amo.
Ali arrancou o telefone e empurrou a namorada com força contra a parede:-Desculpe , ela está nervosa. Muito arrependida. Por isso a voz de choro. Claro que pode dar o recado à família de Jennifer. Lembre que vamos passar quinze dias no Nordeste. Está bem, converse com papai e ligue mais tarde. Conto com a senhora. Jennifer está mandando um beijo.
Inconsciente, parecia uma boneca de trapos, toda retorcida, o sangue empapando os cabelos. Ali suspendeu um dos braços . Flácido, ela havia perdido as forças. Não importava. Ouvir a mulher voz implorando perdão era irritante demais.
Correu para o quarto e cheirou mais uma carreira, a terceira do dia. Coca misturada, cheia de resíduos. Porcaria para passar adiante. Ele merecia o melhor. Safados, isto não ficaria assim.
A mãe havia acreditado em tudo, o problema era convencer o pai. Só de pensar em retornar sentia mais raiva da moça.
Bebeu um gole do uísque e respirou fundo. Precisava clarear a mente e encontrar uma saída. Como iria se livrar de Jennifer? Só de imaginar a cadeia, ficou apavorado. O cheiro de queimado lembrou que o assado estava perdido.
Até o prato especial havia sido estragado por culpa da intrometida. Pensou no tempo perdido preparando o carneiro, o jogo de facas novo, usado pela primeira vez. Facões afiados e serrilhas. Facas e cutelos de todos os tamanhos. Cozinhar era o hobby preferido.
Uma idéia começou a tomar forma. Era tudo carne, não importava de que animal fosse oriunda.
Voltou à cozinha, jogou o corpo na bancada de mármore. Percebeu que ela respirava suavemente. Um golpe certeiro atravessou o peito e calou o coração. Precisava esperar para que o sangue esfriasse, não suportava sujeira. Queria fazer os cortes perfeitos. Limpos.
Resolveu sair, encontrar os amigos, dançar e relaxar. Daria o tempo necessário para a segunda fase. No dia seguinte cortaria a namorada em pedaços. Separados em embrulhos, deixaria os pacotes em vários pontos da cidade.
Bateu a porta com força enquanto acendia outro baseado. O celular tocou, eram os pais com as boas novas. Jurou que havia largado as más companhias, prometeu que doravante Jennifer seria a única companhia:- Não se preocupem, estamos bem, foi tudo um grande engano. Não, ela acabou de sair, foi para casa, vamos ao cinema e depois jantar. Fizemos as pazes.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Socorro poeta




Os pés nada sabem do chão
Biografias tarjadas a negro destino
Vazam olhos de manequins cassados
O diabo mandou dizer que amou tua alquimia

Nem um fio de entendimento para oferecer
Apenas o tiro á queima roupa
Um lenço embebido de insolação
E um cárcere de palavras
Massacrando minha língua

Nada tenho com isso
Minha palavra não tem pernas ou asas
Nem esparramo delírios nas cabeças soníferas
Apenas vim alertar
Que o diabo amou tua alquimia

domingo, 17 de agosto de 2008

Encontro Marcado


Minas Gerais de tantas outras vindas, sempre buscando a mesma paz, a paz que se assenta por entre as suas montanhas eternas, alheias ao civilizado que veio, alheias ao bárbaro que se foi.

Bem...Talvez o bárbaro nem tenha ido!

_Não senhor, é meu mesmo, devo ter perdido a metade, ta aqui a marca, bem no meio das minhas costas._ Foi o que tive de responder por inúmeras vezes. Estranho, sem documentos, todo rasgado e esfarrapado até os ossos, onde ela conseguir acertar em cheio. É a desconfiança, comum numa cidade pequena, diante do fato inusitado que terminei por me tornar. A visão dos meus pedaços tentando me defender, suspeito de ser autor de alguma atrocidade, tanto sangue que encharcou os trapos pendurados pelo meu corpo. Réu, vítima ou testemunha? É o que querem saber. O que sobrou de mim não prova nada, se nem eu sei o que aconteceu. Ainda tem quem não olhe para a lua, misteriosa que se coloca no céu por esses dias.
Não bastasse a dor, todo mundo falando ao mesmo tempo, querendo saber onde estava quem imaginavam que eu tivesse atacado, agredido. Eu tentei de todos os modos, falei dos poemas, mensagens, depoimentos. Fui criando confiança, até que por fim resolvi, queria conhecê-la pessoalmente. Era um mistério que corroia as mentes de todos que a conheciam, sempre oculta no seu negro. Ela conhece os dois lados, disso eu tenho certeza agora. Brinquei com coisa feita, sem prestar atenção à lua. Simplesmente me pareceu uma boa idéia, mais um passeio, uma cidade nova, então vim.
Boca da noite, já podia ver as luzes, despontado lá adiante na estrada, até me tranqüilizei. Quando cabe tudo dentro do amplo que a visão abrange, normalmente é lugar de paz, gente camarada, hospitaleira. No claro do resto do dia que ficava para trás, estudava o papel onde tinha anotado suas indicações. O rio à direita, quando já estivesse entrando no urbano, na Antonio Mariosa, que eu prestasse mais atenção. Ele entraria na Gonçalo Coelho por uma rotatória, essa era bem curtinha e já pegava a outra à direita, vi no meu desenho e assim foi. Levino Ribeiro do Couto, depois Vicente Simões. Segui a orientação que ela havia me passado e pedi par descer o mais perto do campo possível, na curva grande. Eu deveria entrar por uma das ruazinhas à esquerda e pegar a próxima avenida, pra lado direito. Disse que seguisse por ela por alguns quarteirões. Depois de constatar o tamanho da cidade, me tranqüilizei, se errasse seria fácil me localizar novamente.
O Motorista parou ali, esperou que eu recolhesse minha pequena mochila no bagageiro do teto e, desci. Alberto Barros cobra, alguns quarteirões a mais e finalmente o mistério seria desvendado. Estaria em sua casa e tomaríamos umas boas para comemorar. Convenceu-me de que o seu, era o melhor coquetel da região, o mais famoso, podia até perguntar para qualquer um na cidade. Caminhei com o papel na mão, dando uma espiada no nome da sua rua, para não deixar passar. Rua Amalba da Silva e, finalmente. Vim juntando cede pra aproveitar melhor a sua companhia. Segui o muro grande e entrei no final dele, na mesma calçada. Comendador José Garcia.
Que engano seria esse. Fazer-me vir até aqui só para se divertir com a minha cara! Foi o que me veio à cabeça num primeiro instante. Eu não posso ter anotado errado, prestei muita atenção. No número que ela me deu tem um cemitério, mais nada. Enquanto fiquei de pé, pasmado em frente ao portão do cemitério, tentando entender, comecei a ouvir um psiu, um chamado lá de dentro. Vi um vulto acenando de lá, incógnito na escuridão. Ah! Claro! Agora sim fez sentido, é o seu estilo, cheia de armações! Fui entrando sem me preocupar com a noite, afinal o que poderia me acontecer tendo-a como minha anfitriã? Ela não saia por inteiro de trás de um mármore preto, só uma olhadela pra confirmar a minha aproximação. Faltando uns três metros, me avança o infeliz de um cachorro peçonhento, com cheiro de inferno. Foi puxado pela guia e eu me divertia muito, imaginando o que teria planejado. Estava toda de negro, maliciosa, quente, ansiosa, foi o que pensei. Acho que a cor dos olhos coincidiam, nem sei mais.
Quando esperava um abraço grudado, cheio de assanhamento, ela arrancou o pano preto do rosto, puxando-o por baixo, pelo queixo, meu senhor! O que estava acontecendo? Nunca vi tantos dentes juntos numa mesma boca, nem em dois lobos juntos daria pra contar tudo aquilo. Espumava, grunhia e me apanhou pelo braço, enquanto isso, o cachorro do demo agarrou a perna da minha calça, puxando e rosnando também, para me tirar o equilíbrio. Eu nunca me debati tanto, acho que até molhei as calças, de tanto medo. Numa revirada que eu dei, ela me abocanhou o ombro, queria o meu pescoço, mas, eu ainda achava forças pra tentar escapar. Com a dor aguda dos dentes cravados em minhas costas, dei um tranco pra frente e com o levantar brusco da cabeça é que a vi, estava lá de plantão, redonda, gigante, maior do que a cidade inteira, a lua patrocinando aquela coisa grotesca, seja lá o que for aquilo. Quando o peçonhento conseguiu me tirar de vez o equilíbrio, me vi com um pé livre e ainda tive reflexo para acertar-lhe um chute bem no meio do focinho. Nem sabia que podia chutar tão forte, o infeliz ganiu e se afastou por um segundo. Aproveitei e me sacolejei o mais que pude, pra tentar me desvencilhar dela, nem que perdesse toda a pele das costas. Ao perceber que o cachorro tinha largado a minha perna, atarracou a minha garganta com as unhas, nem sei como não me arrancou fora a jugular.
Numa última tentativa desesperada, com o que me restava de forças, dei-lhe um empurrão por sobre a sepultura e consegui me soltar. Saí correndo por onde deu, cemitério adentro, do lado que o cachorro não estava. Numa mistura de corrida manca, com tombos e esbarrões, fui pulando por cima dos túmulos, pisoteando canteiros, quebrando vasos, ouvindo seus passos e o fungado da sua respiração quente em minha nuca. Corre infeliz, hoje é o seu fim. No final de uma alameda, o muro escuro e alto, nem calculei se daria. Quando me dei conta, já estava do outro lado, na rua. Sem olhar para trás, continuei correndo sem direção, nem sabia mais onde estava. Foi quando, ao dobrar uma esquina, dei de cara com a viatura, foi um alívio gigantesco sentir as coronhadas, enquanto gritavam para que eu me ditasse no chão. O meu sangue escorrendo sarjeta abaixo e o bem estar recuperando o meu fôlego, por ter saído vivo de lá.
_ Foi o que eu disse para o outro policial meu senhor, o sangue é meu, não agredi ninguém e não sei o que era aquilo lá dentro, só sei que ela se diz Morte, Me Morte! Me Morrrte!

Ociné

sábado, 16 de agosto de 2008

NOSSO ESQUELETO NO ARMÁRIO



ou eu queria um frasco de remédios e uma tequila


Aquela porta sempre me incomoda, não sei o porquê – mas algo me diz que meu lado mal esta dentro dele... penetrado em seu interior, no estomago do armário, guardado como um mal impermeável e absoluto. Qual é o meu divisor de águas mesmo... não me lembro.


Ele era um homem comum, sem méritos. Casara-se e separou-se pouco tempo depois, acho que meses (que espécie de narrador eu sou)... não foi uma separação calma, a pele foi dividida, não a dela, claro, mas a dele, morreu quando ela ambicionou deixá-lo. Na verdade... ela morreu.


Essa porta deveria ser lacrada.


Assim como minha mente, meu cérebro deveria ser proibido de me lembrar o conteúdo desse armário... na realidade o conteúdo de tudo, do meu passado, daquele dia.


Chovia copiosamente, quando entrou em casa deparou-se com a esposa na porta com malas prontas, tentou segurá-la, mas nada... qual o quê, ela se esquivou e vacilou pela escada do andar quebrando o pescoço na primeira curva, Coitada... nem se quer virou a escada.


Antes de o relógio bater meia noite (digo meia noite por que geralmente nas histórias de terror o clima é melhor por essa hora, não sei por que...) ele a pôs dentro do armário.


E toda noite sentavam juntos para jantar, ele e... ela. Não me venha dizer que é sinistro, esse texto não é pra tanto, vai... se fosse Poe, eu diria – Bravo. Mas nada... escritorzinho de periferia... não tem esse glamour... acontece que ele a colocava no lado esquerdo da mesa, toda noite, era sagrado, ou profano... perdoa-me a piada de mal gosto, mas sentavam-se à mesa, e, ele discutia seu dia, não ligava para o cheiro, muito menos para os seres que habitam nossos interiores e que despertam ao alarme de carne morta, dividia muito bem seu espaço com as centenas de inquilinos decompositores de sua esposa... e ela, não muito feliz, pelo menos o rosto não demonstra isso – se mantém calada, sóbria e de olhos arregalados, olhos verdes e sem brio, olhos que ainda guardam na retina o segundo lance de escada que não conseguiu virar.



Flávio Mello

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

ESQUARTEJADO NO JARDIM


ESQUARTEJADO NO JARDIM
Thiers R>




Jurava que depois de esquartejado
a luz voltaria a brilhar
sonhei em pedra fria
queimei pés
e era pura brasa
uma história mal contada
vomitei a escuridão
mergulhei dores
perdão flores
que em sintonia
abrem jardins
desconverso o fim
por ignorar texto
perplexo
sem nexo.



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terça-feira, 12 de agosto de 2008

MÓRBIDO AMOR




Ela tinha que ser preparada para a cerimônia fúnebre, e isso era a função dele. Seus longos e negros cabelos, sua pele alva. Lembrava um soneto que Ele lera há anos atrás. Ou será uma poesia? Ele não lembrava no momento, sabia que era de Alvarez de Azevedo e sentia que se enquadrava perfeitamente aquela situação.

Os olhos antes cheios de brilho agora opacos um conjunto mórbido com a boca pálida.Apenas negros.Não discernia, Ele pupila nas órbitas secas somente pontos escuros a fitarem-no tristes e doces ao mesmo tempo.

Como pudera Ele deixar que ela fosse-se tão rápido, não se permitindo mergulhar em seus lábios ao menos uma vez?

Banhou-a lentamente admirando seu corpo nu. Depois cumpriu religiosamente o tamponamento feito por ele nos mortos, tantos naquela época em que a epidemia ceifava vidas. Com cuidado executou a tarefa de cubrir-lhe com vestes claras que a mãe da moça lhe trouxera poucas horas atrás.

Ela estava pronta. Sim seria o final para Ela, para os dois então.


***


Cinco badaladas na torre da igreja. Já é hora. Ela agora jaz entre as sombras escuras. Ele sabe disso.

***

Sonhos invadem seu leito. Ele não a esquece, a pele, a cor rósea dos mamilos juvenis da donzela falecida. Singela. Teria sido ela desmistificada por outro homem como ele o fizera ao conhecer seu tímido corpo?

***

Trás consigo a força de um jovem apaixonado. Ergue a tampa pesada de concreto que oculta o berço negro da amada. Ela dorme o sono injusto de uma morte prematura.

Seus lábios belos e tristes ressecados, ele os beija ternamente e os umedece com a própria saliva. A toma em seus braços e ergue suas vestes claras. A despe com cuidado como um noivo faria com sua amada. Ela não possui a rigidez cadavérica, seus membros ainda caem lânguidos sob o movimento. Ele a deseja, mas teme ser pecado o que está prestes a fazer. Pecado? Como seria se ele a deseja mais que a própria vida? Retira as tamponagens de seus órgãos genitais e explora apequena vulva da moça.

Consome o ato entre na penumbra do cemitério, ignorando os vestígios de infecção no corpo da vítima. As sombras da noite ocultam mórbido amor que acontece sobre um túmulo enquanto o aroma das velas envolve os corpos unidos.

Ele está apaixonado. Ele iria onde ela fosse. Ele a amaria mesmo após a morte.



Juliana T P

domingo, 10 de agosto de 2008

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sábado, 9 de agosto de 2008

Delirium

Tuas eternas ondas
Como lágrimas que matam, esmagam
Perdidas em olhares submissos
Rostos opacos, selvagens

E a tristeza é como a lua
Prateando e enaltecendo
Na dualidade que se faz pura
No inverso lamentável

Sem barreiras ou escudos
A pura carne viva
Nua à vida que entorpece
À alma incandescente

As dores correm
Gritando no interior sepulcral
Onde a mente uniforme
Desabafa no silêncio infernal

Então vôa Delirium
Rumo ào inesquecível
Brilha na imensidão decadente
Com tuas estrelas de Saturno

Por Mateus dos Santos Martins

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

SONETO

Eu calo a triste voz bem lá no fundo
Eu falo de uma dor em si tão fria
Eu beijo um desespero numa via
E engulo um amargor maior que o Mundo.

Insisto em relembrar nenhuma história
Largada pelo hoje em plena pista
Não há maior fedor, por mais que exista
Que aquele que eu beijo numa escória.

Eu grito em uma curva em pé e largada
A culpa da existência em mim nascida
Como um dilema morto em vão, sem fim.

Eu vejo meu presente na calçada
Casada pelo amor de uma ferida
Aquela que nasceu de vez em mim.

Dos Anjos

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Silenciado

a noite me disse
para ficar em silêncio

e eu fiquei.

mas ela mesma não ficava:

tinha sempre um gato preto
correndo na telha,
e um ruído sombrio sentado
na mesa da sala.

tinha sempre uma garrafa velha
espumando as horas,
e uma ventania que contra a janela
se suicidava,

mas era só minha consciência
que, embora
em mim, na própria noite
se espalhava.

André Espínola

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Débito

“... A família Martins Rodrigues convida parentes e amigos para a missa...

- Gi, compra essa boneca da Xuxa...

... de Bernadina Azeredo Martins....

- Compro. Mas deixa eu ouvir o carro de som,parece que morreu alguém. Baixa essa tv! Irmã menor é um Karma...

...Noticiamos a missa de 1º aniversário de morte da senhora Fátima de Bernadina Azeredo Martins

Parei.
Chocada.

- ô Mainha... Dona Bernadina, morreu?

- Sim, há um ano.

Náuseas.

- UM ANO? Mainha, a senhora ficou de pagar alguma coisa a ela? Um cheque, algo assim?!

- Sim, fiquei. Mas ninguém veio aqui, nem ao menos depositaram o cheque.

Abro a geladeira. Cadê a água, meu Deus?

- Como você sabe disso? Você estava morando nos Estados Unidos.

- Ela me disse. Veio cobrar o cheque, antes de ontem, aqui.





(Jessiely Soares)



Não baseado em fatos reais... Os reais eu tenho medo de escrever

=/