quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

MORDO A LÍNGUA





MORDO A LÍNGUA


A casa ruía dentro do silêncio
eu vagava como vagabundo
no chão triste comido pelo vento
embrulhava braços
de tristeza
sem saber exatamente
desatar o nó que havia dentro

Fulminado no olhar
a mordida quente
o bolso vazio
excêntrico instante
dolorido

Perpassaram personagens
de filmes
quem sabe?
ontem choveu e as poças
ainda olham
fugidas do lar
estranha mania
morde a língua
atravessa a garganta
penetra o cérebro
escorre em
caldo quente

Desliza ao coração
pulsa desnorteado
em busca das luvas
que enxuguem
o sangue espirrado



** Gaivota **



* * * * * * * * * *

sábado, 24 de janeiro de 2009

Acontece até num domingo à tarde

Tudo se mudou num repente.
Da algazarra festiva ao silêncio, num átimo.
O peso oco do silêncio detonou a algaravia mesmo de crianças.
Um lufa organizada se sucede.
As mães calam os pequenos, os casais se abraçam, dentro e fora dágua.
Eu temo, meu medo pelo pior se-me impõe dramático retorno a um ano de meu enfarte.
Uma tensão.
Uma grande atenção.
O corpo já está estendido no chão.
Um especialista dá pancadas firmes e ritmadas no peito inanimado.
Tenta recobrar o coração.
A perna esquerda do socorrido é levantada por um outro para tensionar a femoral.
Parece que houve um refluxo, é um comentário.
Há pouco nadava forte, em raia exclusiva.
Piscina curta.
O clube em folguedo.
Medo!
Corre o tempo.
Voa!
Aumenta a tensão, mais o tempo passa.
Quase pânico...
Socorristas acorrem, o beijo tenta inspirar a vida...
Não reanimam ainda o banhista.
Segue a massagem no peito.
Chega enfim a ambulância com equipe especializada em emergência.
Desfibrilador, voltagem alta... nova carga, maca... soro.
Volta o músculo a bater.
Fraco, ainda, após 15 a 20 minutos...
Um tempo interminável de angústia pessoal de todos, do paciente, dos mais próximos aos mais distantes.
Medicamentos outros.
Como chegou em silêncio partiu, para não tonitroar alarde, nem causar comoção.
Tristeza remanescente, burburinhos isolados em pequenos grupos, cochichos, o medo da morte sem aparente razão no meio da própria diversão.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

BACANTE























As uvas encerram o segredo da noite,
O sangue da noite circula em sua carne.
Colhi minhas uvas no antro da noite
E via minhas mãos tremerem de febre.
Febre!

(Um látego frio lambeu-me na espinha...)

_Em verdade, em verdade vos digo,
Bebei deste sangue e não morrerás!
Bebei deste vinho e não passarás!
Ainda que o tempo e a vida se escoem,
Bebei deste sangue e não passarás.

_Toma Pedro! Pega e toma!
Este é o cálice do meu sangue!
O sangue da nova e eterna aliança!
O sangue da dança!
Que dado por vós em memória de nós!

(Um copo de vinho se abre à minha frente...)

_Ah, arte da noite que vem e que chama!
Que inflama na mente a luz de uma flama.
Ah, chama caliente que queima e profana
A alma da gente que louca se dana...

_E nunca viste?!
E nunca viste o festim noturno?!
E nunca viste o Sabbath da noite?!
_E nunca viste?!

A Lua convida no vinho do céu.
Estrelas derramam seu leite de luz.
As fadas cirandam envoltas no véu
De sombras da noite que enlaça e seduz.

Um manto de sonhos bordado de imagens,
De vagas miragens que nascem do espectro.
_Ah, mágico espelho te vejo nas margens
Da taça em que bebo teu sangue abjeto!

_Um brinde!
Um brinde a mim!
Um brinde a vós!
Um brinde a todos nós!
Um brinde à louca demente!
Um brinde à môra indecente!
Um brinde a tudo que fui!
E ao que serei, bem mais que não fui!...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O MENINO PABLO

O gênio se revelara prematuramente.

Com um ano de vida, Pablo falava fluentemente seu idioma pátrio. Aos dois, dominava a Sintaxe, a Prosódia e redigia com razoável caligrafia.

Com três anos tinha noção assustadora dos conjuntos matemáticos, incluindo-se o dos números complexos e seus fundamentos.

Aos quatro anos, surpreendia os pais em frases enxutas, arrazoadas, embaraçando-os com uma lógica livre de sofismas e de vícios de linguagem.

Aos cinco anos, enfim, ele atingia toda a plenitude intelectual equivalente a de um sábio septuagenário.

Paralelamente a esse colosso intelectual, notara-se que o menino Pablo nunca sorrira, nem pranteara. Inspirava frieza, revelava temperamento estável, incrivelmente imune às influências externas que ditam os humores das criaturas.

Enquanto os pais, apreensivos, buscavam meios de aproximar-se do estranho garoto, ele comia só, dormia só, lavava-se, trocava-se – vivia, enfim, deliberadamente só.

Não era autista. Não mostrava propensão à esquizofrenia. Tinha boa saúde física e, aparentemente, mental, embora não possuísse amigos, nem brinquedos, nem qualquer paixão que fosse.

Tinha ainda cinco anos de idade, quando, certa noite, chamou cerimoniosamente os pais ao seu aposento. Muito sisudo, fez sinal para que se sentassem. E fitou-os como se fossem dois eternos desconhecidos.

-Eu já não tenho muito tempo neste mundo. – declarou, sem hesitação, a voz firme.

E mandou que separassem tudo que lhe pertencia, ou que pudesse ter tido uso comum a ele naquela casa: talheres, utensílios, roupas de cama e de banho, porta-retratos, documentos...

Os pais olhavam-no, estupefatos.

-É tudo! – ele finalizou.

A mãe mostrava o rosto banhado em lágrimas. Quis aproximar-se, abraçá-lo. O menino deteve-a firmemente, virando-se para o outro lado.

O esposo puxou-a para si, também emocionado. Fez sinal para que saíssem. Ela ainda murmurou, olhando o filho que lhe virava as costas:

-Por quê!...

Os resíduos cármicos, falsamente escamoteados no longíquo pretérito, diluíam-se, naquele qüinqüênio, criando no caminho evolutivo daqueles seres uma situação estranha, aos olhos do homem comum.

O corpo do menino Pablo amanheceu rijo, só. O cadáver estava simetricamente estendido no leito.

A partir daí, o planeta mostrava-se improfícuo para encetar a evolução no plano emocional daquele Espírito, que habitara por milênios em esferas onde os sentimentos haviam sido extirpados de suas civilizações.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Lado negro-Breno Filth



Sobraram seus presentes sentimentos,
Talvez agora os
Espelhos refletem
O maléfico lado negro do amor...

Lapsos de mistério
Que atinge o passado
Lembrando anjos e demônios
Que dançavam a dança macabra

Anjos que sorriram
Do amor que o fora perdido,
Demônios que o consolavam
Quando suas lagrimas
Caíram no jardim...

Então por uma vez
Os jardins escureceram
Revelando a tristeza
De alguem que amou.

Breno Filth

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A vingança - Giselle Sato


Eis a mais pura verdade: Sou uma compulsiva. Por instantes arrisco tudo, não resisto, é meu vício:- Com você eu posso ser eu mesma, por isto te amo tanto.

- Hum! Sempre termino fazendo suas vontades.

- Mas eu quero. Quero que me trate como uma bandida!

- Perigosa?

- Claro!

- Muito bem! Será inesquecível! ele disse baixinho.

Oh! Mas estou delirando. Ele prende minhas mãos, usa as algemas e me arrasta. Jogada sobre a mesa, ele arranca minhas roupas. Exatamente do jeito que mandei.

O cano da arma é frio. Toca meus seios, desliza na pele suada, roça em meu sexo. Não vejo nada além dos olhos, máscara e o uniforme negro de policial. A ponta da pistola roça meu sexo, insinua uma penetração, brinca com o clitóris e o prazer toma proporções descontroladas.

Gozo aos gritos, ele tapa minha boca preocupado com os vizinhos. Apoiando minhas pernas nos ombros, penetra fundo, não agüenta e goza forte. Sinto a camisinha desprender-se e me assusto. Algo está errado: - que porra é essa de camisinha? Quem é você?

O homem sai apressado e some na escuridão ajeitando as roupas. Uma sombra se aproxima, tem a expressão debochada que odeio:- o que você fez? Está louco? Como teve coragem?

- Esta é a minha fantasia, não gostou? Ele não te satisfez? Não foi excitante? Era um estranho, não era este seu desejo?

- Quero que me solte agora!

- Ou o quê? Vai me denunciar? Acusar de estupro? A idéia foi sua, lembra? Descobri que é uma tara bem comum. Alguns amigos aceitaram brincar com você.

- Vai deixar seus amigos me usarem? Vai ser o corno da cidade, quero sair daqui imediatamente...

- Não foi difícil. Você sempre deu em cima deles, toda oferecida e disponível. Casei com uma puta, mas fazer o que? Sou apaixonado por este seu lado depravado.

- Vai apodrecer na cadeia seu doente.

- Que nada, levei meses planejando tudo. Enviei emails em seu nome para todos eles. E eu estou viajando esqueceu? Vou colocar uma fita adesiva na sua boquinha suja. Aproveite a noite amor, vou estar bem aqui, filmando tudo, não se preocupe.



Foto- Ricardo Pozzo

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Cedo ou tarde



Mordo meus lábios
penso no seus.
Tarde da noite
Meu sangue está frio...

Aonde mora a dor?
Neste peito meu,
Tristonho?

Não posso afirmar,
Cedo ou tarde
Irei saber!

Conflitos?!

Sei que algo ferve
dentro de mim,
Como uma brasa
(engolida),
como uma ferida!

Mordo minha carne
ela sangra lentamente.

Dor! ( ... ) Muita, muita dor!

Penso em seu sexo,
em seu perfume,
em sua língua!

Ah, cedo ou tarde
saberei!
Se este espirito que
me visita é mesmo o seu.

Cedo ou tarde...
Mesmo se tarde for
Para lhe ver meu
mórbido amor!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

ESQUINAS




ESQUINAS
Thiers R >

Noventa graus
esquadro e vapor
atravessa u’ mijo
sucumbe u’saco
do’lhar que
destila boca
varejeira pousa
no vômito incrédulo
esquece a noite de estrelas, eu?
ca den ‘cio’



>>>

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

EXÉQUIAS ASTRAIS

O vento soprava tão violentamente que não assobiava, mas sim uivava com furor. O aspecto mórbido da paisagem, os sons aberrantes que compunham a sinfonia noturna e o frio congelante que dominava o ar não causavam desconforto algum a silente silhueta que deslizava pro entre a deserta senda que atravessava o inóspito vale.
Os olhos cerrados não dificultavam o deslocamento do espectro reluzente e translúcido. Agia como se pertencesse ao ambiente, como se fosse um elemento formador do mesmo, uma sombra amalgamada a escuridão que dominava toda a região.
Seus lábios, semiabertos, exalavam um sopro tão gélido quanto o vento que soprava, mas ao invés de balançar o diáfano véu que o cobria, puxava-o para dentro como se fosse o reflexo de uma inspiração e não de sua respiração. Seu peito arfava na mesma intensidade de seus passos, lágrimas rubras banhavam-lhe as faces evidenciando seu estado anímico.
Uma matilha esfomeada surgiu em seu caminho, mas ela nada percebeu dos caninos que se mostravam ameaçadores. Nem mesmo quando o bando lançou-se sobre seu corpo, deteve sua marcha. Os animais traspassaram seu espectro e avançaram sobre a incauta lebre que se alimentava de um exíguo monte ressecado daquilo que já fora uma moita apetitosa.
Serpentes rastejavam e se enrolavam nos galhos retorcidos, aves notívagas entoavam suas canções funestas ao mesmo tempo em que se lançavam em vôos furtivos, mas nada disto lhe chegava à razão. Ela permanecia indiferente a tudo, seguia seu curso como se dependesse de concluir o trajeto para continuar existindo.
Ao longe um tropel ensandecido retumbou de modo ameaçador. Cavaleiros, trajando vestes negras, surgiram no horizonte montados em garbosos e vorazes cavalgaduras. Nem eqüinos nem asininos, os animais tinham um corpo bestial, mescla de búfalo selvagem com cabeça e patas de cão. As bestas vinham tomadas pela cólera e pela sede de sangue.
O encontro se deu a um passo do final do caminho. O abismo que se abria de modo abrupto conduzia a um espaço tão profundo que era impossível avistar seu fim. Nem abismo nem bestas foram determinantes para deter o avanço da esvoaçante figura. Ignorando a ambos, ela seguiu seu trajeto como se fosse um anjo vingador.
Muitas outras manifestações alucinantes mostraram ante seu olhar, mas nada a deteve. Seu planar era seguro e constante. Suas vistas alcançavam muito além do ambiente que a cercava. Seus sentidos procuravam por um local distante. A noite se foi e nem assim a escuridão cedeu lugar à claridade. O vale permaneceu envolto pelo manto das trevas e a figura translucida não alterou um músculo sequer de seu espectro.
O deslocamento parecia não ter um fim definido, mas o arfar do espectro tornava-se mais intenso à medida que avançava sobre a região. A intensidade de suas pulsações nada tinha a ver com temor ou emoção qualquer; também não estava relacionado ao cansaço ou a dificuldade em respirar. Seu semblante mantinha-se impassível como se não estivesse vivendo nada daquilo.
Repentinamente um baque fantasmagórico a deteve. De seus lábios, ocultos pelo diáfano véu, um pequeno filete rubro verteu demonstrando que o choque a ferira. O que poderia tê-la atingido tão gravemente que a fizera sangrar? Um ar de incompreensão e surpresa brotou em seu semblante até então impávido e frio.
Somente depois de refeita da surpresa foi que atinou para o acontecido. Uma lança havia traspassado seu peito e a dor assomou seu âmago fazendo-a prostrar sobre o solo. A agonia tomou lugar em seu íntimo e ela desejou que a morte a beijasse rapidamente, mas o ósculo fatal não se manifestou. A dor prolongou-se por tempo infinito levando-a a agonia mais lacerante que poderia suportar.
Maldisse o famigerado causador de tão cruel suplício. Procurou por seu carrasco, mas não divisou viva alma em lugar algum. De onde havia partido aquela maldita lança? Quem seria o abominável ser que a detinha quando era tão crucial que continuasse sua marcha? Haveria chance de ainda prosseguir em seu deslocamento?
Novamente o tempo avança com desdém ignorando os percalços pessoais. A fantasmagórica donzela agoniza sem que um salvador se mostre ou quem sabe um alento em momento tão plangente. O ocaso parece ser seu destino, mas a morte brinca com suas sensações. A tênue esperança de que verá a morte a faz sorrir. Um sorriso pálido e sem viço, mas é o máximo de alegria que se pode notar em seu cério rosto.
Lampejos de lucidez alternam-se com o domínio insano do alienamento total. Sua mente desvairada pena por sentir-se perdida em meio a um universo adverso e estéril. Onde estão os tão afamados anjos? Onde esconde-se seu valente cavaleiro?
Nada! Nem mesmo o vento sopra mais. O eco surdo do silêncio retumba soberano sobre todo o ambiente. Os lobos, as serpentes, as aves noturnas... a noite em si esvaiu-se num vácuo sem fim. Seu consolo é já não sentir mais o incômodo que a lança lhe causava. Tudo é tétrico e insensível a sua realidade.
Momentaneamente tolhida de qualquer sensibilidade, ela não percebe a aproximação de uma silhueta obscura e instável. Se pudesse divisar a sombra que avança em sua direção, pensaria tratar-se de um cavaleiro solitário, um paladino em busca de sua frágil e indefesa donzela, mas ela sucumbiu ao peso do fardo que a abateu.
Imprecisa, a princípio, a silhueta foi assumindo contornos mais definidos à medida que se aproximava da vitimada donzela. O porte ereto e soberbo do cavaleiro indicava sua origem nobre. O fato de estar travestido de noite e cavalgar um lagarto gigantesco, seria um dragão, não lhe imputa qualquer falta aparente.
Ao se ver ao lado da desfalecida figura, ele apeia da montaria, acomoda-a com suavidade sobre o solo, retira a imensa trave que fendia seu peito e a admira em silêncio. Por toda sua eternidade sonhou com a visita daquela que conquistaria seu coração e agora que a encontra, teme que ela não sobreviva ao ferimento causado pela mão maldita de um ignóbil guerreiro.
Dominado por sua dor, ele eleva-se, desembainha seu gládio e vocifera contra os deuses que permitiram tamanha crueldade. Sua fronte é tomada pelo suor e seus lábios contraem-se num misto de dor e revolta. O ânimo esmorece e ele queda em pranto. Por que lhe foi permitido sentir a brisa afável da esperança se logo em seguida ela cessa sua dança? Ah, maldição eterna que o consome, por que não o levou no lugar da singela donzela que jaz ao seu lado?
Sem ter coragem de deixá-la ali, ele a toma em seus braços, volta a montar em seu animal e parte rumo ao destino que lhe é tão conhecido. O inferno seria um lugar menos trágico do que aquele onde foi exilado. A terra soltava labaredas ígneas misturadas a vapores nauseantes e venenosos. O campo que circundava seu habitat era maldito e desprovido de qualquer resquício de vida. Sua existência havia sido legada ao ostracismo e a maldição eterna.
Utilizando as gotas que vertiam de sua fronte bem como as lágrimas que caiam de seus olhos, ele umedecia o pequeno lenço que a donzela trazia em suas vestes e tentava amainar a quentura que emanava de sua fronte. Os olhos cerrados e a ausência de palpitação o certificavam da morte daquela que poderia ter sido sua maior ventura. O urro que ecoou pelo ar foi tudo, menos uma demonstração de rancor ou revolta.
-- Por que chora?
Soou a mais maviosa voz que já ouvira. Não acreditando no som que ouviu retumbar pelas pedras mais próximas, ele evitou olhar para o anjo que tinha em sua companhia. Silente, esperou que a assombração de suas esperanças se fosse deixando-o a sós. Não demorou muito e a voz voltou a ecoar no vale:
-- Por que chora?
Desta vez ele lançou um furtivo olhar para a donzela. Seu peito ardeu e se inflou, sua tez banhou-se de suor e seu coração palpitou tão intensamente como jamais havia sentido. Aquela que acreditava ser o anjo, que lhe traria a redenção, não estava morta. Entre lágrimas e sorriso, elevou as mãos ao céu e bradou sua gratidão.
-- Por que chora? Voltou a perguntar-lhe a donzela.
-- Pensei que tivesse morrido.
-- Como poderia, não percebeu quem sou?
-- Um anjo.
-- Pode se dizer que sou, mas que espécie de anjo acredita que eu seja?
-- Não importa. Seja o anjo que for, sinto que a amo.
-- Mal me viu, como pode afirmar conceber tão forte sentimento por mim?
-- Porque a amo muito antes de vir até mim. Eu a amo desde a eternidade.
-- É um insano!
-- Era! Mas já não sou mais. Meu coração está em festa, minha alma canta louvores aos céus, meu espírito vibra em harmonia com as energias que cortam nosso mundo.
-- Talvez se decepcione quando souber quem sou.
-- Mesmo que fosse a própria morte em pessoa, não permitiria que minha felicidade fosse profanada pela decepção. Mas já que teme minha reação, diga-me quem é você.
-- Antes preciso saber quem você é.
-- Gostaria de ouvir minha história?
-- Tenho um importante e precioso tesouro a entregar e preciso estar certa de ser aquele a quem devo confiar tal entrega.
-- Minha história confunde-se com a história do mundo.
-- Não se preocupe, tenho todo tempo que for preciso.
-- Então está bem. Por onde devo começar?
-- Pelo início.
-- Que seja!
-- Quando os anjos ainda habitavam entre os homens, fui mandado para a matéria inferior. Tinha a missão de trazer a Luz, mas senti-me poderoso demais para ofertá-la a uma espécie tão insignificante. Decidi reter o destino destes miseráveis em minhas mãos. Aí começou minha derrocada e minha maldição. Iludi-me acreditando que uma missão tão crucial fosse delegada a apenas um e regozijei-me quando os incautos seres passaram a adorar-me como se fosse seu deus. Ah, como senti-me pleno de mim mesmo. Fiz e desfiz dos destinos dos malditos e ultrajei seus filhos e suas filhas. Enlutei muitos espíritos imbuídos de boa fé, mas, acredite-me, jamais tirei a vida de qualquer um deles, ao menos foi aquilo que pensava.
-- Não pensa mais?
-- Não! Agora que conheço todos os desdobramentos advindos de minha arrogância, sei que causei a morte de muitos. O sangue de incontáveis inocentes goteja de minhas mãos. Meu ser foi amaldiçoado pelo mal que espalhei e fiz alastrar por este mundo outrora abençoado.
-- Talvez não seja quem procuro.
-- O que?
-- Disseram-me que aquele que deveria encontrar possuía um cerne tão mal que seu hálito era mortal.
-- Não mato ninguém com meu hálito, mas minhas palavras condenaram muitos ao flagelo e ao suplício infinito.
-- Por que desistiu de ser um deus?
-- Não desisti fui derrotado por um mais forte e poderoso.
-- Um igual?
-- Não. Aquele que me subjugou tem origem além de minha limitada compleição. Ele foi o portador original, o primeiro das legiões celestiais.
-- Lúcifer!
-- Sim. Conhece-o?
-- Ouvi falar, mas continue.
-- Depois de ter sido humilhado pelo portador original, vaguei pelo vale das sombras e padeci no abismo do nada. Um lugar onde as almas são jogadas para que reflitam sobre seus erros, mas que dificilmente resulta em redenção.
-- O purgatório ou umbral.
-- Também é conhecido por muitos outros nomes, mas creio que estes dois sejam suficientes para que lhe possibilite saber sobre que lugar estou descrevendo.
-- Conheço-o muito bem. Peregrinei muitas vezes por sua extensão.
-- Ali eu conheci o alcance de minha queda. Colhi os frutos de meu errar e entendi o quão mal eu havia procedido. Desesperei-me ao observar quantas almas estavam lá por minha culpa. Tentei falar-lhes, mas elas não me ouviam, eu era apenas um fantasma entre muitos outros.
-- Mas deixou-o para trás.
-- Em um momento de aflição esmagadora, senti meu corpo ser rompido por labaredas ardentes. Depois veio a sensação de estar sendo esquartejado por lâminas de fios aguçados e manobras inexoráveis. Por fim, senti como se tivesse sido desintegrado por uma energia impossível de ser assimilada.
-- Se estiver se sentindo mal, podemos parar. Teremos muito tempo para o relato.
-- Não! Narrar minha desventura não interfere na dor que me consome. Estou tão habituado a ser torturado por minha consciência que desabafá-la faz-me sentir menos confrangido.
-- Por que desistiu de tudo?
-- Quando fui expulso do vale vaguei sem destino por paragens desertas. Não desejava encontrar-me com viva alma. Estava mutilado, derrotado e humilhado. Meu único desejo era poder morrer, mas tudo que tentei não deu em nada. Foi aí que uma maldita idéia brilhou em minha mente. Se desejava morrer, que os infelizes humanos fossem a via de meu fim.
-- Voltou a conviver com eles.
-- Sim. Depois de tanto tempo afastado, decidi experimentar o contato com os humanos. Desejoso de conhecer um fim breve, misturei-me ao exército de um poderoso monarca europeu. Roma estava em franca expansão e seus soldados viviam inúmeras batalhas, não seria difícil ser atingido por um inimigo.
-- Mas não foi o que acabou ocorrendo.
-- Não. A primeira batalha que pude participar foi a experiência mais horrorosa que já havia testemunhado. Corpos sendo trucidados, pessoas mutiladas, sangue jorrando por todo lado... confesso que me senti incapaz de viver aquele cenário revoltante. Antes que pudesse refazer-me, fui obrigado a defender-me. Pode parecer incoerente que alguém que deseje morrer se defenda, mas ao observar todos aqueles corpos sendo rasgados pelas armas inimigas, foi uma reação instintiva.
-- Eu entendo.
-- antes não tivesse tentado defender-me. A arma que portava não só evitou que o golpe inimigo me acertasse, mas também o atingiu bem na fronte. Seu sangue jorrou sobre mim e enquanto ela quedava sem vida, eu sentia meu corpo ser atingido por um torpor extremo. De repente foi como se toda dor que aqueles deserdados estivessem sentido, atingisse-me com violento impacto. Desabei imediatamente, mas sem perder a consciência.
-- Sabia que não podia causar a morte de nenhum ser humano.
-- Outra maldita incoerência. Eu, que levado por minha arrogância, desviara muitos do cainho causando-lhe a morte primordial, estava sendo penalizado por ter tirado a vida física de um qualquer. Permaneci no estado catatônico por semanas. Nenhum dos entendidos em medicina, daquela época, sabia o que se passava comigo.
-- A metamorfose!
-- Sim. Nem mesmo eu sabia o que estava acontecendo. Sentia meu corpo ser rasgado de cima embaixo, mas sem que vertesse uma única gota de sangue. Aquele estado deplorável causou-me tanta revolta que resultou no aceleramento de tudo. Ao termino de dois meses, meu aspecto tornara-se tão repulsivo que ninguém ousava aproximar-se de mim.
-- Era natural que fosse assim.
-- Natural, mas cruel além de qualquer senso de justiça!
-- Novamente permite que o equívoco comande sua razão.
-- Como assim?
-- A metamorfose iniciou-se com sua queda. Mesmo que tivesse permanecido no vale do desespero, sentiria seus feitos no mesmo instante que ele se processou. O fato de ter causado a morte física de um espírito humano não alterou este fato. Também equivoca-se em considerar injustos ter siso atingido por este processo, todos seus iguais, que agiram de maneira similar, sofreram as mesmas conseqüências.
-- Todos estão mortos! Sou o único a penar neste maldito consumir-se sem fim.
-- Já perguntou-se por que?
-- Cansei de tentar encontrar uma explicação plausível. Comecei a enlouquecer quando percebi que não havia uma motivação específica.
-- Mas há! Cada um recebeu segundo sua escolha.
-- Acha que escolhi viver uma maldição eterna?
-- Sua existência não tem sido apenas maldição. Muitos se beneficiaram dela.
-- Menos eu!
Os olhares trocados divergiam profundamente. Enquanto o olhar da entidade feminina irradiava o calor da confiança, o olhar do ser amaldiçoado emanava a frieza de alguém que já não consegue mais divisar nenhuma réstia de esperança. A divergência causou-lhe assombro, quem seria aquela que o interpelava?
-- O que foi?
-- Preciso continuar minha história? Pareceu-me que já a conhece totalmente.
-- Preciso sabe o quanto é fiel aos fatos ocorridos.
-- Sonda-me para julgar se sou fiel? Creio que minha falha mostra o quanto fui infiel.
-- Um ato falho não inválida toda uma existência.
-- Mas pode tornar seu agente um maldito sem direito a redenção.
-- Deixemos estas considerações para depois de concluir seu relato.
-- Assim que notei as deformações que cobriam meu corpo, entrei em desespero. Se antes já era difícil transitar entre os humanos sem chamar a atenção, como o fazer possuindo aquele aspecto horrendo? Novamente voltei a vagar por regiões desertas e áridas. Não possuindo as mesmas necessidades dos humanos, a fome, a sede, o frio, o cansaço, enfim estas fraquezas não me tocavam. Em contrapartida a maldição que me lançara na escuridão sufocava qualquer vislumbre de salvação.
-- Deseja pausar o relato?
-- Não teria proveito algum. Estando alienado de tudo e de todos, perdi a noção de tempo e já não sabia mais quanto tempo estava afastado do restante da Criação. Em um determinado momento, aproximei-me de um lago congelado e fui confrontado com uma dualidade grotesca. O semblante que me fitava, no espelho gelado, ora era o de um monstro ora era o meu. Demorou até que compreendesse que a forma dependia de minha vontade, ao ficar consciente deste fato, abandonei o ostracismo e voltei ao seio da humanidade.
-- Sentiu-se novamente poderoso.
-- Sim e não. Quando deixei meu exílio haviam se passado trezentos anos. A Europa vivia tempos sombrios e caóticos. O invencível império romano sucumbira a suas próprias fraquezas e a falta de um governo central esfacelou aquilo que era conhecido como mundo civilizado. Estabelecer-me entre os humanos, nestas circunstâncias, não foi nada difícil.
-- Dominar uma região inteira seria apenas questão de querer.
-- É, seria, mas eu tinha meus antecedentes.
-- O erro original!
-- Aproximei-me como se fosse apenas mais um que tentava encontrar abrigo. Muitas outras pessoas viviam drama semelhante. As comunidades que se formavam não tinham uma identidade ou liderança que pudesse mantê-los seguros de seus próprios medos. Tornar-me um líder foi tão natural que quando me deu conta, já estava no comando do destino de tantos que não tinha como voltar atrás.
-- Uma nova chance!
-- Uma provocação do destino, foi o que pensei.
-- Como foi ser rei?
-- Não fui rei. Se pudesse conferir-me uma identidade dignatória a mais próxima seria comandante em chefe. A comunidade, onde fixei morada, era formada por pessoas simples e sem nenhuma instrução. Crentes fanáticas, custou para que pudesse mostrar-lhes as mentiras que haviam sido difundidas pelos sacerdotes idólatras dos cultos existentes. Quando consegui lançar um pouco de luz nas trevas que os dominavam, sucedeu o advento do cristianismo.
-- Um duro golpe.
-- Eles foram mais perniciosos do que todos os outros credos juntos. Utilizando o nome do Filho de Deus, p perpetraram os crimes mais condenáveis que se poderia engendrar. Tive muito trabalho para manter a comunidade livre de sua influência.
-- Finalmente uma vitória!
-- Mas conquistada a que preço? As pessoas que se mantiveram fiéis foram perseguidas e ultrajadas em sua simplicidade. Tivemos que nos refugiar em um vale de difícil acesso. Durante anos tive que manter um exército sem que a paz soprasse sobre os amedrontados camponeses.
-- Foi por isto que não impediu que a mentira se espalhasse?
-- O medo consegue resultados que nem mesmo o mais poderoso dos exércitos seria capaz. Quando se espalhou a notícia de que o vale era habitado por vampiros, os ataques foram diminuindo até que deixaram-nos em paz.
-- Vampiros! Conhece a verdade que se oculta por trás destes seres?
-- Sim, mas considerando os resultados obtidos, creio que não deveriam imputar-me mais este erro.
-- Deste erro está livre, asseguro.
-- Os mitos de que nos alimentávamos de sangue humano e servíamos ao príncipe das trevas nos isolou do resto da humanidade. Quando tínhamos que deixar o vale pelo motivo que fosse, agíamos com reserva sem revelar nossa verdadeira identidade. Outra mentira nasceu deste modo de proceder.
-- Monges penitentes!
-- Diziam que pertencíamos a uma ordem secreta que abrigava pessoas que haviam caído em desgraça diante dos poderosos, mas que por se tratarem de nobres, foram condenados a penitenciarem-se vagando pela Europa sem poderem possuir quaisquer bens.
-- Pelo menos podiam mover-se livremente.
-- Lamentavelmente fomos longe demais. Quando a segunda geração atingiu a idade adulta quiseram ir além dos limites que haviam sido criados para segurança da comunidade. Mesmo tendo-os todos sob minha guarda, a ambição humana mostrou-se mais profícua do que minhas preleções.
-- Foi quando ele o visitou.
-- Foi. A princípio não lhe dei ouvidos. Sabia que ele era um assecla do portador primário, mas acreditei que seria capaz de fazer frente a suas insinuações. O vírus da mentira e da ambição é mais resistente do que eu podia supor. Ele soube manipular os mais jovens e levou a discórdia à comunidade. Quando os mais velhos decidiram reagir e retomar o controle da situação, já era tarde demais.
-- Novamente só!
-- Pelo menos eu tinha uma opção. Deixei o vale e permaneci um longo tempo na companhia daqueles que tanto abominava. O mosteiro que me abrigou estava afastado o suficiente para que me sentisse protegido e esquecido. Novo engano, pode dizer. Até bem pouco tempo não entendia porque o portador primário dava tanta importância a minha pessoa colocando seus asseclas em meu encalço. A caçada havia sido deflagrada, eu era a caça e nem mesmo sabia do fato.
-- Quando ficou ciente do motivo para tão obstinada perseguição?
-- Recentemente quando fui visitado por um dos caçadores. Estávamos desperdiçando nosso tempo, não que ele pudesse nos fazer falta, mas sempre acreditei que deveríamos concluir nossos negócios o mais rapidamente possível. Ele fez que não era quem eu pensava e eu fiz que não sabia quem ele era.
-- O gato e o rato em compasso de espera.
-- Mas se contar o que se passou entre nós, estarei pulando uma parte enorme da história.
-- Certo, voltemos ao mosteiro.
-- O abade era um homem correto, temente da palavra de seu deus, mas muito senil para poder impedir as atividades nada cristãs de seus subordinados. O verdadeiro senhor do mosteiro era um outro irmão, cerca de vinte anos mais novo, que logo que me viu não gostou e fez questão de que eu soubesse que não aprovava minha estada entre eles. Durante o tempo em que o abade permaneceu entre nós, nada tinha a temer, mas assim que ele nos deixou, o novo senhor quis encarcerar-me.
-- Ainda sem saber o motivo.
-- Ainda. Aproveitando o temor dos outros irmãos, abandonei o mosteiro e decidi seguir até a próxima cidade. Assim foi que passei mais alguns anos. Vagando de cidade em cidade, sempre evitando expor-me mais do que fosse necessário.
-- Novamente muitos se beneficiaram de sua presença.
-- Quando a peste negra se alastrou pelo continente, eu estava a serviço de um renomado alquimista. Ele era um bom homem. Utilizava seu conhecimento para criar mecanismos que pudessem facilitar a vida dos que o cercavam, mas como todo idealista, tinha uma visão muito limitada a respeito da índole humana. Confiava em pessoas que não mereciam a menor consideração. Muitos abusavam de sua credulidade para manipular os miseráveis que viviam, ou melhor, tentavam sobreviver à epidemia.
-- Tempos difíceis!
-- Outra vez o destino quis me testar. O regente local requisitou os préstimos de meu protetor e lá fomos nós para a fortaleza do mandatário. Uma péssima idéia. O príncipe desejava controlar os poucos nobres que ainda conseguiam se manter estáveis. Em meio à calamidade que dominava o continente, ele queria ser o senhor do mundo. Sem ter como impedir que meu protetor atendesse as vontades do mandatário, requisitei ser enviado para os locais onde a peste grassava sem controle. Muito mais do que desejar auxiliar, esperava que a morte se apiedasse de mim pousando seu frio e mortal beijo sobre meus lábios.
-- Querendo subverter a ordem natural dos fatos!
-- Percorri campos e vilas colocando-me sempre em primeiro lugar quando era preciso. Ajudei os dementados, combati os fomentadores da epidemia, colaborei para que um lenitivo fosse preparado por cientistas, mas a morte havia me esquecido. A peste já estava cedendo e fazia algum tempo que o número de mortos diminuía consideravelmente quando notei seus sintomas dominando minha carne.
-- Tanto desejou a morte que sua proteção ruiu.
-- Não me rebelei com a situação, ao contrário senti-me um felizardo. Sabia que o tempo de sobrevida era exíguo e retirei-me para poder morrer em paz. Confesso que pela primeira vez blasfemei e lamentei não ter acedido as investidas do portador primário. A dor que me consumiu por meses deixava-me tão próximo da morte que sentia suas carícias, mas quando pensava que meu momento havia chegado, uma melhora débil se manifestava e a funesta senhora se retirava de minha presença.
-- Nada ocorre antes do tempo determinado para tal!
-- Ao término de quinze anos, encontrava-me fragilizado e um tanto quanto demente. Não consegui atinar com nada e perambulava pelas ruas de uma grande cidade como se fosse um mendigo qualquer. Eu, um dos primordiais, reduzido a triste e miserável vida de um mendicante.
-- Novo assédio do inimigo.
-- Assédio! Este maldito usou do meio mais sórdido para tentar levar-me para seu lado. Chegou na figura de um monge que atendia aos deserdados e recolheu-me em seu convento. Cuidou de minhas chagas, alimentou-me, vestiu-me e tratou de minha demência. Assim que me vi restabelecido, senti que meu debito para com ele era muito maior do que poderia assumir. Eu não tinha bem algum que pudesse ser apresentado como pagamento. Ele, gentilmente, afirmou que meus débitos seriam todos saudados se eu realizasse um pequeno favor. Não sabendo de quem se tratava, atendi sua solicitação.
-- Este ato falho também não lhe será cobrado.
-- Por que?
-- Não estava em condições de reconhecer ou distinguir o bem do mal, o amigo do inimigo.
-- Mas muitos foram mortos por minha causa.
-- Não me peça detalhes, apenas confie.
-- O maldito sabia que nem ele nem eu poderíamos assumir cargo de investidura significante, então cuidou para que o clero fosse dominado por asseclas do arcanjo caído. Por ter descordado de sua atitude, ele me trancou em uma masmorra e ordenou que me torturassem dia e noite. Este empenho em me castigar restituiu-me a memória. Consegui lembrar-me de tudo e fugi de seu raio de ação. Os novos estados começavam a serem formados e o norte da Europa resistia às pressões impostas pela igreja de Roma. Vi, naquela resistência, uma maneira de poder atuar de modo útil.
-- Nova decepção!
-- O homem que iniciou o movimento era um idealista sincero. Suas aspirações eram autenticas e justas, mas, como sempre, sem o apoio dos poderosos não teria conseguido levar sua cruzada adiante. Outra vez o poder corrompia e conspurcava uma iniciativa pura. Os príncipes o apoiaram não por estarem convictos de que sua posição era verdadeira, mas porque viram, no movimento, uma maneira de afastar a ameaça que o poder de Roma representava. Desiludido, procurei abrigo em um vilarejo esquecido nos confins dos montes gelados da transilvânia.
-- A eterna lenda do conde vampiro.
-- Quando cheguei, os habitantes já haviam difundido a lenda até que a verdadeira história já não era mais reconhecida em fato algum. A nobreza e a honra de um príncipe foi mesclada aos medos e superstições do povo. Ali também era evidente a interferência do clero. No desejo de manter os aldeões sob seu controle, apossaram-se da biografia do conde e divulgaram toda sorte de mentiras.
-- Que acabaram se virando contra eles.
-- Talvez seja a única ação de que me orgulhe. Meu comportamento arredio e inusitado acabou chamando a atenção dos aldeões. Depois de insistentes rogos, dirigi-me ao castelo que pertencera ao conde. Todos evitavam o local por julgarem-no amaldiçoado, habitado por demônios e bestas infernais. O que era uma maldição para quem vivia uma? Revirando os cômodos e o mobiliário do castelo encontrei as anotações do príncipe e tomei ciência da verdadeira história. Penalizei-me do homem que, mesmo sendo um mero mortal, enfrentara uma situação tão trágica quanto a minha. Confiou nos homens que pregavam a fé que ele seguia e acabou sendo traído por estes homens vis. Seu amor pela bela condessa o deixou perturbado quando ela morreu de modo tão cruel. Hoje imputam-lhe esta morte, mas não foi o que se passou.
-- Ele já teve outras oportunidades de encontrar a paz e viver o amor por sua alma gêmea.
-- Ah, sim, eu acompanhei uma destas oportunidades. Mas naquela época senti-me em casa dentro daquele castelo. Como ele estava abandonado e era evitado por todos, acabei me apossando do mesmo. Sem querer, colaborei para que a lenda fosse perpetuada e aumentada em sua dramática falsidade. Os crédulos aldeões, instigados por pessoas mal intencionadas, propagaram que o conde havia ressuscitado e estava habitando o castelo. A paz oriunda da solidão esvaiu-se por completo da noite para o dia. Uma verdadeira caravana de curiosos e oportunistas acampou em frente ao castelo. Por dias recusei-me a deixar o castelo, mas a atitude dos acampados obrigou-me a interagir com eles.
-- Poderia ter ignorado os acontecimentos.
-- Poderia, mas esta maldita consciência não me deixou trancar-me na omissão.
-- Um maldito com consciência? Um tanto estranho isto, não acha?
-- Que seja, minha consciência sempre foi um elemento a mais a incrementar meu sofrimento nos momentos de angústia e agonia. As arbitrariedades e imoralidade, que dominava as atividades no acampamento, deixaram-me tão furioso que, quando me apresentei, estava na posse de minha mais apavorante imagem. Aquilo que se desencadeou ante mim foi a maior prova do quão indolentes e malditos são os seres humanos. Ao invés de se aterrorizarem e fugirem em disparada, eles se jogaram a meus pés em adoração. Bradavam que eu era o deus em carne e me deram o título de príncipe das trevas. Aquilo me encheu de horror e nojo. Como podia ser que eles não compreendessem o óbvio? Será que suas mentes e seus espíritos estavam tão atrofiados que já não eram mais capazes de divisar o menor vislumbre da Verdade? Tentei, inutilmente, fazer com que vissem a realidade, mas eles insistiam em me adorar.
-- Então aconteceu a última batalha do amaldiçoado.
-- É. Os poderosos temeram por seus tronos e reinos. Começaram a supor que eu os destronaria e dominaria seus territórios. Hipocritamente forjaram alianças e formaram um grande exército para me combaterem. Eu, apenas um ser sem qualquer arma ou comandados, enfrentar um exército de homens temerosos e determinados a conquistarem seu lugar no paraíso em uma guerra santa.
-- Entendemos que precisava se defender, mas estes fatos terão que ser pesados em seu julgamento.
-- Não me preocupa o julgamento. Minha condenação já foi estabelecida e quanto a pena, tenho-a vivido por toda minha existência.
-- Sua existência pode ser tida como um sopro quando comparada a eternidade. Não é capaz de fazer idéia do quão duradoura poderá ser sua pena.
-- Mesmo que o seja, não temo por meu julgamento.
-- Julga-se tão sem valor, assim?
-- Sei que meu desvalor foi causado por minha arrogância, mas não é por este motivo que não temo o julgamento. Não o temo porque sei que é o único momento em que poderei sentir os efeitos da verdadeira justiça.
-- Confia na justiça mesmo sabendo que ela pode pesar desfavoravelmente para você?
-- Vivi tantas injustiças e hipocrisias, entre os homens, que qualquer justiça, desde que verdadeira, será uma bênção.
-- Começo a acreditar que encontrei quem deveria. Agora me conte como terminou o conflito.
-- Querendo evitar um derramamento de sangue desnecessário, avisei os acampados sobre a marcha do exército. Solicitei que retornassem para seus lares porque quando os soldados chegassem não teriam piedade. Estivessem livres e despertos, tenho certeza de que teriam acedido, mas os asseclas do portador primário os haviam envolvidos em uma espessa rede de sonolência e incapacidade de raciocinarem por si. Salvo alguns poucos que se mostravam mais despertos, a grande maioria permaneceu acampada junto ao castelo.
-- Ainda assim tentou impedir o massacre.
-- Sabendo que o exército encontrava-se em marcha, deixei o castelo, sem que os acampados soubessem, seguindo em direção ao corpo de guerra. Pretendia encontrá-los distante o suficiente para que não levassem seu ódio àqueles deserdados. Acabei encontrando-os nas proximidades de um grande rio. O derretimento da neve, acumulada nos picos das montanhas vizinhas, havia alimentado o manto aqüífero aumentando o volume de água que percorria seu leito.
-- Estava em sua forma primordial?
-- Não. Talvez meu medo ou o desejo de deter aqueles sanguinários ou os dois fatores fizeram com que minha aparência refletisse o ser transmutado que me tornara. Assim que me viram, extravasaram o furor que traziam represado em seus âmagos. Setas e lanças foram atiradas em minha direção e grande parte dos homens se lançaram sobre mim. As garras, as mandíbulas potentes, as asas cortantes e os olhos congelantes permitiram-me fazer frente a todos eles. Movia-me com desenvoltura atingindo-os com todos meus membros. Suas lâminas roçavam meu corpo, mas eram incapazes de traspassá-lo. Durante um dia inteiro prossegui na batalha. Os corpos iam sendo dilacerados e tombavam sem vida, mas os soldados não desistiam de seu intento. Ou acreditavam que poderiam ferir-me a qualquer instante ou queriam vencer-me pelo cansaço. Minar minhas resistências para se aproveitarem de um momento de descuido. Nem uma das duas expectativas se concretizaram. Eu não podia ser atingido pelas mesmas limitações que os abraçavam. A noite trouxe alguns instantes de paz. Eles não batalhavam enquanto a escuridão dominava o firmamento.
-- Muitas mortes a serem contabilizadas. Sinto que tenha necessitado enfrentar mais esta tragédia.
-- Assim que amanheceu, os combates reiniciaram. Por quatro dias a rotina se repetiu com tediosa constância. Corpos sem vida sendo pisoteados e esquecidos no campo de batalha, armas perdendo-se entre entulhos e corpos mutilados, sangue lavando o solo que já não se mostrava mais em sua cor original. Comecei a impacientar-me e permiti que o nervosismo ofuscasse minha razão o que me levou a agir de modo mais contundente. Sem controle, passei a atacar os soldados mesmo quando eles se mostravam prontos para uma retirada. Minhas garras varavam seus corpos como se fossem palhas ressecadas, minhas presas penetravam em suas jugulares como se estas fossem o talo de alguma leguminosa em decomposição, as lâminas de minhas asas fendiam suas carnes como se elas não passassem de um tecido roto e já corroído por traças. Eu que evitara e abominara, até então, qualquer manifestação de selvageria, estava sendo dominado por meu instinto mais primitivo.
-- Sabe que eles não o deixariam em paz caso parasse com os ataques.
-- Eu sei, mas isto não serviu de alívio quando o pior aconteceu.
-- Você tentou evitar o pior.
-- Em vão!
-- Não, nenhum empenho sincero poder ser visto como um ato vão.
-- Enquanto eu alimentava a sanha insaciável dos asseclas do portador primário, eles cuidavam para que um contingente, tão numeroso quanto aquele que eu enfrentava, desviasse de nosso caminho e seguisse direto para o castelo. Minha batalha ainda demorou outros dezesseis dias; quando finalmente não tinha mais oponentes para enfrentar, tudo que pude observar foi um campo tomado por corpos espalhados e o sangue misturando-se ao caudal aqüífero do grande rio. Sem perder tempo, retomei a direção do castelo; desejava repousar em minha prisão voluntária.
-- Está ficando frio!
-- Para mim, sempre está frio.
-- A noite não tarda a chegar.
-- Minha existência só conheceu a noite.
-- Podemos para?
-- Deixe-me, ao menos, concluir esta parte do relato.
-- Está bem.
-- Meu coração regelou-se, minha alma fendeu-se e meu espírito foi destroçado com a visão que tive ao planar sobre o castelo. Um bando de malditos chacais celebrava uma vitória infame sobre centenas de cadáveres espetados em postes rudimentares. O empalamento não havia sido banido dos costumes daqueles bárbaros. Todo esforço que havia desprendido para manter a batalha distante dos desprevenidos e despreparados acampados se mostrou inútil. O castelo ardia em chamas e o brilho das labaredas tornava a cena ainda mais tétrica. Ensandecido, desferi o ataque mais cruel que um ser de minha origem poderia executar. Aproveitei a fogueira que eles haviam começado esparramando as chamas por todos os cantos. Não demorou muito para que o imenso círculo ígneo envolvesse a todos. Os próximos três dias, passei observando as labaredas devorarem tudo que estava em seu caminho.
-- Está chorando?
-- Não posso evitar.
-- Apesar de tudo, lamenta a morte de todos eles.
-- Lamento a vitória do portador primário.
-- Mas ele não venceu!
-- Como não? Observe o sentido da jornada humana. Eles se lançaram a uma vertiginosa queda na direção das profundezas do abismo e das trevas.
-- Nem todos!
-- Quantos? Uma dezena? Talvez centenas? São como um montículo de areia comparado às imensas montanhas que se estendem por sobre a terra dominado o horizonte.
-- Mesmo que fosse apenas um!
-- O que? Tanto esforço, tanto sacrifício, todo tempo que foi concedido e diz que teria sido válido mesmo que ao fim do ciclo apenas um merecesse o paraíso?
-- Sim!
-- Então seria uma crueldade muito maior do que a qual imagino que tenha sido.
-- Ainda encontra-se envolvido pelo halo da materialidade, logo perderá esta noção limitada e contemplará a amplitude da Criação.
-- Conheço a amplitude deste rebento Verbal.
-- Conhece apenas aquilo que lhe foi permitido conhecer. Há muito mais compondo as infinitas variações que compõem a Criação.
-- Não a entendi.
-- Além deste mundo que lhe foi destinado, existem muitos outros.
-- Outros mundos?
-- Sim, bilhões deles.
-- Habitados por seres humanos?
-- E por animais também.
-- Mas então...
-- Então que o espírito sendo energia, não pode conhecer um fim. Quando mal direcionado, retorna a sua fonte original, é reestruturado e devolvido à Criação.
-- Os primordiais?
-- Estamos sujeitos a efeitos distintos. Não podemos ser reestruturados.
-- Desintegrados?
-- Reagrupados à Vontade primordial.
-- Aniquilados! Apagados do Livro da Vida!
-- De certo modo, sim!
-- Então, quando terminar de cumprir minha pena, nada mais restará de mim. Será como se nunca tivesse existido.
-- Sempre resta algo de todos nós.
-- Mas se seremos varridos de tudo que é registro...
-- Mas não podemos ser riscados dos corações daqueles que nos amam.
-- Quem poderia me amar?
-- Ainda não compreendeu o motivo de minha presença a seu lado?
Como se o brilho mais potente tivesse se mostrado para ele, seu olhar mirrou o semblante sereno de sua interlocutora. Por um instante ele parece estar mirando o semblante da mais maravilhosa de todas as criaturas. Com angústia inaudita, baixou o olhar e sentiu que o pranto voltava a assomar seu âmago.
-- Compreende?
-- Sim!
-- Eu sempre o amei! Você está em mim como eu estou em você. Não podemos nos separar.
-- Mas meu destino é a aniquilação!
-- Seu destino é o tribunal maior. Aquilo que for decidido será realizado.
-- Por que?
-- Fomos criados ao mesmo tempo. Uma centelha que se dividiu em energia positiva, você, e energia negativa, eu, unidas, produzimos muito, mas separadas ficamos a mercê das vibrações mais próximas.
-- Você se manteve pura!
-- Eu não precisei deixar nosso plano original.
-- As admoestações de minha consciência...
-- Era eu tentando lembrá-lo de nosso compromisso.
-- Fui um estúpido!
-- Não! Você foi valente!
-- Um assassino frio e incontrolado.
-- Não queira ser seu próprio juiz! Deixe que o tribunal decida sobre seu destino.
-- E o que me resta até lá?
-- Virá comigo!
-- Para onde?
-- Para nosso plano original!
-- Mas fui banido!
-- Foi, mas agora é chegada a hora de voltar.
-- Depois de tanto tempo...
-- Venha!
Um suave e prolongado beijo selou o destino do amaldiçoado. Seu corpo mais denso foi abandonado por sua centelha original desabando sobre o solo estéril. Duas luzentes silhuetas voaram em direção a imensa abóbada que cobria o local. Fosse a redenção ou a condenação que o aguardasse, nada podia turvar a felicidade que dominava seu âmago.
Naquele momento, ao lado de sua alma gêmea, ele sentia toda ventura de ser amado. As energias que os envolviam tornava-os abençoados fazendo com que tudo o mais se perdesse numa densa névoa disforme e mortiça que se afastava cada vez mais permitindo que eles se elevassem sem qualquer dificuldade.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009


Deformidades



Hoje por tanto tempo olhei as mais belas paisagens,Mas meus olhos só enxergavam crueldades,
É assim em todas as imagens, por mais belo que sejam,
Atraem aos meus olhos, apenas as deformidades.

Procuro em meio à multidão, fugir da solidão,
E nas coisas mais belas da vida,
Enxergo apenas o vazio,
Será que sou atraída sempre pelo mofino?

As formas estão ali, mas as vejo deformadas,
O Verde esta ali, mas enxergo o negro que não existe,
Minha alma gelada não aquece com o verão, é um vácuo,
E tudo se transforma em solidão.

A visão objetiva da realidade perdeu-se no vazio,
Não reconheço o que é mais interessante,
Se é só para mim, ou para o resto da humanidade,
As lágrimas atrapalham minha visão eminente.

São deformidades, que vieram com o tempo,
Com a angústia, descrença, o soturno.
Não sei se verei as coisas como são ou aparentam ser,
A partir de hoje, mais um pedaço foi tirado de meu regozijo, do meu crer.


Por: Rafaela Malon


segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

13 Andares






Tudo que começa tem um fim


O homem estirado na calçada se virou e apenas uma vez olhou ao redor, suas sobrancelhas se retesaram. Em sua frente erguia-se aquele edifício, ele não lembrava de como viera parar ali, mas não era nada incomum a despeito do seu constante estado de embriaguez. Ele compreendia que aquele nunca foi um bom lugar pra se estar.
O sol já nascia os primeiros raios avermelhados surgiram entre os prédios antigos, a rua ainda estava vazia, nem mesmo os funcionários fabris haviam chegado para a luta diária.
O mendigo olhou mais uma vez para frente e de súbito fechou os olhou com força. Tentou se levantar sem sucesso caindo contra o asfalto ainda úmido do orvalho da manhã, fazendo os rasgos dos jeans surrados aumentarem ainda mais.
O homem pouco se importou com o sangue que corria de um de seus joelhos colocou a mão no peito como se estivesse tendo um ataque cardíaco e desceu a rua correndo e falando coisas que alguém que passasse por ali poderia entender como uma oração ou ainda alguma cantiga.


Jardim Florido


É de certa forma uma ironia...
O prédio pulsa como um tumor maligno em uma pessoa com metástase.
Acredite, você nunca viu um lugar assim.
Pessoas passam por ali todo o tempo, o lugar é comum a olhos pouco atentos.
Para olhos desiguais, aqueles olhos atentos que conseguem ver além, o ambiente pulsa.



NOTA:

Olá, queridos amigos e colaboradores do Vale inicio este ano de 2009 (um pouco atrasada), com uma proposta diferente. Serão, contando com essa, cerca de 14 publicações com o título principal de “13 Andares”.
Espero que gostem e comentem.
Abraços.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Cão sob a janela





Me passa um cão sob a janela
É ela minha intersecção com o mundo
E o cão, sarnento, passa
Me faz troça, me ameaça
Mas vai e se esvai meio entrevado
E quando o vejo, sem atenção
É um cão alado
Um tipo de demônio
Que a gente sempre teme ver.
Mas é dever, é mister
A visão do inferno
É o compromisso eterno
É a dose que nos cabe perceber.

Perdas herdadas, raízes bichadas,
Nada que se aproveite
E, para deleite de um demônio menor,
Apenas a lua crescente
E uma estrela indolente.

Pois ela que se agüente
Até que os céus instáveis
Em suas contas primais
As apaguem
Para , quem sabe,
Um dia talvez
Ou nunca mais

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

DESCONSTRUÇÃO.

.
.
.
O rio, de “quem” tanto falo
Não se parece com aquilo
Que reapareceu outrora, na mesma hora
Que eu me perdi nos mares do sem ver-me.

O rio, que eu aponto como
Uma transfusão de seqüelas
é a mesma coisa que me prendeu
Ainda à mesma vida, dividida
Nos meus aspectos de nenhuma
Coerência.

Pois aquelas frases que apontei
Como referências, essências, estão
Dormentes na cama de um vício
Onipotente, que observo no mesmo
Despertar de uma parede viva.

Há um precioso véu que cobre
O dissabor dos próprios medos.
Ou precipita-se pela mesma erosão
Da alma bipolar e ensandecida no
Abrolho de uma ignorância ribeirinha.

E esses mecanismos de insetos de
Uma modernidade amanhecida
Foram feitos para aniquilar-me
No instante que eu acordasse
Preso, sem acordar de mim mesmo.


Versos não são versos, são alimárias
Ensangüentas, que repousam na esperança
De ser gente.
.
.
dos Anjos

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Epílogo



Silêncio
que interrompe a sua vida sem entender
aquele momento furtivo, que não deixa
o que está diante dos olhos fazer parte de você.

Covarde
em si para si mesmo, e outra vez mais,
esquece das alegrias que assombram
os retratos que escondem a sua tenra paz.

Viver
como se fosse uma obrigação, o medo de morrer
aprimorando seus obscuros jardins de sombras,
germinando ao redor de tudo que jurou esquecer.

Final
reescrito por várias mãos tornadas suas
em algum momento reinventado por um acaso
que acabou deixando suas linhas nuas.

E as visões chegaram ao fim.

(Moisés Bentes de Siqueira Cavalcanti)
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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Essência




Tu me confunde com a vida
não pela alvura da minha pele
mas pelos meus olhos que tecem
verdes raios em teus dias nervosos.

Amor dilacerando os teus ossos.

Tu me desenha na areia
e sob a fraca luz da lua
a tua paixão, perpétua,
se entrega devassa e etérea
aos meus olhares funestos

Deito-me sobre os nossos destroços,

e, se adormeço em teus pêlos,
aninhada em teus cabelos,
posso ou não ser sua sorte...
Posso arranhar teus medos
morder teus ombros perfeitos,
Ou de prazer, assinar tua morte.

Deixando minha essência em teus poros.



(Jessiely Soares)

domingo, 4 de janeiro de 2009

Amor de Sal




Quebrou-se
Feito um vaso
Raro

Uma angustia
Entranhada
Na aura

Amor de areia
Em vaso sem malvas
Ou rosas vermelhas
Cuja terra
Era sal.

(Sirlei L. Passolongo)

Direitos Reservados a Autora

sábado, 3 de janeiro de 2009

Posso sonhar? - por Adriano Siqueira



Posso sonhar?
Por Adriano Siqueira



Enquanto os garotos se divertiam jogando bola na quadra da escola, um garoto estava chorando escondido bem perto do vestiário.

Ele abre a sua mão e começa a falar.
- Eles não me querem jogando. Acham que sou muito fraco e que não sei dominar uma bola.
Em sua mão aberta aparece uma luz azul que forma a silhueta de uma mulher com asas de libélula e ela esclarece:
- Você não vai ficar ai achando que, um bando de moleques, pode tomar conta da sua vida.
- Mas eu não sei mesmo Alami! Nunca dei atenção para jogar. Só faço isso porque o professor impõe. Eu gosto de educação física, gosto de correr muito.e fazer exercícios na barra. Eu sou bom nisso.
- Vamos! Levante-se daí. Vamos ganhar este jogo.
O garoto não entendeu o que a fada dizia. Mas obedeceu como sempre.
Quando chega na quadra os garotos começam a rir, mas o garoto não se intimida. Ele arruma o calção e a sua camisa e corre para a quadra.
O professor apita e o jogo reinicia.
O Garoto não sabe o que fazer ele apenas tenta pegar a bola. Um dos jogadores olha para os olhos dele e chuta com toda a força. Certamente a bola deveria acertar seu rosto mas de repente ela voa rumo ao seus pés e o garoto fica impressionado. Ele chuta rapidamente a bola e ela dá uma curva em toda a quadra e vai direto para o gol.
Ele se enche de alegria e pula para comemorar. Todos o abraçam e ele se sente o máximo. As meninas da escola sorriem para ele, mostrando que finalmente ele ficou popular.
Depoiis de um bom tempo conversando com seus novos amigos e novas amigas ele volta para casa para contar o que aconteceu mas quando conta para a sua mãe. Ela declara:
- Andíro meu filho, fadas não existem. São frutos da imaginação da gente quando estamos sozinhos. Tudo que você fez foi por você. Foi porque acreditou em você.
O garoto ficou um pouco triste e foi para o seu quarto e senta na sua cama.
Ele olha a sua mão fechada por algum tempo e afirma:
- Fadas não existem.
Alami olha pela janela. Seu olhar é triste. Uma outra fada, coloca a mão em seu ombro e lembra:
Não podemos aparecem em quem não acredita.
- Mas eu queria falar com ele. Só mais uma vez.
A amiga da Alami abaixa a cabeça fazendo gestos negativos e ressalta:
- São as regras. Você sabe.
Elas se abraçam e voam para a floresta. No caminho elas comentam.
- Será que um dia aquele garoto vai reencontrá-la?
Alami responde:
- Talvez, no futuro ele tenha consciência disso.
No quarto, o garoto se deita e abraça o travesseiro.
Ele sonha com um mundo fantástico, com muitas fadas, gnomos, bruxas e vampiros.
Neste mundo, ele é um vampiro que gosta de uma fada.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Do meu diálogo com a morte

Que a morte me traga consigo no seu bolso
e que no avesso do meu osso
eu descubra que nada da vida foi em vão

E que a trilha se perpetue no caminho
de um andarilho bem mesquinho
que só pensa em juntar pão

E que da silepse que me busco
do contorno que ilustro
da sina que jaz no chão

da fonte que não se mantém
do intruso que vem do além
do pó, das cinzas e do caixão


— Morte, que traz consigo para dar a mim?
— Nada que você deva temer
— Algo que eu deva agradecer?
— Só se isso te machucar.

E do prisma que atinjo
que de vermelho me pinto
Em cristais de sofreguidão

E do aparelho bucal
aparência mais frugal
De conserto de pilão

— Morte, por que ainda não me levou?
— Você não merece morrer. Minha lança é um prêmio só para aqueles que descobrem sentido de viver.
— Mas, Morte, se eu descobrir não vou querer mais morrer.
— Eu sei.

Do poço em que me afundo
de morrer faço meu submundo
E de viver meu cão

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

ANO NOVO, TUDO NOVO...




O mundo já foi bom...
Uma época tão boa aquela que meus avós viviam. Onde crianças pulavam amarelinha nas calçadas ou brincavam de carrinhos de rolimans pelas ladeiras. Elas próprias construiam e geralmente os freios eram os sapatos, coitados, com as solas gastas de tanta derrapagem.
As drogas eram conhecidas pelo seu poder curador ou amenizador das dores dos enfermos.
Hoje correm garotos de skate, alguns braços quebrados e as drogas encorajam moços covardes e restos de um passado de sonhos em vão...
Nos anos 60 era fantástico dividir um baseado...Hoje o mundo se baseia em crimes, drogas e muito dinheiro, sujo sim, mas geralmente bem lavados...
Outro dia um rapaz acordou no banco de trás de um carro desgovernado, entre as carretas numa rodovia federal, com o amedrontador som de uma sirene policial no retrovisor. Tinha sido nocauteado com um comprimido de êxtase em seu copo, que um "amigo do peito" fez o favor de colocar enquanto seus olhos se distraiam olhando os seios de uma piranha que dançava ao som de um funk numa boate qualquer.
Ficou confuso, tentou argumentar para que parasse o carro, mas seu cérebro anestesiado não o deixou proferir palavras e sim urros, berros e por fim, a puxada do freio de mão, ocasionando um fenomenal cavalo de pau.
Ah, minha santa vozinha! Que bom que você está morta para não ter o desprazer de ver isso, o seu bisneto na podridão do mundo moderno! Na sua época as pessoas eram pessoas! Hoje o mundo é verde como os olhos de uma fada engarrafada.
Que bom que eu não sou mais nada! Enquanto me julgava pessoa tentei mudar o mundo, mas o mundo foi que me mudou...
Pedófilos desfilam pelas linhas virtuais nas webs da vida, distribuindo brinquedos e sugando sem medo, todas as infâncias queridas...
Pais malditos espancam os filhos e depois os jogam pelas janelas...
Políticos contando glórias, politizados, bancando heróis, varrendo para debaixo dos lençois os dólares e do tapete os reais...
Ladrões nas redes...
Ladrões nas redes...
Ladrões em redes...
Fazendo filas, enquanto pobres com sede, contam seus pilas, grilhando as terras, fazendo as guerras, matando gente...Crianças mentem, que seus heróis ainda os são...
A agora meu Deus? Que faço eu?
Me junto a eles ou brindo o ano que se inicia...?
Bela porcaria!
O que tem de bom é esse instante, o único instante sem baixaria...
Será que isso muda um dia?

...
Me Morte
Feliz 2009