quarta-feira, 29 de julho de 2009

Doppelgänger

Besta lendária e maldita, desgraça caminhante,
Invadia a essência dos vivos para seu prazer,
Copiava minha forma para destruir meu nome!
Ser macabro e amorfo, confundia meus amigos,
Eu estraçalharia sua carne e ossos.

Sem rosto e personalidade próprios
Ele copiava minha forma e personalidade,
Simulava minhas habilidades e poderes.
A vida do sósia tinha de terminar,
Eu o livraria do fardo da existência.

Soluciaria seu problema com violência,
Esse fardo de identidade dismorfa
Deveria cessar com meus ataques.
Quis destruir sua forma inumana
Libertando esse mundo de sua presença.

Desejei-o como oponente em uma batalha!
Não mais veria seu desrespeito,
Não mais ouviria suas zombarias.
Outras perturbações eram menores,
Seu sangue seria devorado pelo solo.

Fui destemido e enfrentei meu inimigo,
Minha existência estava abalada,
Pelo invejoso e cruel doppelgänger!
O copiador das entranhas subterrâneas,
O pesadelo dos reflexos distorcidos.

Foi uma grande batalha física e mística,
Tamanho duelo foi delicioso.
Sou o verdadeiro Mensageiro Obscuro.
Nem tudo podia ser copiado, eu venci,
Decaptei quem nunca foi alguém.

Vencida a batalha, mais um monstro derrotado e o Mundo Onírico fica um pouco mais habitável para criaturas como eu.


- Mensageiro Obscuro.
Junho/2007.

-- Glossário --

Doppelgänger = É uma criatura mitológica de lendas germânicas que podia imitar a forma física, voz e jeito do humano copiado. Diziam ser um humanóide metamorfo que só pensa em si e possui poderes mentais leves, mas eficazes. Várias lendas giram em torno desse ser que podia ser também uma versão de personalidade oposta a do copiado.
O nome Doppelgänger se originou da fusão das palavras alemãs doppel (significa duplo ou duplicata) e gänger (andante, ambulante ou que vaga).

terça-feira, 28 de julho de 2009

Soneto do triste caminhar


-

Ando sem pressa apenas;
o vento soprando sereno
minha face tardia acena
com mãos feridas ardendo.


Meu trágico caminhar lento
pela areia triste sem mar
cegou o silêncio a sal bento
pisando na alegria a cantar


várias tristezas sem penar
correm e libertam os lamentos
de lágrimas alcoólicas a beber.


anoitece essa alma a germinar
a maresia corroí os pensamentos
que fogem sem juízo no amanhecer.



Por Emerson Sarmento.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

DANÇAM EM REDEMOINHOS





DANÇAM EM REDEMOINHOS



Em defesa... em defesa
em defesa gritam no rio
peixes voadores
dançam nas mãos dos índios
dançam até exaurir-se
clamam por seus direitos
e dançam..dançam
No ballet deslizante dos rios
dançam águas em redemoinhos
dançam letras
Meus dedos e até os papéis
da inocência infantil vendo
boiar barquinhos..
Dançam as águas arrepiadas,
dançam dedos de chuva
a pedir..
Vem me salvar!
Joga o colete.
O sangue pode jorrar..
E as águas azuis podem se pintar..
Passar batom vermelho
matar os peixes do rio..
Por isso
dançam as águas, os peixes,
as florestas, os índios..
E ainda dança o desejo.
Fazer dessa dança um ballet
em defesa..
em defesa..



** Gaivota **




.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

amor encarnado


Se uma palavra
é qualquer coisa
no poema
Não é no coração
de quem pena
como é vermelha
a tinta encarnada
o sangue em flor
na rosa rubra do amor

paródia parabólica

A palavra coisa
não é tal coisa
como palavra
ela outra coisa
é para quem lê
coisa fosse era
lavra de amor
ou, sem sorte,
ceifa da morte

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Pandemônio

Eis que quero você na minha vida,
Mas eu me encontro em um doce pandemônio.
Minha lágrima escorrendo na vivida
Face do amor...Tão frágil quanto teu sorriso

Eu sei, você é tudo que quis...
Meu coração gelado estava morto
Ate teu fúnebre sorriso
Trazer-me de volta todo encanto

Eis que quero você na minha vida,
Mas eu me encontro em um doce pandemônio.
E nesse tempo todo vi a paixão ser assassinada
Pelas garras frias do ódio.

E hoje, só por hoje tenho
Minha doce morte esta em seus braços
Sei que não estamos sozinhos
Mas apenas nos basta o belo silencio da noite

Eu estou em um doce pandemônio
E já estou indo para seus braços...
Breno filth

domingo, 19 de julho de 2009

O MONGE E A FEITICEIRA- Giselle Sato, Samuel Peregrino, Marcos Rezende Honório


O MUNDO É FEITO DE RETALHOS

No alto do monte Lushan, na província do Jiangxi, à margem sul do curso médio do rio Yangtsé, há um bar, ali, sobre a cidade letárgica adormecendo, Tao Yuanming, o ermitão, bebe lentamente seu Maotai imaginando ser o Grande Buda. A cidade é cercada por montes verde-oliva. Seus moradores adormecem e logo sonham.

As luzes nunca se apagam. Para cada pontinho de luz na rua, existem cinco casas, e em cada casa vivem quatro pessoas. Em uma das cinco casas, um das quatro pessoas uma está acordada e olhando o céu coberto por nuvens negras, a tempestade se anuncia em toda sua forma. Naya sente que alguma coisa muito ruim está se aproximando. Procurou Tão Yuanming para conversar sobre os maus presságios. Ele limitou-se a escutar como se fosse um enorme favor. A atitude arrogante do ermitão era esperada. Naya pertencia a mais alta casta de feiticeiras, era muito temida e respeitada. Quando jovem havia sido um dos pilares de Jiangxi apontando os locais sagrados. Ninguém entendeu quando procurou refúgio no Monastério distante famoso por rígida disciplina. Durante dez longos anos a cidade não proferiu seu nome. Era a filha exilada. A promessa perdida. Pária. Tao Yuanming não se surpreendeu ao vê-la. Naya era uma antiga amiga que, assim como todos, a abandonara há tempos para viver na montanha. Ele puxou a cadeira de bambu e numa calma silenciosa lhe estendeu o copo: - Tome, vai aquecê-la o frio.

Ela não se atreveu a encará-lo. Depois de muito tempo, a ausência dera lugar a uma indiferença respeitosa: - Porque você não voltou? - Perguntou Naya - Você sabia onde me encontrar.

De cada cinco casas ao redor da luz, de cada quatro pessoas dentro das casas, uma não está dormindo: -Eles estão despertando. Precisamos decidir. Você sabe o que fazer.

O cheiro de artemísia e sálvia encheu o ar carregado, os ventos estavam cada vez mais fortes. As janelas batiam com força e ninguém se mexia, ouviam a conversa com grande interesse. Naya sentiu o frio cortante através das roupas pesadas, a temperatura caía a cada 12 horas. Tirou um pequeno frasco do bolso e sorveu golinhos do líquido arroxeado:

- Vejo que velhos hábitos não foram esquecidos com o tempo.Lembro quando preparei seu primeiro Lamparki. - Maldito seja Yuanming. Maldito seja.

A bebida desceu com amargor, segundos depois, sua mente divagava num passado remoto. O Monge e a Feiticeira Existiam quatro torres que cercavam a cidade, cada uma marcava as principais estrelas do céu, indicando o centro magnético da terra,um lugar de energias inimagináveis, um lugar sagrado. Ligadas às torres, haviam quatro virgens, uma delas sentada ao parapeito da janela contemplava as ruas vazias, os muros desprotegidos, o mercado silencioso. Quietude que lhe aterrorizava o coração:

- Daqui posso vê-la de cima.

Naya tinha apenas cinco anos quando foi entregue as Incontestáveis. A família ficou muito agradecida e honrada. A viagem desde as terras da família ao sul foi longa e cansativa. Ao anoitecer foi apresentada a suas iguais. Quatro meninas assustadas sentaram-se a grande mesa no Mosteiro de Jiangxi. Usavam a túnica sagrada e o véu que escondia os cabelos e as formas. Rostinhos solenes assistiram a entrada da Mestra e das Incontestáveis. Levantaram-se enquanto a senhora ocupou a cabeceira, quando todas estavam acomodadas as meninas puderam contemplar a face serena e agradável das mulheres. Não exibiam qualquer emoção. Naya compreendeu que nada seria partilhado naquele lugar sem que houvesse merecimento.

Os ensinamentos seriam conquistados através do esforço de cada uma, a hierarquia e a obediência inquestionáveis. Tudo soou claramente sem que fosse necessário palavras. O silêncio seria uma constante. Naya sufocou o pranto e controlou a dor. Havia aprendido a primeira lição. Na época do solstício de verão, passando pela cidade, Yuanming procurou por uma hospedaria. Ao bater à porta de um humilde casebre... - Bom dia meu jovem. ...um ancião lhe deu abrigo.

- Pretende passar muito tempo por aqui? Yuanming lhe respondeu que pretendia ficar sete dias.

- Vejo que carrega muitos livros em seu alforje, és um poeta ou um bruxo? Disse-lhe que era um monge e buscava a perfeição nas escrituras.

- Não vai achar o que procura nos livros Yuanming, seu destino está sempre a mudar, como as nuvens. Olhe para o norte, o que vê? E apontou o dedo para a torre de pedra. - É ali que deveria começar sua busca. Os livros são apenas mapas, um caminho deve-se encontrar o tesouro, o centro de tua alma, senão, para nada serviste.

Na manhã seguinte deixou a hospedaria e foi à procura do grande templo. O grande salão estava quase lotado, em minutos começariam a série vespertina de ensinamentos, Yuanming relaxou na almofada confortável e deixou-se envolver pelas teias do saber pesquisado. O tempo passou rápido demais e mal se deu conta que havia assimilado vários ensinamentos. Precisava aprender sobre muitos lugares sagrados antes poder retornar a seu lar.

As portas da Grande Biblioteca do Templo sempre estavam abertas e nenhum ensinamento era negado. Depois de muito aprender e meditar sentiu sua mente se elevar do corpo, sua áurea começou a vagar a esmo pela cidade. Era noite do solstício de verão, a época privilegiada da grande passagem anual da terra em torno do astro rei, onde as energias se acumulavam e sem perceber se viu na Torre de Pedra do Norte. A magia do lugar era forte, podia sentir a força das Incontestáveis e uma energia muito sutil. Uma menina olhava Yaunming com altivez, era tão pequena e arrogante que não conseguiu conter o riso. Olhos frios, escuros e cortantes. Verdes como as águas dos oceanos mais profundos.

Sentiu um forte puxão e no instante seguinte o impacto da incorporação, havia perdido a concentração e estava de volta ao corpo físico. Levou alguns segundos para recuperar totalmente os sentidos e forças. Uma menina ou uma forma pensamento? Talvez uma ilusão para impedir sua entrada na torre. Talvez. Nenhum homem podia entrar nas torres que guardavam a cidade. Os guardiões selaram as quatro portas com poderosas runas, nenhum mortal ousaria transpô-las. Sim, um poderoso encantamento guarda aquele lugar, pensou Yuanming enquanto repousava seu corpo, estendido, imóvel sobre o chão desenhado; um círculo dentro de uma estrela dentro de um quadrado dentro de um sol. Ao retornar a seu quarto, Naya buscou dentro de si alguma lembrança daquele espectro que vira entrando em sua Torre. A visão lhe era familiar, será um presságio de maus agouros? Será um sinal de que chegara o tempo? Vivera seus dezessete anos esperando por um risco no céu, um sonho revelador, uma visão nas entranhas de um animal, uma nuvem que fosse. Com os sentidos abalados, a áurea vulnerável, Naya temeu por não se sentir pronta, seu devaneio fora interrompido pelo badalar da última hora, o amanhecer anunciava a próxima sessão.

CONDUZIR-SE POR UM FEIXE DE LUZ

No dia seguinte ao solstício, saindo da hospedaria Yuanming é inquirido pelo ancião. - Você conhece a garota?

- Que garota? - Desvencilhou-se Yuanming. - Vi os desenhos em teu quarto, ao que pretende, esses encantamentos para nada lhe servirá. Não se pode mover uma Incontestável de seu lugar, somente por um breve momento, quando os planetas estiverem alinhados.

- Pode me ensinar?

- Não se pode aprender a Grande Arte.

- Mas se pode pagar por ela?

- Porque estaria à venda?

- Talvez porque não tenha filhos, pela Lei posso ser seu discípulo.

- Sábia resposta Yuanming. Suba ao Monte Tezrha em jejum. Espere-me em silêncio até ouvir o ressoar dos sinos na última hora do dia.

O vento frio soprava um lamento que fazia o coração mais duro sentir um arrepia de horror. O mais cético dos homens questionaria suas crenças quando a noite descia no Monte Tezrha. Um local árido e devastado, lobos vagavam em busca de caça, serpentes venenosas e escorpiões eram os únicos habitantes.

Em uma das cinco casas, uma das quatro pessoas está acordada olhando o céu tão negro quanto a alma daqueles que temem o Julgamento. Naya estava sendo submetida ao último ajuste nos implantes que haviam sido colocados ao longo da coluna. Todos os chakras estavam desobstruídos, a consciência plena alcançada, a experiência havia sido um sucesso. Nem todas suportaram. Ainda podia ouvir os gritos da pequena Anya implorando que a deixassem partir. Muito mais tarde compreendeu que a menina suplicava o alívio da morte:

-Não ouse deixar o corpo agora, estamos quase terminando.

-Dor. Tanta dor, porque me torturam desta forma?

-Ela não pode perder a consciência, não deixem que ela nos deixe agora.

Deitada na imensa mesa de ônix as costas descobertas sob a pedra fria exibiam um emaranhado de fios de luz habilmente manipulados pela Mestra. A abertura dos vórtices modificaram vários centros energéticos e causavam grande sofrimento. A moça agora era um ser único. Todos os segredos e códigos viviam naquele corpo, a magia e a as Torres eram parte de Naya. A terra vibrava em cada célula e era como se ela pudesse ser todas as consciências daquele lugar sagrado.

Yuanming sentiu uma angústia crescente e por um segundo sentiu a dor da jovem. O ancião bateu com força o bastão na terra vermelha:

- Concentre toda energia, está quase conseguindo. Esqueça a bruxa.

O monge sentiu as primeiras lágrimas embotarem os sentidos. Naya estava morrendo e de alguma forma isto era mais importante que qualquer lição. Ele sentia a cada momento os sentidos se desvanecerem se envolvendo com aquela vida que definhava. Ambos perdidos numa concentração de sentidos, os pensamentos se fundiam, não conseguia distinguir mais que parte era Yuanming que parte era Naya. E ambas as entidades cada vez mais desligadas de seus corpos descobriam uma nova realidade, uma nova dimensão onde a vida corpórea não representava mais que um estágio passado da vida e onde o futuro caminhava por uma estrada dourada rumo ao infinito.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Morro na Zona Sul




Vermelho de periferia
Cor do barro dos blocos
Barracos em alvenaria

Quando nasci isso já era assim
Morros e morros no mesmo tom uniforme
Vida que se adapta, meu sonho é inacabado

Uma vida de conquista, camisa suada
Asfalto na porta, uma conduça bem perto
Filho na escola e agora água encanada

A vida é longa se não se aposenta
Não prova os anos e ainda cria os netos
Agradece na igreja, evangélico de esquina

Direito ao céu, não sobra nem pra criança
Quita carnê, casa Bahia é quem salva
Não deve nem teme e anda limpo no gueto

Mas tem o filho e tudo ainda mais prolonga
Distância que assola para além dos limites
Gente que ama, que a vida multiplica

Entre esses jovens, há o que vende a paz
Sonho de poder, atalho pra grana
Não a política se aqui ele é muito mais

Dos outros morros vem a puta disputa
São becos, botecos, pedágio e mais tretas
Segura esse bagulho, ou então não se meta

Um paga pau por liberdade restrita, o perímetro
Rei do esquema, aqui cospe na cara
Não passa de um verme, uma isca pra tira

Outros dois manos de quem hoje não ligo
Um se acertou e sumiu dessa área
O mais esperto comprou e encontraram na vala

Abaixa o guelo numa moto que passa, o cara
É o tom do barro mais o tinto do sangue
Porta de banco, em pobreza não amarra e fala

Este vermelho é a periferia
E nesses blocos dá pra ver os pipocos
Aqui miséria é menor se for em alvenaria

Eu dou um tombo, nesse grupo não caio
Não sou político, mas eu monto na grana
Saio daqui, ou então eu morro tentando.

Vermelho de periferia
A cor do barro dos blocos
Barracos em alvenaria


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Vale das Sombras


quarta-feira, 15 de julho de 2009

DIANTE DE TEU PERFUME





DIANTE DE TEU PERFUME
Thiers R>




Dentro do ventilador
ruía a tarde
semi tarde des’coberta
luzes
perfumes
prazeres
arrastam-se
remexi’dos bolsos
tateei pensamentos
faminto
farejei
sem - > ti - > a
rosas
quando
buscava jardins
delineei tua boca
sucumbi na grama
tramei horas
cheguei à porta
entreguei-me a dor’

assim, escureci diante de teu perfume.


2009>


Este poema faz parte do livro de poesias que lancei a pouco tempo.
“ PERFUME ESCASSO”
O livro é um e book



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terça-feira, 14 de julho de 2009

POSSUÍDO


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O dia não apresentava nenhuma aura diversa dos últimos que haviam passado. Nenhuma premonição poderia indicar que uma tempestade estava se formando sobre as pessoas que transitavam despreocupadamente pelo centro da metrópole. Quando o temporal veio, foi instantâneo, sem aviso, de um segundo para outro.
O primeiro disparo atingiu uma senhora que circulava com algumas sacolas de uma loja de departamento. O rubro verteu de seu peito tingindo sua imaculada blusa de um alvo índigo. As pessoas, que testemunharam sua queda, julgaram que ela tivesse sido acometida por algum mal súbito, mas nenhuma teve tempo para desfazer seu engano.
Depois do primeiro disparo, uma seqüência interminável seguiu no decorrer dos minutos. Quando, finalmente, o ataque cessou vinte e tre corpos jaziam sobre poças de sangue. Os ferimentos registravam a precisão milimétrica do atirador. Olhos assustados tentavam localizar a origem dos projeteis, mas a ausência de novos disparos, engoliu o executor. O pânico dominou os poucos que se mantinham imobilizados.
Os primeiros minutos, que se seguiram aos disparos, foram dominados pela apreensão generalizada. A falta de uma mente lúcida desencadeou alguns fatos que, talvez, nem mesmo o atirador havia suposto: dois homens foram atropelados ao tentarem fugir do local, uma senhora foi jogada para frente atingindo a parede de um dos edifícios com tamanha violência que sua fronte fendeu-se, duas outras pessoas foram pisoteadas pela turba que corria sem direção.
Aos poucos as viaturas e ambulâncias foram chegando e tomando conta dos espaços. Os trabalhos eram centrados no atendimento às vítimas. Não se notava preocupação alguma em se tentar localizar e identificar o atirador. Uma dezena de corpos já havia sido removida quando o pesadelo recomeçou.
A nova série de disparos atingiu as laterais dos carros de socorro. Dois socorristas foram atingidos em partes não vitais. Os policiais, que tentavam controlar o trânsito, deixaram a tarefa de lado para concentrarem seus esforços na tentativa de localizar o autor dos disparos.
Nova onda de correria e atropelos, desta feita sem vítimas fatais. Os soldados conseguiram localizar o edifício onde o atirador havia se alocado. A operação para detê-lo seria muito arriscada, o homem havia escolhido a mais alta das construções localizadas na região.
Agindo segundo o treinamento recebido, os policiais moveram-se cautelosamente. Alguns permaneceram no solo para controlarem a situação, daqueles que estavam diretamente envolvidos na operação de combate ao atirador, um grupo entrou no prédio ocupado pelo autor do atentado e outro se dirigiu ao edifício localizado a frente.
Apenas dois elementos deveriam abordar o atirador. Um tenente e um sargento foram os escolhidos. Homens acostumados a atenderem ocorrências dramáticas, tinham o conhecimento necessário para contornarem a situação. Ao menos era aquilo que pensavam, mas nenhum treinamento poderia tê-los preparado para a realidade que encontrariam.
Ao se colocarem em posição de abordagem, estacaram seus passos e se olharam perplexos. O semblante do atirador mostrava-se totalmente alterado. O brilho em seus olhos indicava que ele não estava em seu juízo perfeito. Não se tratava de um criminoso comum, mas de uma pessoa sofrendo algum tipo de surto psicótico.
Ainda julgando que ele não os havia notado, eles trocaram sinais num diálogo mudo. Manter uma conversação com o homem esbarraria na ausência de racionalidade do indivíduo. Quando realizavam uma abordagem, contavam que a pessoa estivesse apta a refletir sobre aquilo que estava fazendo, mas em se tratando de um sujeito surtado, tudo ficava incerto.

-- Aproximem-se, vermes rastejantes! A voz soou gutural e intimidante. Mesmo tendo o homem de costas, sentiram como se estivessem sendo sondados por olhos selvagens.
-- Largue a arma, temos o local cercado, não tem como fugir.
-- Não tenho a intenção de fugir!

Os policiais olharam-se atônitos. Além da entonação sobrenatural, o homem apresentava um aspecto incomum para a espécie. Seu corpo parecia estranhamente desfigurado; as faces coloridas por um rubor intenso, os ombros dilatados, as pernas recurvadas como se não suportassem o peso do resto do corpo, o peito inflado como se não respirasse.

CONTINUA...AQUI

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Não te quero mais




Já não te quero mais.
Vi tuas rugas, as intrusas
As que te fazem frágeis.
Já não te quero essa trilha
Tão andada.

Haverias de ser minha senda,
Minha estrada, minha amada,
Mas escolhes os atalhos menos sérios
Te esvais para longe de mistérios
E escolhes o óbvio e pouco importante.

Não te quero mais.

Estragaste meu instante
Minha fantasia e sonho
Minha realidade, o melhor sextante
De onde eu leria em astros, os mais reles e vulgares
Os meus lugares comuns, meus lares
Onde aportaria os ossos, os meus e os nossos,
Prenhes de memória e desvarios.

Já não te quero mais.

Pois secaste meus rios e meus mares
Os únicos lugares onde ainda,
Inocente ou indulgente
Poderia navegar.

Agora,
Não te quero mais.
Não és, nem em ilha distante
Um ponto, um porto, um cais.

domingo, 12 de julho de 2009

Nova capa...





Por motivos de direitos autorais (a oura foto tinha sido tirada da net) trocamos a foto do "Corpo Seco" da capa do livro que estou lançando. Ficou demais! Só podia ser do René Ociné.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Conto de amor

(by lucia czer)

_Cabrón...!
Era Suárez, de novo a implicar com Donato! Todos já estavam fartos de assistir à ofensa jogada em alto e bom tom a cada vez que o paraíba passava pela rua em frente ao bolicho.
Donato era um cara baixinho, magro, moreno de sobrancelhas cerradas que faziam sombra aos seus olhos escuros e sombrios. Ágil na esquila, tinha fama de ser trabalhador, mas sorumbático. Bebia sozinho na ponta do balcão e não se misturava no jogo de dados ou no truco. As más línguas diziam que ele dera nesta terra fugindo da polícia nordestina, depois que numa roda de capoeira, entre um movimento e outro, puxara da peixeira e estocara um desafeto.
No pampa, havia conseguido emprego numa estância e ali arribara, sem envolver-se na vida de ninguém. Vivia com Inezita, uma castelhana bonita e faceira, que ajudava nos gastos da casa lendo mãos.
Conheceram-se na “Ramada”, lugar de mulher-dama, onde Inezita prestava seus serviços aos homens da cidade. Sabe-se lá como e por que, o fato é que foram morar juntos no rancho de um cômodo só que Donato erguera. E todos acostumaram-se a vê-los juntos, silenciosos e pouco expansivos. Apesar disso, Inezita chamava a atenção com a cintura delgada, pernas roliças e a cabeleira negra, encaracolada, batendo às costas. Tinha um rosto lindo, olhos grandes e escuros de gente nativa, e brincos de ouro português nas orelhas.
As pessoas sentiam-se incomodadas ao presenciar Suárez importunando Donato. Pressentiam que sob as águas paradas, havia um torvelinho prestes a explodir.
Inezita, às vezes, retrucava fazendo um gesto com a mão, erguendo somente o dedo do meio e entredentes lascava:
- Hijo de una puta! Cerdo! Perro sarnento!
Suárez ria às gargalhadas e continuava tomando pinga recostado à parede caiada do bolicho, rodeado de outros maracheiros.
Donato, quieto, continuava sentado no banquinho tripé, ao calor do sol fora do rancho, amolando facas e tesouras que os vizinhos levavam para afiar por alguns reais, quando o paraíba estava de folga do trabalho. O plano do casal era construir uma cozinha com piso acimentado. Era o sonho de Inezita: não ter mais que varrer o piso de terra batida e poder receber visitas sem ser na única peça da casa onde ficavam distribuídos os poucos móveis, amontoando-se cozinha e quarto.
Era tempo de tosquiar as ovelhas. Donato passava mais tempo na estância. Voltava para casa depois de dois ou três dias, suado, cansado e faminto. Na guaiaca, as notas avolumando-se e o sonho de Inezita mais próximo.
Donato caminhava pela estreita senda da porteira até o rancho e ouviu as risadas soltas de Inezita juntamente com a música tocada no radinho a pilha. Soava junto um timbre de voz masculina... Donato moderou os passos, cabisbaixo.
...........................................................................................................................................
- Cabrón!
Estrondou a ofensa na rua, calando os passantes.
Desta vez todos repararam na figura de Donato. Calças brancas folgadas, camisa regata, pés descalços, fita amarrando num rabo de cavalo os cabelos...
Acercou-se de Suárez e o povo abriu a roda. Donato gingou, no movimento ritmado de todo o corpo, acompanhando o toque do berimbau mentalmente, mantendo o corpo relaxado. Durante o gingado, mantinha-se em movimento permanente, simulando tentativas de ataque e contra-ataque, sempre atento às intenções do oponente, em contínua postura mental de esquiva e proteção dos alvos potenciais de golpes. Riscou o chão com a ponta do pé e chamou pra briga. Na cabeça de cada um dos presentes, soava o ritmo cadenciado do berimbau.
A capoeira é destreza, é malícia, é dança guerreira. Nasceu como luta de escravos em busca da liberdade; luta, dissimulada na elegância de gestos quase sagrados, na descontração alegre e galhofeira do espetáculo. Espetáculo sublime, quando estão em harmonia o toque do berimbau, os demais instrumentos, a voz do mestre, o coro polifônico, a dança dos dois guerreiros e a emoção do perigo real, sempre à espreita, à espera do momento certo, o bote fatal...O espetáculo agora parecia trágico. A capoeira é jogo, dança, luta. É axé. Nasceu sob o signo da libertação. É um jogo complexo, que funde a música e a movimentação corporal num todo harmônico. É dança, é canto, é jogo de habilidade e destreza corporal, mas também é luta, e das mais terríveis.
E foi assim que Donato enfrentou Suárez. O uruguaio era grandão e valente, sabia brigar e tinha a força dos homens acostumados na rude lida do campo. Mas não tinha a leveza e a destreza dos movimentos esquivos e ágeis do paraíba. Num gesto mortal, entre uma ginga e outra, um rabo-de-arraia e a peixeira voou em direção ao pescoço taurino de Suárez, fazendo-o rolar no chão de balastro, esguichando sangue e roncando como um porco abatido.
As nuvens, prenunciando o temporal que se aproximava, abriram-se. Trovejou forte e a água desabou lavando o sangue de Suárez e a honra de Donato.
Dele, nunca mais se teve notícias. Sumiu naquela noite em meio ao vento e à chuva. Só sobrou o rancho que, inesperadamente, havia ganho um piso de cimento. Sobre este, apenas uma flor de corticeira... De Inezita não mais se soube.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Estrela-Guia




Cansado da apatia e o tom cinzento
Dum mundo tão disforme e sem valia,
Eu durmo procurando a estrela-guia
Que há de iluminar-me em seu alento;

Cansado da tristeza e a dores lentas
Que há tempos já sufocam minha vida,
Eu sonho em lhe abraçar, minha querida,
Num mundo sem relógio e sem tormentas;

Seguindo nas oníricas paisagens
Compostas por delírios e miragens
Tecidas pela lira de Morpheu,

Eu fecho para sempre os meus olhares
Em busca das quimeras estelares
Por onde vive a luz dos beijos seus.

domingo, 5 de julho de 2009

Eutanásia - Flá Perez

Ladie sempre vinha chamar-me de madrugada para observá-la dar à luz seus filhotes.
Foram três ninhadas, ao longo dos onze anos que viveu comigo.
Uma perfeição: oito tetas para oito boquinhas fortes.
Cada uma pegava uma mamiquinha dela ao final de um parto simples e rápido.
Era engraçado como, ao final da gestação, aparecia no meio da noite,
bafejando meu rosto até me acordar.
Hálito quente, esbaforida,
a calma companheira de sempre nessa hora era toda preocupação e pressa.

Não entendia o porquê da necessidade da minha presença.
Eu era completamente inútil em todo o processo.
Levantava correndo, Ladie ia na frente até o local que havia preparado por instinto
e fazia tudo sozinha.
Eu ficava lá, olhando maravilhada.

Depois de um tempo percebi que Ladie chamava-me mais por amizade,
apoio moral, quem sabe por não entender direito o que estava acontecendo.
Até a hora em que despontava o primeiro serzinho de pelos molhados.
Então ela parecia que sempre soubera de tudo.

Talvez seja porque da primeira vez, quando o primeiro filhote nasceu,
ela ficara olhando, orelhas em pé, o bichinho mexer-se, sem fazer nada.
Peguei o cãozinho, mostrei-o à mãe de primeira viagem, falei-lhe...
Então Ladie, como saindo de um encantamento, começou a lamber as narinas do bichinho
até desobstruir as vias aéreas e ouvirmos seu chorinhore.
Depois retirou restos de líquido amniótico, placenta...
faziatudo certinho daí por diante.

Cheguei a ter três gerações com cara de Ladie dando à luz na minha sala de jantar
(seu cantinho era sempre o mesmo e suas filhas a imitavam).
Seus descendentes povoaram a cidade onde morava.

Mas aos dez anos de idade começou a mancar da pata dianteira.
Não, não só a pata, a perna inteira mancava.
Seu andar parecia o de um homem com muletas.
Fomos ao veterinário e lá se constatou o de sempre: câncer.
Todas as nossas cadelas morriam de câncer na velhice, parecia uma praga.
Contudo eu já me acostumara a essas vicissitudes. Em sua maioria,
eram inoperáveis os tumores das “cãs” (como as chamava-mos carinhosamente) .

Dito e feito: o câncer da perna havia penetrado o pulmão de Ladie e só restava sacrificá-la. Acontece que não fazíamos esse crime de misericórdia
até que se tornasse insustentável a situação.
Achávamos que nossos bichos de estimação deviam aproveitar sua vida até o fim,
o que era, em teoria, fácil, pois não sabiam que iam morrer.
A notícia da morte certa não os afetava em nada.
Foi assim que Helga, a pastora alemã da minha mãe,
ficara viva até os tumores rasgarem suas mamas.
Aí sim pedíamos a injeção letal: diante do inexorável sangrando a olhos vistos.

Os veterinários diziam que elas não sentiam dor, mas eu não acreditava.
Se nos humanos doía tanto a ponto de encherem-se de morfina, porque não nos cães?
Foi assim que comprei seringas, agulhas e um forte remédio injetável pra dor
- um antiinflamatório- tudo com receita e aval do veterinário.

Duas vezes por semana aplicava nela, e quando isso acontecia,
Ladie parava de mancar tanto e chegava até a correr e brincar.

Até que aconteceu. Eu estava dormindo -eram mais de quatro da madrugada-
quando senti o bafo quente em meu rosto, a mesma sensação que me acordava
quando Ladie ia parir. Chamava por mim novamente.

Acordei, e ela não estava lá. Algo dentro de mim obrigou-me a levantar mesmo assim
e correr até a sala. Lá no cantinho de antigamente, Ladie jazia, olhos fechados,
respiração entrecortada, numa poça de sangue.
Estava desacordada, mas era patente que ainda assim sentia muita dor.

Na família ocorria por vezes nascer um médium, mas até então essas coisas
nunca haviam me acontecido.
A mediunidade, dizem, pula uma geração ou outra e minha mãe “sentia” coisas.
Achei que estava livre dessa sina, mas minha avó paterna,
com quem assustadoramente me pareço, além de “sentir”, “via” coisas bem piores.
Afinal eu podia ter um pouco de mediunidade residual...

Tive então a certeza que Ladie fora me chamar para ajudá-la uma última vez.
Se a força mental era dela ou minha, não me importou na hora tanto quanto me importa
agora que sei mais coisas...

Naquela época pensei rápido, rápido demais até: fui até o quarto de minha filha.
Ela dormia, não ia ver o que eu estava para fazer.
Peguei a seringa das injeções contra dor, coloquei agulha, puxei o embolo até o fim,
enchendo a seringa de ar. Abri as pernas dianteiras de Ladie, mirei no coração,
ou onde sabia que ele estaria, e apliquei todo o ar de uma vez só no coraçãozinho dela.
A sensação foi horrível: a ponta da agulha penetrando rápida, o enorme suspiro que deu
antes da morte. E expirou. Tudo muito veloz e, pensei, indolor. Estava morta.

Chorei de pena e remorso. Consolei-me pensando que Ladie havia me chamado
exatamente para isso: terminar seu sofrimento.

Acordei meu marido, pedi para enterrá-la logo, antes que nossa filha acordasse,
mas não contei como morrera. Deitei na cama e não dormi.

Meu espanto foi enorme ao amanhecer, quando minha filha, que não tinha nem cinco anos, levantou-se da cama e disse:

— Mamãe, a Ladie me contou que você a machucou. É verdade?

sábado, 4 de julho de 2009

Camaleoas





Dos meus ais
Sais de inverno
Lençóis
De paixões
Vulcões...


Mulheres
Que habitam
Meu ser...


Por vezes
Orquídeas
Delicadas


Magnólias
Selvagens


Ousadas
Meninas
Felinas


Mulheres
Que habitam
Meu ser...


Camaleoas
que habitam
em mim.


(Sirlei L. Passolongo)

sexta-feira, 3 de julho de 2009

MEU MUNDO INSANO - por Adriano Siqueira




MEU MUNDO INSANO

Ja sei o que veio fazer aqui.
Quer mostrar que tenho cura,
Que posso ser normal.

Sei o que quer.
Quer transformar meu mundo
Tirar minha insanidade
Tentar ser o salvador do meu caos.
Então tente...
Quem sabe coloco seu cadaver
no meu canto preferido.
Apenas para lembrar
Do mundo que quer me salvar

Sou dono.

abraços
adriano siqueira

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Aquilo...



.
Que sentimento é esse que faz uma mulher abandonar marido, filho e uma casa luxuosa para viver num porão sujo e coberto de mofo, com uma pessoa insana, consumida pelo ciúme a paixão lasciva?
Eram duas horas da tarde. Havia cheiro de sexo pelo cômodo, uma panela de caldo de galinha no fogão e duas maçãs na fruteira sobre a mesa.
-Ana...Você está arrependida não é?
-Não.
-Quer me convencer de que não sente saudades do luxo, das jóias, das atenções do seu marido?
-Eu sinto falta de meu filho...
-Podemos buscá-lo.
-Não. Está melhor lá.
-Eu amo você.
-Eu também te amo.
-Sempre vai amar?
-Sempre.
-Não minta. Em breve vai acordar e fugir daqui.
-Acha que para mim é um sonho?
-Não é?
-Nunca sonhei com um porão fedido, tampouco com restos de frutas que doam na feira, com caldo de galinha quando o estômago clama por um bom arroz e feijão...
-Eu não disse...Reclama.
-Eu sonhei com um homem que me amasse acima de todas as coisas, que seu cheiro provocasse em mim essa febre que não cessa, que seu toque me levasse ao céu em um segundo, que me completasse, que comesse comigo um pedaço de fruta podre e me beijasse depois com sabor de morangos silvestres, que eu amasse a ponto de não ver seus defeitos e se insano fosse, para mim um ser perfeitamente apaixonado, alucinadamente amoroso, ciumento para o mundo, cuidando do que é seu para mim, e nas vezes que perdesse o controle e me batesse por fantasias loucas de um transtornado que imagina o ser amado em traição, eu sentisse apenas amor, carinho, dedicação, como uma amada cuidando de seu parceiro no leito, pois ciumes também é doença como qualquer constipação...
-Você é louca...
-Somos os dois...
-Até quando?
-Não sei...Quanto tempo durou seu amor anterior?
-Não me lembro.
-Dois meses?
-Até o dia que pensei tê-la visto com outro e a esfaqueei...
-Com requintes de crueldade...
-Sim...Cortei os dedos, os olhos, o clitóris, os bicos dos seios...Tem medo que aconteça com você?
-Não. Eu o amo. Mas quero que me prometa uma coisa...
-Diga...
-Se acontecer...Tire o coração primeiro.
-Por que o coração?
-Por que o simples fato de saber que vou morrer e ficar longe de você fará com que doa bem mais que todas as facadas que eu leve.
-E que faço eu depois que estiver morta?
-Que fez da outra vez?
-Fugi...Mas foi diferente. Ela nunca me amou. Era uma simples prisioneira.
-Eu sei, você me contou...A roubou numa cidade vizinha.
-Sim.
-Então que quer fazer depois que eu morrer?
-Transar...
-Ora, transe então...
-Mas você estando morta não vai poder fazer aquilo...
-É mesmo...Nossa, criou-se um problema agora.
-Eu não sei mais transar se não fizer aquilo...
-Você gosta?
-ADORO!
-Então nunca me mate...
-Não mato. Mas você tem que me prometer algo...
-Diga.
-Nunca vai morrer...Eu não saberia viver sem aquilo.
-Morrer de morte morrida? De doença?
-Sim.
-Mas como posso prometer uma coisa dessas?
-Não sei porra! PROMETA!
-E se eu fico doente e pego uma pneumonia...
-Não morra! PROMETA!
-Eu...
-Prometa ou TE MATO!
-E vai ficar sem aquilo?
-NÃO!!!!!
-Ok...Prometo nunca mais falar de morte. Se não falamos não atraimos ok?
-OK
-Está tudo bem agora?
-Não...
-Não? O que quer mais?
-Aquilo...hehe....
.
.