quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Estou de Saída



Sei que sou denso, talvez pesado demais para ti. Talvez um fardo sofrível, então vamos nos distanciar... tu ficas no teu canto e eu no meu. Pela boa vizinhança, vamos ficar distantes, vamos fazer de conta que não existimos para o outro, pode ser divertido. Fique em tua casa e eu vou para um abismo ou montanha, tanto faz, estarei em meu território por dias ou semanas.
Tu reclamas que ando calado com olhar perdido, ouvidos desviados e com o nariz para baixo, todo pensativo e sensível ao que desconhece. Não é dor, não é desamor, nem fofoca. Não quero desabafar, nem chorar. A verdade é que o que penso e sinto não é expressível a ponto de ser captado por sentidos comuns, o que se passa por dentro de minha pessoa só eu sei.

Não adianta pedir que eu me explique, que me abra para ti, para que depois crie ou reforce dúvidas em sua mente. Não adianta eu dizer o que não é possível de entender. Minha voz e letras não dizem nada que te leve a algum lugar, meu abismo é fechado e só meu. Essa é minha profundidade e não posso te prender, portanto não se prenda a minha pessoa.
Desista de tentar desvendar um enigma tão complexo, isso só vai te tirar tempo. Umas coisas são mistérios, outras são segredos, mas todas são incompreendidas. Não quero falar, não tenho palavras belas. O que tenho é tédio do tipo para exportação, pode ser atacado ou varejo? Escolha logo sua leva, pois a concorrência é ferrenha.

Estou de saída ou em fuga, já peguei o que preciso, então não me procures e não vou te procurar. Respeite minha individualidade e privacidade ou essa será nossa última conversa. Não quero falar com a voz embargada, não quero derramar lágrimas aprisionantes e nem quero sentir o terror da perda, é melhor viver desgarrado, mas não sem antes levar um abraço apertado.
Sou livre e não vou mudar, essa é minha condição, não tente me parar. Não sou doméstico e nem dependente, então esqueça os grilhões ou amarre-se neles. Eu vou embora. Irei me aventurar e trarei façanhas e cicatrizes lindas. Enquanto eu não voltar estaremos juntos pela mente.


- Mensageiro Obscuro.
Setembro/2009.


Foto: Montanhas (sem referência).

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

...



Na Foto:Camila Gatis(poema decicado a mesma)
-


Tecidos

Dos tecidos,aos céus
comovendo os deuses
numa eternidade sem véu
atenta e breve as vezes.

A constelação de Cepheus
embrandece ao te receber;
Cassiopéia dos olhos de fel
inveja-te a beleza ao anoitecer.

porque és belamente
livre,sem rumo,e sempre
entrelaçada a sacudir.

és uma estrela cadente
que a gente sente
que nunca vai cair.

Por Emerson Sarmento.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Radicais Honorários







ME MORTE

Nome verdadeiro:
Desconhecido
Base de operações:
Vale das Sombras
(Limbo Dimensional)
Altura: 1,70m Peso: 56 Kg
Olhos: Amarelos Pele: Jambo

Poderes & Armas:

ME é um ser sobrenatural, com força e agilidade sobrehumanas, seus poderes se baseiam nas sombras e sua principal arma é uma foice que corta a energia vital do adversário, ou seja, cada golpe faz envelhecer 10 anos... Ela também usa as sombras para abrir portais entre as Dimensões, precisa retornar constantemente para o Limbo Dimensional conhecido como "Vale das Sombras" para recarregar seus poderes.


Histórico:

Existe um Limbo Dimensional chamado "Vale das Sombras", um lugar de escuridão onde almas negativas são contidas e somente poucos tem poder para sair... As almas que conseguem fugir, se transformam em sombras vivas, vampiros psíquicos que se alimentam de emoções negativas:
Ódio, Inveja, Cobiça, etc...

As Sombras fomentam a maldade no coração dos seus hospedeiros humanos e quanto mais atos cruéis são cometidos, mais fortes as Sombras ficam. ME MORTE é uma caçadora de sombras, seu trabalho é encontrar as almas fugitivas e devolvê-las para o "Vale das Sombras", se possível, salvar o hospedeiro, mas para isso ele deve querer expulsar a Sombra de seu corpo, a maioria não consegue abrir mão do poder e acaba sendo banida para o Vale junto com a Sombra.

ME tem preocupação especial com as crianças, pois o sacrifício de inocentes é considerado um prato saboroso pelas Sombras.


Arte de LUCASI

domingo, 25 de outubro de 2009

PERFORMANCE DA LÁGRIMA



PERFORMANCE DA LÁGRIMA


Escurece o amannhecer
lágrimas
os cílios do sol ruminam
onde estou?
onde vou?
carências...
eu e meu cão passeamos ao largo
cego, me vi em soluços
encontrei a fórmula
descobri riachos
me afoguei no lago
ele passa e carrega o barulho da felicidade, e eu?
perco-me em pensamentos inválidos
performance de uma estrutura sem mérito
estou nu,
vestido de sobrancelha
estou nu
atravessando ruas


** Gaivota **




* * *

sábado, 24 de outubro de 2009

do amor por ti





nada no mundo é só meu
nem mais sou que ninguém
resto já o pó a que retornarei

sem tua licença te amei
sem teu perdão, te amo
por muito ainda te amarei





quinta-feira, 22 de outubro de 2009

ROSA DE SANGUE- GABRIEL RÜBINGER

Saudações! Aproveito o espaço para divulgar um grande soneto do mineiro Gabriel Rübinger. O texto apresenta algumas características neobarrocas que facilmente serão compreendidas por amantes da literatura trevosa. Eis o soneto:





ROSA DE SANGUE

Tu és uma rosa, uma cândida rosa,
Que do Éden brotou em uma sagração.
Uma graça proibida, áspide nebulosa,
Infinita beleza vinda em profusão.

Forma perfeita e pura, luzente, briosa,
Glosa do mais belo fruto da Criação!
Rosa grã e lasciva, ó ardente rosa!
Meu caminho errado, minha perdição...


Rosa de diamantes, brilhantes astros,
De milhares de faces, de ausentes rastros,
És um manto litúrgico embriagador!

Rosa sólida e frágil, vívida e exangue,
Em carne e amor, minha rosa de sangue,
Meu cometa errante, distante da dor.

Gabriel Rübinger



A reportagem que fiz sobre o soneto se encontra em: http://www.opiagui.com.br/2009/10/o-sangue-do-pecado-e-do-martirio/



COMUNIDADE GABRIEL RÜBINGER
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=95296090&refresh=1
 
 
PÁGINA DO ESCRITOR
http://recantodasletras.uol.com.br/autor_textos.php?id=20577&categoria=Z
 


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

MERGULHAR SEGREDOS



Sombria noite que de mim se esconde
revele-me meus desejos
que respingaram do tempo
perdendo-se em seu negrume.

Permita-me penetrá-la,
fundir-me em suas obscuras certezas
e navegar suas profundezas
junto às mais rasas de minhas dúvidas.

Queria saber o segredo do claro que oculta
e a razão desta teia que me prende ao dia.

Preciso entender porque as estrelas estão se apagando
e os sonhos me abandonando.

Deixe-me mergulhar suas trevas
para que eu possa descobrir a saída.

E não me prive de uma nova chance de ver o brilho na escuridão.

Sombria noite que de mim se esconde,
esqueça que não sou mais menino
e não a temo mais.

Devolva minhas fantasias.


(Celso Mendes)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Você esqueceu do que era importante


Você quis tanto fazer algo maior que a vida
Que acabou esquecendo dos crepúsculos
Que costumávamos a ver sozinhos...

Oh querida, Tu sempre esteve parada ai...
Tão quieta e fria, assim como tem sido
Minhas noites sem você,
Nunca realmente amanheceu.

Eu apenas era iluminado pelo
Teu sorriso que costumava
A deixa-me tão alegre...

Se ao menos eu tivesse
As palavras certas
Eu traria você de volta aqui.
Breno Filth

domingo, 18 de outubro de 2009

Dinastia

Toma o dom desta oferenda:
fecha os olhos, ergue o queixo
sente os dentes na garganta.
O presente que te deixo
é a força, amor, que espanta
esta dor que te atormenta.

Não há pena, te asseguro,
Pra quem vença a própria morte
(não há deuses, nem inferno).
Te farei minha consorte,
Serei teu marido eterno:
Reinaremos no escuro.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

AMIGO SECRETO DE NATAL DO VALE DAS SOMBRAS




Participe vc tbém, são muitas brincadeiras, prêmios virtuais e troca de livros pelo correio no natal...
.
os que já brincaram nos outros anos já sabem que é muito divertido, vc envia presentes virtuais para o amigo sorteado para o email valedassombrasmemorte@gmail.com e no Natal o presente final, o mais especial, que tanto pode ser virtual ou um livro pelo correio, vc escolhe, enviando para o email acima: PRESENTE VIRTUAL (música, cartão, vídeo, poesia, etc...) ou PEDIDO DE ENDEREÇO PARA ENVIO DO LIVRO.

.
venha se divertir:
deixe seu nome aqui se vc quiser participar

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

FARINHA ESCASSA





FARINHA ESCASSA
Thiers R >



Com’um dia
que vai deixando sua cor
assim me sinto
farinha escassa
saco furado do crepúsculo
dormido d’ tristezas
amontoado d’ luzes
apagam tempos
diluem presentes tardios
sem força
sem garra
sem doce
azedume da cachaça
sola gasta de sapato velho
bolor
enquanto sumias na esquina
travei o’lhos
soluço engasgado derramei
partiste diminuta
parecendo paisagem de nevoeiro
partiste na plataforma longínqua
d’fresta da janela
eu dizia adeus
não sei bem a quê
não sei bem porquê
apenas sei das grades negras que fechavam tempo


>

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

FANTASMA

(autor: Darkness)
A densa névoa noturna intensifica a sensação de desconforto que domina o íntimo do solitário transeunte. A umidade produzida pelo nevoeiro causa-lhe tremores, mas não é suficiente para que ele desista de sua jornada.
Após meses de inatividade, aquela vaga pareceu ser sua salvação. Mesmo considerando-se o fator inusitado da ocupação, ele sentiu-se feliz por ter conseguido aquele emprego. Era uma função que não exigia muitos conhecimentos, apenas vigilância e paciência.
Seus passos avançavam lentamente pelas alamedas entrecortadas por construções de apurado senso artístico e frondosas árvores. Silhuetas sólidas contrapunham-se aos tênues raios de luar que conseguiam romper a densa camada de névoa e poluição que cobriam a noite.
Onde apenas o silêncio e a solidão deveriam reinar, ele sentia como se estivesse preste a mergulhar em um ambiente tumultuado ocupado pelos mais estranhos seres. Sua imaginação o levava a ver sombras voláteis a emergirem de qualquer espaço que se mostrasse fora do foco de seu olhar. Por diversas vezes pareceu-lhe soarem risos e gemidos acompanhados por passos acelerados.
Não era desconhecido que vândalos e desocupados estivesse acostumados a penetrar aquele terreno, mas considerou que, a partir do momento de sua contratação, não ocorreriam mais invasões. Tudo indicava que estava enganado, os ruídos persistiam e sua atenção foi redobrada.
Depois de ter avançado além da metade do terreno, sentiu um frio diferente assomar sua espinha fazendo suas entranhas se revirarem. Não era uma noite de verão, mas o inverno nunca fora tão rigoroso na região. Verificou se seu casaco estava totalmente fechado, ajeitou o gorro com mais cuidado e prosseguiu em sua vigia.
Um uivo longo e angustiado o fez deter-se instantaneamente. Fosse o que fosse, não era nenhum fenômeno natural, não existiam lobos na região e os cachorros não costumavam uivar de modo tão lancinante. O bater de seu coração acelerou-se, sua boca tornou-se ressecada e amarga, seus olhos evitavam voltarem-se na direção de onde um sussurro abafado começava a se fazer notar.

-- O homenzinho está com medo. Sussurrou uma voz feminina, mas de timbre infantil.
-- Deixe-o em paz. Ele está tentando ganhar seu sustento. A segunda voz era mais grave e adulta.
-- Podemos convidá-lo para nos acompanhar.
-- Não seja tola, ele não pode nos ver.
-- Mas pode nos ouvir.
-- Também não.
-- Pode sim. Ele está ali, olha, parado.

Sujeitos atrevidos, pensou. Além de invadirem o espaço que era sua responsabilidade, ainda ousavam desafiá-lo. Não podia deixar passar batido, mesmo que fossem crianças brincando de modo tão estúpido, precisava tomar providências.

-- Sejam quem for, saiam agora! Ordenou tentando manter a voz firme.

Um riso contido foi a resposta ao seu comando. Os gaiatos estavam mesmo se divertindo as suas custas. Malditos adolescentes, resmungou entre os dentes. Sem esperar por uma reação mais direta, direcionou seus passos para o local onde os pestinhas deveriam estar escondidos.

-- Seus pestinhas miseráveis, quando puser minhas mãos...

Nada! Não havia ninguém ali. Os danados haviam sido mais espertos e fugiram antes que ele tivesse chegado ate o local. Maldisse sua lentidão. Mesmo tendo a certeza de que não encontraria ninguém, apontou o facho da lanterna para as sombras e vasculhou uma área considerável do espaço a sua frente.
Dessa vez o riso foi mais forte. Soou quase que como uma gargalhada divertida. Os malditos estavam zombando de sua incapacidade física. Ajeitou o gorro mais uma vez, puxou as calças mais para cima e levantou a perna esquerda para avançar pela escuridão.

-- Não vai nos achar, não vai não! Soou a voz infantil.
-- Para com isso! Não podemos interagir com eles.
-- Por que não? Já estivemos assim antes!
-- Mas não estamos mais. Eles não devem ser incomodados.
-- Não estou incomodando ninguém, só quero conversar.
-- Pode conversar comigo.
-- Ah, é muito chato. Estamos conversando há tanto tempo...
-- Quer dizer que sou chato.
-- Não foi isso que quis dizer.
-- Mas foi o que disse.
--Não, não foi.

A incipiente discussão o deixou mais enfurecido. Apesar de ouvi-los, ainda não conseguia vê-los e, pelo modo como conversavam, não davam a mínima para ele. Ser ignorado pelas pessoas era um fato tão normal em sua existência que ele começava a sentir-se como um fantasma.

-- Oi! A voz feminina havia desistido da discussão e o interpela cordialmente.
-- Ele não pode nos ver! Zangou-se aquele que a acompanhava.
-- Mas pode nos ouvir.
-- Querem parar com esta discussão imbecil e se explicarem!
-- Não precisa ficar zangado. Só estamos querendo conversar.
-- Fale por você.
-- Não liga para ele, às vezes ele fica meio ranzinza, mas na maior parte do tempo ele é legal.
-- Quem são você?
-- Eu sou Mirian e ele é o Zack.
-- Quantos anos vocês tem?
-- Isso importa?
-- Não é hora nem lugar para crianças estarem.
-- Não temos mais para onde ir.
-- Como assim?
-- Nós fugimos de casa.
-- Crianças doidas! Como podem preferir a rua a uma cama quentinha?
-- Diz isso por que não sabe como era lá onde morávamos.
-- Não deveria ser pior do que ficar por aí sem te ro que comer ou beber, ou mesmo onde dormir.
-- Era muito pior!
-- Sei.

Por uns minutos o silêncio imperou. Apenas o vento ainda soprava e se fazia ouvir.

-- Devo estar ficando maluco. Ouvindo vozes do nada e conversando com ninguém. Se me pegam de prosa com o vento, perco meu emprego.
-- Não precisa se preocupar, podemos ver quando alguém se aproxima.
-- Que diabos! Assustou-se. Por que insistem em ficar matraqueando em minha cabeça?
-- Hei, não me envolva em nada. Eu estou quieto em meu canto.
-- Não gosta de conversar com a gente?
-- Conversar! Como posso estar conversando com pessoas a quem não posso enxergar? Tudo isso só pode ser um delírio!
-- Mas não nos vê porque não quer. Estamos bem aqui.
-- É claro que estão! Além de maluco devo ter ficado cego.
-- Não ficou maluco nem cego. Por que é tão difícil acreditar que estamos aqui?
-- Vai ver seja porque não posso vê-los! Ironizou de modo agressivo.
-- Se pudesse nos ver, iria acreditar?
-- Posso acreditar em tudo que consiga ver.
-- Mas seus olhos podem lhe enganar.
-- Nunca aconteceu antes.
-- Mas eles podem.
-- Não venha com essa conversa sem sentido. Como posso enganar-me com aquilo que vejo?
-- Os olhos costumam refletir aquilo que queremos ver, não aquilo que realmente vemos.
-- Absurdo! Estou mesmo maluco, onde já se viu discutir sobre a veracidade daquilo que vejo com duas crianças que nem mesmo posso ver!
-- Não somos, assim, tão crianças. Já tenho doze e meu amigo dezesseis.
-- Ah, sim, estou diante de dois adultos muito ajuizados! Aposto que não conseguem nem mesmo limpar os próprios traseiros!
-- Que grosseria! Não deveria falar assim diante de pessoas tão jovens ainda mais quando uma delas é uma menina! O rapaz, que até então tinha se mantido quieto, protestou.
-- Desculpem-me!
-- Foi engraçado! Riu a menina.
-- Não é nada engraçado quando faltamos com o respeito para com alguém. Ralhou o rapaz.
-- Tudo bem, ele não quis nos ofender.
-- Mas ofendeu!
-- Ah, já ouvi você despejar muito mais sujeira do que essa.
-- É diferente!
-- Não é não!
-- Podem parar com essa discussão infantil? Por que não desistem de me aborrecer e voltam para suas casas?
-- Não temos mais casas! A exasperação da menina foi autentica demais para que ele julgasse ser apenas a expressão teimosa de uma criança.
-- Está bem, digamos que não tenham mais para onde ir, por que tiveram que vir justamente para cá?
-- Onde mais poderíamos nos sentir protegidos?

continua AQUI

terça-feira, 13 de outubro de 2009

NA MADRUGADA









.

Na madrugada, o escuro amedronta,

Prendo-me a pensamentos secretos,

De um mundo que me vejo coberto,

Por teu sexo, teu aroma.


Sinto seu toque que me conforta,

Seu beijo me da calafrios,

Tenho medo de ir lá fora,

E despertar-me deste sonho infértil.


A tormenta desaba, destrói,

Mas me aquece a lembrança do teu ser,

Irradiando tudo que esta lá fora,

E dos pesadelos fazendo-me esquecer.


Na madrugada meus desejos não têm limite,

Perco-me no querer, mesmo sem ver,

A lembrança jaz uma tristeza,

De lembrar o que me faz bem, e não ter.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

VOZ DA BESTA parte I e II



Eu durmo com meus olhos abertos. Meus ouvidos captam o menor som e eu acordo. Se o ar se move delicadamente sobre os pelos de meu corpo, eu saberei que existe uma criatura viva perto de mim. Cheiros de animais trazidos pelo vento podem encontrar-me mesmo estando centenas de quilômetros longe de mim.

Você tem medo da escuridão? Você está certo em temer. Vivemos na escuridão e lá fazemos nosso trabalho. Pode ter certeza que queremos apenas o que é mal. Apenas o que pode te machucar.

Quando estiver se sentindo fraco, nós saberemos. Então nós te olharemos enquanto dorme, esperando pela hora quando poderemos trazê-lo para dentro da nossa escuridão.

Á noite, falamos com você e te chamamos a juntar-se a nós. A batida na porta que te acorda durante a madrugada – isto é um de nós, vindo para convidá-lo a viver uma vida morta. Não ouça. Feche os olhos, se quiser escapar vivo.

Nós sempre estivemos aqui. Estávamos aqui desde o início dos tempos.

Muitas centenas de anos atrás as pessoas comiam com os deuses. Naquele tempo, na Grécia, existiu um homem chamado Lykaon. Nas estórias gregas, Lykaon era o filho do primeiro homem na Terra. Ele era o rei das pessoas que viviam nas montanhas de Arcádia. Mas Lykaon era um homem que fez coisas más, e um dia o deus Zeus ouviu sobre estas coisas. Então o visitou de surpresa. Lykaon matou uma criança e a deu a Zeus para comer. Zeus estava tão furioso que transformou Lykaon num lobo. Ele teve que deixar sua família e as pessoas, e viver nas florestas consigo mesmo.

Ele era metade homem e metade lobo.

Os filhos de Lykaon, meus irmãos e eu temos estado na Terra desde então. Mas deixamos Arcádia e viajamos o mundo. Cada um de nós se desgarrou e continuou sozinho. Vivemos escondidos em diferentes lugares. Algumas vezes nos mostramos ás pessoas, mas eles morrem de medo de nós. Usam armas e atiram em nós balas de prata. Fazem grandes fogueiras e nos queimam vivos e cortam nossa cabeça.

Mas nós não morremos. Apenas mudamos. Em mortos vivos.

Movemo-nos ao redor do mundo de várias formas. Você não nos vê, mas estamos no meio de vocês, em todas as partes do mundo. Você pode ouvir nossos uivos se escutar com atenção. Eles são carregados pelo vento vindo do sul e através das montanhas brancas do norte.

Não há nada que possa fazer para escapar. Você pode pensar que nos mata com suas balas de prata. Mas você não pode. Movemo-nos de um corpo a outro, de um lugar a outro. Precisamos de sangue e carne morta e estamos sempre famintos. Mataremos qualquer coisa viva: bebês, vacas, crianças, ovelhas, bodes, galinhas, homens, mulheres...

Como pode nos reconhecer? Bem, o que pensa que irá ver? Algumas vezes sou um animal da noite como um morcego ou um lobo ou uma coruja. Ou um negro cão selvagem, como um cachorro que senta na entrada do mundo subterrâneo. Algumas vezes eu sou o fantasma que se deita ao seu lado enquanto dorme. Ou eu sou um lindo homem ou mulher que você deseja mais que qualquer outra coisa neste mundo.

Eu sou todas estas coisas e nenhuma delas. Movo-me entre seu mundo e o meu tão facilmente como um peixe na água. Você não pode entender quão facilmente. Você pode ver alguma coisa se mover no canto dos seus olhos. Se se virar para olhar, não haverá nada lá. Apenas uma folha se mexendo com o vento você pensa.

Mas estou seguindo, pelas sombras, atrás de você. Sou seu pior pesadelo.

VOZ DA BESTA – PARTE II

Agora, eu olho de minha janela e vejo que a luz está indo embora da Terra. Esta noite a lua estará no alto do céu quase a noite inteira. Seu brilho prateado cairá macio como chuva nos campos e florestas, no topo da montanha. Breve sentirei o vento frio da noite em minha face, o ar movendo-se através dos pelos em minha cabeça, braços e costas. Escutarei o som de meus pés conforme eles andem na terra úmida e na grama. Ouvirei o som dos pequenos animais conforme eles se movam rápidos para sair de meu caminho.

Estarei saindo esta noite.

Você pergunta por que? Eu lhe direi.

Alguns visitantes chegaram. Eu os vi caminhando pela floresta. Eu os vi olhando ao redor, para o estranho lugar desconhecido. São pessoas da cidade. Aqui ficam inseguros, se movem com cuidado.

Mais tarde estavam no pub. A morte tocou-a com seus frios dedos. Pude ver isso em seus olhos. Agora ela tema a escuridão que a está seguindo.

Mas também existe algo em seus olhos que eu reconheço. Eu vi este rosto antes. Tenho certeza. Talvez na Grécia, Sul da Itália? Talvez num vilarejo da montanha em algum lugar. Ela me interessa. Não consigo parar de pensar nela. Eu quero que ela venha comigo, que esteja ao meu lado.

Eu sei que ela está pronta para vir ao meu mundo. Mas ela não sabe ainda. Quando eu disser, ela entenderá o que deve fazer. Mas devo ser cuidadoso. A hora tem que ser certa...

Primeiro irei até ela e darei as boas vindas, darei um presente. Devo me preparar.

Ando através do quarto escuro até a lareira.

A luz do dia me faz fraco e doente. A suave luz prateada da lua é o que eu gosto.

Da parede tiro meu cinto. É grande e pesado preto e prateado. Na prata existe a face de um cachorro, o cachorro que senta na porta do mundo inferior.

Coloco o cinto cuidadosamente no chão em frente do fogo. Ajoelho-me e repito as palavras que devo dizer. As palavras são numa linguagem que nenhum homem ou mulher podem dizer. Sinto o calor do fogo em meu rosto. No centro do fogo vejo meus pensamentos indo e vindo.

Depois de um tempo, depois que todas as palavras foram ditas, fico em pé e coloco o cinto.

Imediatamente meus braços e pernas ficam mais fortes. Olho através do céu escuro e dou um grito selvagem. Então, em um grande pulo, saio do quarto através da janela aberta.

A noite está fria, mas eu não sinto. Não sentirei até transformar-me em homem novamente. Toco o cinto ao redor de minha cintura.

Saberei o que fazer, quando chegar a hora certa.

By Ana Kaya

domingo, 11 de outubro de 2009

Oração descrente

Descrente, oro
Não imploro
Nem me ajoelho
Em genuflexório inútil.

Oro com mãos postas nos bolsos
Braços cruzados
Olhares perdidos
Verbos desperdiçados,
Mas oro a meu jeito.

Não a um tirano que me criou
Para adorá-lo
Mas ao mundano rés do chão
Sem aura ou halo

Por que no pó é que reside a divindade
Na minha vontade e na fúria dos ignóbeis.

Minha esmola não é feita de moedas
Em mãos sujas

Creio em quem expulsa
Os vendilhões do templo
E sei onde é o templo.

Oro e me adentro humano
Não sob pano, mas despido
Minha oração não implica em pedido
É apenas o meu mero aprendizado.

E de tanto orar
Já não acredito em pecado.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

AFETAÇÕES PSICOLÓGICAS





Já não me apavoram os deuses pagãos
O que me atormenta mesmo é essa insônia
Essas sombras, essas frestas, esses galhos
Que batem na veneziana da janela
Ao mandar do vento

Já não me assustam as serpentes
O que me assombra mesmo
São essas escadas, esses trajetos
Essas invenções que enfeitam
O papel de parede da minha mente

Já não me ameaçam os chacais
O que me causa pânico são as vozes das multidões
O vai e vem dos passos
Os sinos renitentes a tocar fora de hora
A face fria da sentinela
A falta de calor
A escassez dos sorrisos

Isso sim me dá medo

É horrível!!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Demoníaca


Uma tem
manual de bruxaria
outra lê Paulo Coelho,

mas ninguém imita
esses olhos de espelho,
e as mãos que curam,
destróem
segundo merecimento.

Vejo os chifres, asas
ceifo, tolho, entalho
ou alimento,

vejo o que há de ser
ou o que foi.

Corto o joio
antes do Juízo
e não lamento.

domingo, 4 de outubro de 2009

Medo

Tenho medo
desse tênue
instante
entre abrir
e fechar os olhos

e me deparar
com o vazio
da tua ausência.

(Sirlei L. Passolongo)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A sinfonia

Cofres com garras no lugar do coração, sangue feito de tinta cuja cor não é visível, cujo sangue não é palpável, mas é respirável, não pelos pulmões, mas pelo fígado, direto pros olhos. Estes sem lágrimas, seco, isento de sensibilidade à luz.

As mãos não lavam mais embaixo das unhas, não é importante, não é necessário, não é possível. Viraram engraxates de botas. Couro sintético que não eriça ao toque, anel magnético cujo pecado foi atrair o amor. Barganha de sentimentos, maldito comércio clandestino. Não há trocas, só ônus unilaterais de ambos lados.

Minha alma é morta, sou uma carcaça sem dentes, uma fera sem unhas, um sorriso sem face, sem classe, um impasse de ser o que não quero, e não poder escolher meus sapatos, minhas pegadas me foram impostas. Não são minhas digitais.

—Hoje eu não sou
—E ontem?
—Ontem eu era.

Tramitação involuntária da aorta na coluna vertebral. Paralisa as pernas quando apenas atacara o sistema nervoso. Sem pernas, sem pés. O tempo não passa mais, a vida não vive ais, é o calcanhar de Aquiles de Hades. No final das contas, eu perco de todo jeito.