segunda-feira, 30 de junho de 2008

Ame-me querida



O silêncio era interrompido vez ou outra por um grito ou freada brusca vindo da rua. O quarto era simples, a cama de ferro, lençol branco e jarro de água na cabeceira.
-Oi amor. Demorei muito? Ele chegou perto da cama e puxou o lençol deixando à mostra o corpo miúdo vestido com uma camisola de algodão – Os meus pacientes não me deram folga hoje, fiz três cirurgias.
A moça parecia abatida, inerte, como se estivesse em outra dimensão.
-Ficou chateada? Ora, venha cá. Vou dar o que você gosta.
Rasgou o tecido e o seio descoberto parecia convidá-lo a luxuria com seu bico rosa e durinho. Abocanhou-o enquanto com sua mão procurava seu sexo abrindo a passagem estreita e seca.
-Vamos meu amor, eu sei que você pode fazer mais que isso. Teu ursinho chegou não me deixe com raiva. Penetrou seu membro de supetão e estocou-a uma, duas, três vezes, como se quisesse castigá-la.
A moça continuou apática e isso o deixou mais irritado, virou-a de bruços e fodeu seu ânus como um animal. O sêmen misturava-se ao sangue por entre as coxas alvas.
-Sua vadia. Sempre a mesma coisa. Não faz nada. Nenhum gesto de amor. Gosta de ser machucada.
Novamente excitado se aproximou de seu rosto e disse:
-Vai engolir minha porra hoje.
Algum tempo depois, com o membro mole, limpou-se rapidamente e saiu trancando a porta. Antes se virou e disse:
-Até breve meu amor.
Na garagem ficou de tocaia. Era 7 da manhã, estava na hora. Viu o moço na porta lateral e não hesitou, ligou o motor e saiu em disparada. Acelerou e num só golpe atropelou o rapaz. Com rapidez colocou-o no porta malas e limpou os vestígios de sangue com a mangueira que o faxineiro guardava no cantinho da escada de incêndio.
Calmamente pegou o telefone e discou...
Mais tarde ao chegar á clinica viu uma aglomeração se formando na recepção e quis saber:
-Enfermeira, o que aconteceu?
-A paciente do 318 doutor. Faleceu.
-Como? Estava estável, era coma induzido...
-Estupro doutor. Pelo enfermeiro de plantão. O maníaco a asfixiou com o próprio sêmen. O estranho é que a polícia recebeu uma denúncia anônima em seguida. Parece que o enfermeiro surtou e desapareceu.
-Ninguém sabe dele?
-Ainda não o pegaram. Foi durante a madrugada. Essa aglomeração é dos repórteres. Uns urubus.
-Alguma novidade?
-O de sempre. Dois acidentes e quatro internações.
Dois homens, uma criança e uma mulher.
-Jovem?
-Sim, uns trinta anos.
Seus olhos brilharam.

Me Morte

domingo, 29 de junho de 2008

O INVERNO


O profundo cinza do céu invernal cobria a cidade naquela tarde fria. O vento fazia redemoinhos com as folhas caídas das árvores que pareciam encolher-se diante do vento gelado.
A rua estava quase deserta. Todos estavam aproveitando o feriado prolongado para ficarem debaixo dos cobertores e descansar da semana de trabalho.
Já era quase noite, mas a escuridão havia chegado mais cedo devido ao céu fechado e carregado.
Ela caminhava sozinha pela calçada vazia. Havia acordado antes, devido á escuridão do céu. Estava protegida dos mortais raios solares. Seus longos cabelos negros voavam soltos e brilhantes, os belos olhos azuis suavemente toldados pelo vermelho vivo e brilhante. Fome.
Caminhava decidida a encontrar comida logo e poder voltar para seu esconderijo, seu covil, no porão de uma casa abandonada, que diziam ser mal assombrada. Providencial para que não fosse descoberta nos períodos de sono profundo durante o dia. Ninguém tinha coragem de entrar na casa abandonada. Aliás, as pessoas tinham medo até de passar naquela pequena viela antiga de casas quase destruídas, cobertas de hera e pela poeira do tempo.

Henrique havia brigado com a esposa, por uma bobagem qualquer, e havia saído para dar uma volta pelos arredores com o cachorro, ao menos o cão não falava e ele podia pensar a respeito de tudo com calma. Não sabia o que fazer. Há tempos seu relacionamento com a mulher estava ruim e piorava cada vez mais. Ele se entristecia com isso. O amor dos dois havia sido imenso desde a primeira vez que se encontraram. Mas agora a esposa achara um novo emprego e viajava demais, deixando-o sozinho por longos períodos. E, quando voltava, reclamava de tudo que ele fizera durante sua ausência. Que a casa estava uma bagunça, que o cachorro havia quebrado suas plantas preferidas, que isso, que aquilo. Nunca um carinho ou uma palavra de amor, nunca dizia que havia ficado com saudades e estas coisas que quem ama fala e espera ouvir do ser amado. Seu coração estava quebrado pela dor e pela certeza de que o fim de seu casamento estava mais próximo do que ele havia imaginado. Lágrimas escorreram de seus olhos, gelando a pele do rosto de barba por fazer. Desde que perdera o emprego sua esposa o tratava como a um fardo pesado de se carregar. Ele bem que tentou ajudar cozinhando, limpando a casa, lavando as roupas e cuidando do cachorro, mas nada para ela estava bom, nada era suficiente. Com certeza, o amor havia acabado.

Angélica cruzou o parque deserto.
_Diabos, acho que não vou achar nada por aqui, com este frio ninguém vai sair á rua, pensou ela.
Um latido chamou-lhe a atenção. Ao menos um cachorro. Claro, preferia sangue de humanos mas, com a fome que estava, era melhor que ir embora sem nada.
Esgueirou-se para trás de uma árvore para esperar por sua vítima. Uma suave luz avermelhada espalhou-se pelo gramado.

Henrique soltou o cachorro para que pudesse correr livremente pelo parque vazio e sentou-se no primeiro banco á sua frente. Seus pensamentos voaram para os problemas que estava enfrentando, seu coração amargurado doía no peito.
Zeus pulava e corria pelo gramado latindo de pura alegria, como se chamando seu dono a correr com ele e esperando que Henrique jogasse a bolinha para ir buscar.
Henrique procurou a bola em seu bolso e jogou-a longe. Zeus saiu correndo atrás no mesmo instante latindo e espalhando grama e terra para todos os lados.
Angélica aguardava atrás da árvore, sentia o calor e o cheiro do sangue do cachorro chegando perto de onde estava escondida, aguçando seus sentidos. Suas presas brilhavam na noite escura, que agora caíra de vez sobre a cidade.

Mergulhado em seus pensamentos, Henrique ouviu o ganido de Zeus vindo do outro lado da praça. Um lamento agudo e longo, que logo silenciou.
Assustado, levantou-se e correu na direção do som. Nunca havia estado daquele lado do parque. Era bem mais arborizado e escuro.
A escuridão era tão grande que ele não viu o corpo sem vida, tropeçando e caindo com tudo no chão duro e batendo a cabeça em uma pedra. A dor e a tontura não o deixaram ver bem em que havia tropeçado. Quando seus olhos acostumaram-se á escuridão, de sua garganta saiu um grito lamentoso:
_ Zeus, quem fez isso com você garoto?
O cachorro jazia na grama coberta de sangue, mas sua garganta dilacerada mostrava que todo o resto do sangue havia sido drenado, completamente drenado. Os pequenos olhinhos estavam abertos mas já sem o brilho da vida.
O que teria acontecido?
Henrique sentou-se no chão e abraçou o cachorro, companheiro tão querido de todas as horas. Chorou copiosamente. Quem poderia ter feito isso com uma criatura tão gentil e dócil? E como ele não havia notado nada? Agora sim, tinha outro grande problema nas mãos. Apesar de não gostar muito de cachorros, sua esposa estava acostumada com o lindo labrador cor de mel. O que iria dizer a ela? Como iria viver sem ele, seu único amigo?
_ Oh Deus, agora estou sozinho de verdade. Como vou voltar para casa e dizer isso a Helena? Como vou viver sem você Zeus?
As grossas lágrimas caiam de seus olhos enquanto continuava sentado com o cão no colo.
Nem percebeu que alguém o observava de cima da árvore. Angélica ainda limpava o rosto do sangue do cachorro quando viu Henrique aproximar-se e resolveu esconder-se. Isso sim era uma grata surpresa, o cão havia sido apenas o aperitivo. O jantar acabava de chegar. Os olhos azuis brilharam outra vez, intensamente vermelhos.

Henrique quase morreu de susto quando a vampira pulou da árvore e pousou placidamente á seu lado.
_Quem é você? Você viu quem fiz isso ao meu cachorro?
_ Eu sou Angélica. Sou uma vampira. Eu matei seu cachorro e agora vou matar você também.
Com as presas de marfim despontando dos lábios rubros, Angélica pegou Henrique pelo pescoço e levantou-o do chão num piscar de olhos. Ele não teve como reagir á tamanha e tão brutal força. Zeus caiu de seus braços enquanto tentava lutar por sua vida.
Mas as mãos que o seguravam pareciam garras de aço que lhe tiravam o fôlego deixando-o fraco, um boneco nas mãos daquele monstro.
Angélica virou-o de frente para ela e quando seus olhos olharam dentro dos olhos dele, Henrique finalmente rendeu-se, hipnotizado e apavorado demais para esboçar qualquer reação.
As presas de marfim afundaram-se na pele branca, despedaçando e sugando o líquido vital.
Ao cair no solo úmido e gelado, Henrique ainda conseguiu arrastar-se até onde estava o corpo rígido de Zeus e, segurando a patinha gelada, morreu em seguida junto ao único amigo que jamais tivera.



By Ana Kaya, the vampire
19, Maio,2006

sábado, 28 de junho de 2008

Recordando Arcoverde





Uma beleza inventada - verde e magia
o sereno no calor da pele,sempre haverá saudade
em esquinas heroínas por onde passaste
em lágrimas ardendo em face ferida,ao ver-me partir.

Sangrada seja a fera!Eu voltarei aqui!
Pantera da escuridão,aprisiona-te no alto cruzeiro.
Desespera-te no ultimo suspiro cansado
regresso agora e morro contigo!

Porções nossas de sangue.Salva-nos!
Agonizou sobre a morte o tal amor zodíaco
e vencido a coisa,nosso amor bêbado beija-se.

Surpreendo-me em dias fúnebres corpos ainda vivos
recordando olhares disfarçados em todos os instantes
e faces que choram,pelo adeus diante do Bandeirantes.


Por Emerson Sarmento


sexta-feira, 27 de junho de 2008

"AMÔNIA ZERO" DE MAICKNUCLEAR

"Velha e boa. Viva e saudosa: Maldita!!! Uma ninfa que põem a agulha de uma quarenta e cinco, num disco do Marvin Gaye, apaga a luz da sala e come seu coração, à partir da memória. Uma vadia que rói a base dos portões levadiços, dos castelos mais troncudos, gélidos e imponentes. Criando assim, buracos que atravessam toda a extensão das montanhas de nossos prostituídos sentimentos e nos deixam imóveis, sobre os tapetes da nossa falta de fé. Aquela mãe da rua que escava nossas tripas, chupa nossos órgãos e vomita-nos numa privada sem água sanitária e piercing de pinho. A mais linda puta da zona, atirou em seu peito, de dentro para fora, com uma calibre doze, carregada com giletes e sal. Depois, largou-te à esmo, entre lápides, bares e falsos sorrisos que lhe pedem autógrafos higiênicos. Mas... se é isso que Deus me reservou e mandou que você, sua vaca, me trouxesse; diga ao carteiro que este endereço já não existe mais... ...e por favor, pare de apagar minha luz, pois já não há mais pulsos à serem cortados! E as cordas que antes me esganavam, hoje, tornaram-se frágeis linhas de costura e eu juro! juro que cansei de precipitar-me do vigésimo primeiro andar, por culpa de um deserto de solidão."

MaicknucleaR

quarta-feira, 25 de junho de 2008

*** Palavra Calada ***




Palavra Calada


Abri o verbo
não encontrei teus olhos
as páginas macias enrugaram-se
pois que os vi cerrados
dentro da parede cinza
onde agora bate sem rumo
meu coração
abri o verbo
a sobrevoar infinitos
perco-me
não encontro palavras
não encontro explicações
não encontro soluços ou lágrimas
apenas concluo
nos matizes da página
um respirar contido
um gole supérfluo
um desfecho incrédulo
uma hora deitada
e essa dor...
ah! essa dor que crava minutos

** Gaivota **

Junho-2008


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terça-feira, 24 de junho de 2008

A Hospedaria Do Diabo



Capítulo 4

Acesse por aqui os capítulos anteriores.

- Zelito, pega teu irmão e passa pra dentro, já! Sai da ventania que vai chover. Vem logo, menino!
O chamado de Carlota pelas crianças seguiu-se a avistar um céu de chumbo que se formou num repente sobre o morro onde moravam, de um jeito dos que preparam vendaval e chuvarada. Correu a recolher a roupa nos varais repletos aos fundos da casa. Aproveitara para secar montanhas de camisas, blusas, calças, lençóis e fronhas naquele mormaço fora de época que a cidade costumava enfrentar nos agostos de inverno mais rigorosos. Fora um dia de 30 graus aprontando uma noite de cinco. Enquanto retirava a roupa a passar para entrega no final do dia, ainda antes da novela da tevê, Carlota fazia mentalmente a contabilidade dos ganhos com as 13 trouxas que lavara na semana. Mais com mais, menos tanto, põe e tira... Deu-se a si mesma um sorriso satisfeito de quem poderia comprar aquele tubinho vermelho para estrear na Primavera e os novos chinelos de borracha colorida para os filhos.
As crianças dela eram dois meninos, um de 12, outro de cinco anos de idade, que ela aos 25 cuidava como poucas. Amava-as de tal modo que nem deixava ficarem sós mais de um minuto.
- Criança é azougue dona Ofelina! Descuidou, tá pregando peça na gente, fazendo traquinagem e ralando a cara no chão, comentara com a vizinha ainda pela manhã, quando estendia pacientemente, peça por peça no varal, dois prendedores de madeira em cada para esticar bem os panos e buscar melhor o vento e o sol.
- Manhê! Deixa a gente tomar banho de chuva, deixa! Pediu um esbaforido Zelito, vindo correndo da rua sem pavimento, já levantando um pó vermelho fino com o vento forte do temporal que se armava, trazendo quase de arrasto o irmão Piá, como a vizinhança apelidara o mais novo de Carlota. Piá fazia caretas e se contorcia tentando livrar-se da pegada forte da mão de Zelito. Surdo, não emitia som pelo descontentamento. Era apenas esperneio de insatisfação de estar a reboque naquelas condições de euforia do irmão.
- Banho de chuva só no pátio dos fundos, no piso de laje, sem barro. Se embarrar, vão ficar do lado de fora até eu terminar de passar a montanha, consentiu Carlota, apontando para as roupas já recolhidas empilhadas sobre a cama de casal que dividia a única peça da casa de uma cozinha minúscula em que fogão e uma mesinha redonda formavam a mobília com um armarinho suspenso sobre a cuba de uma pia sob a qual alojava-se rente à parede um botijão de gás. Além da cama, um vão em que cabiam apertadas ela e a tábua de passar e, após ela, já na outra parede, um roupeiro de duas portas e um tamborete sobre o qual instalara televisão e rádio-relógio.
Sobre o armário, todas as demais riquezas da família, um triciclo de plástico, uma mala preta grande e um enorme bicho de pelúcia que ganhara numa rifa de quermesse. Um urso branco já amarelecido pela poeira que não havia jeito de evitar entrasse em casa, quanto mais em dia como aquele de ventania. Apressou-se a estender um lençol enorme sobre as roupas recém lavadas para não empoeirarem e baldarem o serviço do dia.
A faina de Carlota foi interrompida pela música do alto-falante do caminhão de entrega do gás. Ela correu até a porta e fez o gesto de sim com o polegar da mão direita para o entregador, que alçou um botijão ao ombro e veio no rumo da casa. Ela era toda sorrisos com o moço da entrega, que já se conheciam de há muito, até intimamente, ele inclusive desconfiado de que o Piá fosse filho dele, tanto que se pareciam os olhos azuis dos dois e o cabelo loiro grosso feito palha de milho, nada similar ao de Carlota que os tinha pretos e finos, escorridos até o meio das costas, bem cuidados e limpos, quase sempre em longa trança, pelo que muita gente a chamava de cigana, Cigana do Piá.
- São meus tesouros, além das crianças, estas madeixas de madalena que mamãe sempre me fez bem cuidar, dizia prosa em resposta a quem comentasse da beleza da longa cabeleira.
- O senhor, seu moço, pode trocar o botijão para essa sua amiga que está cuidando de roupa lavada e não deseja sujar as mãos, por gentileza. Tenha certeza que sua paga será generosa e justa, provocou Carlota.
Apressado, com o motorista do caminhão já empilhado na buzina, Zuni, como era conhecido o rapaz da entrega, trocou o botijão, beijou rápido os lábios de Carlota e saiu apressado, tropeçando nos degraus e deixando escapar o botijão de gás vazio, que rolou por um declive para dentro da vala do esgoto. Apressado e aborrecido, bateu a porta do veículo e ordenou a partida. Quando retirou o botijão do lodo, o atirara e as luvas agora imundas sobre a carroçaria do transporte.
- Vamos embora, Doutor Pressa, essa foi a última entrega do dia, estamos feitos e eu cagado até os joelhos.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

LÚCIFER





















Quedo ao negro azul profundo,
espelho sem aço ou fundo,
lagoa profunda e nau.
Cingro o mar da vira-volta
e pasmo no vôo revolta
a boca do monstro blau.
Clamo ao Céu: _Clemente Céu!
Dai-me a fada preferida,
se desvela e me convida
para a céia de Vesper.
Quero a noite como noiva,
quero a morte como vinha,
seja Vênus a madrinha
do herói que vai nascer.
Que as estrelas _Purpurina!
se despenquem nesta hora
e que a Lua seja minha,
cheia, branca, nua e mora!



Marcelo Farias - Para Entender a Mágica.

domingo, 22 de junho de 2008

†††Notícias do Vale†††

"Nossos queridos Valeblogueiros Beto e Fernanda tiveram problemas com o PC no dia 20 e por isso não postaram. Cederam o lugar a nosso convidado de honra Flávio Mello. Agora com tudo resolvido, postam esse magnífico conto, que digamos de passagem, faz juz ao nome do nosso Vale das Sombras."









Sexta-feira 20!



Como em toda sexta-feira, após o almoço, a jovem Maricota toma a estrada de terra batida que dava no sitio de sua madrinha. Passava pela grande porteira ao lado da
Igrejinha da vila e ai apreciando a paisagem local. Lá ela ficava até antes do sol se pôr. Tinha medo de percorrer os sete quilômetros no escuro.
Porem, naquela sexta-feira, a conversa se prolongou muito e quando Maricota se deu conta já estava escuro. Receosa, mas ciente de seu erro, seguiu seu caminho de volta.
Logo que começou a caminhar, sem quase enxergar o caminho, olhou para o céu e pediu: - Por favor, qualquer um... Apareça para me acompanhar.
Fechou os olhos e desejou de todo coração que alguém aparecesse.
De repente, uma leve neblina começou a baixar e ela ouviu um ronco “Boa Noite”.
Virou-se para trás e viu um homem alto, quase sem cabelos, magro e muito branco.
- Me chamo Albino dos Santos, estou indo em direção à Capela do bairro, posso lhe acompanhar?
Suas orações haviam sido atendidas!
Será?
Tímida, ela respondeu:
- Claro! Mas o Senhor não mora por aqui, mora?
- Atualmente, não. Mas morei aqui há muitos anos.
- Está a passeio?
- Desde que parti, volto todos os anos na mesma data, para rever os que ficaram.
- Então o Senhor tem família por aqui?
- Tinha!
O homem calou-se e a jovem não quis incomodá-lo.
Seguiu calado até quase chegarem à Capela do Bairro.
Neste momento, Maricota percebeu que havia uma mulher parada frente a um pequeno Cruzeiro que havia há anos, em frente à Capela.
O cruzeiro está lá! Sempre esteve, mas ela nunca teve a curiosidade de olhá-la de mais perto.
Espantada, percebeu que a Neblina havia sumido. Procurou o Senhor Albino, mas ele também havia sumido.
Um pouco assustada, aproximou-se do Cruzeiro e pode ler, nele, uma data: “20 de julho de 1958”. Riu, pois a data era exata de cinqüenta anos atrás, afinal, aquela sexta-feira era 20 de julho de 2008. Olhou abaixo da data e viu um nome. Aproximou-se e ao ler, sentiu seu coração disparar e um calafrio percorreu seu corpo todo.
Correu para sua casa e aos soluços, trancou-se no quarto!

Sob a data, no Cruzeiro, lia-se: ”Albino dos Santos. Saudades Eternas!”.


Beto e Fernanda

sábado, 21 de junho de 2008

O CAPETA E OS SECTÁRIOS DE MAMON

E então o Capeta tornou-se um precioso adjutório aos sectários de Mamon.

Nos templos de adoração das cifras, o Capeta foi a grande estratégia para a arrecadação de cédulas. Porque, se o homem mentia, prevaricava, sentia dores de cabeça, desejos de suicídio, tonturas; se os negócios iam à bancarrota, e entrava em concordatas insolvíveis, ou adulterava, ou sequer temia pisar no átrio do "Templo Maior" – o grande culpado era o Capeta!

E o Capeta trazia consigo uma hoste de “encostos”, astutos, recalcitrantes, manifestando-se jocosamente nas "sessões de descarrego", com toda sua ira gratuita, criminosamente confundidos com as entidades afro do Candomblé, da Umbanda ou Quimbanda.

Não citaram Astarte, Baal, Moloch, Marduk, seu próprio deus Mamon, Arimah ou quaisquer entidades da Idade Antiga. O vulgo preferia os Exus, os Pretos Velhos, as Pombas Giras – o Capeta.

Nunca o farisaísmo foi tão audacioso, nas reuniões dos empresários, nos propósitos lançados nas risíveis "Fogueiras Santas" (sic), no púlpito imundo pela oratória sibilina de bispos e pastores ávidos pela rapinagem criminosa da simonia contemporânea.

Ah! Malditos! Malditos que conspurcam o sacro espiritualismo da Codificação, de Blavatsky, de Sócrates, da Gnose, do Cristianismo incorrupto anatematizado nas criptas dos primeiros séculos. Que se aproveitam, como ratazanas de cais, da esterilidade da Igreja Romana, da obscuridade bíblica cheia de interpolações, inculcando no homem simplório a animosidade à verdade reencarnacionista, seduzindo-o com sofismas covardes, justificando com suas línguas imundas a necessidade do dízimo sobre lucro, a usura, o soldo, as comissões.

Filhos pútridos do capitalismo predatório, sois mais condenáveis que os cegos e intolerantes sectários do Corão e da Suna, porque estes ainda movem-se pela paixão de sua teodicéia pura, dentro do seu contexto cultural. Sois mais um entrave ao premente saneamento espiritual do globo.

Certamente isso recairá sobre vós!

sexta-feira, 20 de junho de 2008

CONVIDADO Flávio Mello


(pintura 'Indolente - de Pierre Bonnard)

N’ALCOVA
ou últimos dias



Pois então, imagine você um lugar muito mais próximo de ser uma alcova, um catre, mais denso do que uma cela, uma prisão, do que uma sala de estar comum – sim como aquela de Kafka – você esta sentado em uma das dezenas de cadeiras vitorianas recostadas a enormes mesas de madeira nobre maciças, enegrecidas pelo tempo, ou mau uso, o piso todo feito em cimento com alguns pontos esburacados, as paredes são constituídas de grossas camadas de um reboco fraco e rosado, o teto é sustentado por um sem número de colunas enegrecidas pelos archotes e candeeiros espalhados pelo cômodo, mesmo com tal quantidade finita de pontos luminosos, a luz que se dissipa é demasiado fraca e insuficiente, o aposento com isso ganha ares fantasmagóricos, lagoas funéreas e cantos de paredes embebidos de sombras tétricas.
Não obstante, você não se encontra sozinho nesse antro de solidão, há a alguns metros, e uma dezena de cadeiras de você, um casal de jovens nus, sentados um de frente ao outro, sobre a mesa dois pratos fundos de alumínio enegrecido, dois copos de cobre com o mesmo aspecto sujo, dois talheres... e não há alimento. O jovem casal despido de trajes e com suas genitálias terrivelmente a mostra, são donos de corpos delicados, tísicos e amarelados, revelando nos rostos cadavéricos uma possível doença. O homem segura firmemente a colher, a mulher um garfo, leva ao prato, e, como se houvesse um ensopado ou outro alimento enche a colher e a leva suavemente a boca da jovem, o mesmo ritual faz a moça. Ficam dessa maneira por horas a fio, é possível ver balbuciarem, mesmo com pouquíssima luz, um leve e desbotado sorriso, um quê de alegria por tão abundante alimento.
Você aterrorizado com a cena só se dá conta de sua nudez, quando a sua frente se acomoda outra moça nua, amarelada e terrivelmente magra.

Flávio Mello
17/06/2008
8h

quinta-feira, 19 de junho de 2008

O BICHO PAPÃO- Giselle Sato


Rita puxou as cobertas e se encolheu na caminha apertada.
A escuridão e a noite chuvosa contribuíam para que seu pavor aumentasse ainda mais.
O som ritmado dos passos no corredor de tábuas era quebrado apenas pelo baque seco do salto contra a madeira. Mentalmente contava os tons altos e baixos, dez, nove, oito....e então silêncio.



A porta do quarto nunca era trancada. O monstro espreitava .
Não tinha pressa, e ela esperava de olhos bem fechados, coração pulsando forte, tremendo de frio e medo.



Desde menina , Rita era assombrada por terríveis monstros.

Foi embalada por uma canção de ninar onde um boi da cara preta engolia o pranto das criancinhas com medo de careta. Mais tarde, corria para casa com as ameaças do velho do saco e do bicho papão.

Sempre havia um lobo mau pronto a atacar se fosse desobediente.



Os pais eram severos e não admitiam que a menina corresse pela casa ou sujasse as roupas na terra.


As outras crianças brincavam de pique e andavam de bicicleta enquanto Rita, sentada no degrau da frente da bela casa, exibia impecável laços na bem comportada “maria –chiquinha”, o vestido muito bem engomado.



Rita olhava os sapatos boneca de verniz brilhante sem um só arranhão e com a ponta das unhas puxava os fios das meias ¾ , desfiar era sua única distração.



Aos poucos compreendeu que seu limitado mundo era um refúgio de dores e doenças.
A casa cheirava a desinfetante e éter. Pomadas e ungüentos.
A mãe lamentava a artrose e o pai trabalhava dia e noite na padaria, sofria de pressão alta e não podia ser contrariado nunca. Os familiares haviam se afastado no decorrer do tempo e ninguém os visitava.



A televisão ficava ligada em programas femininos. A mãe adorava copiar receitas e acompanhar as novelas.
Rita não podia assistir os folhetins nem ler qualquer obra.
Tudo passava pela censura paterna, nada escapava dos olhares atentos da mãe zelosa que sempre a acompanhava a escola, cinema ou qualquer outro local.



Perigo. A mãe andava pelas ruas arrastando a menina pelo braço atenta aos mal encarados e suspeitos:-Está vendo aquele homem ali parado? Vamos atravessar, é assaltante ou tarado. Vê como nos olha? Cuidado Rita, são os piores tipos.



Rita não via nada de mais na pessoa em questão.

Muito pelo contrário, achava que o pobre homem devia estar horrorizado com a mulher com cara de louca correndo pelas calçadas como se perseguida por horda infernal



Treze anos de prisão.
Começou a mostrar impaciência e descaso, a exigir maiores explicações para tantas proibições.

A mãe chorava e fazia queixa ao pai, temia que a filha perdesse o rumo, a menina estava rebelde demais.



Naquela noite Rita sentiu os olhares atentos dos pais durante todo o jantar. Descontentes e ameaçadores.

O pai era um senhor rude:- Sabe Rita, sua irmã começou a ficar como você e teve um final trágico e vergonhoso.



-Por favor Adalberto, não tocamos neste assunto há anos.



-Irmã? Eu tenho uma irmã? Onde ela está?



-Morta.



Rita nunca desconfiou da existência da irmã. Era filha única temporã:- Porque nunca me contaram nada? Nem uma foto? Nada....



-Ela desonrou esta família, fugiu grávida e desapareceu com um bandido qualquer. Soubemos depois que morreu de parto. Tinha só quinze anos.



-Depois fomos abençoados com sua vinda e prometemos nunca mais tocar neste assunto.



-Não acredito que vocês esconderam tudo isto, eu sou uma menina normal, quero ter uma vida como a das outras pessoas. Vocês me tratam como uma prisioneira.



-Basta. Nesta casa só quem fala mais alto sou eu. Já para seu quarto. E não sairá do castigo até aprender a ser mais educada.



A mãe chorava e precisou tomar fortes calmantes.
O pai ligou o rádio e pegou a garrafa de conhaque. Logo o fedor do charuto barato invadia a casa.


No quartinho Rita chorava a irmã desconhecida e a vida miserável. Cansada acabou dormindo.


Meia- noite. O relógio antigo bateu as horas e Rita ouviu o som dos passos.

A maçaneta girou e a figura escura entrou sem receio, sabia que ela não gritaria nem teria qualquer reação.


O monstro puxou as cobertas e levantou a ponta da camisola da menina, cheirava a conhaque e charuto, suor e maldade.


Antes de começar mais uma sessão torturante sussurrou:- Se não quer acabar como sua irmã obedeça, seja uma boa menina, não quero ver sua mãe chorando por suas desfeitas nunca mais ouviu bem?



Rita não ouviu nada, estava longe, perdida na floresta Negra, fugindo dos lobos e monstros. Suplicava por socorro ouvindo as risadas da Bruxa Mãe que fingia não enxergar nada.



Desta vez havia uma outra menina na estrada esperando. Seguiram juntas o caminho da escuridão onde os gritos de dor sopram como o vento.

Um lamento para os inocentes que sofrem esquecidos

quarta-feira, 18 de junho de 2008

As noites lambidas dos anjos





Enroscada na minha prece
Uma pena medonha
Envolta em bestiário iluminado
De arcos que nunca se dobram
Sonhos assassinados me chamam no escuro
Fale meu nome maldito uma única vez


Das asas que nunca vão me amar
Das asas obcecadas pelas minhas idéias
Dos furacões que luto para benzer
Das idiotices que me arrancam choro
Prantos amarelos e furiosos
Osmose apaixonada


A corrida dos mil olhos
Em língua impiedosa
A minha menina Letras
Esfaqueadas na grade estigma
De uma cama obesa

O ímpeto de rasgar-se em encantamentos malucos
As músicas espirituais comendo as horas
A morte em festas carniceiras
Roer o céu com o próprio cadáver abençoado
Vender a alma pelo sorriso do anjo

Eu te entrego aos delírios de Deus
O doce massacre borbulhando sorrisos
Em peles abandonadas
Essa flutuação das maravilhas
Traindo-te as suspeitas
Minha admiração chata aos pés da tua mesa
A obsessão perfumando
Nossas trilhas despencadas

Um ave chupado aos nossos medos
Pedindo-me a mão na beira do frasco
Enxurrada de nós na nota imperial
Meu odor de fósforo te tirando do lençol




terça-feira, 17 de junho de 2008

Escuro


Foi mesmo sem surpresas, que ao negligenciar a claridade dos eletrodos das soldas, tivesse o castigo cego. Adaptando-me ao escuro, qualquer pequena fonte de luz seria suficiente para ter alguma referência, manter o equilíbrio, mas também dor. Sob ataduras que aliviavam a queimação, um período de recuperação e descanso para os olhos ofendidos. No negro desses dias, descobri sons que nem sei se sempre existiram ali, ocultos na desatenção que a visão ocasiona, pois nos ocupa todo o tempo com o que imaginamos enxergar. Entre tantos desses sons, o eco de um latido forte, um cão de porte, que se repetia por cinco ou seis vezes e ia se desintegrando de volta ao silêncio. Intrigante era não identificar o original, o som que gerava o eco. Mentalmente, analisando a configuração das casas e muros próximos, pensava que vinham refletidos dos muros do Chora Menino, que nem era tão longe.
Alguém abre a porta repentinamente e inunda a escuridão com tanto barulho, que assusta. Assim foi, sol do meio dia, equatorial. Num passado de desequilíbrio, todo mundo pensou conhecer o meu caminho, pelo fio que caminhei, não podiam ter nenhuma certeza apenas pelo que demonstrei. Meu barbante é quase da cor do chão da noite, mas, na minha mão, a não ser por esse fato, que me encantou sem me permitir saber, que pelo visto ou não visto, nunca permitirá.
Inusitado, estranho e inesquecível. Quase tudo deixa de ser apego sem os parâmetros da visão, que nos amarra ao tempo presente. Fui averiguar o que seria, quase certo de que tinha trancado a porta.
Chegava e colocava uma música muito suave, sempre.
Na primeira vez, sai ao ouvir a porta. Descendo cuidadosamente os degraus, apoiado mo corrimão da escada, senti sua mão, macia, pequena, feminina. Primeiro um espanto sem reação, cego desacostumado, escuridão total. Apenas permaneci sentindo a pequena mão que veio passear pelo meu braço. Fiquei imóvel pelo inesperado, a ausência de ameaças aquetou os meus instintos. Meu peito, pescoço, nenhum movimento brusco e uma respiração a mais. Depois foram as minhas orelhas e tateou todo o meu rosto, o silêncio parecia importante. Seria, de qualquer modo, do seu jeito, me importei por alguma razão, que fosse feliz como desejasse. Levou-me de volta pela mão, senti no meu pé a ponta do lençol que sobrava no chão e deitei-me obediente. Uma atenção estranha a mim mesmo, percebia o som distinto do eco distante, que voltava em intervalos mais ou menos regulares.
Um perfume nunca marcou tão doce, perfeito. Misturava suas carícias aos lentos movimentos que me despiam. Suavemente demonstrava sua vontade, que evitava a disposição curiosa das minhas mãos, conduzidas acima pelas suas, para o travesseiro. Leve, meu corpo sabia de sua delicadeza, sem vê-la. Magreza lisa, longos e volumosos cabelos bem cuidados, que caiam sobre os meus olhos que não podiam ver. Apreciava a indiferença da cor no tato do meu rosto. Veio vagarosamente, deslizando, trazendo sua umidade que me desenhava, passando desde onde quis até o beijo que me deu na boca. Entre os seus secretos, instintivos e trêmulos movimentos, nos gemidos que a atraiçoavam, o todo que guardei da sua voz. Grossos lábios, hálito quente e os sabores trocados marcaram minha saliva com o doce da sua paixão.
Confuso, entre os cabelos que me sufocavam, cedia o meu todo ao seu repouso, debruçada sobre mim e tudo mais se acrescentou à sua sede, a que a trouxe. Envolveu-me com a sua vontade e o seu calor eu senti ser o meu calor, extasiado, sob o feitiço misterioso e mágico, do qual nunca poderei saber, desde quando me desejou. Dançou de um vagar ritmado ao som de sua música até desconexo exasperado de nossa satisfação, quente, quente e urgente. Novamente com o dedo na minha boca me tirou a pergunta sobre o seu nome, quando uma lagrima pingou no meu lábio. Depois, com que lento cuidado se levantou para o lado, um zelo de amor antigo deixou sobre mim o lençol e um silêncio cheio de saudade tomou todo o meu ser.
Assim foi, tantas vezes quanto quis, nos treze dias de minha escuridão. O meu sol do meio dia, na hora do seu desejo. Sem importância, me veio à mente, que antes eu não possuía a música que nos embalava sempre. Depois de algumas vezes, também pude relacionar sua vinda ao barulho distante do cão, que também desaparecia, passados alguns minutos de sua partida.
Recuperada a visão, sem os curativos, caminhei por todos os lados, tentando ouvir em alguma bela e magra mulher, o mesmo timbre dos gemidos que guardei na memória. Nunca encontrei e também não ouvi mais os ecos dos latidos daquele animal, que terminei por supor, seu guardião.
Se for em cima como é embaixo, entre os mistérios da escuridão, há espaço para um grande amor e para a sua grande saudade, mas a música que me foi deixada trata de amenizar um pouco, só um pouco.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

CONVIDADO DO VALE............. Flávio Mello

Enquanto Reza o Terço



Enquanto reza o terço, caminha sob uma singela brisa, mas o suficiente para deixar seus cabelos úmidos, seus passos se espalham pela galeria, o som dos saltos do sapato de verniz, ora metódicos, ora descompassados, sente que esta sendo seguido, olha para trás, nada, vira a direita no fim da galeria, desce uma pequena ladeira, em direção ao ponto do trolebus, enquanto reza o teço.

Não se sabe ao certo que horas são, talvez dez, talvez onze, na realidade pouco importa saber que horas iremos morrer.

Ele desce, como já disse em direção ao ponto onde tomará o coletivo, as poças d’água pelo chão são como espelhos estilhaçados que aos pedaços se espalham por um chão de grafite, as luzes artificiais são como anjos que cercam as pessoas trazendo conforto e segurança, menos para ele que sente o lobo que o segue, sente o cheiro de seu pêlo úmido, de seu hálito carnívoro, dá sinal de ok ao motorista que pára rente ao meio fio, Noite fria não, Sim senhor, como todas de inicio de inverno, Boa noite, Boa, caminha pelo coletivo que não estava tão cheio como de costume, alcança o meio, vê um acento vago, se acomoda, percebe que depois de se sentar outro passageiro entra e passando por ele fica ao fundo.

Faz tudo, tudo o que faz é rezando o terço comprado na Igreja Nossa Senhora de Fátima em uma de suas viagens habituais pela fantástica Europa, um homem de intelecto maduro não é homem sem ter conhecido a Europa.

Reza o terço enquanto olha as árvores passando, reza o terço enquanto olha os carros passando, as casas, as placas de anúncio, as de procura-se, as de sexo, percebe ao lado uma senhora, disfarçadamente olha para o lado fingindo não vê-la, Os velhos sentaram a vida toda, ora agora é a nossa vez, reza, prende o dedo num pai nosso, faz um pedido, tudo bem, Deus perdoa invasões territoriais à custa de sangue, por que não perdoaria um homem de meia idade que nega acento a uma senhora de idade, alias, diga-se de passagem, de muita idade, reza.

Sente a pessoa sentada a sua frente levantar-se, com isso roçar-lhe a perna direita ao fazê-lo, Desculpe, pensou que o moço daria lugar a velha, mas não, uma delicada flor abri suas cores revelando suas formas ao cultivador, e uma jovem lívida de cabelos negros se senta, sorri harmoniosamente para ele e recebe um aceno de cabeça, Boa noite, Boa noite – chove, É bastante, percebe que a jovem carrega ao colo uma criança, É sua, Sim, Minha filha tem uma semana, E como se chama essa coisinha de Deus, Graça, Maria das Graças como a avó que Deus a tenha, Amém, em meio a conversa ele sente que esta sendo vigiado, mas por quem, por que sente os olhos perfurarem a nuca como estilhaços de ferro aquecidos, o sorriso da jovem o acalma.

Continua com suas orações, uma Ave Maria, um pedido, e continua.

A criança no colo da mãe denuncia a fome com um choro terrivelmente desafinado, o sensor materno é ativado e o mamilo libera gotas do suco vital umedecendo a camisa deixando-a transparente, ele percebe o ato biológico e se ajeita para poder ver e apreciar melhor a cena, a moça com uma das mãos liberta o farto e vivido seio branco adornado com uma delicada jóia rosa e eleva a cabecinha da criança ao prazer alimentício, ele por sua vez sente o membro mover-se dentro das calças, sempre carrega um lenço no bolso do paletó, porém dar a mãe tal segredo acabaria com aquela imagem festiva aos seus olhos, os lábios ainda por formar da criança sugando aquele seio delicioso, o cheiro era sentido como um buquê de flores após serem colhidas, o membro se contorce querendo liberdade, seus lábios queriam ser os da criança, suas mãos queriam ser as da menina, pára seu Pai Nosso, o suor desprega de sua testa, o rosto ruboriza, os lábios tremem, e uma mancha seguida de um orgasmo traumático surge, Ninguém percebeu, ninguém, aliviado respira, retira o lenço do bolso e secas as gotículas do rosto, a moça vê o lenço, ele lê em seus olhos entende os pensamentos da jovem, percebe que passara do lugar onde deveria ter descido, puxa a sineta estrangulando-a, caminha inquieto a porta, a moça o segue com os olhos, Será que ela viu a mancha gigantesca em minhas calças, será que percebeu que eu olhava seu seio, a porta abriu o sentimento de culpa por olhar a moça não era maior que o desconforto sentido por estar sendo seguido, Paranóia minha, desce sorrindo, continua a oração.

Enquanto o coletivo se afasta sua respiração se acalma paulatinamente, percebe que não estava sendo seguido, que a moça não o percebera, joga o lenço em um latão de lixo, e como um passe de mágica um temporal cai sobre suas costas, olha para trás e alguns metros a frente o coletivo pára, desce o que parece um homem de estatura colossal, vira-se e aperta o passo, sabe que é ele que o segue desde que sairá de casa, sabe que ele é quem o olhava dentro do coletivo, a chuva castiga a cidade, os vapores desprendem-se das casas, dos carros, das bocas-de-lobo, reza com mais fé, será que é fé, ou apenas modismo, apenas por ter um pino onde se possa segurar, reza com mais força esta prestes a terminar o terço, quando não, sente o cano frio do revolver encostar-lhe à nuca, sente o gosto do chumbo, o cheiro do ódio, o sabor do sangue, não pára de rezar, não pára de pensar na moça, na criança, no seio, no coletivo, a mancha de esperma na calça que agora a água da chuva misturou como um rio de milhares de crianças afogadas, sente a morte beijar-lhe a testa que outrora estava lavada de um suor pecaminoso, sente o dedo no gatilho, a bala percorrer o cano, penetrar-lhe o crânio, perfurar o cérebro, cai antes de dizer amém.




Flávio Mello
04/07/2005


Flávio Mello é professor de Literatura, editor, músico, escritor e poeta.
Nascido em 1978 na cidade de São Paulo, capital, cidade onde criou - se e vive. Casado com a bióloga Rosimeire com quem tem uma filha, Alice nascida em 2006.

"A literatura já não me some como outrora, já fui mais obcecado por essa entidade filosófica e amórfica, esviei o foco: minha loucura e dedicação agora são minha esposa e minha filha. No entanto, aprendi com isso que posso criar uma literatura mais prosaica, e ao mesmo tempo profundamente preocupada, voltada à realidade em que vivo, ou que gostaria de viver.

A literatura, hoje, apenas soma, não mais me dilacera!

Haverá um dia em que o que escrevo deixará de ser sonho, passará a ser verso e ermanecerá eterno como o vento, a brisa, o sonho... o amor!”

domingo, 15 de junho de 2008

LAMBUZADO DE TRÈS JOLIE



LAMBUZADO DE TRÈS JOLIE

Très jolie, penso nesta palavra como brinquedo de letras, sinto a boca palpitar purpuramente. Très jolie, é o vestidinho da missa, onde o vento bate assanhado na calcinha bordada da lingerie. Amo as letras que se auto-escrevem... com licença hoje não tem sangue, diga-me: posso ser feliz por um dia? As cruzes dormem na escuridão enquanto a palavra espreme minha mão. Como cão cansado, estico a língua.. desculpe heinn..... hoje não to sombrio, e sabe de uma coisa? Eu me permito....
Tava lendo Artaud e pensei - o Vale iria delirar com um texto assim:
“......renego o batismo e a missa. Não existe ato humano no plano erótico interno que seja mais pernicioso que a descida do pretenso jesus-cristo nos altares. Ninguém me acredita e posso ver o público dando de ombros mas esse tal cristo é aquele que diante do percevejo deus aceitou viver sem corpo quando uma multidão descendo da cruz à qual deus pensou tê-los pregado há muito tempo, se rebelava e armada com ferros, sangue, fogo e ossos..... (Artaud)”

A questão é que Artaud está morto, nem fede mais... e eu amores, to lambuzado de très jolie...

Thiers R >


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sábado, 14 de junho de 2008

By Flá Perez

Visitação


A meus pés ajoelhado
um pobre - diabo
minh'alma suplica e conjura.

lambe minhas pernas,
sobe, me desfalece,
enquanto por todas as frestas
procura

Digo a ele, em meio a gemidos:
- Pobre - Diabo, foste promovido.
Dou - te essa coisa que pulsa
um palmo acima do umbigo.

- Ele já me pertence, só tu não sabias.
Não lute comigo...

E vasculhou os infernos
entre minhas coxas.

Seu falo grosso queimava e ardia,
e quando eu gozava,ele sorria...

Via, sei que via minh'alma
mas não mais pedia...

sexta-feira, 13 de junho de 2008

CONVIDADO DO VALE Luiz Filho

O Exército das 32 Barrigudas



- Vem que o bicho tá pegando! – gritava aquele homem a todos que passavam pela calçada – Tem mais de quarenta mulheres aqui dentro. Eu já não agüentava mais andar pelo centro de São Paulo naquela tarde ensolarada e fria. Tempo estranho para um final de primavera. Mas não mais estranho do que aquele homem baixinho e vesgo que anunciava suas quarenta mulheres. Caminhar pelo centro da cidade é um exercício de reflexão quase filosofal, onde as coisas mais absurdas convivem em harmonia, na base do não mexe comigo que não mexo com você. Mas o anão vesgo continuava a gritar – Vem que o bicho ta pegando! Sete Reais e ganha um vinho grátis – ao seu lado duas garotas para chamar a atenção de mais homens que por ali passavam. Se algum dia te mandarem ao inferno, pode ter certeza que ele se chama Cine Globo, e fica na avenida Ipiranga, 955. Minhas pernas cansadas, e minha curiosidade quase infantil, me fizeram parar na frente do anão vesgo.
- Quanto é pra entrar?
- Sete Reais! Mas se você quiser mesmo te faço por seis, e você ganha um vinho grátis.
- Beleza!
O anão vesgo correu até o caixa, e disse que o meu era com desconto.
- E como está ai dentro?
- Uma beleza, mais de quarenta mulheres, todas lindas.
Não sei o que ele pensa sobre beleza física, talvez falasse sobre o caráter e alma das pessoas, porque as duas mulheres que acompanhavam o anão eu tenho a certeza de que saíram do útero de suas mães na base da paulada.
Entrei. Quando você entra num puteiro, ou algo semelhante, a mesma sensação de que “merda que eu to fazendo aqui” vem na cabeça. É uma adrenalina estranha, e sempre vem aquele negócio de que preciso ir embora, como se alguém soprasse no meu ouvido “sai fora”.
Subi três lances de escada e me deparei com um pênis gigante, e depois uma vagina gigante, e bocas gigantes chupando o pênis gigante. Estava dentro do cinema, no meio da sessão de um filme pornô e sem enxergar onde pisava. Podia ser chão, podia ser gozo, podia ser tudo, queria mesmo que fosse o chão da minha casa, ou um sonho bizarro dentro de um filme de David Lynch. A única luz que vi foi a do bar, então lembrei que o anão vesgo disse “vinho grátis” e o cara do guichê me deu um ticket. Cheguei ao balcão. O barman com sua cara tediosa e sebosa encostou perto de mim.
- Vai querer o quê?
- Vinho.
Pegou aquele copinho de plástico, que provavelmente foi lavado e reutilizado umas oitenta vezes, e colocou o vinho de garrafão e doce no copo.
- Só isso? Dá uma chorada ai.
Ele chorou até derramar. O barman seboso foi gente boa. Peguei meu copo e fui procurar um lugar para sentar e curtir os órgãos gigantes na tela. A escuridão daquela sala não permitia que eu enxergasse quase nada, então fui pelo canto e achei uma fileira que estava vazia, sem risco de sentar perto de alguma bicha que quisesse pegar no meu pinto. Sentei e apreciei o vinho, o filme, e aquele monte de cabeças sentadas que se mexiam estranhamente a minha frente. Acendi um cigarro. Minha visão começou a se acostumar com a escuridão daquele lugar. Vi que as cabeças estranhas eram de mulheres, que caminhavam por entre as fileiras de cadeiras. Levantavam, procuravam uma possível vitima e sentavam ao seu lado, ou no colo. Continuei tomando aquele vinho doce que me lembrou meus tempos de adolescente, e meus porres de vinho Natal. Entre um trago no cigarro e um gole no vinho, senti algo se aproximando de mim, uma imagem indefinida, podia ser qualquer coisa naquele mundo esquisito. Aquele rosto gordo se aproximou de mim.
- Oi! Quer companhia?
- Senta ai.
- Posso sentar no seu colo?
- Senta ai do lado.
Aquele rosto gordo se aproximou do meu, mas tão perto, que pude sentir que ela mascava chiclete de merda, ou não escova os dentes há longos anos. Ela segurou na minha coxa, bem próximo ao pênis.
- Ta afim de um programinha?
- To tranqüilo, só vim curtir um show. O cara lá fora disse que tinha show de strip e de sexo.
- Então vamos tomar um drink!
- Não quero.
O rosto gordo se levantou e foi atrás de outra vítima. Mas eu era uma vítima ali. Uma a uma foi sentado ao meu lado com o mesmo papo de sempre, e caiam fora quando percebiam que eu não queria nada. O vinho acabou e minha visão clareou, não, acenderam as luzes e anunciaram que o show ia começar. Pude ver com clareza tudo a minha volta, estava numa fileira alta, e pude analisar quem eram todos aqueles rostos que sentavam ao meu lado. Contei todas. Era um exército de trinta e duas mulheres com barrigas salientes de alcoólatra. Circulavam, sentavam, e levantavam. O DJ Paulinho 80 colocou uma música esquisita, um embalinho meio rap, meio brega. Entrou a primeira garota barriguda no palco e começou a dançar. Um dancinha sem graça. Acendi outro cigarro e percebi que próximo ao palco algo destoava daquele exército de barrigudas. Ela estava vestida toda de branco, e segurava algo igualmente branco em suas mãos. Podia achar que era efeito daquele vinho barato e doce, mas ela parecia uma entidade desencarnada caminhando lentamente em meio aquele ritmo frenético de pessoas, e da dançarina esquisita. Continuei com meu cigarro, observando um a um dentro daquele recinto. A entidade começou a subir em minha direção, segurando aquele troço nas mãos. Chegou, e aquele troço era um cachorro, um poodlezinho branco desencarnado.
- Posso sentar?
- Que merda é essa na sua mão?
- Não fala assim do Roberto.
- Roberto?
- É, meu cachorro se chama Roberto.
Foi então que eu percebi que o poodle era de pelúcia, e ela acariciava aquele monte pano como se fosse um cachorro de verdade, e tinha todo um carinho especial pelo Roberto. Puta que o pariu. Quanto mais vivo, mais estranha fica a vida.
- Quer fazer amor gostoso comigo?
- Não!
- Vamos tomar um drink então!
- Não!
Agora foi minha vez de me levantar, e cair fora daquela mistura de cinema, puteiro e boate. Mijei todo aquele vinho podre, e nem quis mais saber do show de sexo explicíto. Fui e larguei o exército das trinta e duas barrigudas com suas perguntas padrão. Na saída o anão vesgo ainda gritava – Vem que o bicho ta pegando.

Luiz Filho

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Esfola


Esfola-te. Agora.
Arranca tua pele mais fina
E superficial.
Arranca tua casca
Livra-te deste mal
Que te enraíza o medo
O medo de posses
O medo de perde-las.

Esfola-te das cascas
Que te enrijecem
Livra-te dos pesos
Que em nada serão
Adições à tua vida.

Apenas a medida do que possuis,
Mas nunca nada tens.
Livra –te dos bens
Pois que são males.

Guarda tua única posse
Que é maior.
Guarda o que tens na alma
Para o que for.

Ejeta o que é só matéria
Fica com teu poema
A tua mais séria
Forma de conversar
Com poucos,
Os poucos que te bastam.

Aprenda a ver o olhar
Aprenda a saber quem te sabe
Pois quem te sabe, te faz.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Na morte de Daia


Sinto muito
Por todas essas coisas
Sem sentido.

Sentado ao seu lado
Atento e calado
Coloco meu ouvido
Em seu lindo lábio lacrado.

É claro que eu quero
Que fique datado
Que nada duvido
Do que ouvir
Por ti,
Ditado
Neste estado.

Estou dado a cada verbo
Cada signo indecifrado
Qualquer ouro feito verso
Ou mesmo um som inacabado

Que venha do seu corpo
Horizontalmente postado
Em seu momento absorto
Nesse caixão decorado
Em branco e dourado.

Todo cercado
Com margaridas tristes
De inverno.

Chistes
Do inferno
Que ontem vistes.

Eu não consigo acreditar
Que esse retângulo
Revestido de mármore
Será seu novo lar.

Eu lhe trouxe jasmim.
Chorar eu não consigo
Morrer sim.

Ninguém irá chorar por mim.
Não consigo imaginar
Um melhor fim.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Caiu a Sombra - Pedro Faria


Caiu a sombra- Pedro Faria


A garota sorriu ao guardar o celular em seu bolso.
Não havia achado algo particularmente engraçado. Não, seu sorriso era aquele de pessoas que não tem qualquer motivo para sorrir. Era um sorriso de tristeza, e de desprezo.
Principalmente, era um sorriso de ódio.

*

O detetive encontrou o sargento próximo a porta do apartamento.
- E aí, o que nós temos?
- É melhor o senhor ver por si mesmo.
O detetive entrou. Peritos forenses tiravam fotos, ensacavam copos usados, espalhavam pós para a coleta de impressões digitais.
No quarto, o detetive viu o corpo. Ainda estava na posição ereta, sentado à frente do computador. O cutelo ainda estava preso na cabeça, praticamente aberta em dois pedaços. Os olhos ainda estavam abertos, e o detetive teve um calafrio ao olhar para eles. O detetive não soube porque sentira aquilo. Tinha sido perturbado, e em quinze anos de serviço, nunca tivera sido perturbado dessa maneira.
Voltou até a porta, e recebeu a identidade da vítima.
- Já temos algum suspeito? -, perguntou, e de repente viu de novo os olhos que acabara de ver, só que dessa vez diretamente à sua frente, na direção da escada.
O sargento tinha dito alguma coisa.
- O que? -, perguntou o detetive subitamente, interrompendo algo que o sargento dizia.
- Eu disse que sim, que na verdade já temos uma boa idéia de quem fez isso.
Ainda um pouco perplexo, o detetive perguntou quem tinha sido.
E o sargento lhe mostrou um saco plástico.
Dentro, havia um celular.

*

Mário pagou o estacionamento, esqueceu de pegar o troco e andou de cabeça baixa até o carro.
Pensava em seu encontro com Penélope, em como ela parecia.
Ela estava muito feliz.
Mário estranhou isso, já que esperava encontra-la deprimida. Não queria isso, mas tinha aceitado isso como fato. Porém, o que encontrou, foi uma Penélope sorridente e alegre. Ela lhe abraçou como se ele não fosse um mensageiro de notícias ruins.
Ele perguntou como ela estava. Ela estava bem.
Ele, cautelosamente, perguntou se ela tinha lido a mensagem que ele lhe enviara.
Ela disse que sim, que não tinha problema, que a culpa dela ter sido trocada por outra não era dele. Ele era apenas o amigo preocupado.
Foram ao cinema, comeram, não conversaram muito.
E, enquanto se dirigia à seu carro, Mário sentiu-se perturbado. Sabia que Penélope não era do tipo de garota que aceitava notícias ruins tão calmamente. Algo estava errado.
Durante a volta para casa, Mário decidiu ligar para Penélope, perguntar como ela realmente estava. Decidiu arrancar a verdade dela, não importasse o custo.
Tateou dentro de sua mochila. Parou no sinal vermelho e continuou procurando. O sinal ficou verde, o carro continuou parado, Mário procurando.
E nada.
Seu celular havia sumido.
*

- Aquela piranha! -, gritou Carlos, pela terceira vez.
Havia recebido a informação de que tinham visto sua garota com outro, e não conseguia tirar isso da cabeça. Se fosse um pouquinho mais inteligente, Carlos talvez enxergasse a ironia da situação. Porém, ele não era, e portanto não enxergou.
Irado, Carlos leu novamente a mensagem em seu celular. Não se agüentando de raiva, decidiu fazer alguma coisa. Nunca se sentira tão mal, e alguém pagaria por isso.
Apertando os botões com mais força do que o necessário, enviou uma mensagem, e saiu.

*

A sombra caiu sobre aquela casa.
Sentada no chão, a sombra viu suas mãos vermelhas. Vermelho era a única coisa que conseguia enxergar. O resto era preto e branco.
Na cadeira, em frente ao computador, estava o resto de ser humano. O sangue ainda brotava do ferimento, como uma fonte macabra.
A sombra se levantou, e saiu do apartamento. E, ao estar em segurança, voltou de onde veio, deixando para trás um corpo cansado e sonolento.

*

- Abra! É a polícia!
Esfregando os olhos, ele acordou, com dor de cabeça.
Dirigiu-se até a porta, a tempo de vê-la ser derrubada, e um grupo de homens de azul invadir sua casa.
Um dos homens (o único não usando azul) jogou-o de cara na parede, e o algemou.
- Carlos Rodrigues, você está preso pela morte de Joana Bagnoux.
Se estava de ressaca antes, após ouvir isso, não estava mais.
- O que? Você tá maluco, cara?
Sua resposta foi ter sido esmagado com mais força contra a parede pelo detetive.
- Eu vi o que tu fez com ela, seu doente -, murmurou o detetive – e você foi burro o suficiente pra deixar sua mensagem no celular dela. Você sabe, aquela que você dizia que ela pagaria por ter te traído.
- Mas eu não fiz nada! Eu saí ontem, para beber...
- E a matou. Continue garoto, tu só tá se dando mais corda para se enforcar.
Chorando e batendo os pés, Carlos foi levado pela polícia, de cuecas e sem camisa, até a viatura.

*

Penélope viu Carlos ser levado, de sua janela do outro lado da rua.
Estava satisfeita. Tudo dera certo. A sombra veio e se foi, porém a memória do que fizera com a vadia loira continuou em sua mente.
Fez uma anotação mental, de devolver o celular de Mário, aquele que ela usara para enganar Carlos.

Olhando a viatura se afastar, Penélope lembrou-se da sensação de enfiar o cutelo na cabeça de Joana, lembrou dela emitindo um último ruído abafado antes da vida jorrar para fora dela. Havia gostado disso, gostado muito.
Talvez fizesse de novo.

Provavelmente faria de novo.
Penélope sorriu com esse pensamento.
Dessa vez, um sorriso verdadeiro.
Estava feliz.

Rio de Janeiro
08/06/2008

domingo, 8 de junho de 2008

SONETO




Sou tudo que sobrou da minha memória
Estando vivo sem nunca ter estado
Sou o único sem ser despedaçado
Do meu convívio de paixão na escória.

Sou aquele que vê suas ruínas
Sou ruínas do vento que chorou
Sou assassino e o tempo me matou
Deixando-me amparado por latrinas.

Fui minha imagem tola todo tempo
Serei ainda um sol de cal deposto
Nesta unidade sem calor que é a vida

Sou meu adeus feliz sem despedida
Minha tragédia heróica de cimento
Suor sem sal que escorre do meu rosto.


Dos Anjos

sábado, 7 de junho de 2008


ATENÇÃO: LANÇAMENTO EBOOK DO VALE - VOL II

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LANÇAMENTO EBOOK DO VALE - VOL II
BAIXE NO OVERMUNDO

E TAMBÉM NO RECANTO DAS LETRAS

quarta-feira, 4 de junho de 2008

A Fidelidade dos Vermes







A foto empoeirada
Sobre a lápide suja
Marcas do tempo
Impressas em fuligens
A flor estorricada
A espera d'um sopro
Ervas daninha
Entranhadas até o corpo
O nome escondido
Por casas de marimbondos
Apenas os vermes
Não lhe ofertaram abandono.

terça-feira, 3 de junho de 2008

A Maldição da Lua


- A maldiçao da lua -

por adriano siqueira


Quando comprei aquele cristal para ela não imaginei que teria tantos problemas.
Após ter colocado no pescoço a mudança foi imediata. Seus olhos brilhavam.
Naturalmente eu imaginava que o adorno tinha combinado com ela.
No dia seguinte um turbilhão de mensagens invadiam seu e-mail, vários homens, todos com propostas de casamento. - Talvez um trote. Ela pensou, porém ao verificar a porta da frente da sua casa placas e cartazes indicavam que o trote já teria passado dos limites.
Quando chegou na sua escola, os meninos a cercavam e os poemas eram declamados.
Ela me ligou para explicar o que estava acontecendo mas não dava para ela falar, as pessoas a sua volta desligaram o telefone para continuar declamando poesias.
Uma mulher me ligou em seguida dizendo que o cristal que eu havia dado era encomenda para outra pessoa. Essa mulher disse que me levaria até a Camila para que tudo fosse resolvido.
Eu fiquei preocupado e fui até o seu encontro.
Ao chegar os homens agrupados em vários grupos procuravam a Camila.
Foi quando falei para a moça que estava comigo que eu sabia onde poderia estar.
Quando vi ela estava escondida na praça onde eu a encontrava no final de semana.
Ela me contou a história do que havia acontecido. Porém, eu não estava dando ouvidos. Ajoelhei aos seus pés e fiquei ali implorando por seu amor. Os olhos dela brilhavam muito. Seu rosto tinha estava iluminado e eu estava completamente embriagado e apaixonado por sua beleza.
Meus olhos estavam embassados mas aos poucos eu vi a mulher arrancar o Cristal do pescoço dela.
Ela gritava:

- Lágrimas da Lua... Cristal de deuses pra lua deve voltar.
Lançou o cristal para direção da lua desaparecendo no infinito.
A bruxa agora olhava para mim e para Camila dizendo que o pior ainda não havia chegado.
A maldição trazia os homens até a mulher que usa o cristal, caso ela abandone o feitiço transforma todos em lobos devoradores.
Dizendo isso ela desaparece e no lugar dela uivos de lobos por todos os lados.
Lobos para devorar a vitima.
Camila corre e eu tento alcançá-la uivando....

Autor Adriano Siqueira.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Crônica da Separação

Às vezes a vida é o que não parecia dever ser. E nos acomodamos de tal forma que não percebemos que ela passa e leva embora nossos sonhos, nossas alegrias. Nisso formam-se chagas incuráveis que hão de sangrar eternamente mesmo que a dor do punhal perfurando as entranhas passe. E o sangue, mais rubro que o próprio sol, corrói a pele pelos poros até que a própria pele se torne sangue, um sangue incolor e salgado que deságua em forma de amor até o coração.

Às vezes a vida leva o que nos era de melhor para um mundo oblíquo, e o rastro desse arrastar de ponteiros e passos fica cravado a ferro na nossa mente, para jamais ser esquecido, apesar de nunca ser lembrado. E o nosso melhor deixa o vazio em seu lugar, e este toma forma e corpo, aumenta de densidade e vai se apoderando do todo; e quando chega nas lembranças mais ternas e pueris se desfaz, em risos entre prantos, em sorrisos entre lágrimas, em amor em meio a dor.

Às vezes a ausência é o único caminho para a presença; que é quando se sente quando não se há, quando se abre ao se fechar, quando a desfeita vira uma feita transversa. E nesse ponto a única solução é a solidão, para evitar que se fique solitário; então há a evocação... e a partir daí apenas o adeus é benvindo e celebrado, apesar da dor aparente, sua razão é pelo amor, mais puro do que nunca, quando supera a si próprio abraçando o altruísmo egoísta, que é quando o seu melhor para a ser o melhor do outro.

domingo, 1 de junho de 2008

ME MORTE...O RETORNO

DESEMPATE NO CONCURSO DO VALE DAS SOMBRAS

ACESSE O LINK AQUI E VOTE NO MELHOR POEMA.

VOCÊ ESCOLHE OS VENCEDORES.

ESTAMOS INAUGURANDO A 1ª FILIAL DO VALE DAS SOMBRAS, PRESTIGIE E ADICIONE AQUI.

(Aos meus inimigos: VOLTEI MAIS TOTOSA AINDA!)